sábado, 25 de maio de 2013

A charge, a cidade e os ratos



A charge que ilustra esta coluna, desenhada pelo Arcanjo para a edição de junho de 2008 do jornal Ipu Grande, era não apenas uma denúncia, mas também uma crítica ferrenha à maneira de fazer política na cidade de Ipu, naquele momento. Ao contrário do que se possa imaginar, os ratos não representavam apenas os legisladores, os edis, eleitos para fiscalizar o executivo e propor leis em benefício da maioria da população, mas representavam, também, uma boa parcela do “povo”. 
Há, pelo menos, dois ataques: um endereçado aos vereadores, em sua maioria, e, outro, a parte significativa da população ipuense. No primeiro caso, a indignação resultava do fato de os edis pouco se importarem com o futuro da nossa cidade e o bem estar de seus eleitores, negociando apoio em troca de benesses, apoiando os líderes em troca de dinheiro ou outras vantagens, empregos para seus correligionários em cargos públicos e, quem sabe, algo mais. No segundo caso, a revolta era endereçada a um povo que, em sua “consciência política”, lutava em defesa de suas lideranças, sempre fiéis a eles, mantidos com migalhas, promessas, tijolos, consultas médicas arranjadas, cimento, dentadura e sabe lá o que mais!
Ratos?
A crítica, em resumo, recaia sobre o sistema que se alimentava da miséria, da exploração de um povo que pensava que se posicionar criticamente, atacando os seus adversários, era ter consciência política. De um lado, um exército de analfabetos políticos, cuja política levada a cabo pelas lideranças era a “arte de mantê-los pedintes e miseráveis”, sempre com mãos estendidas, e de outro, um “povo” sempre pronto a defender, com “armas nas mãos”, aqueles que lhes davam migalhas em troca do voto, e cuja política, consciente ou inconsciente, era manter dois círculos viciosos: um da riqueza, apropriadas por poucos “espertinhos”, e outro da pobreza, mesmo da miséria.
“Ratos”?
O ataque maior, creio, é endereçado contra um povo caolho, míope, mesmo, cego, que sofre nas filas dos hospitais, nos bancos escolares, com as ruas da cidade esburacadas, praças abandonadas, com o péssimo atendimento dos órgãos públicos, sem oportunidades de empregos, mas que não perde a oportunidade de manter um sistema político viciado, negociando a única arma capaz de mudar alguma coisa: seu voto!
Ratos?
Que democracia é essa, em que o cidadão espera a oportunidade de ganhar algo em troca de sua consciência, vendida como um saco de batatas?
Ratos?
Há, finalmente, uma mensagem implícita na charge acima: “cada povo merece o governo que tem!”
Mudou alguma coisa?

