sexta-feira, 19 de julho de 2013

A Nova História do Ipu - X

Igrejinha. Conclusão do processo de restauração. Fotografia de Reporte Diego Farias. Disponível em: <http://ibiapaba1.blogspot.com.br/2012/03/obras-de-restauracao-da-igrejinha-de.html>. Acesso em: 19 de julho de 2012.

UNIDADE 1: A FORMAÇÃO DO POVOADO

CAPÍTULO 3

3. O Quadro da Igrejinha e a organização do espaço Ipuense

Como as terras doadas ao capitão-mor Luis Vieira de Sousa passaram para o sargento João Alves Fontes ou João Álvares Fontes? Se as terras não foram vendidas e ficaram devolutas, seria provável que outra pessoa tenha solicitado sesmaria ao capitão-mor do Ceará, para tomar posse dessas terras.
João Alves Fontes solicitou, no ano de 1734, a concessão de uma sesmaria de duas léguas de comprimento por duas de largo, a ele concedida, ao que tudo indica, pegando parte das terras antes pertencentes ao antigo sesmeiro. A data do pedido é de 22/05/1734. Segundo Tomaz Pompeu Sobrinho “[João Alves Fontes] Diz que descobriu um sítio de terras nas ilhargas de Sebastião Dias Madeira, que deságua no rio Acaracu, uma légua para cima e outro tanto para baixo, e na dita data deságua um riacho chamado Riacho do Pires, e por ele assim a entre (sic) Sebastião Dias, com a sua meia légua de largo, e, cheia a dita meia légua, que o suplicante se guiar, pelo comprimento do dito riacho, com 2 léguas de comprimento e meia de largo a parte de cima, a para a parte de baixo com uma meia légua, que ao tudo faz duas léguas de comprimento e duas de largo”. (Sesmarias Cearenses. p. 16).
Pelas informações acima, tudo indica que as terras requeridas são as mesmas que pertenciam ao marido de Joana Paula Vieira. Isso explica, em parte, o silêncio das fontes em relação a Joana Paula e seu esposo como supostos fundadores de Ipu.
Desta forma, ocupação da região que daria origem a cidade de Ipu é, de fato, anterior a construção da primeira capela. Porém, o povoamento só começa a se organizar e a crescer após a edificação de sua capela, cuja data, como analisamos acima, não é possível afirmar com certeza. Neste local, seria erguida mais tarde, provavelmente em 1871 (início da construção), a igreja que se tornaria a sua primeira matriz, após a demolição da anterior, quando já era vila (Vila Nova do Ipu Grande).
A partir dali, começou a se edificar, rompendo os grandes espaços, o casario entorno da capela. O seu crescimento foi lento. Com pouca importância, subordinado à freguesia da Serra dos Cocos e suplantado pelo Campo Grande (atual Guaraciaba do Norte), então a região mais importante da freguesia, o povoado crescia a passos lentos.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

