terça-feira, 31 de dezembro de 2013

NUNCA É TARDE PARA CHORAR I de parte I

 Folhetim de Gabriel Arcanjo

Certa feita estava eu na bodega de meu pai, na rua que hoje recebe o seu nome, quando chegou a mim velha e asquerosa freguesa: era a Banana, anciã sexagenária, corcunda e de penetrantes olhos azuis. Tudo nela era repelente e horroroso, os cabelos esvoaçantes e grisalhos, a boca asquerosa e murcha, a pele enrugada e branca, o andar cambaleante e trôpego. Tudo era feio, terrivelmente feio. Menos seus olhos de um azul esmeralda, um azul oceânico. Por trás daquela mascara mortuária de dor e de tristeza, envelhecida pelo tempo, era belo o olhar. Era jovem, falava coisas numa língua eterna, medonha, tristonha e celeste. Havia naquele olhar de oceano uma jovialidade de criança, uma tristeza tão grande, uma dor tão medonha, uma nobreza tão distinta que gelou minha alma de garoto imberbe no instante em que nossos olhos se cruzaram! A velha era um enigma, com seus olhos de gavião, faróis em alto mar tenebroso, estrela Dalva em manhã de outono. Os olhos da velha anciã eram bem mais jovens do que ela. Diante daquele olhar a fatalidade da existência me veio à mente, e o tempo, que corre como um rio revolto na direção do abismo, falou comigo com sua voz de esfinge: - Este é o destino do Homem! Uma besta pensante à beira do abismo!
        Eu disse a velha: - Dona Maria, não beba não, a senhora pode morrer! E ela me falou, encarando-me como uma harpia monstruosa saída da Odisseia: “-Jerônimo, a gente morre é em vida! Eu já morri há muito tempo! Este corpo que tu vê é o cadáver da bela Maria Alves, morta há muito tempo, antes mesmo de tu nascer!” Aquelas palavras ecoaram em minha memória daquele dia em diante, e eu recordo delas até hoje, com a força avassaladora de um maremoto: “-Eu já morri há muito tempo!”.
A velha harpia disse em tom zombeteiro que “-quando eu era novinha um rapagão assim como tu num me escapava não! Eu ia me agarrar contigo, mostrar o que a vida tem de bom!” e riu ruidosamente. Eu me afastei enojado. Bebeu seu trago de cachaça, cuspiu ruidosamente no chão, e bateu com o pé esquerdo em cima do cuspe dizendo palavras “mágicas” em tom de escárnio, de provocação e evocando Exu e Tranca Rua: “-Cachaça jiribiba, primeiro vai cantada, depois vai bibida, em nome do pai, do filho e do espírito santo, amém!” e entornou o copo novamente de modo voraz. Velha meretriz abandonada pelos amantes quando ficou feia e velha demais para a cobiça dos homens da cidade, vivia de vender bananas na estação do trem (vinha daí o apelido), e de fazer “despachos” para as pessoas mais supersticiosas (por uns trocados, ela arranjava marido para mulher abandonada, tirava mau-olhado, ajeitava “espiéla caída”, arrumava o “vento” de criança com quebrante, e com uma porção misteriosa fazia mulher barriguda abortar).    
        Depois de anos atormentado pela história da vida desta figura assombrosa que mais parece saída das páginas de um romance de Jorge Amado, resolvi dividir com os meus leitores a vida da Banana. Para legar a posteridade esta existência fatal. Não se iluda, apesar da maioria dos nomes serem fictícios (medida para me proteger da sanha vingadora dos parentes da anciã), esta é uma história real.
Vamos à narrativa: Havia na Ipu dos anos inicias do século XX práticas e costumes sexuais que nossos avós, por razões ligadas a excessiva moralidade da época, não deixaram registradas em livros, jornais, ou revistas, e por isso, somos erroneamente levados a acreditar que nossos antepassados eram “santos”. Pois vou contar-lhes agora uma história que ilustra bem o quanto nos iludimos a cerca da sexualidade de nossos avós: um influente capitalista, “coronel” abastado (José Alves de Araújo), de “ilustre família local”, dona de terras e de ponto no mercado, insatisfeito com a frieza de sua esposa, encantou-se pelas graças de carnuda e desinibida cabocla sertaneja da periferia, e passou a cortejá-la com olhares maliciosos e com palavreado de duplo sentido: “-Olha, na minha fazenda tem moradia para uma caboca ‘boa’ como você!”, dizia o galanteador, quando se via sozinho em seu comércio com aquela cunhã faceira que lhe tirava o sono. “-Aqueles seios de mamão maduro! Aqueles quartos de melancia grande! Aquela boca de manga jasmim! Ai de mim, que não te tenho nos braços, Nêga manhosa cheirando a jasmim! Um dia eu te roubo, cunhã danada! Te carrego pros matos, pra morar comigo no meu sítio do Escondido, longe das arengas da megera da minha mulher!” Dizia o comerciante, em cochicho, ao pé do ouvido de Maria de Jesus, quando lhe permitiam os fregueses de sua venda no mercado.
Casado há dez anos com uma “mulher de família” (sua prima), o galanteador José Alves sonhava com outros prazeres, em outros braços, pois havia coisas que só se fazia com mulher perdida, mulher de “vida fácil”, mulher “sem vergonha”: onde já se viu, homem casado desrespeitar a esposa, propondo-lhe a posição cachorrinho, o “frango assado”, o cavalinho, o sorvete, ou coisa que o valha, para “incrementar” o casamento! Era pra isso que havia as putas do cabaré! A esposa era sagrada, com ela não se fazia sexo, se fazia o ato abençoado da procriação entre um Pai-nosso e uma Ave-Maria. Já com as putas, o homem procurava o verdadeiro prazer, o gozo supremo, o delírio do amor carnal. “- Deus que me defenda, Zé! Vai te confessar! Tu tá é com o Cão nos couros!”, disse a esposa, nas poucas investidas do marido faminto. Você não se casou com uma puta, coronel! Coronel ele já nem era, se fosse, como seu pai, a coisa era diferente. O velho teve pra mais de trinta filhos, todos eles fecundados nas comadres e nas afilhadas que ele abrigava em suas terras! Mulher que morava nas terras do velho coronel Felix José de Sousa já se sabia, ele comia mesmo! Era tiro e queda! Não tinha escapatória. E os maridos e filhos que aguentassem os chifres!
Mas o José não conseguia repetir a fama do pai. Do pai mesmo ele só herdou uma pequena fatia das terras e o apelido de coronel. A fortuna da família fora dividida entre os 15 filhos legítimos de seu pai com sua mãe. Maria de Jesus, seu “sonho de consumo”, era uma cunhã sem eira nem beira, vítima maior de um sistema social opressivo, que fazia dos pobres servos da gleba, vassalos submissos vivendo de favores do patrão. Pedindo “abença meu padim”, trabalhando de graça pros ricos, sendo “eleitores” no rebanho dos candidatos favoritos do patrão, e assistindo aos filhos do patrão vir nas férias escolares para lhes perseguirem as filhas donzelas, ou a mulher, ainda fogosa, nas trilhas e arbustos da fazenda. A mulher pobre, se bela, era um prêmio de caça para as cimitarras dos jovens moços, sedentos de sexo. Numa época em que o hímen era um totem sagrado, mulher descabaçada era prejuízo certo, não conseguia arrumar casamento, ou se arranjava era com homem viúvo. Como o pobre do morador poderia pressionar o patrão para reparar o “erro” do filho do “homi” com sua filha donzela? Não tinha jeito, era casá-la na surdina com o primeiro infeliz que aparecesse!
Mas voltando ao caso mencionado, Maria aceitava as “provocações” de José sem muita resistência; ao contrário, retribuía-lhe os olhares insinuantes, os gracejos atrevidos, e sorria baixinho dizendo: - Deixe disso seu ! Eu sou uma moça-donzela! Comigo só depois do casamento! E entre os sacos de farinha e rapadura o Dom Juan do Ipu vez ou outra conseguia arrancar carinhos da amante arredia: um beijo roubado na boca, uma mão boba nos seios, um sussurro ao ouvido, e ele conhecia ali, em sua mercearia, as portas do paraíso na terra. –Volte amanhã, que eu tenho um presentinho pra ti, Nega! (Nega era o apelido de Maria) -Volto não! O senhor tá é mal intencionado! Tô não, Nega! 
        Não deu outra, em pouco tempo José Alves arrumou para a cabocla casa, comida e “roupa lavada”, transferiu o pai, a mãe e os irmãos da moça para as suas terras, no Escondido. O pai, um caboclo leal ao patrão, nada disse quando percebeu os galanteios de Zé para a filha adolescente: Isso é intriga de gente fofoqueira, mulher! E é meu cumpade!  No mato-a-pasto do quintal, num fim de semana qualquer, enquanto a esposa assistia a missa dominical com o padre Gonçalo, Seu Zé pulou a cerca e foi “cobrar o aluguel”: - Vem cá, Nega! E agarrou a Nega pelo braço, abraçando-a por trás, nas ancas, como cobra sucuri. Vem cá Nega! O cumpade Honório não tá, ne? Num tá não sinhô! Hoje tu me paga as raiva que tu me fez lá no mercado, Nega! E agarrou Maria com seu abraço de sucuri, metendo a mão por baixo da saia! Vem cá Nega! Faltava-lhe o fôlego, o coração a ponto de explodir. Vem cá Nega!  José e Maria se agarravam, se misturavam, um querendo entrar no outro, um querendo comer o outro. Vem cá Nega! Em volta dos amantes, o dia era testemunha, a relva era testemunha, as vacas eram testemunhas. Vem cá Nega! (Faltava-lhe o fôlego!). E José, que era inércia, virou vulcão: Ai, ai, Nega safada! E o dia fez-se gozo, e o gozo fez-se rio, e o rio fez-se chuva num José lajeiro seco, de sol a pino, na caatinga braba do verão. Ai, ai, nega safada! Eu sei que morro! Vem cá minha pombinha! Dá aqui este cangote, Nega danada! E ali, naqueles seios de mel, naqueles olhos de lua, naquelas pernas de mulher-dama, o Zé Alves redescobriu a alegria de viver: -Ai meu Deus, que cunhã boa!, dizia ele, num gozo e num desmaio, agarrado à cintura de Maria, como um náufrago no mar.
Continua...