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Corrupção generalizada

Promotor Luiz Alcântara. Fonte: http://forcatarefapopular.blogspot.com.br

A corrupção atinge mais da metade das prefeituras do Ceará, segundo demonstrou recentemente a promotoria de justiça. Todas são suspeitas de envolvimento com empresas fraudulentas. No entanto, as investigações levadas a cabo pela promotoria e que vêm comprovando fraudes com o dinheiro público é apenas a ponta de um imenso iceberg.
A corrupção nas prefeituras dos municípios do Ceará está generalizada, disse o promotor Luiz Alcântara, integrante da Procuradoria dos Crimes Contra a Administração Pública (Procap). O que era para ser exceção se tornou a regra.
As fraudes mais comuns são a contratação irregular de servidores, concessão de pagamentos a funcionários fantasmas, ausência de licitações, licitações com indícios de favorecimentos, contratação de empresas fantasmas, desvios de dinheiro, obras superfaturadas, prestação de contras de obras não realizadas, dentre tantas outras.
A corrupção hoje não é maior do que no passado, creio. O poder da imprensa, em fiscalizar e denunciar a corrupção, a criação de mecanismos de controle mais eficazes no uso dos recursos públicos, têm contribuído para dar grande visibilidade aos atos de desmonte das prefeituras.           
Hoje é imoral e ilegal a posse de bens públicos em benefício de particulares, mas muito aceita ainda por grande parcela da população, que pouco se importa se os gestores estão administrando bem o erário. As raízes disso são históricas e remontam a nossa formação cultural.
A nossa colonização se encarregou de legar-nos uma cultura patrimonialista, de base ibérica, quando o público e o privado se confundem, como bem demonstram os estudos de Raimundo Faoro (Os donos do Poder), Sergio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil) e Gilberto Freyre (Casa Grande & Senzala).
Além do patrimonialismo, os portugueses nos legaram uma cultura paternalista (troca de favores) e patriarcal (chefe que manda e comanda como a figura do pai, em relação à família, em sociedades tradicionais), cuja herança imprime em nosso fazer político particularidades interessantes.
A corrupção generalizada explica por que a maioria das cidades cearenses tem mais da metade da sua população vivendo abaixo da linha de pobreza, numa situação miserável, como é o caso de Ipu e como demonstrou recente pesquisa (Mapa da Pobreza e Desigualdade). Vivemos duas realidades contraditórias: uma de riqueza desmedida e outra de pobreza revoltante. No primeiro caso, os recursos que deveriam minorar a miséria, desviados dos cofres públicos, têm feito, desde o início, a felicidade de pequenos grupos. No segundo caso, a própria miséria da maior parte da população se mostrou uma estratégia eficaz para manter os círculos viciosos: a riqueza como resultado da miséria!
Os ladrões posam de inocentes!