A Nova História do Ipu - IX

Bica do Ipu. Fotografia sem data. Fonte: Acervo do prof. Mello

UNIDADE 1: A FORMAÇÃO DO POVOADO

Capítulo 3

2. Formação Religiosa

A Capela

Aqueles que escreveram sobre os primórdios de nossa ocupação, seguindo o caminho aberto por Eusébio de Sousa, defendem que a região que mais tarde viria a ser a cidade de Ipu nasceu antes da edificação de sua primeira capela. 
No entanto, é só a partir da edificação do futuro templo de São Sebastião, erguido ainda no século XVIII, que o povoado cresceu e se organizou. Desta forma, o arraial “nascia” do chamado Quadrado ou Quadro da Igrejinha.
A Igreja teria sido edificada ainda no ano de 1765 por missionários vindos da Vila Real de Viçosa com o intuito de dar continuidade à catequese. Sobre esse fato a autora do Ipu em Três Épocas se refere: “Chegaram uns missionários da Vila Real de Viçosa e continuaram o trabalho de catequese iniciado por D. Joana Paula Vieira Mimosa, seguidos de outros padres, vindos depois, os quais construíram a pequena CAPELA, edificada em 1765 e em torno da qual surgiu o POVOADO chamado PAPO”. (MELLO, Maria Valdemira Coêlho. O Ipu em Três Épocas. Fortaleza: Editora Popular, 1985, p. 14.). 
A autora não faz alusão à fonte de pesquisa. No entanto, essas informações foram extraídas, ao que parece, da Enciclopédia dos Municípios.
Em sua passagem pelo Ipu em 1884/1885 Antonio Bezerra deixou registrado em seu livro, Notas de Viagem, o seguinte: “Com relação à origem do Ipu, fui informado de que o local onde hoje se acha assentada a cidade pertencia ao sitio de Manuel Alves Fontes, que em 1792 fizera doação de uma légua de terras em quadro ao arago S. Sebastião, edificando-se uma capela no lugar denominado Papo".
Essa doação foi feita para a fundação de um arraial em competência com outro que começava a formar-se em Ipueiras. A capela conservou-se até o ano de 1871, tinha a frente para o poente, ao contrário da Igreja atual, e servia para nela celebrar-se a missa de natal. (MENEZES, Antonio Bezerra de. Notas de Viagem. Fortaleza: Imprensa Universitária - UFC, 1965. p. 202, p. 204).
A doação de terras para a edificação e patrimônio da capela foi feita em 1780 pelos adquirentes do território antes pertencente aos antigos sesmeiros de Ipu. Esse território veio a pertencer ao tenente João Alves Ferreira e sua esposa. Foram eles, segundo Eusébio de Sousa, munido de documentação cartorial, os doadores de uma légua de terras para a edificação da capela e formação do patrimônio religioso. As terras pertencentes antes a Luis Vieira de Sousa e D. Joana Paula, foram passadas para o sargento João Alves Fontes, que as deixou para seus herdeiros.
Sobre a doação das terras ao arago S. Sebastião, Eusébio de Sousa afirmar com base em notas lavradas em cartório em 22 de janeiro de 1880.
Também Augusto Passos faz referência a este fato: “Vindo de Pernambuco, e aqui, no sitio Ipu, localizaram-se antigamente os portugueses Tenete João Álvares Madeira e sua mulher dona Angélica Pinto de Mesquita e o Alferes Manoel Alves Pereira e sua mulher dona Maria Álvares Madeira filhos e genros do antigo possuidor do referido sítio Ipú, João Álvares Fontes, de quem herdaram o mesmo sítio (...).
            Em janeiro de 1780, como se evidencia do livro de notas nº 6, a fls. 50 a 51, do 1º tabelião publico do Ipu, cidadão Aldalberto Aragão, os mensionados tenente João Álvares Madeira, Alferes Manoel Alves Pereira e suas respectivas mulheres, fizeram doação de alludida légua de terra de Ipu, por escritura pública, passada então pelo tabelião publico de Villa Nova d´El-Rei (Campo Grande), Antonio Carlos da Cunha, - ao  hospicio ou convento de Nossa Senhora do Carmo, do Recife, de Pernambuco (...)”. (Revista dos Municípios. Fortaleza-CE, ano I, nº 1, fev. 1929, p. 28).
Segundo Augusto Passos, a doação das terras foi feita em nome do convento de Nossa Senhora da Piedade do Monte e não ao patrimônio do padroeiro São Sebastião. As terras passaram a fazer parte, mais tarde, ao patrimônio do padroeiro local, não existindo, segundo ele, documento algum que ateste a transferência.
Com a doação das terras foi construída a antiga capela no “quadro da igrejinha”, denominação posterior. Antes fora construída uma capela subordinada a Freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos, com a sua frente para o poente, em local diferente da primeira matriz de Ipu. Não se sabe ao certo sobre a data exata, provavelmente teria sido construída logo após a edificação da capela da Serra dos Cocos, em 1733, mais tarde elevada a Freguesia em 1757.