         

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Ipu Antigo I

Antiga Rua da Goela. Sem data. Fonte: Acervo do prof. Mello.
A ocupação das terras que dariam mais tarde origem a cidade de Ipu, a julgar pela carta de sesmaria, só ocorreu no início do século XVIII[1]. Sobre os nativos que aqui viviam antes, nada se sabe. Embora historiadores e memorialistas afirmem que a ocupação da região tenha se dado com base na catequese, nenhuma fonte atesta isso. Segundo Francisco Sadoc, abaixo do rio Inhucú, demarcador entre a serra acima e abaixo, não houve missões e os índios tabajaras rareavam[2]. Estes estavam aldeados apenas no norte, acima do rio. Se as missões jesuíticas tiveram papel de destaque para a conquista e colonização da Ibiapaba, como demonstra a historiografia cearense, abaixo do Inhucú esse papel parece ter sido do colono, e apenas durante o século XVIII, tomando posse da terra mediante concessão de sesmarias pela coroa portuguesa.
Durante o século XVIII, Ipu não passou de um pequeno povoado sem muita importância, subordinado religiosamente à freguesia da Serra dos Cocos, criada em 1757[3], e politicamente à Vila Nova d’El Rey, desde a criação desta, em 1791[4]. Essa posição de subordinação mudaria ao longo do século XIX, sobretudo na segunda metade desta centúria, quando o município se tornou grande produtor de algodão. A mudança de seu estatuto econômico se traduziria em sua sucessiva elevação à categoria de Vila, em 1840, com a denominação de Vila Nova do Ipu Grande[5], à condição de sede da freguesia, de fato, em 1844, e de direito, em 1883[6], à cabeça de Comarca, desmembrada de Sobral, em 1847[7], e, finalmente, à condição de cidade, em 1885[8].
Quando chegamos ao último quartel do século XIX, encontramos a cidade de Ipu em pleno florescimento. A inauguração da Estação Ferroviária, em 10 de outubro de 1894, e a chegada da ferrovia, dariam novo alento a este crescimento.

