sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A Nova História do Ipu - XIV

A CRIAÇÃO DA VILA NOVA D'EL-REY (Continuação)

Como afirmamos anteriormente, a documentação alude que a Vila Nova d’El-Rey foi criada para “exterminar fascinorosos” que viviam ali refugiados. Um dia após sua criação, por alvará de 12 de maio de 1791, recebeu a visita do Ouvidor-geral e Corregedor da comarca, Manuel de Magalhães Pinto e Avelar de Barbelo. Este deixou instruções para o funcionamento da Câmara. Uma delas determina:

(...) que os oficiais desta Câmara cuidassem principalmente em dar a devida e pronta execução à Real Ordem de sua Majestade que fica transcrita nesse livro a fim de expulsarem e castigarem todos os homens vadios e sem ofício que se não ocupam diariamente ou em plantar as terras ou em beneficiar os gados ou nos ofícios mecânicos da sociedade mandando porém dar e autuar todos aqueles que passado o tempo dos editais que havia mandar publicar se não viessem agregar a esta nova vila. E que além disso condenariam na quantia de vinte mil reis para as despesas do conselho por cada uma todos aquêles que agregassem aí ou consentissem dentro(?) das suas terras os ditos homens vadios ou malfeitores. ARAÚJO, Revista do Instituto Histórico. ARAÚJO, J. Oswaldo. Documentos Extraídos do Livro de Autos de audiências e Capítulos de Correição – Vila Nova D'el-rei – de 1791 a 1827. In: Revista do Instituto do Ceará. T. LXXIX, ano LXXIX,1965).

No documento estão presentes as duas preocupações centrais da existência da Câmara, qual seja a de fomentar o desenvolvimento econômico, ou de controlá-lo com base na cobrança dos impostos, e de exterminar os conflitos locais para, portanto, manter a ordem.
Toda a região sob a jurisdição religiosa da Serra dos Cocos era conhecida desde há muito tempo por suas lutas entre os potentados e por assassinatos envolvendo grupos familiares poderosos, dentre eles os Melos, os Mourões, Chaves e Feitosas.
Com a criação da vila, ficou toda a região da Serra dos Cocos subordinada politicamente ao Campo Grande. Veio dessa época a sua fama de vila “turbulenta e sediciosa” como afirma o padre Sadoc: A liderança civil fez com que, no tempo do cangaço dos Melos, Mourões, Feitosas, a vila adquirisse a fama de turbulenta e sediciosa. ARAÚJO, Pe. Francisco Sadoc. História Religiosa de Guaraciaba do Norte. Fortaleza-CE. Imprensa Oficial do Ceará, 1988, p. 59).
Daí é que advém o apelido de “Vila Nova dos Enredos”, para a Vila Nova d’El Rey. Os autores que escrevem sobre os primórdios da cidade de Ipu, erroneamente atribuem essa máxima para caracterizar sua história. Naquele momento, o que viria a ser a cidade de Ipu estava subordinada juridicamente ao Campo Grande e não passava de um povoado ainda inexpressivo.
A partir da criação da vila, o antigo Campo Grande passou a atrair para suas cercanias grande número de famílias poderosas e abastadas, passando a disputar os cargos de vereança.
Quando da primeira eleição para o senado da Câmara, saiu vencedor Antonio Barbosa Ribeiro, natural do campo Grande, para os cargos de Presidente e Juiz Ordinário.
Têm início aí as rivalidades políticas locais para assumir os cargos camarários, cujas desavenças muitas vezes eram resolvidas pela força.
Caso exemplar ocorreu em dezembro de 1794 quando o juiz ordinário foi brutalmente assassinado pelos capangas de João Ferreira Chaves, irmão do rival político daquele juiz, Manuel Martins Chaves, coronel de cavalaria. O assassinato teria sido motivado por uma desavença numa disputa de corrida de cavalos. O coronel Manuel Martins Chaves havia desafiado o cavalo do juiz para uma corrida com seu corcel. Ao ser derrotado, o coronel Chaves propôs a compra do animal, sendo recusada a proposta. O coronel da cavalaria, então, e como vingança, mandou matar o animal. Nascia ali uma rixa entre os dois na qual o coronel teria sido ameaçado pelo juiz. Em março de 1795 o juiz era barbaramente assassinado, sendo acusado pela justiça o coronel Martins Chaves. Este mais tarde seria preso e enviado para Portugal, onde viera a falecer. Mais tarde foi apurado que os verdadeiros mandantes do crime não foram o coronel Manuel Martins Chaves e seu sobrinho, Bernardino Gomes, como se supunha, mas Antonio Manuel, irmão do coronel preso.