Sobre como as terras pertencentes ao capitão-mor Luis Vieira de Sousa e de sua esposa Joana Paula passaram para João Alves Fontes, nem Eusébio de Sousa, nem Augusto Passos solucionam a questão por falta de fontes ou relatos orais seguros.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Educação: um caso de polícia

O desespero diante da aprovação da redução do salário do magistério em Juazeiro do Norte. Fonte: Normando Soares/Agência Miséria

Três fatos recentes, noticiados na grande mídia e ligados à educação pública, me levaram à reflexão e à mesa para escrever este artigo. A primeira notícia não é uma novidade para nenhum de nós, apenas confirmar o óbvio. Pesquisas demonstraram que o professor brasileiro é um dos mais mal pagos do mundo, recebendo uma renda abaixo do Produto Interno Bruto do país. O salário de um docente que atua no ensino fundamental é de apenas 10% do que recebe um professor, na mesma situação, na Suíça, por exemplo. Isso explica a grande disparidade entre os indicadores sociais de um país que reconhece a importância da educação e outro que a despreza.
A segunda notícia, também resultado de estudos, demonstrou que a renda do magistério, no ensino básico, no país, é a menor entre os profissionais de nível superior, embora na década passada a categoria tenha registrado ganhos acima da média dos demais profissionais. Isso explica por que o magistério está entre as profissões menos promissoras e procuradas pelos estudantes.
A terceira notícia é algo surreal, incompreensível, talvez, e estarrecedora. Refiro-me ao ato vergonhoso ocorrido recentemente numa cidade do interior do Ceará. Raimundo Macedo (PMDB), prefeito de Juazeiro do Norte, enviou à Câmara Municipal daquela cidade, no dia 6 de junho, mensagem que reduzia os salários dos professores da rede municipal. A medida foi aprovada por ampla maioria dos vereadores e afetará quase dois mil educadores, que, em alguns casos terão seus salários reduzidos em até 40%.
            A medida foi aprovada numa sessão tumultuada, com protestos dos professores e uso da violência por parte das autoridades. Com a redução, um professor graduado passará a receber, por 20 horas semanais, o salário astronômico de R$ 887,34. Os mesmos edis que aprovaram essa medida imoral recebem, cada um, R$ 10.012,00 (dez mil e doze reais), por mês, para participar de duas sessões plenárias por semana. Cerca de dois mil professores terão, portanto, seus salários reduzidos em até R$ 600,00.
            O caso de Juazeiro do Norte é apenas o exemplo mais acabado e imoral de uma realidade vivida pelo país, já denunciada pelas duas primeiras notícias: a educação básica nunca foi uma prioridade e nunca foi, igualmente, levada a sério. A atitude desse tipo de político, que contribui para a realidade vivida pelos professores que formam o futuro eleitor, demonstra apenas como o conhecimento, o saber e a formação dos cidadãos sãos tratados.
         Podemos perguntar, por um lado, como fez um importante jornalista televisivo, quanto vale um bom professor, aquele que dedicou sua vida ao conhecimento, à leitura, às teorias, à didática, à pesquisa e ao saber, e se esforça para formar pessoas, cidadãos, bons estudantes, bons leitores, seres humanos melhores, bons profissionais. Por outro lado, podemos perguntar, também, quando vale um político dessa estirpe, um vereador, que, sem discutir com a comunidade, com os interesses coletivos, aprova algo tão imoral e ilegal.
É esse o tipo mais acabado de político que temos e que a maioria elege. É aquele que a população escolhe em troca de vantagens, pouco se importando se ele tem um projeto de governo, atitude ética ou é honesto. Ele é o reflexo do espelho diante do povo.
        Os três casos relatados representam, juntos, um desestímulo à ciência, ao conhecimento, ao saber e à docência.

            A EDUCAÇÃO ESTÁ DE LUTO!

terça-feira, 16 de julho de 2013

A Nova História do Ipu - VIII

Igrejinha do quadro. Fotografia sem data. Fonte: acervo do prof. Mello.