Continua...



[1] A sesmaria que abrange a atual cidade de Ipu foi concedida em 1722 ao capitão Luiz Vieira de Sousa (três léguas). Segundo a carta, com objetivo de utilizar as terras para a criação de gado. O registro da data de sesmaria é 17 de julho de 1722, Cf. Datas de Sesmarias. Fortaleza: Typographia Gadelha, 1926. Vol. 10º e 11º.
[2] ARAÚJO. Francisco Sadoc. História Religiosa de Guaraciaba do Norte. Fortaleza-CE: Imprensa Oficial do Ceará, 1988, p. 23.
[3] Por provisão de 30 de agosto de 1757, o bispado de Pernambuco dividiu o extenso Curato da Ribeira do Acaraú em quatro freguesias: a de Nossa Senhora da Conceição de Amontada; Santo Antônio de Pádua do Coreaú; Nossa Senhora da Conceição da Caiçara (Sobral); e São Gonçalo da Serra dos Cocos. Esta última compreendia as vertentes do Acaraú, da barra do Macaco para cima, o sertão e Serra da Ibiapaba. Provisoriamente foi destinada para Matriz da Freguesia a capela de São Gonçalo do Amarante, onde se chama Serra dos Cocos. Ver: ARAÚJO. Francisco Sadoc. História Religiosa de Guaraciaba do Norte. Op. cit.
[4] A Vila Nova d’El Rey foi criada pelo Alvará de 12 de maio de 1791, com sede em Campo Grande, atual Guaraciaba do Norte. Idem, p. 15.
[5] Lei nº 200 de 26 de agosto. SINOPSE ESTATÍSTICA DE IPU. Rio de Janeiro. IBGE., 1948.
[6] O vigário colado da freguesia da Serra dos Cocos, nomeado em 10 de julho de 1842, tomou posse em janeiro do ano seguinte. Em 1844, de acordo com o Pe. Sadoc, a Matriz de São Gonçalo ameaçou ruir. O padre Correia conseguiu licença para transferir as imagens e alfaias para a capela da Vila Nova do Ipu Grande, onde passou a morar. A Vila Nova do Ipu Grande ganha, de fato, foros de sede da Freguesia, mas somente em 1883 foi criada a Freguesia de São Sebastião de Ipu, pela lei provincial nº 2.037, de 27 de outubro de 1883. Idem, p. 3.
[7] Foi criada a Comarca de Ipu, desmembrada de Sobral, por lei provincial de 31 de agosto de 1847. Revista dos Municípios, Fortaleza-Ce, ano I, nº 1, fev. 1929, p. 16.
[8] Pela lei provincial n° 2.098, de 25 de novembro de 1885. SINOPSE ESTATÍSTICA DE IPU. Op. cit., p. 3.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Tour Elegante II

 Palácio Tiradentes


Frente do Palácio: Acervo pessoal
Edificação monumental projetada em estilo eclético pelo arquiteto Ipuense Archimedes Memória e Francisco Couchet. Está situado na rua Primeiro de Março, no Rio de Janeiro. 
Foi inaugurado em 1926 como homenagem ao alferes Tiradentes. O edifício foi construído no lugar de outro, demolido em 1922, edificado em 1640 e onde funcionou o parlamento e a Cadeia Velha. 
Em primeiro plano, estátua de Tiradentes. Acervo pessoal


Nela, eram abrigados os presos do período colonial e onde também esteve encarcerado por três anos José Joaquim da Silva Xavier (o Tiradentes), enquanto aguardava a execução na forca. Segundo o guia turístico, a estátua de Tiradentes, erigida na frente do palácio, está no exato lugar onde ele teria sido enforcado.
No período colonial, portanto, como era costuma, ali funcionava o poder político municipal e a prisão. No período imperial e primeiros anos da república, a Cadeia Velha tornou-se a sede da Câmara dos Deputados. Em 1922, durante a presidência de Epitácio Pessoa, foi construída uma nova sede para a Câmara dos Deputados. Da sua inauguração até a mudança da capital federal para Brasília, em 1960, o palácio abrigou a Câmara dos Deputados, com exceção do período entre 1937-1945 (Estado Novo). A partir de 1939 funcionou ali um dos principais órgãos de divulgação do ideário do Estado Novo: o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP).
        Com o fim da ditadura de Vargas, o Palácio Tiradentes retomou sua tradição de sede do Poder Legislativo. Em 1946 foi sede da Assembleia Nacional Constituinte, responsável pela elaboração da constituição de 1946. Com a transferência da capital para Brasília, o Palácio começou um ciclo de decadência.
Atualmente, é a sede da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e foi alvo das recentes manifestações que se espalharam pelo Brasil, sendo, inclusive pichado. 

