segunda-feira, 29 de abril de 2013

Mundo maravilhoso: a felicidade fora da "realidade"


Gostaria de partilhar com o leitor, se é que tenho algum, experiências vividas por mim nas últimas semanas. Escrevo como se eu fosse uma pessoa importante, um grande escritor e que sabe que tem uma porção de leitores sedentos por ler o que escrevo - na ilusão de saber sobre mim ou de aprender algo para a sua vida - mesmo sabendo que poucas pessoas ou ninguém se interessará pelo que escrevo, a não ser eu mesmo.
Mesmo assim escrevo, não porque acredite que outras pessoas se interessarão pelo que tenho a dizer ou que possa instruí-las, diverti-las ou ensinar-lhes algo importante, mas porque escrever me faz bem, me afasta do mundo e das pessoas ao mesmo tempo em que me aproxima delas. Está confuso? Será que esta forma de escrever não é uma estratégia retórica para prender a sua atenção a ponto de se sentir tentado a ler até o final? Mas eu não disse que talvez não tenha leitores e que só escrevo para me sentir bem?
Ultimamente tenho passado os dias preso em meus pensamentos e quase nada me entedia, a não ser o mundo real em que vivo. Quando dou demasiada atenção ao mundo em minha volta sinto que me torno uma pessoa infeliz e só reencontro esta felicidade quando me afasto dele; quando me retraio em meu quarto e busco a solidão, o silêncio; quando me sento à mesa, pego uma caneta e escrevo sobre alguma coisa, sobre qualquer coisa, como faço agora. Ali, no silêncio dos meus pensamentos eu entro em um mundo tão fascinante e tão maravilhoso, que sinto que encontrei a felicidade que antes pensava estar em algum ou outro lugar, em outras coisas e num mundo a qual hoje quero me afastar, embora saiba que jamais poderei ignorá-lo. Com os olhos fito no papel, e no deslizar da caneta sobre ele, entro em um mundo novo, em um outro mundo criado por mim mesmo, tão real quanto o mundo lá de fora. Neste momento eu sou um personagem como aqueles outros que crio e tenho o poder de dar o destino que quiser à história, embora na maioria das vezes, o desenrolar lento e final do enredo tome um caminho que salta do meu controle, como se tivesse vida própria.
A mesma sensação sinto ao ler um livro, qualquer livro. Quando o abro sou tragado para dentro de suas páginas como em um sonho que está para além do nosso controle. O que me fascina não é apenas a leitura em si, mas a capacidade que este ato tem de nos arrebatar do mundo em que vivemos, de fazer-nos esquecer, por um longo tempo, que existe um mundo da qual de outra forma não conseguiríamos desligar-se dele. Quando me afasto desse mundo, demasiado real, sem fantasia, ainda que possamos fantasiá-lo, em que as alegrias sucedem as tristezas e vice-versa, em que os nossos medos nos impelem de ousar, nossas obrigações nos impedem de sonhar e uma cem mil coisas que nos amarram a ele, é que consigo viver plenamente como uma criança com os seus brinquedos, suas fantasias, seus mundos fantásticos, rodeados de monstros e super-heróis que voam e que tem poderes sobrenaturais.
Desligar-se do mundo e entrar em outro plano é algo, para mim, fascinante. Neste momento, encontro a felicidade em outro lugar, fora da realidade.
No entanto, meu caro leitor, se é que você está aí, o que me fez pensar sobre isso e mais ainda escrever sobre o que estou sentido, foi o fato de relatar a minha experiência nas últimas semanas. Não foi mesmo isso que disse no início? O problema é que o meu pensamento é mais rápido do que a caneta ao deslizar no papel, por mais que tente não consigo controlá-la. É como se tivesse vida própria, está além do meu controle. Como não tenho leitores, portanto, não devo preocupar-me se o que escrevo deva ter início, meio ou fim. Afinal escrevo para me sentir bem. Não foi isso que disse no início? Afinal, não sou daqueles que gostam de enredos fáceis, que têm início, meio e fim. Gosto de enredos que me fazem divagar, esquecer do mundo e entrar num outro universo. Isso me faz bem. Já devo ter dito isso antes...

 Escrito em Recife, em algum dia de 2010.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Ipu, “cidade maldita, violenta e bizarra?”

Bica do Ipu. Fonte: cartão postal.


A mosca no meu pão
Recentemente, um “professor” de Novas Russas, ao produzir uma crítica feroz contra um deputado estadual, nascido naquela cidade e que a representa, indignado com a sua suposta apatia, se referiu a cidade de Ipu, terra da esposa daquele parlamentar, como “violenta e miserável”, além de “bizarra”, numa atitude, no mínimo, condenável. Não pretendo, no entanto, defender a cidade de Ipu ou atacar o “professor”, não, embora a minha vontade seja de mandá-lo, no mínino, para o quinto dos infernos. Como analista social, me seduz muito mais o ato de buscar entender a sua atitude.
Não é de estranhar que a imagem de nossa cidade, mundo a fora, anda arranhada. A urbes que já foi reconhecida ou que teve sua imagem construída como cidade intelectual, nos primórdios do século XX, ou berço de grandes mentes, deste então, ao contrário, é vista, hoje, por muitos, como uma cidade violenta (de rixas entre grupos políticos e seus defensores), maldita (por seus gestores corruptos) e bizarra (onde se desenrolam lances chocantes). 
É lógico que não concordo com os três adjetivos acima, usados pelo professor de Nova Russas, para significar a cidade.
Nas últimas décadas, as representações positivas que caracterizavam a nossa cidade deram lugar às imagens negativas. A violência de nossas campanhas partidárias (violências física e simbólica, recheadas de lances de perseguições e desrespeito aos princípios democráticos), o uso das instituições públicas para empregar correligionários, banir adversários ou negociar apoios, os embates entre pretensos intelectuais, que escolhem um dos lados da “luta”, e profissionais da mídia, pagos para defender interesses de partidários e seus empregos, e a atitude de gestores que dilapidaram ferozmente, como caninanas, os cofres públicos, deixando a cidade, no mínimo, abandonada, tem criado uma Ipu irreconhecível, enquanto parte significativa da população luta como animal faminto, defendendo um dos lados, em busca das migalhas de um emprego público de quatro anos, a aprovação em um concurso de fachada, uma vaga em uma sala confortável, longe do público, um carro, casa, parto ou outro bem ou vantagem, e que desfila na cidade com seu nariz empinado, exalando uma moral e atitude ética inatacáveis.
A atitude do “professor” novarrussense, condenável em seu ato desrespeitoso e sem escrúpulos, é justificável diante da realidade que nos últimos anos essa bela cidade vem conhecendo.
Pobre-rica Ipu.

