terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Inferno sobre duas rodas



Dos muitos problemas latentes que convivemos em nossa cidade um reclama urgentes medidas para minorá-lo. É raro um final de semana sem notícias de acidentes graves envolvendo o trânsito. As vítimas fatais vão se acumulando. Em sua maioria jovens, garotos e garotas que se aventuram em motocicletas suicidas e que, de vez em quando, encontram um obstáculo sólido pela frente.
Estou farto disso!
Quais são as causas desse mal?
Em primeiro lugar, a motocicleta há muito tempo se transformou em um objeto de status para rapazes e moças na puberdade. Pais insensatos ensinam seus meninos, desde cedo, a pilotar essas máquinas mortíferas. O status impõe isso! Afinal, aqueles que “podem” comprar objetos-fetiches precisam afirmar sua “posição superior” perante a sociedade, e filho, sem veículo, nessa ordem, é impensável, verdadeiro sacrilégio!
Em segundo lugar, possuir uma motocicleta transformou-se numa arriscada moda. Todo garoto sonha em ter a sua. Afinal, andar sobre duas rodas tornou-se sinal de liberdade, acompanhado do status. O resultado é esse mar de motociclistas malucos transitando pela cidade a toda velocidade. A julgar pelas manobras, demonstram um profundo conhecimento do trânsito e de suas leis!
Muito me impressiona ver constantemente crianças e adolescentes, das mais diversas classes sociais, se aventurando nessas máquinas possantes, sem proteção alguma, colocando em risco as suas vidas e a de outras pessoas. Eles têm pais? Que tipos de pais permitem, em primeiro lugar, expor os seus filhos à perigos desnecessários? Que tipos de pais são esses que ensinam, pelo exemplo, seus filhos a desobedecerem as leis de trânsito? Será que ainda têm autoridade sobre esses garotos e garotas?
De um lado, a irresponsabilidade faz muitas vítimas, de outro, a negligência dos responsáveis por fazer valer as leis de trânsito, que parecem dormir um sono letárgico e profundo esperando o beijo do príncipe encantado, é revoltante!
Me parece que a responsabilidade por muitos traumas causados por acidentes de trânsito envolvendo jovens, menores de idade, embriagados, sobre duas rodas, é, em parte, de seus pais, em parte, de todos nós que não reclamamos medidas às autoridades, e, em parte, da negligência do poder público: acordem! E nada de oferecer a uma garota de 15 anos, vencedora de um concurso de beleza, uma Moto Zero, como premiação! Isso só piora as coisas! Afinal, conduzir veículo automotor é para os maiores de 18 anos. Mas quem se importa com isso? Eu é que sou um babaca!
Cada um deve assumir sua parcela de culpa e irresponsabilidade. Se os pais dão maus-exemplos, o poder público deveria puni-los e responsabilizá-los pela falta. A lei existe e quem a cumpre é, infelizmente, penalizado.
À quem compete fiscalizar o trânsito? Aqui eu não sei!


sábado, 26 de julho de 2014

Letrado 3: análise do livro "Nas trilhas do sertão"



Na quinta feira, 24 de julho, foi lançado, no auditório da escola Profissional de Ipu, o livro “Nas trilhas do sertão: escritos de cultura e política nos interiores do Ceará (1850-1930)”.  Abaixo trazemos uma análise da obra que é, na verdade, a sua apresentação, escrita por mim. Os interessados em adquiri-lo basta entrar em contato com um dos autores.