domingo, 22 de dezembro de 2013

Tour elegante I

A aura dos espaços

A maioria das pessoas, quando visitam a maravilhosa cidade do Rio de Janeiro, logo procura as suas praias, bares, restaurantes: elas buscam a multidão! Vão aos shoppings, parques de diversões. À noite, procuram as boates, clubes e vão a shows.  A cidade oferece tudo isso.  Quando vou ao Rio de Janeiro, onde já morei por mais de uma década, ao contrário, procuro algo mais do que isso.
Busco os espaços onde posso sentir a alma do passado, a presença dos mortos, uma aura superior. Quando visito esses locais, me transporto para um outro mundo, que não existe mais, mas que pode ser sentido e quase tocado. É como se, de alguma forma, eu já tivesse vivido ali num passado longínquo. Esse ato, de viver um outro mundo, é tão fenomenal, que perco a noção do mundo à minha volta, desse mundo tão real quanto cruel. Quando me afasto da realidade sinto que me completo, sinto que sou feliz. Essa felicidade quase nunca encontro entre os vivos, na multidão, na claridade, na agitação, no frenesi, nos espaços modernos.
O que mais me agrada, é a solidão e a tristeza destes locais. Eles me transmitem uma sensação de plenitude e uma aura superior, algo espiritual tão forte que se torna, para mim, quase palpável. Esses espaços estão carregados e me transmitem uma melancolia parecida com aquela que nos fala Orhar Pamuk sobre a cidade de Istambul em seu romance Istambul: memória e cidade.
As ruínas do passado, o silêncio dos amplos espaços, a beleza da arquitetura, das formas, as cores desbotadas, a prevalência do preto e branco são, para os meus olhos, inspiração, me fazem sentir o prazer de estar no mundo.
Creio, é por isso, que amo tanto o passado...


Museu Nacional de Belas Artes



Escola Nacional de Belas Artes. Atual Museu Nacional de Belas Artes. Foto do Início do Século XX. Fonte: Domínio Público.

Prédio sede do atual Museu Nacional de Belas Artes construído com a abertura da Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, na grande reforma urbanística iniciada na gestão do prefeito Pereira Passos e do presidente Rodrigues Alves. Para lá foi transferida a sede da Academia Imperial de Belas Artes, rebatizada para Escola Nacional de Belas Artes. O autor do projeto de construção do prédio foi Adolfo Morales de Los Rios, que tomou como modelo o Museu de Louvre em Paris. No entanto, o desenho seria alterado durante a construção do prédio e acrescentadas algumas modificações feitas pelo Ipuense Archimedes Memória. A obra foi finalizada em 1908. 

Acervo pessoal
O seu estilo arquitetônico, como não podia deixar de ser, é eclético, com fachadas em diferentes estilos. A fachada principal, de frente para a Atual Av. Rio Branco, é inspirada na Renascença, com frontões, colunatas e relevos em terracota representando as grandes civilizações da antiguidade, além de medalhões pintados por Henrique Bernardelli com retratos dos integrantes da Missão Francesa e outros artistas brasileiros. As laterais são mais simples, e fazem referência à Renascença italiana; possuem mosaicos parisienses com figuras de arquitetos, pintores e teóricos da arte, como Vasari, Vitrúvio e Da Vinci. A fachada posterior é um exemplo mais puro e austero do Neoclassicismo com relevos ornamentais. Na decoração interna foram usados materiais nobres como mármores e mosaicos, cristais, cerâmicas francesas e estatuária.
Interior do Museu. Acervo pessoal
Em 1931 a Escola Nacional foi incorporada à Universidade do Rio de Janeiro. 
Em 1937 foi criado o Museu Nacional de Belas Artes e o prédio transformado em sua sede.

Frente atual do museu. Acervo pessoal


O museu reúne um acervo de pinturas impressionantes. Vale a pena visitar...





quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Ipu: perfil urbano III

Quadro da Igrejinha. Foto: blog. prof. Mello
No entanto, é visível que a população vive melhor hoje do que há dez anos, por exemplo. Isso se deve em grande parte aos programas de transferência de renda do governo federal, que fazem o comércio e a pequena produção industrial girar. De outro lado, a diminuição dos índices de analfabetismo e o maior acesso dos jovens a cursos superiores, sobretudo, na citada Universidade Estadual Vale do Acaraú e em universidade particulares de Sobral, forma um quadro de mão de obra mais bem qualificada. De outro lado, nos últimos anos, o aumento de funcionários públicos, nos âmbitos municipal e estadual, com o significativo aumento dos quadros de professores, em função do avanço da oferta de vagas nas escolas de ensino básico, também tem contribuído para melhorar a vida de muitas pessoas e para aumentar a renda circulante no município.
Percebe-se um aumento significativo da classe média local, o que pode ser medido pelo aumento da frota de veículos na cidade e o avanço das residências imponentes, além do aquecimento das vendas do setor de eletrodomésticos.
Não obstante, uma massa de pobres e miseráveis, que vive nas áreas suburbanas, parece não ceder. Embora as transformações econômicas e sociais no município tenham melhorado, até hoje, os governos municipais não criaram políticas públicas consistentes de combate à pobreza.
Em razão dos muitos problemas vividos pela cidade, a violência, nos últimos anos, vem se tornando algo preocupante, com assaltos aos estabelecimentos comerciais e à população, bem como o surgimento do tráfico de drogas, uma novidade que não é bem vinda e da qual o poder público ainda não sabe lidar.
A cidade também se ressente de espaços de lazer: não possui teatros, cinemas ou museus, espaços culturais ou boas bibliotecas públicas. As opções de lazer e diversão para a juventude, bastante restritos, se resumem aos encontros nos muitos bares da cidade, que têm se proliferado assustadoramente, e às reuniões de paredões de som, eventos realizados semanalmente, uma febre atualmente, que reúne uma multidão de jovens e adolescentes em busca de diversão e bebida, o que coloca problemas sérios de perturbação do sossego da população, levando o ministério público, mais recentemente, a proibir paredões de som e som de carro ligado a todo volume nos bares e locais do perímetro urbano da cidade. Além disso, o uso excessivo de bebidas alcoólicas por parte de adolescentes e menores, associado ao volante, têm causado acidentes constante e a perda de vidas, de forma banal, de muitos desses jovens. É raro um final de semana sem acidentes envolvendo jovens motociclistas embriagados.

Continua...


terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Ipu: perfil urbano II

Escola Antônio Pereira de Farias. Blog da escola.