Continua.



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A Nova História do Ipu - XIII

A criação da Vila Nova d'El-Rey

Igreja de Nossa Senhora dos Prazeres. Matriz de Guaraciaba do Norte, antigo Campo Grande

Diante da violência e dos desmandos ocorridos em toda a região da freguesia da Serra dos Cocos, em fins do século XVIII, e para garantir a posse dos bens de seus proprietários legais, foi criada, em 1791, a Vila Nova d’El Rey com sede na região denominada Campo Grande. É o que atesta o desembargador Ouvidor Geral e Corregedor da Câmara, Gregório José da Silva Coutinho, em documento de 30 de março de 1803:

Tendo-se criado esta vila para se exterminar facinorosos que nela viviam refugiados, cometendo tôdas as castas de desordens sem subordinação alguma e vivendo à maneira de feras bravas, tem mostrado uma triste experiência que longe deve merecer êstes verdugos da comunidade se tem ao contrário ignorado o seu abominável corja e devendo tôdas as  providências necessárias para exterminar semelhantes malvados se estabelecem um par em alterável entre os vastos fiéis que até para não virem destas desgraçadas vítimas dêstes monstros e defendidos por aquêles mesmos que em razão do sangue ou em razão devias quanto deviam puni-los não só derem desertados desta vila mais até proveram incansavelmente não só serviram os empregos honoríficos da Câmara; por cujo motivo. (ARAÚJO, J. Oswaldo. Documentos Extraídos do Livro de Autos de audiências e Capítulos de Correição – Vila Nova D'el-rei – de 1791 a 1827. In: Revista do Instituto do Ceará. T. LXXIX, ano LXXIX,1965, p. 357).

Bem antes, em 7 de setembro de 1794 o Ouvidor Geral e Desembargador da Comarca, a qual a Vila Nova d’El-Rey estava subordinada, José Victorino da Silveira, registrou edital para se perseguirem os “vadios e vagabundo” que residem na vila e seus termos.

Faço saber aos que ao presente edital virem ou dele notícia tiverem, que sendo-me presente as multas e freqüentes desordens acontecidas nesta vila de ferimentos, roubos e mortes e que têm a sua origem dos vadios e vagabundos que nela existem sem oficio nem estabelecimento algum sendo agasalhados pelos moradores e senhores das fazendas tendo-os em segredo para cometerem as mesmas desordens de que se tem seguido a outros danos a república e povos o que em razão do meu cargo devo coibir e por tudo em tranqüilidade, portanto, ordeno e mando que passados quinze dias depois da publicação desta em diante a todos os moradores desta mesma vila e seu termo façam despejar das suas terras os ditos vadios e vagabundos (…). (ARAÚJO, J. Oswaldo. Documentos constantes do livro de registro de valores, Notas e outros papeis dirigidos à câmara. In: Revista do Instituto do Ceará. T. LXXXII, ano. LXXXII (1968), p. 225).

A criação da Vila se dá num momento em que a coroa portuguesa buscava exercer uma política de controle sobre a colônia (período pombalino), e uma busca de aumentar a exploração econômica. O Ceará, que só tinha duas câmaras municipais até 1738, a de Aquiráz (1713) e a de Iço (1738), recebeu inúmeras outras: Aracati (1748); Viçosa do Ceará, Caucáia e Parangaba (1759), Messejana (1760), Baturité e Crato (1764); Sobral (1773), Granja (1773) e Quixeramobim (1789).
As câmaras municipais cada vez mais sofrendo interferência do poder central, funcionavam, naquele contexto, como um braço da coroa portuguesa, organizando a cobrança do imposto, cuja fatia era repassada ao governo central, e exercendo a ordem local, buscando pôr fim aos intensos “conflitos sanguinários” comuns naquelas paragens.

Campo Grande era o povoado mais importante à época na Freguesia da Serra dos Cocos e tinha uma posição estratégica entre a serra e o sertão, entre o povoado da Fazenda Ipú e a Serra dos Cocos. Era ainda a região mais desenvolvida economicamente. A escolha da instalação da vila não foi aleatória. Compreendia a uma estratégia política e econômica. Ao mesmo tempo em que poderia gerar fundos econômicos à coroa e à capitania, serviria para pôr ordens às lutas locais. Dentro de um quadro mais amplo, a criação de todas essas câmaras espalhadas pela capitania se inseria numa política de controle que partia do centro administrativo.

Continua.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Uma lavagem de roupa: Dilma Rousseff é Cidadã Ipuense?