APRESENTAÇÃO

            Este livro é composto por uma coletânea que reúne seis textos historiográficos e que são resultados de recentes pesquisas levadas a cabo no âmbito da academia. Há, no entanto, um fio condutor que permite reuni-los numa mesma obra.
            Em primeiro lugar, todos falam de um lugar que no passado recente era conhecido como “zona norte” e que tinha nos trilhos da ferrovia os fios que teciam e fortaleciam os deslocamentos, a circulação de mercadorias, livros e ideias. Do porto de Camocim, no litoral norte, à cidade de Ipu, ao pé da fértil Serra da Ibiapaba, o trem formava um caminho de muitas idas e vindas e contribuía enormemente para imprimir transformações sentidas por seus habitantes de modo bastante semelhante e ao mesmo tempo singular.
Em segundo lugar, os autores desta obra parecem partilhar de um mesmo universo teórico-metodológico. De um lado, não consideram a história como uma ciência objetiva, capaz de trazer a verdade do passado. De outro lado, também não aceitam a ideia de ela não passar de uma construção linguística, destituída de qualquer referencial. Considera-se, em última instância, que a história é, também, em parte, uma construção do historiador, mas que se faz com base em uma operação bastante complexa, própria do campo historiográfico e, não podendo ser resumida, primeiro, a mera ficção, quer dizer, a uma narrativa construída unicamente pela imaginação do pesquisador, embora se pareça com a realidade e se alimente dela, ou, segundo, a apenas e unicamente uma estratégia narrativa, um jogo de prefiguração linguística, como defende Hayden White[1].
Portanto, o leitor encontrará aqui reflexões e interpretações sobre o passado que partem de um trabalho de garimpo, feitas por historiadores que reconhecem o valor da técnica, de uma operação complexa, própria de sua disciplina, mas que não se fecha no seu casulo, sobre si mesma, considerando a sua análise como a única possível sobre o passado.
As histórias contadas aqui são apenas versões possíveis de outrora. A história, é também, como defende Antonio Paulo Rezende, “reescrita na leitura de cada um” [2].

No primeiro capítulo, escrito em conjunto por Raimundo Alves de Araújo e Reginaldo Alves de Araújo, “Ceará do século XIX: uma ‘coucha de retralhos’ ainda a ser cosida”, os autores discutem sobre a formação da ideia de cidadania, nação, estado e identidade no interior do Ceará na primeira metade do século XIX e como o Estado brasileiro, para se fazer presente nos locais mais recônditos, buscou o apoio das famílias proprietárias de terras, que estabeleciam a lei, a ordem, a punição e o crime, sancionando governos locais autônomos, que impunham o poder com base na tradição de mando herdada dos privilégios oriundos das primeiras famílias ali instaladas. Desta forma, o controle do voto, das terras, bens, da justiça e dos espíritos estiveram nas mãos de famílias poderosas, particulares, se constituindo como um entrave aos valores liberais e dispositivos jurídicos do próprio estado, em transformação, e da cidadania, em meados do século XIX.
No segundo capítulo, Denis Melo, partindo da aproximação entre Literatura e História, analisa os sentidos conferidos pelas profecias de Frei Vidal da Penha, um capuchinho italiano que passou por Sobral em fins do século XVIII, com base em sua obra literária, O Dragão, onde defendeu o fim dos tempos e a noção de que a Catedral da Sé era uma Cama de Baleia.
No terceiro capítulo, Francisco Petrônio Peres Lima e Carlos Augusto Pereira dos Santos analisam as práticas e representações levadas a cabo pela experiência do Círculo Operário de Ipu, fundado em 1932, sob o apoio da Igreja Católica local e que buscou orientar suas ações com base em um projeto de sociedade voltado para os valores da religiosidade e para moldar a cultura operária entre os anos de 1932 e 1946, com a preocupação, ainda, de barrar a influência comunista, forte em todo o país naquele momento.
Os autores propõem analisar e discutir a sociedade Ipuense daquele período, levando em consideração os espaços e conflitos na construção do modelo católico circulista dos trabalhadores, momento em que a Igreja se utiliza de estratégias morais e espirituais para combater a “ociosidade”, capaz de desvirtuar os trabalhadores de seus verdadeiros papéis, e defender os valores do trabalho, contra a influência de ideologias como o comunismo.
No quarto capítulo, intitulado “Eusébio de Sousa e a construção da narrativa histórica: o caso de Ipu-Ce”, proponho discutir como Eusébio Neri de Sousa, pernambucano, bacharel em direito, historiador e juiz da Comarca de Ipu entre os anos 1913 e 1918, construiu uma narrativa história que falava da “evolução da civilização” local rumo ao progresso e como e por que a sua narrativa histórica foi eleita como a “história oficial” do município de Ipu e a mais digna de ser ensinada à população.
No capítulo seguinte, Antonio Iramar Miranda Barros analisa como a sociedade Ipuense dos anos iniciais do século XX, momento de transformações diversas, se comportava frente às práticas sexuais desenvolvidas com a fundação do famoso cabaré da rua da Mangueira, local de confinamento das meretrizes após sua expulsão do centro da cidade, pelas autoridades locais, e onde exerciam o seu ofício, seduzindo seus futuros clientes, e consumando o ato nas casinhas da Rua do Progresso, bem próximas ao templo sagrado do Quadro da Igrejinha (área “nobre”). O autor demonstra como a prostituição e o cabaré eram, a um só tempo, condenados pela moral da assim chamada “melhor sociedade” e necessários para aplacar, de um lado, o desejo sexual dos jovens e manter, de outro lado, a honra, a virgindade da mulher feita para o casamento. Neste jogo contraditório e de papeis bem definidos a meretriz e o meretrício eram condenados e aceitos ao mesmo tempo.
Finalmente, fechando a obra, Reginaldo Alves de Araújo analisa as relações existentes entre as instituições do Estado brasileiro, em formação, e as elites que viviam na região do Acaraú, no Ceará, em meados do Século XIX. O seu objetivo é entender as formas de atuação dos dispositivos estatais nos “sertões”, com destaque para as contradições entre os novos valores defendidos pela ordem (a civilização, o disciplinamento, o respeito aos dispositivos jurídicos), a cultura das elites locais e de seus habitantes, ligada à tradição, ao compadrio, à troca de favores e ao clientelismo. Embate que parece estar na raiz de nossa formação.