Qualidade do ensino

No entanto, quando se trata da qualidade do ensino, as avaliações governamentais mostraram que o município está em uma situação pouco desejada. Pela avaliação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), referente ao ano de 2005, mas divulgada apenas em 2008, a cidade de Ipu apresentava um dos piores índices de aprendizagem entre os 184 municípios cearenses. Nas séries iniciais do ensino fundamental (1ª a 4ª séries), a nota média das Escolas Municipais havia ficado em 2,2. Na ocasião, o município estava abaixo da média nacional, que era de 3,8, e da estadual, que era de 3,2. Só ficava acima, no Ceará, de Monsenhor Tabosa, 1,7, e Salitre, 1,8. Pela última avaliação do Ideb (2007), houve uma melhora de quase um ponto em relação a 2005, nas séries iniciais (1ª a 4ª séries). Nas séries finais do fundamental (5ª a 8ª), de acordo com a avaliação, a cidade manteve praticamente o mesmo índice de 2005, também com a nota 3,1. Isso demonstra que a educação municipal se ressente de bons e consistentes projetos para a área.
Não há universidades no município, apenas existem alguns cursos superiores ofertados por institutos particulares e que utilizam as salas de aula das escolas locais para as atividades acadêmicas. A maioria dos universitários, no entanto, estuda nas universidades de Sobral, a certa de 101 km de distância de Ipu. Sobral conta com uma Universidade Estadual (Universidade Estadual Vale do Acaraú), um campus avançado da Universidade Federal do Ceará, e algumas universidades particulares.

Indicadores Sociais

Os últimos indicadores sociais do município não são animadores, mostrando uma realidade de desigualdade e pobreza. Segundo o Mapa da Pobreza e Desigualdade 2003, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística em dezembro de 2008, a cidade tinha 53,51% de sua população vivendo na linha de pobreza, uma realidade que evidencia dificuldades de alimentação. Outros indicadores sociais, como o Índice de Desenvolvimento Humano e o Índice Gini, respectivamente 0,67 e 0,41, evidenciam um baixo desenvolvimento econômico e um grau de desigualdade elevado[1].

Continua...




[1] IBGE CIDADES. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1>. Acesso em 19 dez. 2012.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Ipu: perfil urbano I

Praça de Iracema: centro da cidade
A cidade de Ipu localiza-se a cerca de 294 km de Fortaleza, na região noroeste do Estado do Ceará[1]. O município situa-se em posição de destaque, como elo entre o Sertão Central e a Serra da Ibiapaba, com 25% de seu território em área serrana, onde a altitude privilegiada, a vegetação adensada e o clima ameno produzem um ambiente de serra úmida[2]. A proximidade com a serra ameniza o clima do território situado na planície e o fenômeno das estiagens, embora faça parte do chamado “Polígono das Secas”.  De acordo com o último censo do IBGE, a população do município, em 2010, era de 40.296 habitantes, com uma taxa de urbanização de 65%, distribuída num território de 629,32 km² (IBGE).

Economia

A maior parte da renda produzida atualmente no município provém do setor de serviços, cerca de 2/3 do total - com um comércio forte em relação aos pequenos municípios em sua volta -, com pouco mais de 23% do setor industrial, tendo apresentando nos últimos anos um crescimento significativo, e apenas 7,06% do setor agropecuário, em franco declínio recentemente, em relação aos demais setores.[3]

Dados da Educação

No que se refere à educação, seus índices apontam para uma melhora significativa do acesso à escolaridade, diminuição da taxa de analfabetismo, aumenta da aprovação, diminuição do abandono escolar e sensível diminuição da distorção idade/série. Os dados de 2011 apontam para o município uma taxa de escolarização no Ensino Fundamental de 86,53%, taxa de aprovação de 89,40%, de abandono de apenas 3,65%, com uma média de 25,90 alunos por sala de aula.
Para o Ensino Médio há algumas diferenças. As taxas são de apenas 44,26% de escolarização, de 85,15 de aprovação, de 8,75% de abandono e de 30,60 alunos por sala de aula. As taxas de distorção idade/série no Ensino Fundamental e Médio vêm caindo sensivelmente. 711 professores atuavam no ensino básico em 2011: 109 na rede estadual, 466 na rede municipal e 136 na rede particular. Em 2010, 79% deles possuíam nível superior. O município tinha 66 escolas: 6 estaduais, 6 particulares e 54 municipais, com um total de 367 salas de aula e matrícula inicial de 3.025 alunos. Apenas 14 escolas possuíam bibliotecas e 22 tinham laboratórios de informática[4].
Em 2010 foi inaugurada a Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Antonio Tarcísio Aragão e que ainda não constava nas estatísticas de 2011, apresentadas acima. A unidade tem capacidade para atender 480 alunos, em tempo integral, e uma estrutura de 4,5 mil metros quadrados, com 12 salas de aula, hall, auditório para 201 lugares, biblioteca, laboratórios de línguas, informática, química, física, biologia e matemática, além de duas oficinas.  Custou 5,5 milhões de reais dos recursos do Tesouro Estadual e do Ministério da Educação e Cultura[5].

Continua...