Artigo publicado no Jornal Ipu Grande, nº 40.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Colírio nos olhos


Em janeiro de 2007 nascia o jornal Ipu Grande, cujo número de estreia era lançado durante a festa do Reencontro, organizada pela Associação dos Filhos e Amigos do Ipu (Afai), realizada no quadro da Igrejinha, salvo engano, na noite do dia 20.
O Jornal causou euforia em alguns e decepção em outros. Logo na página 2, trazia uma charge, desenhada pelo pincel ávido do Arcanjo, mostrando a então prefeita e seu marido montados em uma tartaruga representando a prefeitura. A oposição, que tinha à frente o grupo dos “cururus”, derrotados no último pleito, vibrou, enquanto os defensores da “situação”, em tom de desaprovação, torciam os seus narizes.
Logo o periódico, escrito e mantido por um grupo de jovens estudantes de história, do Grupo Outra História, com a participação do professor Mello, foi apontado como um órgão opositor, pois a imprensa de Ipu, feita exclusivamente pelos microfones das rádios, ou era a favor do poder ou contra ele, paga para isso.
Mas o Grupo Outra História tinha como filosofia produzir um órgão que não seria, nem contra o governo, nem a favor da oposição, muito menos queria vantagens, em troca de apoio.
Procurados pela oposição, recusou o “apoio”, igualmente negado aos partidários da situação.
A charge acima, produzida pelo Arcanjo e publicada na capa da segunda edição daquele periódico, tinha a pretensão de justamente mostrar isso. Queríamos ter pensamento próprio, quer dizer, livre das amarras partidárias, e mostrar que anos de estudos e as nossas próprias consciências não estavam à venda e nem era uma mercadoria que, posta no mercado, se trocaria por vantagens.
O Jornal Ipu Grande, de volta, continua com a mesma filosofia.




quarta-feira, 24 de abril de 2013

"O País dos Mourões” - Parte VII (final)


O ASSALTO À CADEIA DE IPU: 1846


Alexandre Mourão, e seu bando, atacaram a cadeia de Ipu, em 1846, a fim de libertar alguns de seus capangas, presos pelos Melo e pelo Padre Correia, e investir contra estes.
A cadeia ficava atrás da igreja, no atual Quadro da Igrejinha. Era um prédio de taipa e que servia ao mesmo tempo de quartel e cadeia. No local havia um destacamento preparado para tal investida. Na ocasião, caíram morto José de Barros Mourão, um dos líderes do bando de Alexandre e um soldado do destacamento local, ficando outros três feridos. Na ocasião, foram presos, João Ribeiro e Raimundo Gadelha. Diante da resistência, o bando bate em retirada, seguindo para o sítio Canabrava, onde residia o delegado, que na ocasião encontrava-se enfermo. Lá chegando, arrombam as portas, mataram um escravo do doente, e o próprio Alexandre desfere várias rajadas de bala no delegado, que falece, três dias depois.
Termina, portanto, tragicamente, o episódio do Assalto à Cadeia de Ipu. Depois disso, os Melo e o Padre Correia, com a ajuda do presidente provincial, empreendem uma caçada aos Mourões, assassinando parte do seu bando. Depois disso, o poder dos Mourões arrefece. O assalto à cadeia de Ipu parece ter sido o seu último grande feito.

terça-feira, 23 de abril de 2013

"O País dos Mourões” - Parte VI


Foto da placa que comemora os 200 anos da freguesia de S. Gonçalo da Serra dos Cocos. Nela se lê: "1757-1957: Placa afixada em 30-08-57 pelo Pe. Francisco Correia Lima, vigário de Ipueiras, comemorativa do bicentenário da Freguesia de S. Gonçalo da Serra dos Côcos, criada em 30-8-1757". Fonte: www.ipueiras.ce.gov.br

O padre Correia e os Mourões

              O padre Francisco Correia de Carvalho e Silva, foi nomeado vigário colado da freguesia da Serra dos Cocos, em 10 de julho de 1842, tomando posse em janeiro do ano seguinte. Como em 1844, de acordo com Pe Sadoc, a Matriz de São Gonçalo ameaçou ruir, o padre conseguiu licença para transferir as imagens e alfaias para a capela de Vila Nova do Ipu Grande, onde passou a morar.
Ao chegar à freguesia, o Padre, que nutria pretensões políticas, se aliou aos Mourões, líderes do Partido Conservador na Freguesia da Serra dos Cocos. Em 1844, com a subida ao poder dos liderais, o vigário mudou de lado, arrastando com ele os Melo, familiares e aliados dos Mourões, como vimos, tendo início aí as rixas entre o padre e os Melo com os Mourões, sobretudo, com Alexandre Mourão.


segunda-feira, 22 de abril de 2013

"O País dos Mourões” - Parte V

Padre Francisco Correia de Carvalho e Silva. Fonte: http://professorfranciscomello.blogspot.com.br/2010/06/biografia-pe-correa.html

O Rompimento entre Melo e Mourões


Segundo Nertan Macedo, Melo e Mourões filiaram-se ao Partido Conservador, desde a sua fundação, e viveram em paz, unidos pelos elos da fraternidade. Enquanto os conservadores estiveram no poder, Melo e Mourões mandaram em  toda a região da Serra dos Cocos.
No entanto, em meados do século XIX ocorreria uma transformação geral no panorama do Império e que se fez sentir mais intensamente no interior do país, onde o partido decaído sofreu grandes brechas com as mudanças para o campo liberal.
No Ipu, o vigário Correia, que pertencera antes, em sucessivas adesões, aos Partidos Conservador e Equilibrista, foi dos que logo aderiram aos liberais dominantes, e arrastou, na sua adesão, a família Melo, representada pelo coronel de Legião, Francisco Paulino Galvão, Manoel Ribeiro Melo, seus irmãos e parentes.
Os Mourões – com os quais já não se entendia bem o padre Correia, fiéis à tradição política, permaneceram intransigentes no Partido Conservador, tendo agora, como adversários, assessorados pelo suspeito vigário, os seus primos-co-irmãos do grupo melo.
A rixa entre o padre Correia e os Mourões só aumentava. Jurado de morte, o vigário, sob o pretexto de que o templo da matriz ameaçava ruir, se mudou para o Ipu e transformou a pequena capela, de taipa, no quadro da Igrejinha, em sede, de fato, de toda a Freguesia da Serra dos Cocos.
A vinda do Padre Correia para a então Vila Nova do Ipu Grande estava ligada, de um lado, às questões políticas e as rixas com os Mourões. Ora, na sede da vila estaria o vigário, de certa forma, protegido. De outro lado, a mudança do pároco estava ligada, também, a possibilidade de assumir postos de mando e galgar novos degraus no cenário político, já que era o Ipu, agora, a sede da Vila e centro do poder local. Questões de ordem religiosa parecem não ter, naquele momento, pesado na decisão do vigário.
Com a vinda do padre, embora juridicamente a matriz da freguesia fosse a de São Gonçalo, de fato, o Ipu ganhava foros de sede religiosa da freguesia. A capela de São Sebastião funcionava, portanto, ainda que provisoriamente, como matriz, embora não fosse assim reconhecida. A um só tempo, o Padre atraia para o Ipu a matriz da freguesia e a ira dos Mourões, que vinham aterrorizando os sertões do Ceará e do Piauí, sobretudo a região da Ibiapaba.
A partir de então, o que se assiste é uma luta entre, de um lado, o padre e seus aliados, os Melo, e de outro, os Mourões. 