Parte do projeto de lei. Fonte: ipunoticias.com
Hoje fui surpreendido por uma notícia estarrecedora. Sim, estarrecedora, pelo menos para mim. Estou horrorizado! Sinceramente, duvidei e pensei tratar-se de uma piada. Para a minha infelicidade, era tudo verdade! Precisei de provas para me convencer.
Lá no blog de notícias locais estava escrito que a Câmara Municipal de Ipu havia aprovado um projeto de lei concedendo à presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, o título de cidadã ipuense, sugestão da Afai (Associação dos Filhos e Amigos do Ipu), sob a justificativa de homenageá-la pelos “esforços” na “consecução” do Selo Salto do Ipuçaba.
A notícia vinha acompanhada da prova: o projeto de Lei aprovado por unanimidade pelos edis.
Infelizmente, nossos vereadores, historicamente, têm se destacado pelos belíssimos e importantes projetos que enviam para a Câmara Municipal, que tratam de nomear as ruas, bairros, logradouros públicos, escolas, etc., uma forma de homenagear seus parentes. Com algumas exceções, aqui e acolá, aparece uma boa proposta. Tais projetos, como a concessão de títulos de cidadania, inclusive para a presidenta da República, são, indiscutivelmente, essenciais para resolver os problemas que assolam nossa cidade e nossa população mais carente!
Sinceramente, não me sinto representado pelo legislativo municipal e, depois desse despautério, não sei, honestamente, o que pensar de “nosso” poder legislativo. Quando vou àquela casa, quase sempre me decepciono. Creio que há tanto para se propor e fazer por nossa cidade! Creio que há tantos projetos nas áreas de educação, saúde, saneamento básico, por exemplo, que precisam ser propostos! Será que nossos vereadores, ou pelo menos a maioria deles, se preocupam, de fato, com os interesses da coletividade, com os menos favorecidos?
Que fique claro que não tenho nada contra o Selo, que pode promover o nome de nossa cidade, embora acredite que existam outras formas mais interessantes neste sentido, mas contra o descabimento de conceder título de cidadania a quem nunca pisou aqui e nem se importará diretamente com os problemas mais pontuais de nossa cidade, que nada tem a ver com esta terra! Deixem que o congresso conceda as honrarias aos chefes do executivo!
Daqui uns dias os vereadores do Ipu irão querer propor reconstruir as Torres Gêmeas aqui para homenagear os Estados Unidos.
Se a moda pega, Pires Ferreira, com ciúmes, pode querer conceder o título de cidadão piresferreirense ao Lula ou ao Barack Obama!
O que a Dilma vai fazer com o seu título de Cidadã Ipuense? Convidem ela para as festas de janeiro ou para o Reencontro! Por que não conceder a ela um troféu pelos muitos serviços prestados à “terra de Iracema”?
Vereadores, meus amigos, usem o bom senso ou contratem uma assessoria! 

domingo, 24 de novembro de 2013

"Botar a POMBA pra DENTRO!”.

Brasão do Estado do Ceará com a POMBA FORA
No mês de novembro, de 2008, ocorreram, no Fórum de Ipu, três julgamentos. No primeiro deles, o réu fora denunciado pela Promotoria Pública, cabendo-lhe a acusação. O promotor iniciou seu pronunciamento mostrando o quão a Justiça estava sobrecarregada de trabalhos (só no Ipu existiam, na época, cerca de 2 mil processos para serem julgados) e como era difícil fazer justiça no Brasil. Atacou o princípio da ampla defesa dada aos réus e a quase inoperância dos órgãos estatais em produzir provas contra aqueles que infringem as disposições da lei. Em sua retórica, queria mostrar que tudo convergia para a absolvição dos réus em processos e que o grande culpado disso era o Estado.
Um dos advogados de defesa do Réu, em questão, iniciou sua fala atacando exatamente o que o promotor público havia dito. Segundo ele, o estado de coisas que tinha se estabelecido na justiça não se dava por falta de recursos. Para exemplificar, falou de um caso inusitado, o da “Pomba de Cid Gomes”.
Brasão atual do Estado com a POMBA DENTRO
Mostrou o nobre advogado, que o símbolo do Estado de Ceará (ou Brasão), tinha em um de seus lados, uma pomba (voando), só que fora do desenho central ou brasão, e que o atual governador do Estado, mandou que se pintasse a pomba DENTRO do símbolo.
Segundo o advogado, só para pintar novos símbolos em todas as repartições do Estado com o desenho da pomba DENTRO do Brasão, o governador teve que gastar milhões. Disse ele, “O Cid Gomes gastou milhões só para Botar a POMBA pra DENTRO!”.


Comentário: ora, o governador “goza” (gastando dinheiro público futilmente) e nós é que pagamos a conta!?