Unidade 1: A Formação do Povoado

 Capítulo 3

1. A Fazenda Ipú

No início do século XVIII setes pessoas, dentre elas o Coronel Francisco Alves Feitosa e o capitão Luiz Vieira de Sousa, seu cunhado, casado com Joana Paula, enviam ao Capitão-mor do Ceará, Manuel Francez, uma petição solicitando a concessão de três léguas de terras nas “cabeceiras do Rio Acarahú”, para cada um dos requerentes, com o objetivo de serem utilizadas para a criação de gado. O registro da data de sesmaria é 17 de julho de 1722
Apenas o Capitão-mor José de Araújo Chaves, sesmeiro “das ipueiras”, e o capitão Luís Vieira de Sousa, “sesmeiro do Ipu” fixaram residência nas terras concedidas.  Não se sabe a data exata, mas os indícios apontam como provável o mesmo ano de 1722.
Posteriormente, o Cel. João Ferreira Chaves, casado com a filha do capitão Luís Vieira de Sousa com Joana Paula, e sua sobrinha Ana Gonçalves Vieira, vieram para as terras concedidas, onde tinha sido fundada a Fazenda Ipu. É provável que esta última, juntamente com seu marido, tenha se retirado para a Serra dos Cocos, pois o Cel. João Ferreira Chaves, com a sua esposa, receberam várias sesmarias naquela localidade. Era o Capitão Chaves o maior sesmeiro da Serra dos Cocos.
Joana Paula, com seu marido, fundou a Fazenda Ipú, de onde, provavelmente vem o nome do município. 
Sobre o período que estiveram aqui, não se sabe quase nada. Não há documentos e nem mesmo relatos escritos. O mais provável é que não tenham permanecido em sua fazenda por longo tempo, já que a sua extensa família e as inúmeras sesmarias recebidas necessitavam de pessoal para tomar posse. Como a região que viria a ser mais o Ipu era pouco povoada e distante dos mercados consumidores da produção pecuária, é possível que não tenham se interessado por essas terras.
Quando requerido, um lote de terras era facilmente concedido. No entanto era preciso ocupá-lo e demarcá-lo. De acordo com Tristão de Alencar Araripe, Concedida no Brasil uma sesmaria, o concessionário ou sesmeiro era obrigado a demarcá-la judicialmente dentro de dois anos, e pedir depois a confirmação régia, sob pena de perder a mercê; o que se estabeleceu por lei de 1703 e 1753 (...). (ARARIPE, Tristão de Alencar. História da província do Ceará: desde os tempos primitivos até 1850. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2002, p. 133.).
Porém, ainda de acordo com o autor da citação acima, não obstante, essas disposições acima eram geralmente desprezadas.
Mesmo assim, ocupar as terras requeria dispêndio. No caso de sua posse ser vantajosa, era necessário seguir as disposições da lei para confirmá-la. Não sendo a ocupação interessante, os concessionários abandonavam as terras, deixando-as devolutas, requeriam novas sesmarias em outras localidades ou se mudavam para alguma outra terra já adquirida.
Era relativamente fácil obter datas de sesmarias desde que foi posta em prática em 1534. Isso pode ser explicado pelo fato de haver grande disponibilidade de terras e a vontade de Portugal em ocupar esse extenso território, cujos objetivos estão ligados à defesa do território, à consolidação da exploração econômica e, ainda, à cobrança de impostos.
De acordo com Raimundo Girão, obter sesmarias era fácil, bastava para isso apenas ocupar as terras e possuir alguns materiais indispensáveis à fixação. Depois disso, se solicitava às autoridades competentes a concessão de sesmarias: Terra havia muito e para ocupá-la somente se faria preciso chegar com a coragem e mais alguns elementos materiais indispensáveis à fixação. Era, portanto, fácil obtê-la, pois que generosa a liberalidade dos governantes encarregados de distribuí-las. Muitos foram os colonos que reuniram em seu poder número vultoso de sesmarias representando enormes latifúndios. (GIRÃO, Raimundo. Introdução. IN: SOBRINHO, Thomaz Pompeu. Sesmarias cearenses, distribuição geográfica. Fortaleza: SUDEC, 1979, p. 8.).