domingo, 21 de abril de 2013

"O País dos Mourões” - Parte IV


Bacamarte turco, arma usada na época. Fonte: http://lampiaoaceso.blogspot.com.br

Alexandre na Política

Quando Alexandre Mourão ingressou na política, a província passou a ser governada por um padre que não gostava e tinha particular “ojeriva aos cangaceiros”, pelo menos aqueles que não rezavam pela cartilha do partido liberal, do qual era um dos “dungas”, no império do Brasil, além de chefe absoluto na sua terra natal, Ceará. Os Mourões eram conservadores e, por isso mesmo, o padre não os queria livres. Pretendia vê-los na cadeia. O padre, portanto, decretou a destruição dos mourões e dos seus feudos, alegando os “crimes” cometidos por todos eles. 

Senador Alencar

José Martiniano veio do Rio de Janeiro para declarar guerra de extermínio aos "guerreiros bárbaros", acostados aos grandes fazendeiros, comendo com eles à mesa, o bacamarte na mão ou encostados à porta das igrejas, na hora da missa, aguardando somente a ordem de matar. 
Segundo Nertan Macedo, "chega à província, disposto a não perdoas os matadores, os criminosos, os erradios do assassínio, a soldo dos senhores de gado. Proclama de imediato sua intenção de não atender nem ‘passar a mão’ na cabeça de bandidos’”
“As vistas de Alencar, o seu ódio, a sua mão de ferro estavam, porém, voltadas para o Ipu, para São Gonçalo da Serra dos Cocos, para a Boa Esperança, donde o espreitavam Alexandre Mourão e seus irmãos e apaniguados, protegidos do Barão de Icó, correligionários políticos dos Fernandes Vieira (...)”. (O Bacamarte dos Mourões", p. 42-44) 
Era ali, na Serra dos Cocos, que o senador queria alcançá-los, a todos eles, os Mourões, seus desafetos políticos. 
Segundo Alexandre Mourão, em suas memórias, José Martiniano tentou trazer os Mourões para o seu lado, mas a tentativa não se consumou.
Alencar despachou ao sertão do Ipu, o tenente José Felix Bandeira, com um volante de quarenta praças, "para varrer os Mourões da face da Serra e da planície. Tomar-lhes os bens, arrasar-lhes as fazendas, fazer-lhes todo o mal possível imaginário”. (idem p. 45). 
Não eram poucas então as dificuldades resultantes da ação repressiva rigorosa do presidente Alencar, vencidas afinal com a queda dos liberais. 
Por volta de 1842, quando ascenderam ao poder os conservadores, Alexandre Mourão, protegido agora pelos correligionários dominantes, é absolvido pelo júri dos processos que fora indiciado. 
A Freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos, com a enorme extensão de quarenta léguas, e a Vila Nova do Ipu, estavam sob o domínio político conservador, exercido naquele trecho dos sertões de modo absoluto.

sábado, 20 de abril de 2013

"O País dos Mourões” - Parte III

Matriz de São Gonçalo.  Fonte: http://primeiracoluna.blogspot.com.br/2006/03/lenda-de-so-gonalo-da-serra-dos-cocos.html

Vicente Negreiro, Segundo o senador Catunda, foi um homem valente e destemido. "Perseguido pelos Mourões, fez-se “cangaceiro”, tomou o seu “boca de sino (Bacamarte) e sua granadeira, dando-lhes os nomes: aquele de Canário e a esta de negra velha, que depois lhe serviram muito bem, e quando em açção, atacado pelos Mourões seus inimigos, ao disparar o primeiro tiro, recitava sempre em altas vozes a seguinte quadra

Quando o Canário abre o bico,
Turba-se o tempo, meu bem,
Chore quem tem de chorar
Que não sou pae de ninguem"

Vidal de Negreiro era acompanhado de Fama, que depois traiu-o, passando para o lado dos Mourões; Severino de Tal, Chanana, Goiabeira, Fama-leal, José Caixinho, Jaramantalha, Belchior e outros de sua confiança. Depois acompanhou seus dois irmãos, João e José Lopes.
No Governo do Padre José Martiniano de Alencar, houve uma tentativa de dizimar as lutas e a anarquia reinante nos sertões do Ceará. “Os mourões foram tenazmente perseguidos e presos alguns de seus membros, outros foram obrigados a buscar refúgio em outras paragens”.
Alencar passou a dar uma atenção espacial para a vila de Ipu e para a freguesia da Serra dos Cocos. Alencar despacha ao sertão de Ipu, o tenente Félix Bandeira, com uma volante de quarenta praças, para varrer os Mourões da face da serra e da planície,  tomar-lhes os bens, arrasar-lhes as fazendas, fazer-lhes todos o mal possível imaginado.
Alencar manobra dessa forma com violência e rapidez. Liquidaria os Mourões e vingaria os seus amigos, o Padre Manoel Pacheco Pimentel e o seu sobrinho tenente-coronel, João da Costa Alecrim, que, com ele, haviam sido eleitos, outrora, deputados à Confederação do Equador, sediado em Pernambuco, das ofensas feitas pelo "clã selvagem", estabelecido e fortificado na Serra dos Cocos.
A 6 de junho de 1836, o padre de mão dura, dava início ao seu combate contra os mourões.
Os “crimes” perpetrados pelos Mourões e os reclames contra eles na Serra dos Cocos, chegou até o conhecimento do Imperador. Porém, as medidas tomadas, contra eles não surtiram efeitos. Somente quando assumiu o governo da província do Ceará é que José Martiniano de Alencar, com mão de ferro, envia forças policiais para a Serra dos Cocos, com o objetivo de prender e matar aos Mourões. O padre mandou para o ministro da justiça do Império, no início de seu governo, um catálogo relatando os “crimes” praticados pelo grupo de valentões. Entre os anos de 1833 e 1836, o bando teria matado, nos sertões do Ceará, Piauí, Maranhão e Pernambuco, 27 pessoas, empreendido inúmeras surras e espancamentos de outras, além de tentativas de morte, assaltos e desordens praticadas.