Antonio Vitorino Farias Filho. 17/07/2013





[1] WHITE, Hayden. Meta-história: a imaginação histórica do século XIX. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008. Neste livro instigante, Hayden White propõe uma análise da, assim chamada por ele, “consciência histórica do século XIX”. Aqui, o autor discute as principais obras dos historiadores do século XIX, Tocqueville, Michelet, Ranke e Burckhardt, e dos filósofos da história do mesmo período, Hegel, Michelet, Marx e Croce. Inova ao propor uma interpretação sobre a metodologia do trabalho histórico, que não consiste em discutir as escolas históricas, como os estudiosos estavam acostumados a fazer, mas com base nas estratégias narrativas que cada autor leva a cabo, em sua produção e discussão do campo. Para tanto, se vale do auxílio de instrumentos conceituais da linguística e da crítica literária, isso porque o autor define o trabalho histórico como “uma estrutura verbal, na forma de discurso narrativo em prosa, que pretende ser um modelo, ou ícone, de estruturas e processos passados no interesse de explicar o que eram representando-o”. (p. 18). Portanto, busca identificar e analisar nas obras dos historiadores do século XIX, os componentes estruturais das narrativas e suas estratégias narrativas levadas a cabo.


[2] REZENDE, Antonio Paulo. Apresentação. In: BARROS, Natália; REZENDE, Antonio Paulo; SILVA, Jaílson Pereira (Org.). Os anos 1920: Histórias de um tempo. Recife: Ed. Universitária da UFPE, 2012, p. 12.

domingo, 20 de julho de 2014

Grupo Outra História lançará livro


Nas Trilhas do sertão: escritos de cultura e política nos interiores do Ceará (1850-1930)



O Grupo Outra História, comunidade de pesquisadores em história do Ipu, lançará na próxima quinta-feira seu primeiro livro. Trata-se de uma coletânea de seis artigos sobre a história local e da antiga “zona norte”, o número 1 da série “outra história”. O lançamento ocorrerá dentro da programação do VI Simpósio de Ipu, na quinta-feira, a partir das 19:00h, no auditório da Escola Profissional Antônio Tarcísio Aragão, em Ipu-CE.
Na ocasião os autores participarão de uma mesa redonda para discutir a obra, em interação com o público presente.
            Os autores do livro são os professores e historiadores, Antonio Iramar Miranda Barros, Antonio Vitorino Farias Filho, Carlos Augusto Pereira dos Santa (UVA), Francisco Petrônio Peres Lima, Francisco Denis Melo (UVA), Raimundo Alves de Araújo e Reginaldo Alves de Araújo.
Os textos reunidos no livro resultam de trabalhos acadêmicos, mas com uma linguagem mais leve e instigante.