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Quebra-queixo e Palma


Alguém deve se sentir tentado a ler esta crônica, pelo seu título inusitado ou pela curiosidade, afinal, quem em sã consciência nomeia uma crônica assim, “quebra queixo e palma”? Não, não é uma crônica que tenha como ponto central falar de guloseimas nordestinas, mas de amor e nostalgia.
Esta semana ao entrar no mercado e me deparar com uma barra de quebra-queixo na prateleira, vieram em minha mente inúmeras lembranças. Não pensei duas vezes, comprei-a e levei-a para casa e, lógico, comi-a. Tal foi a minha decepção, não era tão gostosa como as outras barrinhas que há anos comia quando morava no Rio de Janeiro. Lá o mesmo quebra-queijo, que minha mãe mandava do Ceará, tinha outro saber. Um sabor de lembrança de minha terra natal.
Lembro que sempre que o saboreava vinham lembranças de minha amada cidade, Ipu! A distância e a saudade de minha terra, de meus familiares e meus amigos, faziam com que aquela barra de doce, que muito comera na infância, fosse deliciosa e tivesse um sabor que hoje não tem mais. Foi essa uma grande decepção. Quando abri aquela barrinha de doce e devorei-a, ela não tinha mais aquele gosto de saudade. Joguei o resto para as formigas.
Lembrei-me da palma, ah! Aquela palma, chegada do Ceará, enviada por minha mãe e trazida por meu primo, que derretia em minha boca, trazendo lembranças de minha infância e adolescência...!
Fui ao mercado e comprei um saquinho delas, devorei uma, duas, três, e nada! Elas não tinham o mesmo sabor e cheiro de minha terra natal. Com raiva devorei todas as palmas, sem resultado, quer dizer, cheguei atrasado à escola onde trabalho, em função de uma enorme dor de barriga.
            Morei doze anos no Rio de Janeiro, longe de minha terra natal, e adorava quando minha mãe mandava as guloseimas que comera em minha infância. Elas me traziam as lembranças da cidade, de minha infância, da escola... Vivi doze anos de minha existência distante dessa “terra maldita”, chamada Ipu. Como um fantasma, diariamente, ela me “infernizava”. Não vivia um só dia que não pensasse nela, que não sonhasse com um retorno triunfal.
Eu, talvez mais do que ninguém, a amava. O Ipu era para mim não um espaço, mas um lugar. O Espaço, na maioria das vezes, tem o sentido ligado a um local físico, geográfico, um “lugar” qualquer. O lugar não! Este está carregado de significados. Eu aponto com o dedo e digo: “foi naquele lugar onde eu nasci”. “Foi ali onde cresci”, “onde namorei pela primeira vez”, “onde gozei a minha infância”. Lá estavam meus irmãos, meus pais, minha primeira namorada, foi lá que eu dei meu primeiro beijo, e, ao contrário, tive minhas primeiras decepções. Foi lá (aqui) que eu aprendi as minhas primeiras lições de vida, que hoje me são tão caras.
Lá havia as novenas, o pavilhão, a Estação onde, à noite, após a missa e depois de muito rodar em torno do bar do “chiquinho” íamos namorar, pois era mais romântico. Aquele passado é intocável, já virou sonho para mim.
Ah, o Ipu era para mim um lugar imenso. Na fenomenologia de Bachelard, o espaço é um sítio povoado por afetividades, habitados por intimidades, onde moram desejos, medos e sonhos. Todos nós já devemos ter experimentado a sensação de estranhamento quando, adultos, retornamos ao lugar onde vivemos a infância. O espaço parece ter diminuído! Halbwachs defende que a memória deve se materializar para existir. Ela deve se enraizar no espaço, inscrevendo na materialidade das coisas a solidariedade dos membros que comunalmente a partilham. Existe um veiculo orgânico entre as pessoas e o meio ambiente onde habitam, disse ele.
Vivi muito tempo como os personagens daquele desenho animado (a caverna do dragão) que, aprisionados em outra dimensão, pautam sua existência em encontrar um caminho de volta para casa. Esses conflitos são os fantasmas que rondam nossos inconscientes ou subconscientes, como defende Freud.
Ao contrário dos personagens do desenho, eu retornei. Talvez, por isso, o encanto tenha se desfeito. Agora aqui, essa cidade ganha novos significados para mim. O quebra-queixo e a palma não têm mais o mesmo sabor, eles já não me fazem lembrar minha cidade natal, simplesmente porque estou aqui. Se ainda estivesse longe, a cidade de Ipu seria, sem dúvida, o melhor lugar para eu viver, mais já não acho isso. Contraditoriamente, no entanto, não quero mais sair daqui.
É paradoxal, meus vínculos de afetividade com a cidade onde nasci se reforçaram quando estive distante e diminuíram quando estive próximo. A cada dia que passa, quando mais eu me aproximo dela, tanto mais ela perde o seu encanto. Quero vê-la “crescer”, quero que ela melhore, mas quanto mais quero, parece que ela mais se “afunda”. Talvez aquela cidade que deixei há 17 anos já não exista mais, talvez só exista mesmo em meus sonhos. Afinal, quando retornei, meus amigos de infância já não estavam mais aqui, uns morreram, outros foram embora e os que sobraram, cresceram, e já não jogam aquela pelada no campo da RFFSA, ao lado da Estação.
É uma pena! 

Escrito em algum dia de 2007.

terça-feira, 14 de maio de 2013

O famoso Cabaré do Ipu - parte III





Era após as 9 horas da manhã que as senhoras e senhoritas das famílias tradicionais ou de “bons costumes”, iam passear ou fazer suas compras na feira e no mercado público e não podiam ser expostas àquele “espetáculo” de “imundícies” e “imoralidades”, praticados pelas meretrizes. Cabia à polícia controlar sua circulação como forma de preservar a saúde dos costumes, os “sãos costumes” e a moral “pública” das famílias ipuenses.
Os argumentos contra a prostituição e sua prática, pelo menos nas proximidades do centro da cidade, e a defesa pelo seu controle, são justificados porque se colocava contra os “incontáveis” “foros de terra civilisada” que caracterizava a cidade de Ipu. Os argumentos contra a prostituição são, na maioria das vezes, de ordem moral.
Se, de um lado, as prostitutas são alvo de controle, por outro, elas resistem e passam a lutar, também, pelo direito de ir e vir e usar o espaço da cidade. Se em alguns momentos o poder repressor se mostra mais forte, elas criam táticas para tentar burlar esse poder fazendo uso dele. É aí que a exposição do corpo e sua venda se deslocam do espaço público para o privado e espaços reservados à sua prática.
O meretrício passa a exercer um chamamento aos homens e aos rapazes da época, mesmo entre aqueles de famílias abastadas, cujos pais atacavam a compra e venda do sexo nas páginas dos jornais. 