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Como me tornei Professor e Historiador - parte II

Decidi então fazer história, talvez, para entender a sociedade e tentar mudá-la. Decepcionei muito de meus colegas: um deles, que ia fazer medicina - tentaria passar no vestibular pela quarta vez - e que disputava comigo quem seria capaz de tirar o primeiro lugar nos simulados ou resolver aquela questão cascuda de física ou de matemática, me disse,  meio decepcionado, mais ou menos isso: “Antonio, cara, você sabe tão ou mais física e matemática do que eu, tem condições de passar para qualquer curso, e vai fazer história!?”
Meus colegas falavam muito em fazer um curso que pudesse proporcionar-lhes uma vida confortável, um ótimo emprego e um gordo salário, ter um belo carro e finais de semana de diversão. Isso era muito pouco para mim, não me seduzia. Eu queria algo que fizesse sentido, embora isso não estivesse muito claro em minha mente, naquele momento.
Confesso que refleti muito sobre isso, mas ninguém mudaria a minha opinião. Estava decidido! Eu sou cabeça dura, quando me decido por alguma coisa, vou até o fim, nunca deixo ou deixei um projeto pelo meio do caminho, pelo menos até hoje. Queria, pois, fazer história, e mais, na melhor faculdade de história do Brasil, naquele momento: o curso da Universidade Federal Fluminense, nota máxima na avaliação da Capes, e com um corpo docente invejável, de excelência.
Então, prestei vestibular para quatro faculdades (UERJ, UFRJ, UFF e Universidade Veiga de Almeida – esta particular). Passei em todas. Embora morasse perto da UERJ e relativamente próximo do largo do São Francisco, no centro do Rio de Janeiro, onde funcionava o curso de história da UFRJ, já tinha decido que a UFF era o meu norte.
Meu primeiro dia de aula foi mágico. Morava na Tijuca e o Campus do Gragoatá, onde funcionava o curso de História, ficava em São Domingos, Niterói, do outro lado da Baia de Guanabara. Para chegar lá pegava um ônibus até a Praça XV de novembro, e, de lá, uma barca, até o Centro de Niterói. Caminhava, então, por cerca de maravilhosos 15 minutos, até chegar ao Campus. Este é imenso, rodeado de verde, onde se ouve o som dos pássaros cantando, sobretudo pela manhã, horário do curso. O universo era simplesmente fenomenal, pelo menos para mim: muitos jovens, como eu, conversando antes das aulas, discutindo sobre política, história e assuntos diversos. Estava ansioso para conhecer os professores, a minha turma, e fazer amizades.
Após a apresentação do curso pela coordenadora, Martha Abreu, tivemos nossa primeira aula com o professor Paulo Knauss: “Introdução aos Estudos Históricos”. Com o passar do tempo fui me enturmando àquele ambiente novo e instigante.  Aquele universo, para mim, era quase perfeito: espaço de discussão, de embates, de novas ideias, de sonhos.
Mais do que isso, tinha que dar conta de uma quantidade de leitura imensa. Líamos muito. Alguns alunos reclamavam, mas eu seguia lendo. Foi ali que aprimorei o meu hábito de leitura e que também percebi que eu, antes, não passava de um marxista de “meia tigela”. 
Foi ali que passei a ler, a fundo, em alguns cursos, as grandes obras de Marx: O capital e suas obras filosóficas e vi que o Manifesto Comunista, embora uma obra importante, não passava de um panfleto. Aos poucos fui abandonando o marxismo como única explicação para o social. O curso se encarregou de me mostrar que a realidade social é muito mais complexa e que o marxismo não dava conta dela.
Acostumei-me com aquele universo maravilhoso. Aprimorei minha habilidade de falar em público e expor minhas opiniões, respeitando, claro, pensamentos divergentes dos meus colegas e amigos. Discutíamos muito sobre as leituras e em seminários travávamos embates. Éramos muito críticos, e receber uma crítica de um colega não era vista como algo negativo e que descambasse para ataques: aquilo era próprio do ambiente em que vivíamos, pelo menos para aqueles que encaravam a universidade como um lugar do conhecimento, pois sempre havia aqueles que eram relapsos e só queriam curtir, pouco ligando para a sua carreira acadêmica.  
Durante o curso, no entanto, descobri outra paixão, que me acompanha ainda hoje: a pesquisa. Não sei se gosto mais do magistério ou da pesquisa. Mas estou convicto, fazer apenas uma delas seria suicídio para mim. Quando terminei, por exemplo, a faculdade, e comecei a lecionar, isso, inicialmente, me trouxe uma grande alegria, mas depois, percebi que, para mim, não tinha muito sentido só trabalhar.
Tinha um tesão muito grande por sala de aula, de certa forma, ainda tenho. Não recusava proposta nenhuma, nem queria saber muito se o que ganhava era justo ou se era pouco ou muito. Nunca negociava. Logo, estava lecionando em três turnos quase todo dia. Não era aquilo que queria. As coisas para mim têm de fazer sentido.
Resolvi voltar para sala de aula, para estudar. Diminui quase pela metade minha carga horária de aulas. Fiz uma especialização. Antes de terminar, entrei no mestrado e no mesmo ano que o concluí, entrei no doutorado. Afastei-me da sala de aula, e me dediquei ao curso. Foi o período que mais li em toda a minha vida, cerca de 10 a 14 horas de leituras diárias, não poupando nem mesmo o final de semana. Logo senti falta da sala de aula. Resolvi aceitar proposta para ensinar na universidade e descobri que o que mais faz sentido para mim era não apenas a sala de aula ou não apenas a pesquisa. Tenho que fazer as duas coisas. Por isso, devo “trabalhar” (estar em sala) um pouco e pesquisar outro pouco, produzir conhecimento.