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Imprensa e cidade: o jornalismo no início do século XX em Ipu-Ce. Parte II


O “Jornalismo Matuto"[1]


Correio do Norte. Fonte: Biblioteca Menezes Pimentel
 Esta arte só teria começado a se desenvolver na Terra de Iracema, segundo o mesmo autor, quando tivera início a “formação mental dos ipuenses”. Ele se refere às últimas décadas do século XIX, quando, por influência do Padre Francisco Correia de Carvalho e Silva, a Vila Nova do Ipu Grande, elevada a condição de cidade em 1885, se viu livre da sanha sanguinária dos destemidos Mourões - família influente na freguesia da Serra dos Cocos, da qual a Vila Nova do Ipu Grande fazia parte, e com o uso da força e das armas aterrorizou a região - e do pronto estabelecimento da lei[2].
Se se der crédito à análise feita pelo magistrado nos primórdios do século XX, teria sido, portanto, nos últimos anos do século XIX que a “vida intellectual do Ipú começou a movimentar-se”[3]. Umas de suas manifestações teria sido o desenvolvimento da imprensa local.
De fato, as primeiras folhas vieram a lume naquele momento. No início, eram pequenos jornais, todos manuscritos, em função de não haver ainda um prelo na cidade. As precárias comunicações com outras localidades, sempre relativamente muito distantes, pela falta de meios de transportes seguros, rápidos e regulares, não favorecia o uso do prelo, existente em algumas cidades, como é o caso de Sobral. Somente após a chegada da ferrovia e o surgimento das facilidades das comunicações, sua maior velocidade e barateamento dos transportes, foi possível se contratar serviços gráficos e tipográficos de estabelecimentos para esse fim, existentes em outras cidades.
No entanto, os primeiros jornais manuscritos, todos de “orientação literária, social e humorística” saíam ainda no último quartel do século XIX. A primazia coube ao ensaio A Lyra, já em 1886. Depois deles vieram outros, como O Povir, O Sol, A Brisa, O Espelho, Beija-Flor e O Paladino, todos redatoriados, principalmente, por Júlio Cícero Monteiro, literato e jornalista, Thomaz de Aquino Correia e Sá, farmacêutico e estudioso das letras, e Francisco Ximenes de Aragão, “então acadêmico”[4].
Segundo José Oswaldo de Araújo, “a cidade do Ipu não madrugou na publicação de jornais em relação ao interior do Ceará” e foi a 12ª localidade a editar um periódico impresso. Trata-se do jornal O Ipuense, um semanário fundado e dirigido por Júlio Cícero Monteiro[5], cujo número de estreia data do dia 24 de outubro de 1890 e teve 20 edições consecutivas. Foi “este, o primeiro jornal em letra de fôrma da terra de Iracema”[6]. Este hebdomandário era impresso na tipografia do jornal A Ordem, de Sobral.
            Em seguida, os irmãos Teles e Jovelino de Sousa, diretores do educandário José de Alencar, o mais importante colégio particular local até aquela data, editaram e fizeram circular o jornalzinho Cidade de Ipu, “jornal bem feito, com excelente parte editorial e literária”. O seu primeiro número data de 18 de fevereiro de 1904. Teve vinte edições e encerrou suas atividades em 15 de outubro do mesmo ano. Marcaram suas páginas os escritos do Dr. Félix Cândido de Sousa Carvalho, juiz de direito da Comarca naquele momento e futuro Desembargador do Tribunal da Relação do Estado[7], do poeta Liberato Filho, Manoel Ribeiro de Miranda, Alba Valdez, Júlio Cícero Monteiro, Dr. José Mendes de Vasconcelos, Luis Porfírio e do professor João da Mata Cavalcante, dentre outros[8].

Continua...