Esta facilidade em obter sesmarias e a sempre busca por parte dos sesmeiros por melhores terras para sua exploração, de acordo com suas necessidades, contribuíram para que, não raro, inúmeros lotes concedidos fossem abandonados sem obter confirmação, como rezava a lei. Parece ter sido esse o caso de Luís Vieira de Sousa, ou pelo menos de Joana Paula Vieira Mimosa, depois de Viúva.
Continua...

segunda-feira, 15 de julho de 2013

V Simpósio Ipu: Documentário conta parte da história religiosa do distrito de Matriz - Ipueiras

O Documentário que conta parte da história religiosa da Matriz de São Gonçalo da Serra dos Cocos, apresentado no V Simpósio de Ipu, é uma produção dos alunos do Curso de História da cidade de Ipueiras, sob a coordenação do professor Antonio Vitorino, doutorando em História pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).
Trabalho independente, amador, e produzido com recursos próprios, resgata os momentos iniciais da ocupação da Serra da Ibiapaba, abaixo do rio Inhuçú, com a criação do Curato do Acaraú (1757) e da Freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos, que estão na origem dos atuais municípios de Ipueiras, Guaraciaba do Norte, Ipu, Poranga, Nova Russas, Ararendá, Tamboril e Hidrolândia.
Segundo o professor Antonio Vitorino, idealizador do projeto, o documentário foi produzido em duas etapas. Num primeiro momento, os alunos empreenderam um criterioso trabalho de pesquisa. Numa segunda etapa, elaboraram um roteiro. Só, então, finalmente, se deram as filmagens e edição do trabalho. Essa terceira etapa contou com a participação de Fagner Freire.
A construção do documentário contou ainda com a ajuda e participação dos historiadores, Raimundo Alves de Araújo e Heitor Pereira de Carvalho.
O trabalho foi proposto como uma das atividades finais de conclusão de curso para a cadeira de Patrimônio Histórico, ministrada pelo professor Antonio Vitorino, no curso de História ofertado em Ipueiras pelo Instituto de Formação e Educação Teológica (IFETE).
Segue a lista dos alunos envolvidos no projeto:
Alexandre Neves Mesquita
Antonia de Maria Mesquita
Antonio Pereira Porfírio
Cícero Soares Portela
Danielly de Sousa Eufrasino
Danielly dos Santos Feitosa
Elisângela de Sousa Chaves
Elivelto Lima
Elvelany de Oliveira Sousa
Maria Claudiana Oliveira Lima
Maria de Fátima Leitão
Maria Elizanete Oliveira Braga



