sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Letrado


Capa da dissertação de mestrado de Jorge Luiz Ferreira Lima. Cópia do autor.

Letrado é o título dessa seção que inauguro hoje. Periodicamente apresentarei ao leitor indicações de boas leituras. Começo com um trabalho sobre a cidade de Ipu. Trata-se da dissertação de mestrado do historiador Jorge Luiz Ferreira Lima, defendida recentemente. Caso tenha interesse de lê-la, é só fazer o download, no site da UFC, no programa de pós-graduação em História.

Jorge Luiz Ferreira Lima. Entre caminhos e lugares do livro: gabinetes de leitura na região norte do Ceará (1877-1919).

Entre caminhos e lugares do livro: gabinetes de leitura na região norte do Ceará (1877-1919) é resultado da dissertação de Mestrado de Jorge Luiz Ferreira Lima, apresentada ao Programa de mestrado em história da Universidade Federal do Ceará. Nela o autor busca apresentar a trajetória dos gabinetes de leitura na região norte do Ceará (Sobral, Granja, Ipu, Camocim e Viçosa) entre fins do século XIX e as primeiras décadas do século XX, com base na consulta a jornais, livros, memórias e entrevistas.
Com base nos acervos de duas dessas instituições (Ipu e Camocim), dos quais teve acesso, Jorge Luiz Ferreira Lima busca discutir a constituição de uma rede de comunicação, que teria se estabelecido na região norte, em torno da circulação de livros. Para chegar a esta conclusão, percorre os locais de produção e publicação, passando pelas livrarias localizadas nos principais centros distribuidores do comércio livreiro nacional até chegar aos leitores e aos acervos dos gabinetes de leitura.
A tese central do autor, portanto, é de que teria se estabelecido na então região norte do Ceará, entre 1877 e 1919, uma microrrede de comunicação em torno da circulação do livro. Para chegar a essa conclusão, utiliza como fontes primárias os próprios livros pertencentes aos acervos de dois gabinetes, atentando para as pequenas pistas e indícios presentes nos próprios livros, como por exemplo, carimbos de livrarias ou de firmas distribuidoras, dedicatórias, etc., e para os indícios presentes na imprensa da época.
Dois caminhos teóricos e metodológicos se apresentaram ao autor. O primeiro, aquele seguindo por Roger Chartier em sua história da leitura. Para este, a história da leitura é encarada como prática social “que ajuda a construir representações da realidade, reconstituindo a experiência do leitor com o texto” e que levam à construção de sentidos, às maneiras como o leitor se apropria do texto. Assim, o livro é encarado como “texto” que permite questionar a experiência do leitor ao colocar-se em contato com eles. O segundo caminho, é aquele seguido por Robert Darnton que pensa o livro, em um de seus trabalhos, com base em sua materialidade. Darnton em “O que é a história do livro?” busca mapear o circuito percorrido por livros “proibidos” na França, desde sua impressão fora de suas fronteiras até chegar a seus leitores finais, tendo como preocupação central a identificação dos principais sujeitos envolvidos na produção, transporte, comércio e distribuição dos livros, visualizando a existência de uma rede de comunicação.
Jorge Luiz Ferreira Lima descarta a possibilidade de tratar a história do livro com base nos pressupostos apresentados por Chartier por considerar problemático reconstituir as maneiras como os leitores se apropriam do texto, com as fontes que possui. O caminho metodológico apresentado por Darnton se mostra mais interessante e profícuo ao autor. Desta forma, passa a encarar o livro não como texto, mas como objeto, em sua materialidade, como faz Darnton, e cuja preocupação central é investigar os caminhos percorridos pelo livro deste a sua produção, até chegar ao leitor final, aquele dos gabinetes de leitura, evidenciando a existência, na região norte do Ceará, de uma microrrede de comunicação do material impresso que envolvia o seu transporte, comercialização, doação e a sua ligação com a imprensa.

Boa leitura.
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