sábado, 28 de setembro de 2013

Jornal Ipu Grande 43

Capa do Jornal Ipu Grande, edição de setembro.

Editorial

Com muito orgulho entregamos ao leitor a edição 43 deste periódico. Ele se mantém fiel à sua proposta, cuja essência consiste em ser uma alternativa à grande imprensa ou à imprensa local, centrando suas forças na valorização de nossa cultura e na divulgação de nossa história.
É um “jornal” feito para quem gosta de qualidade, para quem tem conteúdo e despreza as futilidades divulgadas por uma péssima mídia, que na ânsia de vender, fazer lucro e aumentar seu raio de circulação quer transformar tudo em notícia, mesmo a depilação de uma celebridade, querendo fazer-nos de idiotas. Infelizmente esse tipo de coisa atrai grande público e prende a atenção de uma parcela significativa da população, que aceita isso sem fazer uma reflexão crítica.
Aqui o leitor não encontrará futilidades, mas densidade. Não encontrará, da mesma forma, elogios vazios e nem defesa de projetos políticos. Ter o pensamento livre é a nossa marca.
Portanto, nesse momento tão singular em que vive a cidade, comemorando os seus 173 anos de emancipação política, colocamos à disposição dos leitores reflexões sobre a história dessa bela e maltratada cidade.
Nesta edição, o professor Vitorino publica a quarta parte de suas “Histórias do Ipu” e conta/analisa a organização político-administrativa da Vila Nova do Ipu Grande, no momento da emancipação política nossa terra e traz uma reflexão, bastante instigante, sobre a construção do mito de origem desta urbs e que gira em torno da figura de Joana Paula Mimosa, tida como a fundadora de nossa cidade.
Gabriel Arcanjo, por sua vez, apresenta ao leitor a quarta parte de seu inquietante romance, “Nunca é tarde pra chorar”, intitulada “rixa de morte no Cabaré”. Episódio dramático, verossímil, instigante, gostoso de ler e ao mesmo tempo perturbador.
Por coincidência - ninguém combinou - em sua coluna “Coisas do meu Ipu”, o professor Mello fala do fim dos cabarés, descrevendo o “tipo físico” de algumas meretrizes que viraram a cabeça dos “marmanjos” e jovens ipuenses sempre prontos e dispostos a gastar seus vigores numa cidade que condenava o sexo comprado.
Petrônio Lima, em seu belo artigo, fala do encanto das ruas e da arte de andar a pé.
Finalmente, esta edição marca a estreia da coluna “Arte Literária”, com o artigo “Menção Poética”, do poeta Valdemar Neto Terceiro, espaço onde destila um pouco de veneno, condenando a forma de fazer poesia dos poetas ipuenses e àqueles afeitos aos didatismos, ao academicismo e às teorias. Lugar para você escrever é aqui mesmo, caro Valdemar! O leitor pode conferir se quiser.
Resta apenas desejar... Boa leitura.   

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

Letrado

Capa da dissertação de mestrado de Jorge Luiz Ferreira Lima. Cópia do autor.

Letrado é o título dessa seção que inauguro hoje. Periodicamente apresentarei ao leitor indicações de boas leituras. Começo com um trabalho sobre a cidade de Ipu. Trata-se da dissertação de mestrado do historiador Jorge Luiz Ferreira Lima, defendida recentemente. Caso tenha interesse de lê-la, é só fazer o download, no site da UFC, no programa de pós-graduação em História.

Jorge Luiz Ferreira Lima. Entre caminhos e lugares do livro: gabinetes de leitura na região norte do Ceará (1877-1919).