sexta-feira, 19 de abril de 2013

"O País dos Mourões” - Parte II

Desenho de Raimundo Arcanjo, representando o colonizador dos "sertões". Fonte: http://raimundoarcanjoblog.blogspot.com.br

Segundo Nertan Macedo, Melos e Mourões disseminaram-se pelos sertões do Ceará e do Piauí: príncipe Imperial (hoje Crateús), Ipu, Independência (naquele tempo Pelo-Sinal), Inhamuns, Tamboril, Boa Esperança, Boa Viagem, Quixeramobim, Sobral, largos trechos do Piauí e do Maranhão, além de muitos deles terem acorrido para Pernambuco e Paraíba.
O País dos Mourões, nas palavras de Nertan, era a Serra Grande. É aí que começa as suas peripécias. Aí o grande patriarca da família foi Alexandre da Silva Mourão, pai. Nasceu ele em Crateús, em 1811, e veio cuidar de terras na Serra dos Cocos.
Alexandre da Silva Mourão, filho, que herdou o nome completo do pai, o Velho Alexandre Mourão, descobriu que sua irmã, casada com José de Barros Mello, estava sendo traída e que se encontrava aflita. Conta tudo ao seu irmão, o major Antônio Mourão, no intuito de encontrar uma solução. Este pegou o seu cavalo e foi à porta da casa da amante do cunhado. Obrigou-a a ir com ele, até a casa do Velho Alexandre, que ficara, na ocasião a par de tudo.
O velho Alexandre pede sua filha de volta e oferece a "rapariga" para o genro. Depois de discussões, as coisas se acertam. A filha traída aceitou ficar com o marido e a "rapariga" é mandada embora.
Segundo Alexandre Mourão, filho, as coisas se acertaram entre José de Barros Mello e seu pai. Porém, dois ou mais dias depois, José de Barros Mello combinou com Vicente Lopes de Negreiros, que já tinha desavenças com os Mourões, ir este com seu bando, assassinar o irmão de Alexandre Mourão, o Major Antônio Mourão, que passaria o natal na Matriz de S. Gonçalo, freguesia da Serra dos Cocos e reduto dos Mourões.
Na noite de natal, houve tiroteio entre Negreiro e seus cabras com os Mourões. O major Alexandre matou o capanga fiel de Negreiros, Belchior. Na ocasião caiu morto, também, Manoel de Ferros Mourão, o Manelinho, irmão do Major.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

"O País dos Mourões” - Parte I

Capa do Livro, Bacamarte dos Mourões, de Nertan Macedo. Edição de 1966.

Em meados do século XIX, a extensa família dos Mourões, em luta declarada contra os seus desafetos, empreendeu um verdadeiro banho de Sangue, na então Freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos.
O período de 16 anos, que vai do natal de 1830 ao ano de 1846, é aquele em que o Bacamarte dos Mourões cuspiu fogo em toda a freguesia. Segundo Eusébio de Sousa, no pequeno povoado de Ipu, ninguém se julgava seguro ou garantido pela lei. A lei era a do bacamarte. Em sete partes, contamos um pouco do episódio. Para quem tiver interesse, boa leitura.

QUEM ERAM OS MOURÕES?

O fundador do “clã” dos Mourões foi, segundo Nertan Macedo, Antônio da Silva Mourão, que, vindo de Pernambuco, habitou na Fazenda Jardim. Esta ficava próximo da então povoação de Piranhas (5 léguas), mais tarde, Príncipe Imperial, depois Carateús, hoje, Crateús.
Antonio da Silva Mourão, um pernambucano, emigrou para os sertões da atual cidade de Crateús, em meados do século XVIII.
O século XVIII foi o período em que o Rei de Portugal estimulou a penetração para o interior, com o objetivo de ocupá-lo. Distribuiu extensas sesmarias (lotes de terras). Feitosas, Chaves, Melos e Mourões, todos parentes, adquiriram propriedades nas extensas paragens do interior do Ceará.
Os descendentes de Antonio da Silva Mourão adquiriram extensas propriedades de terras na imensa freguesia da Serra dos Cocos, da qual o povoado de Ipu fazia parte. Dois de seus filhos, Sebastião e Alexandre Mourão, casaram com as filhas do capitão-mor, Antônio de Barros Galvão. Este adquiriu, no sopé da Serra da Ibiapaba, o Sítio Canabrava, além de outros, entre os quais se incluía o sítio Boa Esperança, localizado no distrito da Matriz da Serra dos Cocos. (O Sítio Canabrava – “Chama-se hoje Vila de Ararendá", "tendo pertencido, outrora, ao Ipu e Ipueiras e atualmente a Nova Russas”. O Bacamarte dos Mourões, p. 14).
Alexandre Mourão passou a explorar as terras de seu sogro, no Sítio Boa Esperança, enquanto seu irmão, Sebastião, fazia o mesmo na Canabrava. Este último, adquiriu muitas terras na região. Com sua morte, seus filhos herdaram suas terras, cabendo maiores pedaços a Manoel Ribeiro de Melo (Melinho), João Ribeiro de Melo, José de Barros Melo, o Cascavel, e o coronel Luiz Lopes Teixeira, seu genro.

Melos e Mourões eram também parentes dos feitosas, dos inhamuns, pelo ramo Araújo. Melos, Mourões, Feitosas, Araújos, eram parentes.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Pica-pau X Cururú: Colírio nos Olhos



A partir de hoje, publicaremos, alternadamente, uma série de Charges produzidas pelo traço do artista Arcanjo. Essa foi desenhada em 2006, no segundo ano da administração de Maria do Socorro Pereira Torres (2005-2008), eleita em 2004, com 11.810 votos, 53,73% dos votos válidos, contra 9.672 votos de Antônia Bezerra Lima Carlos (44,82%), sua grande adversária.
Uma das grandes dificuldades encontradas na gestão de Maria do Socorro foi o fato de não possuir maioria na Câmara dos Vereadores, uma vez que só conseguiu eleger três nomes, Raimundo Nonato Martins (presidente no biênio 2005-2006), Antonio Erivelto Alves de Sousa (Secretário), e José Alves de Sousa. Faziam oposição ferrenha na Câmara, com ampla lealdade ao grupo de Zezé Carlos e sua Esposa, Toinha Carlos, Efigênia Mororó, Carmem Lúcia Pinto, Manoel Josino de Freitas (Manoel Palácio), que depois, mudou de lado, Nilson Rufino Moreira (já falecido), Ivo Sousa Oliveira e Antonio Carlos do Amarante (Carlinhos da Várzea).
No biênio de 2007/2008, foi eleito como presidente da Câmara Municipal, Ivo Sousa de Oliveira, o que contribuiu para dificultar a relação do executivo com o legislativo.
A ferrenha oposição na Câmara e os ataques empreendidos pela oposição, por meio de seus veículos de comunicação, acabaram sendo fatores importantes que não permitiram um governo mais tranquilo e a consolidação da liderança do Grupo de Francisco das Chagas Torres Junior, derrotado no pleito de 2008, por Sávio Henrique Pereira Pontes (2009-2012), com amplo apoio do grupo de Zezé Carlos.
A Charge do Arcanjo, verdadeiro documento, atesta um pouco do clima político vivido durante o governo de Maria do Socorro Pereira Torres.