[1] Id. Ibidem. É assim que Eusébio de Sousa se refere à imprensa do interior do Ceará no início do século XX.
[2] Sobre os Mourões ver: MACÊDO, Nertan. O bacamarte dos mourões. Fortaleza: Editora Instituto do Ceará, 1966.
[3] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 222. 
[4] ARAÚJO, Oswaldo. Imprensa de Ipu. In: Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza. Tomo LXXX, Ano LXXX, 1966, p. 162-165, p. 162. Segundo Eusébio de Sousa, a imprensa teve início com o jornal O Sol, que tinha como redatores Tomaz Correia e Felix Candido. Segue-se com O Ipuense, “de Thomaz Correia, Felix Candido e Manoel Marinho, seguindo-se-lhe A Brisa, ainda da responsabilidade de Thomaz Correia, Felix Candido e José Candido; O Espelho, de Eduardo Saboya, actualmente deputado ao Congresso Federal, jornalzinho que durou mais de um anno; e o Paladino, órgão da sociedade litteraria PALANDINOS DO PROGRESSO, de Julio Cicero Monteiro, Felix Porfirio de Souza, Herculano José Rodrigues e Manoel Coêlho”. SOUSA, Eusébio. Para a Historia. Op. cit., p. 227.
[5] Júlio Cícero Monteiro se mudaria para a cidade de Camocim, mantendo, no entanto, intenso diálogo com os intelectuais ipuenses daquele período, inclusive escrevendo periodicamente para o Correio do Norte. Nunca deixou de retornar à cidade de Ipu. Em Camocim, fundou o Grêmio Literário e foi diretor-proprietário do Jornal A Razão (1928-1931), um semanário. Reconhecido como um intelectual brilhante, escrevia para diversos jornais que circularam na região norte.
[6] ARAÚJO, Oswaldo. Imprensa de Ipu. Op. cit., p. 162.
[7] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 229.
[8] ARAÚJO, Oswaldo. Imprensa de Ipu. Op. cit., p. 162-163.

domingo, 11 de maio de 2014

NUNCA É TARDE PARA CHORAR parte IV (2)