domingo, 14 de julho de 2013

Monopólio da voz, monopólio do poder

Assistimos atualmente ao desmonte da máquina de produzir opinião e ganhar eleições da gestão municipal passada. A venda da rádio (FM) Novo Tempo, recentemente, e as negociações para a venda da Rádio Regional foram amplamente noticiadas pela mídia local.
Mais do que transações comerciais, negócios, a posse dos meios radiofônicos locais significa o domínio da opinião pública, controle da fala, do direito de produzir imagens sobre a cidade, pessoas e grupos, do poder de dizer, de fazer crer, convencer.
Os políticos locais descobriram muito cedo o grande poder dos microfones. José Carlos Sobrinho (1993-1996) se manteve, por muito tempo, como forte liderança política, controlando os meios de comunicação: a Rádio Regional, fundada em 1992, foi fundamental para elegê-lo e fazer seus sucessores - Simão Martins de Sousa Torres (1997-2000), Antônia Bezerra Lima Carlos (2001-2004) e Sávio Henrique Pereira Pontes (2009-2012). Maria do Socorro Pereira Torres (2005-2008) só conseguiu vencê-lo, porque, junto com seu marido, Francisco das Chagas Torres Junior (O Torrim), quebrou o monopólio da voz, ao fundar, com seu grupo, a FM Cidade.
Sávio Pontes só desbancou o “Pica-Pau” porque, em parte, dominou três emissoras: a Rádio Regional, a FM Novo Tempo e a Rádio Iracema. Ao vencer, trouxe para o seu lado o proprietário da FM que lhe havia feito oposição e, assim, “calou todo mundo”. Durante o seu governo, sabedor do poder dos microfones, monopolizou, com dinheiro, influência e poder, todos os meios radiofônicos da cidade e não permitiu, mesmo em rádios de outras cidades, usando de seu poder na política estadual e sua influência no jogo partidário, nenhum programa político contra o seu governo.
O direito de falar e dizer sobre o seu governo e sobre a cidade cabia apenas ao seu grupo. Assim, foi capaz de construiu uma imagem de grande empreendedor, articulador, grande político, grande liderança, de pulso forte, intocável, imbatível, e o único capaz de levar a cidade ao desenvolvimento tão sonhado por um povo, da mesma forma, tão sofrido. Tais imagens se mantêm ainda de pé entre os seus correligionários, beneficiados por sua política “agregacionista”.
Apenas no final do seu mandato, num período conturbado, não fora mais capaz de monopolizar a fala. E, creio, essa foi sua grande derrota, ao lado de outros fatores importantes, pois a maneira como fazia uso do erário foi mostrada para uma cidade de descrentes e cegos, que só acreditam nos comunicadores da hora do almoço.
As rádios locais são vendidas, mas permanecem nas mãos de grupos políticos. Por quê? Por que todos descobriram que o seu domínio é essencial para a vitória, para a construção de projetos partidários, pessoais e políticos e para a construção de mitos.
Ora, numa cidade em que o nível de consciência política é extremamente pobre e que o debate, na maioria das vezes, gira apenas em torno dos partidarismos, igualmente de baixo nível, é muito fácil “monopolizar” a opinião. Os microfones, quando nas mãos de pessoas sem ética, sem compromisso com a população, gananciosas, sedentas por poder, cargos, influência e dinheiro, e com talento (para manipular), são capazes de transformar uma senhora de 70 anos numa mocinha formosa de 15; o lobo mau na vovozinha; um grande ladrão, corrupto, no maior político que a cidade já teve: humano, preocupado com os mais pobres, um amor de pessoa! É capaz de transformar um perseguidor, ditador, num defensor das liberdades democráticas. É capaz de transformar o diabo, o capeta, o satanás, num grande DEUS, humano, piedoso, que deve ser adorado.
Com as vendas e compras das rádios, podemos estar assistindo à mesma política, tantas vezes repetida: a tentativa de domínio da voz, da fala. Controlar a comunicação é, de um lado, uma forma de criar uma imagem positiva daqueles que a dominam e, de outro lado, de criar imagens negativas dos seus inimigos. A propaganda transforma o produto, lhe dá forma, permite o consumo, a venda. É uma forma de convencimento e controle das mentes, do passado, da história.
Essa é apenas uma das maneiras de fazer política. Dominar os meios de comunicação, também o legislativo (e seus microfones), e parte do judiciário, é a forma ideal de se manter no poder. Neste caso, a democracia se torna apenas uma mascara capaz de convencer-nos de que o poder reside no povo e de que ele nunca é massa de manobra.
Num lugar onde as pessoas são esclarecidas e reconheçam o valor da ética e da educação, talvez a democracia funcione bem, entre nós não creio nisso plenamente. Ela parece estar apenas a serviço do poder e não passar de uma máscara capaz de maquiar o estado de direito.
Apesar de tudo, e paradoxalmente, a democracia é ainda o melhor e mais seguro caminho que existe. 

sábado, 6 de julho de 2013

V Simpósio de Ipu


Ocorrerá entre os dias 9 e 14 de julho, no auditório da Escola Técnica de Ipu, Praça de Iracema, Bica do Ipu e Sítio Alegria, a quinta edição do Simpósio de Ipu. Com o tema Mídia e cultura: desfragmentação do poder? mais de 30 renomados pesquisadores do Brasil e de diferentes áreas do conhecimento se revezarão na apresentação de conferências, mesas redondas, mini-cursos e apresentação de trabalhos.
            A estimativa é de que o evento reúna um público de pelo menos 4 mil estudantes e pesquisadores de diversas cidades do Ceará e do Brasil.
            O Simpósio de Ipu já entrou para o calendário dos eventos culturais do Estado, tendo se mostrado uma ferramenta imprescindível e importante para o fomento à pesquisa, à reflexão e discussões relacionadas ao conhecimento, à ciência, poder, dentre outros temas.