O mundo dos negros em Ipu - Parte VI (Final)


Espaços da diversão e religiosidade dos negros

No início do século XX as famílias abastadas de Ipu reclamavam e condenavam a existência de sambas realizados por pessoas de “baixa condição”. Estes sambas eram frequentados pelos afrobrasileiros, descendentes de escravos, mas também por mulatos, pardos e brancos pobres. Em todo o Ceará, os códigos de postura municipais proibiam os sambas, e a reunião de pessoas, em particular de escravos.
O bumba meu boi foi outra realização festiva que unia e reunia escravos e ex-escravos, citado por Eusébio de Sousa.

Escravidão em Ipu: um tema rico

O pelourinho da Vila Nova do Ipu Grande ficava no atual Quadro da Igrejinha. Lá estava o mercado de escravos. Qualquer senhor que quisesse vender, trocar ou comprar escravos rumava para aquele logradouro. Lá também era o local de castigos de cativos rebeldes e palco das execuções de pena de morte.
Lá estavam os símbolos do poder temporal e espiritual: a cadeia e a Igreja.
Foram utilizados escravos na extração de ouro de algumas minas de Ipu, nos engenhos locais, em serviços domésticos, na pecuária e na lavoura.
Em Ipu, cita Nertan Macedo, o Padre Francisco Correia era dono de escravos, e segundo Antonio Bezerra, possuía uma fábrica de moagem, possivelmente tenha sido um senhor de muitos escravos.
Os Bessa Guimarães, originários de Sobral, foram grandes proprietários de escravos. Da mesma forma, o foi o Cel. Diego Lopes de Araújo Salles, proprietário do negro Estevão. Diogo Salles, auxiliado por um mineiro conhecedor do ofício, vindo das gerais, extraiu, usando o braço cativo, 286 oitavas de ouro de elevado quilate das minas de juré. A extração do metal naquelas minas foi abandonada em função do assassinato do auxiliar do cel. Diogo por um de seus escravos. Isso se deu pela falta de pessoa habilitada capaz de dirigir os trabalhos
Muitas famílias ipuenses, ainda hoje, guardam a memória da escravidão. Histórias que passam de geração a geração. Ainda restam algumas casas no centro da cidade que atestam em seus porões as marcas da escravidão.
Roselany Rodrigues Tavares, em monografia sobre a escravidão em Ipu, levanta a questão de ter existido em São Mateus um quilombo, cuja memória foi cantada em música escrita por Zezé do Vale. Em um dos trechos de sua melodia diz: “Abre a tua porta nego, com ordem do delegado/Minha porta não se abre que pai João ta incomodado/(...) Pelo sinal da santa Cruz livre nos Deus./O barulho ta danado no quilombo do Mateus.         
O mito da mulher que virou cobra, por ter sido severa com seus escravos, atesta a riqueza do imaginário popular e a lembrança da escravidão. Reza a lenda que em meados do século XIX (provavelmente 1847) dona Ana Ferreira Passos, proprietária do sítio São Paulo e dona de muitos escravos, falecera. Algum tempo depois teria sido encontrada em seu túmulo uma imensa cobra. A cultura popular se encarregou em dar um tom profético ao ocorrido, alimentando a imaginação da população que longo associou o ocorrido à suposta perversidade com que a referida senhora tratava seus escravos. Aquilo, segundo o povo, teria sido castigo divino por seus maus tratos aos escravos que possuía. Muitas outras histórias lendárias, criadas pelo imaginário popular associam sempre de forma macabra a vida da “perversa” dona de escravos à imagem da serpente, sempre ligada a algo negativo, como na tradição bíblica.

domingo, 14 de abril de 2013

O mundo dos negros em Ipu - Parte V

Um jantar brasileiro. 1827. Jean Baptiste Debret

O Escravo no espaço social

Os novos estudos sobre a escravidão têm enfatizado a capacidade de negociação dos cativos frente ao sistema opressor, colocando por terra a noção de passividade do negro e de coisificação. Era comum o escravo recorrer à justiça contra os castigos físicos impingidos por seus senhores. Os escravos faziam sua própria leitura da realidade e passavam a perceber que nela havia alguns mecanismos legais que podiam ser acionados a seu favor. Além das fugas, rebeliões, suicídios a que os escravos recorriam como forma de resistir à violência da escravidão, existiam outras práticas sociais buscadas por eles para minimizar a sua condição. Mesmo sujeitos as inúmeras limitações e imposições, eles lutavam pela construção de determinados espaços de autonomia e liberdade.
Embora os escravos fossem considerados mercadorias que podiam ser vendidas, eles eram passíveis de sentimentos, paixões, ódios, desejos e entendiam claramente sobre o momento de agir contra a sua condição de escravo e, assim, negociar com seus senhores espaços de autonomia. Quando isso não era possível, às vezes, as relações entre as partes tornavam-se conflituosas.
Em Ipu, poderíamos apresentar diversos exemplos que mostram muito bem o que estamos discutindo. O caso mais conhecido é o do enforcamento do escravo Estevão. Ao que tudo indica, era um cativo que tinha certa liberdade e era bem tratado. Pertencia ao Cel. Diego Lopes de Araújo Salles (que inclusive extraiu ouro de uma mina de Ipu, usando o braço escravo). Em maio de 1845, Estevão assassinou com uma cacetada e facada o seu feitor Manoel de Carvalho Guedes Mourão, fato que se desenrolou no sítio Conceição. Segundo os autos do processo, Estevão diz ter assassinado o seu feitor pelo fato deste tê-lo surrado, o que competia apenas a seu senhor.
O caso mostra que, embora fosse escravo, Estevão compreendia que não podia ser surrado nem mesmo por seu feitor, a menos que ele tivesse seguido ordens do seu dono. Este fato mostra que no entendimento de Estevão, ele poderia resistir se fosse castigado por alguém que não o seu senhor ou que não tivesse ordens expressas para isso.
Uma das estratégias encontradas pelos escravos para resistir ou suportar sua condição foi à constituição de famílias, embora as limitações imposta para isso fossem de ordem diversa. Há vários casos em Ipu que mostram que escravos e ex-escravos buscavam formar famílias como forma de resistência ao sistema ou mesmo viver uma vida mais digna, o caso do escravo Gabriel é um deles. Dentro das negociações existentes entre os escravos e seus senhores, casar-se representava ganhar mais controle sobre o espaço de sua moradia. Os inventários post morten constituem uma chave para se conhecer melhor o universo do escravo e suas relações afetivas e, sabemos, eles existem em Ipu e podem lançar olhares sobre a escravidão.