sábado, 11 de maio de 2013

O famoso Cabaré do Ipu - parte II



O meretrício (cabaré) foi erguido próximo ao “curral do açougue”, onde eram abatidos os animais e ficava o matadouro e açougue da cidade. Era composto por quatro currais em quadro. Se de manhã se ia aquele local para a compra da “ração diária”, ir ao “curral do açougue”, à noite, tinha o significado da prática do sexo. Para lá diariamente acorriam os viajantes e rapazes sempre prontos e dispostos a mostrar e gastar os seus vigores.
Segundo o relato do tipógrafo à época, João Mozart da Silva, o meretrício era composto por “oito casinhas, rebocadas e caiadas, cobertas com telhas”. E era ali na zona do meretrício, do raparigal, da devassidão, na claridade da lamparina a querosene, que a rapaziada da época tinha, muito provavelmente, sua primeira experiência sexual.
Segundo ainda o seu relato: Cada um dos rapazes da época possuía sua lanterna a pilha. Todas as noites, infalivelmente, saíamos do bilhar e padaria do Zé Padeiro, que ficava vizinho da alfaiataria do Lopes, e próximo à farmácia do Edgard, no rumo do que se chamava “zona”. Era uma esticada direta, subindo até chegar ao batente da primeira casa. A ronda era geral, principalmente nas terças e sexta-feiras, os dias dos trens que procediam de Camocim, chegando à Estação de Ipu às quatro da tarde. (SILVA, 2005, p. 101.).      
O surgimento do cabaré é fruto, em parte, do controle da qual foram alvo as prostitutas. Todas elas, ou pelo menos a maioria delas, passaram a ter uma ficha na polícia, condição de possibilidade para exercem seus ofícios, e tiveram sua circulação controlada nas principais ruas da cidade. Foram fixados, por exemplo, horários e estabelecimentos comerciais em que poderiam comprar suas mercadorias. A não obediência a essas regras era punida com uma possível detenção ou outra represaria.
A prostituição no município é, para os grupos abastados de Ipu, um caso de polícia. As reclamações e as cobranças ao poder público quanto ao controle das meretrizes têm como argumentos salvaguardar a boa moral pública e os “bons costumes” das famílias locais.
            As meretrizes, antes do surgimento do Cabaré, faziam ponto no mercado público da cidade, o local mais movimentado.  
            O mercado público é uma edificação em quadrilátero, construído ainda no final do século XIX, bem na área mais central da cidade, tendo ao sul a Igrejinha, onde em sua volta ergue-se o casario das famílias abastadas; a seu oeste, a poucos metros de distância, ficava a Casa de Câmara. Em seu térreo funcionava a cadeia e o destacamento policial (quartel), e no pavimento superior, a Câmara Municipal; ao norte, também bem próximo, ficava a nova Igreja em construção e, por fim, para o leste estava ligado à estação do trem por duas largas e regulares ruas.
Muito comum nas cidades interioranas do Ceará, é formado por “quartos de comércio” com quatro entradas centrais, uma em cada lado, que dão acesso ao seu interior. Existia um funcionário que “ao cair da tarde”, quando os estabelecimentos comerciais cerravam suas portas, era encarregado de fechar os seus portões.
            Prostitutas – além de “mulheres simples”, crianças e pedintes - ficavam nas entradas do mercado, o que incomodava principalmente as chamadas “famílias ilustres”, aquelas mais abastadas do lugar, que buscavam distinção pelo trajar e pelos modos “requintados”. Incomodava porque era, em primeiro lugar, uma cena “imoral”, ia contra seus valores. Chocava às senhoras e senhoritas que deveriam ser resguardadas dessas “imoralidades”. Os relatos da época dão conta de que as meretrizes usavam vestimentas que deixavam aparecer seus dotes físicos como forma de seduzir. Ofereciam seus serviços abertamente a quem pudesse pagar por eles.
            Incomodava, em segundo lugar, porque aquilo era, em si, uma “imundície”. Prostitutas com poucas roupas, algumas maltrapilhas, outras alcoolizadas, eram alvo de chacota para os populares. Aquilo, aos olhos daqueles que sonhavam com uma outra cidade, objeto de desejo, devia ser banido do espaço público, sobretudo da região mais central e uma das mais movimentadas da cidade.
            Finalmente, aquela cena chocava uma sociedade que era, em sua essência, extremamente católica, religiosa. Aquilo era um chamamento à orgia, representava o fim dos tempos. Era preciso extingui-la sob pena de ser castigado pela providência divina.