Entre caminhos e lugares do livro: gabinetes de leitura na região norte do Ceará (1877-1919) é resultado da dissertação de Mestrado de Jorge Luiz Ferreira Lima, apresentada ao Programa de mestrado em história da Universidade Federal do Ceará. Nela o autor busca apresentar a trajetória dos gabinetes de leitura na região norte do Ceará (Sobral, Granja, Ipu, Camocim e Viçosa) entre fins do século XIX e as primeiras décadas do século XX, com base na consulta a jornais, livros, memórias e entrevistas.
Com base nos acervos de duas dessas instituições (Ipu e Camocim), dos quais teve acesso, Jorge Luiz Ferreira Lima busca discutir a constituição de uma rede de comunicação, que teria se estabelecido na região norte, em torno da circulação de livros. Para chegar a esta conclusão, percorre os locais de produção e publicação, passando pelas livrarias localizadas nos principais centros distribuidores do comércio livreiro nacional até chegar aos leitores e aos acervos dos gabinetes de leitura.
A tese central do autor, portanto, é de que teria se estabelecido na então região norte do Ceará, entre 1877 e 1919, uma microrrede de comunicação em torno da circulação do livro. Para chegar a essa conclusão, utiliza como fontes primárias os próprios livros pertencentes aos acervos de dois gabinetes, atentando para as pequenas pistas e indícios presentes nos próprios livros, como por exemplo, carimbos de livrarias ou de firmas distribuidoras, dedicatórias, etc., e para os indícios presentes na imprensa da época.
Dois caminhos teóricos e metodológicos se apresentaram ao autor. O primeiro, aquele seguindo por Roger Chartier em sua história da leitura. Para este, a história da leitura é encarada como prática social “que ajuda a construir representações da realidade, reconstituindo a experiência do leitor com o texto” e que levam à construção de sentidos, às maneiras como o leitor se apropria do texto. Assim, o livro é encarado como “texto” que permite questionar a experiência do leitor ao colocar-se em contato com eles. O segundo caminho, é aquele seguido por Robert Darnton que pensa o livro, em um de seus trabalhos, com base em sua materialidade. Darnton em “O que é a história do livro?” busca mapear o circuito percorrido por livros “proibidos” na França, desde sua impressão fora de suas fronteiras até chegar a seus leitores finais, tendo como preocupação central a identificação dos principais sujeitos envolvidos na produção, transporte, comércio e distribuição dos livros, visualizando a existência de uma rede de comunicação.
Jorge Luiz Ferreira Lima descarta a possibilidade de tratar a história do livro com base nos pressupostos apresentados por Chartier por considerar problemático reconstituir as maneiras como os leitores se apropriam do texto, com as fontes que possui. O caminho metodológico apresentado por Darnton se mostra mais interessante e profícuo ao autor. Desta forma, passa a encarar o livro não como texto, mas como objeto, em sua materialidade, como faz Darnton, e cuja preocupação central é investigar os caminhos percorridos pelo livro deste a sua produção, até chegar ao leitor final, aquele dos gabinetes de leitura, evidenciando a existência, na região norte do Ceará, de uma microrrede de comunicação do material impresso que envolvia o seu transporte, comercialização, doação e a sua ligação com a imprensa.

Boa leitura.

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

A Nova História do Ipu - XI

Em 1º plano, antiga Casa de Câmara e Cadeia. Álbum de 1940. Acervo: prof. Mello

UNIDADE 2: Organização político-administrativa

Introdução

O século XIX marca um período muito importante na história da Terra de Iracema. O povoado passou por episódios e momentos contraditórios.  De um lado, vivenciou a sanha sanguinária dos Mourões: seus Bacamartes cuspiram fogo em toda a região da Serra dos Cocos, que ficou conhecida como o “País dos Mourões”. Por outro lado, no mesmo período, a população da Freguesia vivenciou a queda e decadência dos mesmos Mourões. Seu desafeto, o padre Correia, muito contribuiu para isso.
            A segunda metade do século XIX marca um período de crescimento econômico para o povoado, com o desenvolvimento, principalmente, da produção de algodão. Por isso, após ganhar o status de centro político, passa a sede da freguesia, a cabeça de comarca e finalmente a cidade. Com passos largos, a pequena urbs do “sertão” caminhava para tornar-se uma das regiões mais importantes e populosas do interior do Ceará. O mito de José de Alencar apenas deu maior visibilidade a Terra de Iracema.
Continua...