[1] O município de Ipu, hoje, situa-se na Mesorregião do Noroeste do Estado do Ceará, localizada na chamada Microrregião do Ipu, que engloba os seguintes municípios: Ipu, Ipueiras, Pires Ferreira, Poranga, Reriutada e Varjota. Conforme a regionalização proposta pelo IBGE, a cidade de Ipu está inserida na Região Administrativa 5, composta pelos municípios de Canaubal, Croatá, Guaraciaba do Norte, Ibiapina, São Benedito, Tianguá, Ubajara e Viçosa do Ceará. Sua extensão territorial é de 629 km². Parte do território do município estende-se sobre a Serra da Ibiapaba e parte ao longo do riacho Ipuçaba, no sopé da serra, prolongando-se pelo “sertão”.
[2] IPU: Plano diretor. Caracterização do município. Governo do Estado do Ceará. Fortaleza [s/d].
[3] IPU: PERFIL BÁSICO MUNICIPAL. Instituto de Pesquisas e Estratégia Econômica do Ceará (IPECE). Fortaleza. 2011. Disponível em: <http://www.ipece.ce.gov.br/publicacoes/perfil_basico/pbm-2011/Ipu.pdf>. Acesso em: 03 out. 2012.
[4] IPU: PERFIL BÁSICO MUNICIPAL. Instituto de Pesquisas e estratégia econômica do Ceará (IPECE). Fortaleza. 2012. Disponível em: <http://www.ipece.ce.gov.br/publicacoes/perfil_basico/pbm-2012/Ipu.pdf>. Acesso em: 19 dez. 2012.
[5] Ipu Grande. Ipu. Out. 2010, p. 10.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

O professor e a educação pública

Os recentes indicadores da educação pública brasileira têm demonstrado a sua baixa qualidade, apontado para a necessidade não apenas de maiores investimentos na área, mas de uma política mais arrojada capaz de melhorá-la, sem falar na gestão dos recursos, que nem sempre chegam como deveriam à escola, por passar por muitas mãos nada limpas. Para além das críticas que se possa fazer aos atuais métodos de avaliação do ensino público e interesses por trás deles, é imperativo a mudança de postura do governo nessa área.
        Só para lembrar dois recentes indicadores da educação básica nacional, o Programa Internacional de Avaliação Estudantil (Pisa), revelou que numa lista de 65 países, o Brasil, embora tenha avançado em relação às edições anteriores, é apenas o 58º, abaixo de muitos países pobres, emergentes e com economias mais frágeis. No Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM-2012), a média dos estudantes egressos das escolas públicas e que cursavam o último ano do Ensino Médio era ainda muito baixa.
        Fiquei surpreso, no entanto, com as declarações e respostas de burocratas, aqueles que não conhecem a realidade da sala de aula, na grande mídia, quando perguntados qual era o problema da escola pública. Foram unânimes em apontar como principal fator para o péssimo desempenho dos alunos do ensino básico a baixa qualidade dos professores.
        É essa a resposta dos técnicos que nunca enfrentaram a sala de aula e as belas escolas públicas (já ensinei numa escola que não tinha luz elétrica e nem banheiro para os alunos): pesquisa divulgada esta semana mostrou que 44% das escolas públicas funcionam de modo precário, com nível mínimo de infraestrutura. Confesso que, quando aluno da graduação, tendia a reproduzir este discurso. Porém, estando na educação pública há mais de dez anos vejo que os seus problemas são mais profundos: salas de aula lotadas; falta de perspectivas dos alunos; alunos vindos de famílias desestruturadas; falta de compromisso da família com a educação dos filhos; transferência de responsabilidades sociais e familiares para as escolas; estabelecimentos de ensino precários, em boa parte; baixos salários dos profissionais, governos pouco preocupados em melhorar as condições de trabalho e em investir nos profissionais da educação.
        Em sua maioria, os mesmos professores que atuam no ensino público básico são aqueles que estão nas belas salas de aula das escolas particulares. Estas dão excelentes condições de trabalho, geralmente não têm salas com mais do que 30 alunos e não enfrentam os mesmos problemas com alunos que vêm de famílias desestruturadas.  Tudo isso reflete no desempenho dos educandos. Se os professores são os mesmos, em essência, onde estão os culpados, então?

        Os problemas da educação pública básica são estruturais e bem mais profundos. Quem não conhece a realidade da sala de aula tende a culpar os professores pelo baixo desempenho dos alunos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Lembranças de janeiro