Esse é o meu universo. Ele faz todo sentido para mim. Lecionar e pesquisar, eis a minha missão. Creio que nasci para isso!

Continua...

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Morrer aos poucos

Nas cidades não observo apenas os monumentos, prédios antigos, ruas, traçados. Observo também as pessoas. Às vezes procuro ler seus rostos, imaginar as histórias que têm para contar, as decepções que já viveram e os sonhos escondidos numa testa franzida, nas marcas das rugas, na beleza da pele lisa.
Hoje uma cena espetacular, de um operário, em sua hora de almoço, sentado à mesa, almoçando, evidentemente, me fez refletir profundamente sobre a existência. O que há de excepcional nisso? Nada! Quer dizer, nada não fosse a cena. O local? Centro histórico do Recife. Voltava de meu tour turístico, para o hotel: um trecho de aproximadamente 15 quilômetros, mais ou menos, percorrido em quase duas horas, num trânsito infernal. Vi a cena, em pé, de dentro de um ônibus lotado.
Lá estava o operário, sentado à mesa. Vestia um macacão grosso, botas sete léguas, capacete e um pano, embaixo dele, que caia de sua cabeça, usado para se proteger do sol, deixando descoberto apenas o rosto. Usava ainda óculos de proteção e luvas. Sobre a mesa, uma bacia: dentro pude ver: feijão “magassa”, como se diz aqui, arroz, cuscuz e muita carne com legumes cozidos, tudo bem oleoso. Havia um copo e uma garrafa com suco. O operário comia vagarosamente, levando a colher do prato para a boca repetida e incessante vezes, de cabeça baixa, indiferente ao mundo em sua volta.
O operário estava no local de uma obra. Esta era protegida por tapumes de madeira de um lado e outro, entre duas vias de intensa movimentação de veículos automotivos,com duas ou três faixas cada uma: uma pista que levava ao centro histórico e outra que saia dele. O engarrafamento era enorme: um som ensurdecedor de buzinas de automóveis e motocicletas, de sirenes de ambulância e carros da polícia e o burburinho das conversas davam o tom da cena. Lá do ônibus observava as pessoas apressadas, com caras de poucos amigos, ciclistas desviando dos carros, vendedores ambulantes gritando, guardas tentando organizar o desorganizado trânsito, e pessoas discutindo. E eu estava dentro do ônibus lotado, num calor daqueles. Imagine! 
Indiferente a tudo isso, lá estava o operário! Parecia feliz. O mundo em sua volta era um inferno, mas ali, protegido, parecia estar no paraíso. Ninguém reparava nele e nem ele ligava para o mundo: as preocupações das pessoas as consumiam. Nada, nesse mundo selvagem, seria capaz de chocá-las. Para elas, tudo parecia tão normal! Para mim não!
Quando vi o operário, pela primeira vez, imaginava comigo mesmo que viver diariamente na cidade nas condições que estava seria morrer lentamente, a cada dia. Mas eu mudei de ideia.  Se as pessoas encarassem a existência como aquele operário, seriam capazes de enfrentar tudo e viver bem em meio ao turbilhão do nosso mundo. O que nos faz viver ou morrer são as nossas expectativas, sonhos de grandeza, enfim, nossa maneira de encarar o mundo. Se nossos sonhos e expectativas são grandes, sofremos se não os conquistamos. No entanto, e paradoxalmente, não precisamos de muito para viver bem.
O operário nos ensina, como tantas pessoas. Basta observá-las.
Recife, 13 de novembro, de 2013.