            A cada ano, sempre em julho, o evento reúne uma gama de importantes ciências sociais e pesquisadores (Historiadores, Filósofos, Literatos, Poetas, Sociólogos, etc.), que se revezam nas palestras ministradas para um público seleto de pesquisadores e estudantes de localidades diversas (Ipu, Sobral, Santa Quitéria, Hidrolândia, Ipueiras, Pires Ferreira, Reriutaba, Tianguá, Viçosa, Forquilha, Novas Russas, dentre outras).
            O evento tem o apoio dos historiadores e pesquisadores locais, membros do Grupo Outra História, mantenedores deste jornal, Antonio Vitorino, Iramar Miranda, Raimundo Alves, Reginaldo Alves e Petrônio Lima.
            O evento é organizado por um conselho que tem como presidente, Marcos Sampaio, seu idealizador e realizador maior, e demais membros, Pedro Fernandez Queiroz, coordenador do curso de Filosofia da Universidade Estadual Vale do Acaraú (Sobral), professores, Renato, Alênio Carlos Noronha, Dênis Melo, Antonio Vitorino Farias Filho, Raimundo Alves de Araújo, Antonio Iramar Miranda Barros, Geovane Paulino de Oliveira, Francisco Petrônio Lima, Carlos Augusto Pereira dos Santos, Francisco Leomir Paulino Melo e Antonio Cícero Jerônimo de Sousa.

Conta ainda com o apoio da Associação Universitária de Ipu (UNI).

Como fazer as inscrições?


Aos interessados em participar do evento, as inscrições podem ser feitas no CVT de Ipu - Sebrae Ipu e Tianguá - Escola Profissional de Ipu - Coordenação do Curso de História Sobral - CA de Filosofia Sobral - Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Ipueiras.

Professores e pesquisadores confirmados no evento


Thiago Lima Nicodemo - Graduado em História pela Universidade de São Paulo (USP) e em Direito pela PUC-SP, pós-doutor pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP (IEB-USP). Possui experiência internacional como pesquisador na Universidade de Bologna (Itália, 2007) e Universidade do Texas (EUA, 2009-2010). Atualmente é professor do Programa de Pós-graduado em História na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pesquisador do IEB-USP.

Adelaide Gonçalves - Pós-Doutorado no Instituto de História e Teoria das Ideias, da Universidade de Coimbra. Ocupou o cargo de Diretora Pedagógica da Escola Judicial do TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO 7ª REGIÃO. É professora Associada da Universidade Federal do Ceará. Coordena o Núcleo de Trabalho do Memorial da UFC. Professora da Escola Nacional Florestan Fernandes do MST-Brasil. Tem experiência na área de Teoria da História, História do Brasil e História de Portugal, com ênfase na República e História das Ideias, atuando principalmente nos seguintes temas: anarquismo, mundos do trabalho, memória, imprensa operária, história do livro, práticas de leitura, imigrantes, bibliotecas, revistas. Atua também nos grupos de pesquisa: História Social, Cultura e Linguagens; Grupo de Estudos e Pesquisa em Patrimônio e Memória e Núcleo Antônio Candido de Estudos de Literatura e Sociedade da Universidade Federal do Ceará.
Julio Cesar Bentivoglio – Graduado pela Universidade de São Paulo (USP). Professor Adjunto de Teoria da História na Universidade Federal do Espírito Santo. Atua nas áreas de Teoria e Metodologia da História e de Brasil Império com os seguintes temas: historiografia alemã, francesa e brasileira no século XIX; história das ideias, partidos e cultura política no Brasil dos Oitocentos. É diretor da ANPUH seção ES, vice-diretor do Centro de Ciências Humanas e Naturais na UFES, foi chefe do Departamento de História (2011) e é pesquisador vinculado ao CEO-PRONEX RJ, ao LAB-TEO USP e ao LPHC-UFES.
Beatriz Nader - Profa. Doutora em História (USP) e Pós-Doutora em Sociologia (UENF) - Linha de Pesquisa: Sociedade e Movimentos Políticos
Osvaldo Bertolino - Jornalista Graduado pela Universidade do Estado de São Paulo (USP), escritor e pesquisador da fundação Maurício Grabois e editor do portal desta instituição (grabois.org.br).
Ivina Carla Sousa - Jornalista Participou ativamente do processo de construção da I Conferência Nacional de Comunicação, em 2009.
Pedro Fernandes - Prof. Doutorando em Sociologia (UVA -UFRN)
Petrônio Lima - Prof. Esp. em História (IVA)
Augusto Ridlav - Prof. Esp. em História (UVA)
Denis Melo - Prof. Dr. em História (UVA)
Alênio Carlos Noronha Alencar - Coordenador do Patrimônio Histórico Cultural da Secretaria de Cultura de Fortaleza Mestre em História Social-PUC/SP
Ediberto Florêncio dos Santos - Prof.  do Curso de História (UVA)
Giovane Paulino de Oliveira - Prof. Ms. em Filosofia (UVA)
Ricardo Jorge - Prof. Ms. em Filosofia (UVA)
Raimundo Alves de Araújo - Prof. Ms. em História (UECE)
Valdemar Ferreira de Carvalho Neto Terceiro (UVA)
Antonio Vitorino Farias Filho - Prof. Doutorando em História (UFPE)
Antônio Iramar Miranda Barros - Prof. Doutorando em História (UFES)
Carlos Augusto Pereira dos Santos - Prof. Dr. em História (UVA)
Maria Rakel Amâncio Galdino – Profa. Ms. em História (UFC)
Maria Áurea G. da Silva – Profa. Ms. em História (UFC)