O episódio que vou contar ocorreu na década de 1980, não me lembro o ano exato, talvez fosse 1987 ou 1988. Era janeiro, lembro-me perfeitamente. Só menciono isso porque é importante para a narrativa.
Ipu festejava o seu padroeiro. Naquela época, em janeiro, a cidade se transformava. O momento mais esperado era, para as crianças, a chegada do parque de diversões e para os adolescentes e adultos, as festas dançantes do Grêmio Ipuense. Como estava vivendo entre a infância e a adolescência, os dois momentos eram mágicos para mim.
Não perdia uma novena. Não que fosse religioso ou temente a Deus. Como a maioria de meus colegas, não estava muito preocupado com o que o padre tinha para dizer. E nem entendia muito o que dizia aquele homem com o microfone na mão. Suas palavras não faziam muito sentido para mim. Queria mesmo era ver gente, brincar, olhar o povo, paquerar as meninas. 
Depois da missa, íamos para o Pavilhão. Para quem não conhece, é uma praça em forma de elipse e que tem no seu centro um bar. A nossa diversão era ficar rodando em torno do bar, escutando música, conversando e paquerando.
O parque ficava bem próximo do Pavilhão, na atual praça do “pau mole”. Havia uma movimentação constante: ora íamos para o parque, ora voltávamos para o pavilhão. Nossas idas e vindas, muitas vezes, eram determinadas pelas garotas. Queríamos estar perto daquelas que paquerávamos.
Não me lembro quantos anos tinha. Naquele tempo as coisas não eram fáceis. Éramos cinco em casa, minha mãe, eu, o caçula da família, e três irmãs. Todos os meus outros irmãos e irmãs moravam no Rio de Janeiro, com exceção de um apenas, que morava em Fortaleza. Ao todo éramos quatorze.
Minha mãe costurava em casa para sustentar a família. O som incessante de duas máquinas de costura Singer trabalhando o dia todo, e às vezes à noite toda, marcou indelevelmente minha adolescência.
Sempre moramos em casa alugada. Por isso vivíamos nos mudando, razão pela qual não me lembro exatamente em qual casa morávamos naquele ano. O sonho de minha mãe era ter casa própria, algo que só conseguiu muitos anos depois. Não faltava comida, mas vivíamos com dificuldade. Acompanhei durante muito tempo os lamentos de minha guerreira mãe. Apesar das dificuldades, nunca deixou faltar o necessário. Alguns de meus irmãos, que trabalhavam no Rio de Janeiro, ajudavam mandando uma quantia mensal de dinheiro para ajudar nas despesas.
Foi num dia de festa dançante daquele mês de janeiro, de alegrias e dificuldades, que ocorreu um episódio que carrego em minha memória com uma clareza enorme e que me marcou muito.
O Grêmio tinha sido enfeitado para a grande festa dançante. Uma banda de renome na região tinha sido contratada. Por mais que me esforce não consigo lembrar qual era. Não tinha o dinheiro para comprar o ingresso. Chorei o dia todo, pedindo a minha mãe que me desse a quantia que precisava. O dia inteiro ela tinha dito que não tinha sequer um “tostão furado”.
À noite, depois de muito chorar, resolvi “atentar” de novo a minha mãe. Depois de tanta insistência e não aguentar mais os meus lamentos, ela foi ao seu quarto, pegou a carteira e me deu o dinheiro dizendo, com raiva, mais ou menos assim: “pega seu traste, vai para a tua festa. É o dinheiro da feira. Amanhã tu vai morrer de fome!”
Peguei o dinheiro, ainda chorando. Coloquei a minha melhor roupa. Roupas boas não me faltavam. Afinal, minha mãe e uma irmã eram costureiras profissionais e sempre me presenteavam com boas peças. Fui, pois, para a festa.
Consegui o que queria, mas estava profundamente tocado pelas palavras de minha mãe. Elas não saiam da minha mente. Não conseguia pensar em outra coisa, só naquilo. Entrei em conflito comigo mesmo. Não era justo fazer aquilo!
Hesitei muito em gastar o dinheiro. Tinha a quantia exata para pagar a entrada da festa e tomar um único refrigerante.
Fui covarde. Comprei o ingresso e entrei. Foi, até certo ponto, a pior festa de toda a minha vida. Ficava me perguntando como poderia ter feito aquilo. Veio uma vontade intensa e incessante de chorar. Fiquei boa parte do espetáculo sentado nos degraus da quadra de esportes, hoje um estacionamento, que davam acesso ao salão do Grêmio.
Em um determinado momento, deixei as escadas da quadra e fui para o salão de danças. Não me lembro por que fiz isso. Só lembro de abrir caminho entre os casais dançando. Nesse momento, vi no chão um maço de notas. Peguei-o. Voltei para a quadra e, coincidentemente, era a mesma quantia que a minha mãe havia me dado. Uma alegria imensa percorreu meu corpo. Não me lembro de ter agradecido a Deus por isso. Com uma sede daquelas, corri para tomar um guaraná. Um Wolga! Que alegria!
Aproveitei o tempo que restava para o fim da festa, mas não via a hora de ver “mamãe”.
Ao retornar para casa, devolvi o dinheiro para ela. Contei a história e fiquei com a consciência tranquila. Não sei se minha “mamãe” acreditou ou ainda se lembra disso. Eu nunca esqueci.


Ipu, 4 de dezembro de 2013.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A Nova História do Ipu - XV

Unidade 2 - Organização político-administrativa

Introdução

Antiga Cadeia e Casa de Câmara. Acervo Prof. Mello
Em meados do século XIX o pequeno povoado passou por algumas transformações que marcaram indelevelmente sua história. Nesse mesmo momento, já como vila, é palco de disputas políticas, lutas e assassinatos. Parece que a mácula da antiga Vila dos Enredos queria descer a serra e marcar a nova vila.


Capítulo 5 -Ipu: emancipação política 

Entre 1840 e 1843 o Campo Grande e o povoado, então chamado simplesmente de Ipu, disputam a Câmara Municipal e o direito de ser sua sede, o que na prática significa ter foros de sede política.
Em 26 de agosto de 1840, Ipu era elevada a Vila, com o nome de Vila Nova do Ipu Grande. Mais tarde, em 1842, foi instalada a Câmara Municipal e, assim, a nova Vila ganhava status, de fato, de sede política de toda a Região da Serra dos Cocos.
Na época, a elevação de uma localidade a condição de vila significava ganhar importância política, já que passava a ser sede da Câmara Municipal. Esta era a responsável pela administração local: tinha o poder de arrecadar os impostos, legislar, fiscalizar o comércio, lançar taxas quando necessário, zelar pela limpeza pública, pelo abastecimento de água, coleta de lixo, pela segurança pública, etc. Grosso modo, a Câmara, daquele tempo, pode ser associada ao poder executivo municipal, hoje, embora ela tivesse atribuições executivas, judiciárias e legislativas.
Sobre as razões que levaram a criação da Vila em Ipu, em detrimento de Campo Grande, que passa de sede do município para região subordinada ao Ipu Grande, a maioria dos estudiosos que tratam do assunto, afirmam apenas que a transferência se deu por motivos políticos, sem, no entanto, esclarecer os fatos.
No entanto, uma das razões, talvez a mais importante, tenha sido o crescimento econômico de Ipu, em meados do século XIX, em função do ciclo do algodão. O antigo povoado suplantou, em importância econômica, a região do Campo Grande. Se o objetivo da criação da câmara para o Campo Grande tinha sido acabar com as lutas dos facínoras da região e de organizar a arrecadação de impostos, ela em meados do século XIX, perdia a sua razão de ser. Primeiro, por não conseguir acabar com as rixas ali, sendo mesmo palco de novas lutas e de defesa dos interesses dos poderosos que a controlavam, deliberando a favor dos seus potentados. Segundo, porque em termos de arrecadação de impostos deixava muito a desejar.

O momento também era outro. O rei de Portugal que em fins do século XVIII buscava um maior controle dos poderes locais e uma maior racionalização dos recursos, já não tinha mais o controle sobre o Brasil. Vivia-se um novo momento. O Brasil já era independente e a nação vivia um período delicado, nos primeiros momentos do Segundo Reinado, onde se digladiavam na cena política dois grupos opostos em seus interesses, mas sem uma ideologia fundamentada: os “partidos” Conservador e Liberal.