sábado, 13 de abril de 2013

O mundo dos negros em Ipu - Parte IV

Negros de ganho, negras de tabuleiro e amas de leite: as múltiplas facetas do trabalho escravo no Brasil (séculos XVI – XIX). Fonte: http://www.brasilescola.com/historiab/formas-trabalho-escravo-no-brasil.htm

         A cidade de Ipu, na segunda metade do século XIX, se apresentava como um importante núcleo, considerado produtivo no Ceará, revelando a relativa importância da escravidão. É nesse período, por exemplo, que a produção algodoeira do município dá um salto, em que são encontradas algumas minas de ouro, e que a cidade ganha importância em relação a outras áreas da província. Em 1840 é elevada à condição de Vila, a cabeça de Comarca, em 1848, a sede da freguesia, de fato, em 1844, quando o Padre Correia deixou a matriz de São Gonçalo e veio morar na sede da Vila, e de direito, em 1883, ano do início da abolição no Ceará.
        Analisando alguns dados que dispomos para a cidade de Ipu foi possível produzir uma análise sobre as ocupações dos escravos. Os dados dos cativos matriculados até 30 de junho de 1881 mostram que no meio rural existiam 450 cativos, dentre eles 300 homens e 150 mulheres, e que no meio urbano havia apenas 276, sendo 101 homens e 175 mulheres, 208 escravos não declararam a ocupação, dos quais 83 homens e 125 mulheres.
          Pelos números acima percebemos que existiam mais escravos no meio rural do que no meio urbano, o que evidencia uma maior importância das atividades econômicas ligadas à pecuária e as atividades agrícolas. Mas, em Ipu é significativo o número crescente de escravos ligados às atividades do meio urbano.
        Na maioria das províncias cearenses a quantidade de escravos do sexo masculino é bem maior do que do sexo feminino, sendo raro casos em que os cativos do sexo feminino suplantam aqueles do sexo masculino. Em Ipu há, pelo menos para o ano de 1881, um equilíbrio entre os sexos, com 484 cativos homens e 450 cativos do sexo feminino, outro fato que pode explicar o crescimento do número de escravos na Vila de Ipu, uma vez que certamente o crescimento vegetativo fora significativo.
         Para Ipu a documentação mostrou que em 1881, 208 escravos são arrolados sem ter declarado a profissão, aparecendo na aludida documentação a palavra “qualquer”. Neste universo existem muitos escravos, o que é bem provável, que desempenhavam mais de uma profissão. As mulheres exerciam o ofício de costureiras, rendeiras, fiandeiras e ainda prestavam serviços domésticos como cozinheiras, lavadeiras, amas-de-leite, etc., e em épocas de colheita poderiam ir para a lavoura. Na cidade, a mão de obra cativa ajudava na constituição da renda familiar dos seus senhores, uma vez que era alugado e trabalhava como escravo de ganho e até, em alguns casos, como prostitutas. No meio urbano encontrava-se uma mão de obra mais especializada como pedreiros, marceneiros, alfaiates, sapateiros, etc.
No meio urbano existia uma maior possibilidade do negro sociabilizar-se, ter mais liberdades de circulação e a possibilidade de construir família, tanto maior se ele fosse um escravo de ganho, exercendo, por exemplo, a atividade de vendedor ambulante, ficando como uma parte das vendas.
  

sexta-feira, 12 de abril de 2013

O mundo dos negros em Ipu - Parte III

Negro e Negra. Pintura de Rugendas

O mundo dos escravos em Ipu


A ocupação do Ceará foi diferente daquela ocorrida em outras áreas do Nordeste açucareiro. Traduziu-se em um processo mais lento e coube à pecuária bovina abrir fronteiras e consolidar a sua ocupação. A criação do gado possibilitou a configuração de uma sociedade diferenciada quando comparada ao litoral açucareiro, exigindo pouca mão de obra. Todavia, a introdução do braço escravo não deixou de ocorrer e ser significativa. Assim como no Ceará, de um modo geral, ela se fez presente em todos os ramos de trabalho, tanto no espaço rural quanto urbano. Os negros estavam presentes na pecuária, nas atividades agrícolas, em serviços especializados (pedreiros, barbeiros etc), nos serviços domésticos, como escravos de aluguel ou de ganho.
As áreas onde predominava um maior número de escravos eram aquelas em que as atividades principais se concentrava na pecuária e/ou na agricultura. Tais áreas possuíam um montante de mais de 500 escravos. A cidade de Ipu entre 1857/1858, 1872, 1873 e 1881 - períodos em que conhecemos as estatísticas -, possuía mais de 600 escravos, chegando a ter em 1873 e 1881, respectivamente, 835 e 934 cativos.
            É interessante mostrar que o número de escravo em Ipu aumentou em um momento em que na maioria das províncias cearenses o seu número diminuía. Uma das explicações para esse fenômeno diz respeito ao fato da Vila Nova do Ipu Grande estar em pleno crescimento econômico.

quinta-feira, 11 de abril de 2013

O mundo dos negros em Ipu - Parte II


Negras cozinheiras, Vendedoras de Angu, de Jean Baptiste Debret. In: Viagem pitoresca e histórica ao Brasil.