terça-feira, 2 de julho de 2013

Como me tornei Professor e Historiador - I

Foi no final da década de 1990 que eu decidi o meu futuro, aquilo que eu queria ser. Cursava, no Rio de Janeiro, onde morava, o Segundo Grau, hoje Ensino Médio. Como quase todo jovem da minha idade, ainda não sabia bem o que queria. Mas uma coisa era certa: eu era louco pelo conhecimento. Gostava de todas as disciplinas, sem distinção, e me dedicava a elas. Alguns professores me fascinavam por sua forma de apresentar o conteúdo de suas matérias. Literatura e História, no entanto, cada vez mais me seduziam.
Tendo concluído o Segundo Grau, fiquei um ano sem estudar. Durante este período resolvi ler tudo aquilo que tivera vontade, mas que até então me faltara tempo. Retomei a leitura dos Best Sellers: li tudo ou quase tudo de Sydney Sheldon, Harold Robbins e muitos outros autores dessa estirpe. Li alguns autores franceses, como Sartre, Allan Poe e Marcel Proust, por exemplo; ingleses, como Charles Dickens; alemães, russos, etc. Após me entediar com eles, resolvi me dedicar à literatura brasileira: como uma traça em meio a livros velhos, devorei “todos” ou quase todos os clássicos: não sobrou um só livro de Machado de Assis, José de Alencar, Aluísio de Azevedo e outros importantes autores que eu não tenha lido: nem Jorge Amado escapou.
No entanto, senti uma falta tremenda do ambiente escolar. Precisava de novo respirar os ares daquela natureza. Resolvi entrar num cursinho pré-vestibular, sem saber ao certo, ainda, qual curso universitário seguir. Precisava estudar muito para ingressar numa universidade pública, pois não tinha condições de pagar uma faculdade particular.
Durante este período, conheci ótimos professores, dentre eles, um de História. Era um marxista convicto. Quando entrava em sala de aula, transformava-a em seu palco. Ali era o seu teatro. A maneira como ensinava e lidava com o conhecimento me fascinava. Foi aí que comecei a ler muito sobre História. Não me contentava com as aulas e com livros didáticos: eram muito resumidos. Eu queria muito mais: passei a comprar livros de história e a devorá-los: apaixonei-me perdidamente pela Clio (musa da História). Creio que tal paixão esteve ligada, de um lado, ao fato de ela me proporcionar o domínio de uma cultural geral e, de outro, de permitir-me compreender melhor o mundo.

Influenciado pelo professor, que me emprestava livros e me dava dicas de leitura, comecei a ler sobre o marxismo e o socialismo: devorava os livros sobre as revoluções socialistas: Revolução Russa (li livros de Trotski, Lênin, Hobsbawm e outros), Chinesa, Cubana, Coreana etc. Tornei-me quase um revolucionário. Travava discussões acaloradas em sala de aula e não perdia a oportunidade de discutir. Era um exemplo de aluno, sempre citado pelos professores, que participava das discussões em sala e tinha opinião “própria”. Essa atitude, por outro lado, me trouxe alguns problemas e me levou a algumas discussões ferrenhas com alunos e professores. Tornei-me um crítico implacável do capitalismo, do americanismo, da forma de fazer política no Brasil e da corrupção.

Continua...