Continua...

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Educação Pública: Brasil avança pouco

Embora o Brasil tenha sido o país que obteve maior avanço no desempenho de alunos de 15 anos em matemática entre 2003 e 2012, segundo dados do Programa Internacional de Avaliação Estudantil (Pisa, sigla em inglês), avançou, no entanto, muito pouco. Numa lista de 65 países, o Brasil é apenas o 58º.
        A avaliação é aplicada a cada três anos com estudantes de 15 anos e tem o objetivo de analisar se os alunos aprenderam conceitos e habilidades consideradas fundamentais para a sua participação em “sociedades modernas”, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
        O exame, em 2012, foi aplicado para 510 mil alunos em 65 países, o que representam, ao todo, cerca de 28 milhões de estudantes de 15 anos. Foram avaliadas três áreas do conhecimento: matemática, foco principal da edição, leitura e ciências. A média obtida pelos estudantes brasileiros foi de 402 pontos, um a mais que a edição anterior (2009).
        Nas três áreas avaliadas a grande maioria dos estudantes brasileiros ainda está abaixo da linha básica de proficiência, o que significa dizer que a educação pública no país precisa melhorar. No ranking, o Brasil ficou à frente apenas de Argentina, Tunísia, Jordânia, Colômbia, Qatar, Indonésia e Peru.

Ranking dos Estados Brasileiros

Espírito Santo é o estado brasileiro mais bem colocado na avaliação, com 423 pontos, seguido pelo Distrito Federal, que obteve o 1º lugar em matemática, com 422 pontos. No nordeste, Paraíba é o estado mais bem colocado (9º), com 406 pontos. Ceará, embora tenha avançado três posições em relação a edição anterior, aparece apenas em 15º lugar, com 387 pontos, abaixo, portanto, da média nacional (402 pontos). São Paulo e Rio de Janeiro aparecem apenas em 7º e 9º lugares, respectivamente. A cidade maravilhosa, com seu 399 pontos, aparece, também, abaixo da média nacional. Alagoas amarga o último lugar da lista, com apenas 348 pontos.
Os resultados demonstram que o país precisa investir mais em educação e valorizar os profissionais da área, principalmente os professores. As sucessivas avaliações do desempenho dos alunos brasileiros, como o próprio Saeb (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica), do governo federal, têm demonstrado o baixo nível de aprendizado dos alunos da rede pública.
Por outro lado, os exames internacionais que avaliam a qualidade do ensino público no planeta, como o Pisa, expõem para os brasileiros e para o mundo, o nível da educação pública nacional e a necessidade do governo brasileiro priorizar a área.
Se o país quiser continuar crescendo tem que mudar sua postura em relação ao ensino público.
Alguém tem dúvida disso?

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Escolas ipuenses no Exame Nacional do Ensino Médio


O Ministério da Educação e Cultural (MEC) divulgou os resultados do Exame Nacional do Ensino (ENEM). Cinco escolas ipuenses aparecem na lista: Colégio Ipuense, Delmiro Gouvéia, Antônio Pereira de Farias, Thereza Odethe e Auton Aragão. Os dados relativos ao ano de 2012, revelam apenas o desempenho de instituições de ensino em que pelo menos metade dos alunos concludentes do Ensino Médio realizou o exame naquele ano. Escolas com menos de dez alunos também foram desconsideradas no levantamento. Segundo o MEC, as instituições que ficaram de fora da avaliação não apresentaram dados estatísticos relevantes. A tradicional escola Patronato Sousa Carvalho não aparece na lista.
As médias de cada unidade foram atribuídas com base nas notas dos alunos concluintes nas provas de ciências humanas, ciências da natureza, linguagens e matemática. Desde o Enem 2011, a prova de redação não é utilizada para o cálculo da pontuação final da instituição.
            Das cinco escolas ipuenses avaliadas, apenas o Colégio Ipuense ficou levemente acima da média nacional, com 546,07 pontos. A média nacional foi de 516,5 pontos. Das escolas estaduais, Delmiro Gouvéia foi aquela que apresentou a média maior, com 447,56 pontos, seguido por Thereza Odethe (438,42), Antônio Pereira de Farias (437,78) e Auton Aragão (437,22).
            Pelos dados, pode-se perceber que entre as escolas ipuenses avaliadas não há grandes disparidades entre os resultados. Entre os estabelecimentos públicos locais, as diferenças são insignificantes. Isso demonstra que o nível de aprendizagem dos alunos ipuenses, no ensino público, que concluem o ensino secundário, é praticamente o mesmo, independente da instituição de ensino.
            Das cem escolas com as melhores médias no ENEM (2012), apenas doze são públicas (federais, estaduais ou municipais). Dessas, dez são mantidas pelo governo federal e duas pelos governos estaduais. No ranking das mil escolas com desempenho melhor, somente 67 estabelecimentos de ensino pertencem à rede pública de ensino. Esse quadro de baixa participação das escolas públicas na elite do ensino é similar àquele registrado em 2011, quando apenas dez escolas públicas figuraram entre as cem primeiras colocadas na avaliação do MEC.
Pouco mais de 90% das escolas estaduais, onde estudam cerca de 65% dos alunos, ficaram abaixo da média nacional. O resultado é similar ao obtido na avaliação anterior, em 2011, quando 92% das escolas mantidas por governos estaduais tiveram notas inferiores à média nacional. Os estabelecimentos mantidos pelos governos estaduais obtiveram a média de 479,4 pontos, contra 558,21 da rede privada, 564,9 da rede federal e 511,2 da rede municipal.
            Entre as instituições cearenses, o Colégio Ari de Sá, de Fortaleza, foi a escola que obteve a melhor média, 711,25 pontos, figurando na 5ª posição no ranking nacional, entrando, portanto, para o seleto grupo das dez escolas mais bem avaliadas no ENEM.