Negros no Ceará e Ipu

Pesquisas mostraram que o número de cativos no Ceará girava em torno de 4% e 5% de sua população, em meados do século XIX. Esta mesma cifra é aquela referente à cidade de Ipu, no mesmo período. No entanto, cerca de 60,7% da população cearense, no início do século XIX, era composta por afrobrasileiros. Supõe-se, portanto, que entre 40% a 60% da população ipuense, em meados do século XIX, era formada por esse grupo.
No censo de 1818, apresentado pelo governo provincial, 34% dos habitantes do Ceará reuniam os brancos, enquanto os pretos e mulatos livres somavam 56%, e os índios, 10% da população. Estes números pouco se alterariam posteriormente.
À medida que avançava o século XVIII e a ocupação do Ceará se efetivava, consolidou-se um espaço de trabalho que atraiu um contingente de homens livres, pobres, negros e pardos, vindos de outras províncias. Muitos se tornaram vaqueiros, trabalhando no regime de quarta, outros se tornaram moradores e agregados das fazendas de gado.
Em meados do século XVIII, com o surto da lavoura algodoeira, acentuou-se uma demanda maior de mão de obra, configurando-se uma presença mais significativa de trabalhadores livres e, também, de escravos africanos. Na segunda metade do século XIX um novo surto da cotonicultura atraiu braços para o Ceará, em especial de escravos que vinham de outras províncias, uma vez que o ano de 1850 marcou o fim do tráfico intercontinental de escravos. É também nesta época que o Ceará exporta escravos para outras províncias, dentro do chamado tráfico interprovincial.
Em Ipu, o número de escravos cresceu após o fim do tráfico negreiro e isso está relacionado, primeiro, a um surto de crescimento econômico da região que teve no algodão seu principal produto. Se muitas regiões cearenses estavam exportando escravos para outras províncias, a cidade de Ipu passou a atraí-los, necessitada que estava de mão de obra. Porém, muitos negros libertos foram atraídos para a Terra de Iracema, e as explicações para isso são de ordem diversa.
Em primeiro lugar, corria mundo a notícia de que existiam minas de ouro em Ipu. A busca pelo Eldorado trouxe, sem dúvida, para a vila, muitos aventureiros, escravos fugitivos e negros libertos. Não à toa que um “preto velho”, vindo de Minas Gerais descobriu e extraiu porções de ouro de elevado quilate, vendendo-o aos ourives da cidade e outras pessoas, das quais, ao “padre Francisco Correia de Carvalho e Silva” que mandou “fazer as fivélllas de seus sapatos”.
Em segundo lugar, o próprio crescimento econômico da cidade atraiu braços livres e cativos. A exploração de algodão gerou postos de trabalho e rendas para a cidade. Isso levou a uma dinamização das atividades. Havia demanda por serviços domésticos, carpinteiros, barbeiros etc.
Existiram, ainda nesse período, alguns engenhos de produção de aguardente e rapadura que demandavam também mão de obra. Com a circulação de capitais teria surgido uma procura maior por artigos produzidos nos engenhos. Isso deve ter levado a um maior emprego do braço negro (livre e assalariado).
É justamente nesse momento que há um aumento significativo da população negra e afrodescendente, fruto, também, do crescimento vegetativo, isso pelo próprio aumento da importância da mão de obra e do elevado preço da “peça africana”.   

Continua...      

quarta-feira, 10 de abril de 2013

O mundo dos negros em Ipu - Parte I

"Jogar capoeira ou dança da guerra" do pintor Rugendas, publicada em 1835. Fonte: RUGENDASJohann Moritz . Viagem pitoresca através do Brasil. São Paulo: Livraria Martins, 1940

Introdução

Os primeiros historiadores ipuenses superestimaram a nossa formação europeia, branca, cristã e católica. Mais do que isso, criaram a imagem de que o povoado, que mais tarde daria origem à cidade de Ipu, teria nascido da catequese dos primeiros missionários, ao banir de nossa formação, a “raça infecta” indígena. O negro é quase totalmente negligenciado, dando a impressão de que ele não teve papel importante em nossa formação. Essa versão da história estava bem de acordo com os valores da época, que identificava a sociedade europeia, branca e cristã, como depositária dos valores superiores da civilização e da modernidade. Desta forma, o indígena e o negro, sempre identificados como “raças inferiores”, incapazes de produzir conhecimento, ciência, de evoluir, são esquecidos ou conscientemente negligenciados. 
Em seis partes, buscamos demonstrar, ao contrário, que o negro teve um papel significativo na formação de nosso povo.

O negro no Ipu


No nosso processo histórico a presença do negro foi significativa. Não se trata apenas de lembrar a escravidão. As fontes sobre a sua presença na sociedade ipuense apontam para o fato de que existia uma gama muito superior de negros libertos, mulatos e pardos em relação ao número de cativos. Postular que a presença negra em nossa cultura foi pouco significativa, porque a escravidão não teve, entre nós, grande importância, nos coloca diante de uma questão perversa, que consiste em associar o negro à escravidão.
            Na segunda metade do século XIX até antes da abolição, existia em Ipu um número bastante significativo de não brancos trabalhando como homens e mulheres livres.
            Entre 1857/1858 existiam, segundo números oficiais, 784 escravos numa população de 17.420 habitantes, cerca de 4,5% da população. Em 1860 este número aumentou para 807 escravos. Em 1872 a cidade tinha 687 cativos e no ano seguinte este número subiu para 835.
            Estas cifras revelam a existência de um número significativo de escravos na cidade de Ipu, mas, por outro lado, não revelam, por exemplo, a existência de um número muito maior de negros, pardos e mulatos não cativos.
            Temos inúmeros exemplos de negros libertos que exerciam atividades em Ipu na segunda metade do século XIX. Eusébio de Sousa anota em um de seus trabalhos que em Ipu, um dos primeiros que descobriu minas de ouro foi um “preto velho”, natural de Minas Gerais, conhecido pelo epíteto de “Pae Flor” e “extrahio dellas porções de elevado quilate, que vendia aos ourives da cidade e dava tambem a outras pessoas”.       Eusébio de Sousa cita ainda o caso do negro Gabriel, supostamente nascido em Sobral e que constituiu família em Ipu e aqui morreu. Depois de correr mundo como escravo veio conseguir sua liberdade na Terra de Iracema. Ergueu em Ipu o primeiro e único hotel até o início do século XX que deram o nome, mais tarde, de Rendez-vous des amis (encontro dos amigos). Muito conhecido na cidade, seu nome completo era Gabriel de Saboya e Silva, em função de ter sido escravo do dr. José Thomé da Silva, juiz de direito da Comarca de Ipu em meados do século XIX.
            Podemos citar ainda um último caso, a de Luzia Torquez, uma negra escrava que conseguiu a sua alforria antes do fim da escravidão. Muito conhecida na cidade, vendia seu corpo para conseguir sobreviver.