Continua...

quinta-feira, 9 de maio de 2013

O famoso Cabaré do Ipu - parte I


Entre fins do século XIX e as primeiras décadas do século XX, foi erguido, no hoje bairro da Caixa d’água, um famoso cabaré que fez a alegria de muitos solteiros e casados e escandalizou os olhos da sociedade “ilustre”, “defensora da moral e dos bons costumes civilizados” e horrorizou a Igreja Católica da época. Dizia-se que aquele “antro de imundície”, “da orgia”, “do pecado” representava o fim dos tempos e aquele que ali fosse estava trilhando o seu caminho “para o inferno”: seu corpo iria queimar nas “profusas da escuridão”.
            A verdade é que o surgimento do cabaré é a outra face do crescimento da cidade nos primeiros anos do século XX: se fez a alegria de alguns, foi, por outro lado, alvo de controle do poder local. Erguido em um local distantes dos olhos da sociedade, no meio do mato, na época, teve o seu período áureo. Decadente, foi sendo englobado pelo crescimento da cidade. Passou a horrorizar. Já não se podia permitir um espaço como aquele bem no centro da cidade. É assim que aos poucos vai sendo demolido. Hoje já não restam resquícios dele, apenas histórias dos seus inveterados frequentadores: histórias pitorescas e que ainda esperam pelos pesquisadores, para que não se percam no vazio da memória. Na década de 1980, na administração de Francisco Eufrásio Mororó, seus últimos focos foram totalmente destruídos. Aquele local é hoje uma área nobre da cidade.
            Contemos parte de sua história

O Controle
Passou a ser alvo do controle a circulação e a permanência das meretrizes em alguns logradouros públicos da cidade, como meio de resguardar a moral recatada e os bons costumes das famílias “illustres do logar”.
Com a chegada da ferrovia em fins do século XIX e o posterior aumento da população e da circulação de mercadorias e capitais, a cidade de Ipu passou a atrair um número significativo de prostitutas das regiões circunvizinhas, que vinham se juntar as já existentes no lugar. É também nesse momento que começam a surgir os primeiros “cabarés”, na verdade algumas casas onde se praticava a venda do sexo.
 No final da década de 1910 e início da seguinte, há uma maior preocupação por uma parte da população e do poder público em se proceder a um controle rigoroso das meretrizes  (prostitutas) que viviam na cidade e comercializavam seu corpo em praças públicas. Também, nos primeiros momentos do século XX, teve início o surgimento do mais famoso “cabaré” da cidade, erguido no atual bairro da Caixa D’água, na época praticamente desabitado.
Diante do intenso controle da qual foram alvos a circulação e a permanência das meretrizes em logradouros públicos da área central da cidade, elas acabaram adotando práticas de resistências e táticas para burlar o controle. É assim que a venda de seus serviços se desloca do espaço público para o privado. Surge, assim, o meretrício, na periferia da cidade. Ali, distante, as prostitutas não incomodavam tanto e havia uma autorização tácita do poder público quanto a isso.
Parece mesmo ter sido autorizado pelo poder repressor à construção de casas naquela localidade, no meio do matagal, portanto, escondidas, mais ou menos afastadas do centro, onde era permitido o comércio do sexo. Consentir com que as meretrizes se reunissem em apenas um lugar poderia facilitava o seu controle. Essas casas onde passaram a morar, transformavam-se em cabaré à noite para viajantes e moradores da cidade, que procuravam seus serviços.
 Continua.