Continua...



domingo, 7 de abril de 2013

Estação Ferroviária - Parte IV (final)

Estação Ferroviária ao Fundo, sem data. Fonte: fotografia extraída do site http://www.estacoesferroviarias.com.br/ce_sobral/ipu.htm. A fotografia original pertence ao professor Francisco de Assis Martins (prof. Melo)


Histórico da Estrada de Ferro de Sobral

            O Governo Imperial, na época, autorizou a construção de uma ferrovia que ligaria o porto de Camocim à cidade de Sobral. O objetivo seria, segundo os discursos, salvar “o povo faminto” do Ceará, isto é, minorar os efeitos da seca (1877-1879) que assolava o Estado no final do século XIX. A construção da ferrovia deveria proporcionar trabalho a milhares de flagelados e facilitar a distribuição de alimentos para a população necessitada.
A construção da Estrada de Ferro de Sobral, como foi denominada, teve início em 1878, autorizada por um decreto imperial de 1º de junho. Já em março do ano seguinte foi iniciado em Camocim o assentamento dos trilhos. As primeiras estações foram inauguradas após o fim da seca de 1877-1879. Em 1881 foram inauguradas as estações de Camocim e de Granja, ambas a 15 de janeiro – Angica, 14 de março; Pintobeiras – atual Senador Sá, 2 de junho; Massapé, 31 de dezembro. Em 1882 foi inaugurada a estação de Sobral (31 de dezembro), e em 1894, a estação do Riachão – atual Uruoca (10 de janeiro).
Ainda em 1883, tiveram início em Sobral os trabalhos para o prosseguimento da ferrovia até a cidade de Ipu, cujo objetivo era atender a “rica serra da ibiapaba”.
Rumando em direção a Ibiapaba, a primeira estação a ser inaugurada foi a de Cariré (1º de novembro de 1893), depois Santa Cruz – atual Reriutaba (1º de dezembro de 1893), e finalmente a via férrea chegou ao Ipu, em 1894. Sua Estação foi inaugurada em 10 de outubro do mesmo ano.
Mais tarde os trilhos chegaram, ainda, a Ipueiras, Charito, Nova Russas, Sucesso, Crateús. Em seguida, seria a vez do Piauí.
            Os defensores da construção das estradas de ferro no Ceará, no final do século XIX, sobretudo a EFS, lançaram ampla mão do discurso da seca com o objetivo de sensibilizar o governo federal. O discurso da seca para angariar recursos para as áreas atingidas pela estiagem se torna uma prática tão utilizada que na maioria das vezes sua veiculação passa a ser natural. Desde a seca de 1877-1879 as elites da região “nordeste” descobrem a grande arma ao alcance de suas mãos e dela passa a se utilizar constantemente. Foi utilizando esse discurso que as autoridades e as elites locais conseguiram trazer um volume considerável de recursos para a região. Era uma forma de contrabalançar uma posição cada vez mais subalterna no contexto nacional. O discurso da seca e os recursos dele advindos permitem à grande parte das elites da área atingida pelo flagelo, manter e mesmo reafirmar sua posição de dominação, contrabalançado a perda de espaços ao nível nacional.
            Autoridades influentes na cena política imperial tiveram papel destacado, lutando e defendendo a construção de uma ferrovia que ligasse o porto de Camocim à cidade de Sobral. São os casos dos sobralenses, Dr. José Júlio de Albuquerque, Presidente da província na época da liberação da construção da EFS (1878-1880) e influente junto aos ministros imperiais, e do Dr. João Ernesto Viriato de Medeiros, também sobralense e Deputado Geral pela segunda vez no Império (1867-1868/1878-1881).
A ferrovia contribuiu para o desenvolvimento de toda a região norte, promovendo o crescimento do comércio, da produção agrícola e permitindo a ligação direta da região com as demais províncias do Brasil e com a Europa. Muitas famílias fizeram fortuna.
As cidades de Camocim, que logo desmembrou-se de Granja, Granja, Sobral e Ipu, cresceram muito com a chegada da ferrovia. A estrada de ferro era o sonho de muitos homens abastados e influentes da região norte da província, sobretudo de Sobral, a cidade mais importante da região. A seca e seu flagelo acabaram ajudando. Permitira a construção do discurso do flagelo para legitimar sua construção. A seca foi usada como justificativa para as grandes obras na região que, não obstante, contribuíram para aumentar fortunas, não resolvendo, mas apenas minorado, a miséria da população pobre, momentaneamente.

sábado, 6 de abril de 2013

Estação Ferroviária - Parte III

Antigo Café Central (hoje Pavilhão) e Estação Ferroviária. Foto de 1957. Do acervo do professor Francisco de Assis Martins (Prof. Melo)


Resgate da Estação


A Estação Ferroviária havia sido vendida, em 2002. Coube a Associação dos Filhos e Amigos de Ipu, que tinha como presidente, Francisco de Assis Martins, organizar movimentos de conscientização e defesa daquele patrimônio e a sua desapropriação e entrega ao setor público e, assim, sua devolução ao povo ipuense.
Em junho de 2006, pressionado pela sociedade civil, o Executivo Municipal deu início, junto à 4ª Superintendência Regional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ao processo de tombamento do prédio da Estação. O prédio foi cedido ao governo do Estado por um período de, no mínimo, dois anos, necessário para o início das obras de tombamento, restauração e instalação, em suas dependências, de uma de uma Biblioteca Pública Municipal. Em sua Sessão Ordinária de 9 de outubro de 2007, a Câmara Municipal de Ipu aprovou, por unanimidade, o projeto de lei que previa o tombamento e restauração do monumento.
Em junho de 2008, estiveram em Ipu para dar continuidade ao processo de restauração da Estação os técnicos do IPHAN e do Departamento de Edificações e Rodovias – DER. O projeto arquitetônico já havia sido elaborado pelo ex-superintendente do IPHAN no Estado do Ceará, Romeu Duarte, e apresentado aos ipuenses na Sessão Itinerante da Assembleia Legislativa, realizada em Ipu, em agosto de 2007.
No entanto, a partir da vistoria do prédio da Estação, outros projetos complementares passaram a ser elaborados: projetos hidráulico-sanitário, elétrico e de estrutura metálica. O início da restauração só poderia ocorrer quando todos os projetos tivessem sido concluídos.
A solenidade de reinauguração da Estação, com o processo de restauração ainda inacabado, se deu no dia 24 de agosto de 2010. Mas, logo surgiram denúncias, protocoladas junto ao Tribunal de Conta dos Municípios do Ceará (TCM), de desvios de verbas. Segundo Relatório do TCM, que esteve em Ipu no mês de maio de 2011, cerca de 50% dos recursos destinados ao processo de restauro do monumento, orçado em R$ 744 mil, foram desviados. Nada surpreendente para uma terra marcada por gestores desonestos, apoiados por uma significativa parte da população em troca de benefícios particulares, não menos desonesta do que seus líderes.