Rixa de morte no cabaré

Folhetim de Gabriel Arcanjo

E mesmo os mais brutos dos homens da cidade (aqueles acostumados à dor e ao sofrimento do mundo) sentiram um nó na garganta e tiveram vontade de chorar ao perceber a profundidade da canção triste cantada na praça pelo poeta errante; era uma canção triste como a vida, sem sentido, regada à cachaça, inútil, e estéril, como os sertões ressequidos dos Inhamuns:
“-Tanta gente vai
Tanta gente vemmmmm
A bordo do tremmm
A mercê da vida!
Ôôô, menina linda
A luz não finda
Este torpor!”
Lá longe, bem longe, a montanha assistia impassível e indiferente à dor e ao sofrimento dos homens e das mulheres do vale a seus pés; também viu que muitos dentre estes homens se comoveram pelo canto triste do poeta errante – seria um réquiem para os mortos de véspera? – ao ponto de depositarem parcas moedas no chapéu empoeirado do cantor penitente (seria um óbolo ao barqueiro? De certo que não) e partirem também sorrateiros e indiferentes à dor e ao tormento do mundo..., do vate que cantava como um choro..., do trem que apitava como um grito, da montanha que espiava como uma esfinge, e das ruas tortas da cidade triste, que chorava em silêncio um choro surdo e mudo de mais de um século de existência!  
Em meio à multidão alvoroçada, um homem alto e magro, vestindo terno e gravata escuros, na faixa dos cinquenta anos, parecia especialmente atento à canção do vate. Seu nome? Era Augusto Passos, um maçom conhecido e reconhecido como tal, inimigo assumido do padre Meireles. Augusto era um homem de fibra, fora nomeado promotor púbico no Ipu, sem ser formado em Direito, pois estivera sempre do lado certo na política local e estadual. Amigo do velho coronel João Martins da Jaçanã, encarregou-se pessoalmente da defesa do mesmo, por ocasião de sua prisão e posterior julgamento no fórum, quando o velho matou a facadas um sobrinho numa questão de terras. Saindo da feira, o advogado-prático ainda podia ouvir a canção triste do poeta errante quando avistou por entre as mesas do cabaré a figura esbelta de seu sobrinho, o jovem Joaquim Martins, e sua bela companheira, Maria Alves. Muitos casais dançavam, e o sanfoneiro cantava:
No Ceará não tem disso não,
Não tem disso não, não tem disso não
No Ceará não tem disso não,
Não tem disso não, não tem disso não!
Damião, o sanfoneiro que tocava e cantava o último sucesso de Luiz Gonzaga e que saíra no rádio, fazia dupla com sem irmão gêmeo, Cosme. Os dois faziam sucesso nas festas de santo e nos cabarés profanos de todo o sertão e pela Ibiapaba. Vez ou outra os irmãos se revezavam no fole da sanfona, no trago de cachaça e na cama com as putas. E puta nova, pouco rodada, era coisa que não faltava para os irmãos. Ninguém sabia quem era quem, pois os dois tinham os mesmos hábitos, os mesmos olhos tristes e até os mesmos gostos: forró-pé-de serra, cachaça serrana e “mulher de vida fácil”. 
A jovem loira, de vestido esvoaçante, que acompanhava Joaquim Martins na dança chamou à atenção do velho maçom logo ao primeiro golpe do olhar: tratava-se de Maria Alves, a famosa filha renegada dos Araújo. Linda, loira e atrevida, a jovem se deu ao desfrute, dançando uma dança escandalosa, que exibia as pernas, as coxas e o decote de seu vestido de chita feito para as festas profanas e religiosas da cidade. Nunca houve no Ipu mulher mais formosa, mais desejada, talvez porque suas vestes generosas deixavam ver as curvas de seu corpo sensual. 
Seus olhos eram como o mar; um mar de fogo e de gelo, de luz e de trevas. Olhos que fitavam o mundo como quem vive e como quem morre. Olhos que feriam como faca; que perfuravam o peito como punhal assassino; que amargavam na boca como fel, como limão galego, como pimenta malagueta. E ao mesmo tempo eram um Oasis, uma sombra com água fresca sob o sol escaldante do sertão. Maria vivia agora amancebada com Joaquim Martins. Mas Joaquim era homem casado, mesmo assim montou casa para a amante, sem se importar com os dissabores da esposa, ou com as fofoqueiras da cidade: “- Que vergonha! Homem casado, se dar ao desfrute, com essa desavergonhada!” “-Se pelo menos o sortudo do Joaquim pudesse garantir a exclusividade dos favores sexuais da moça estaria livre da sífilis e dos chifres!”
Metido a valentão, Joaquim Martins trouxe a rapariga para exibi-la no forró, para que todos a vissem. O cabaré estava cheio! Muitos homens bebiam cerveja, aluá ou cachaça, e a sanfona cantava “-No Ceará não tem disso não! Não, não, não! No Ceará não tem disso não!”. Maria e Joaquim dançavam agarradinhos como arapuá em cabelo duro, quando ele – valentão afamado - percebeu os olhares maldosos e atrevidos de um cabra safado para sua bela mulher. Sem titubear, Joaquim deu um soco de mão aberta no tronco da orelha do atrevido: “-Toma isso, ô fela-da-puta!” O soco fora tão forte que o homem veio ao chão, com a borboleta do ouvido zunindo que nem cigarra em noite de luar. Mas o homem já se ergueu com sua faca em punho! Joaquim não deixou por menos, sacou de seu punhal de cabo de chifre (o cabaré era um ambiente tão perigoso que nenhum homem se atrevia a ir lá sem estar armado de faca peixeira ou revolver cheio de balas). A música dizia “-No Ceará não tem disso não! Não, não, não! No Ceará não tem disso não!” Mas tinha disso sim!
Cosme e Damião, os sanfoneiros gêmeos, pararam de tocar, a multidão corria par todos os lados, os dois homens se mediam de facas em punho, como feras assassinas.  E mais uma vez foi Joaquim quem atacou primeiro: “-Eu sou é macho, caboco besta!”, disse isso, desferindo um golpe cego no ar com seu punhal vingador. “-Tá pensando o que, seu merda? Eu sô Antõe Macambira, cabra do coronel Olegário, do Tamboril!” Disse o homem, com a faca em punho e também partindo para cima de Joaquim. As pessoas assistiam de longe, bem longe, sem nada fazer para acalmar os dois homens que se digladiavam numa dança feroz. Não há o que fazer numa briga de facas! Quem seria louco o bastante para entrar no meio? A faca de Joaquim penetrou fundo no ar, rasgando o vento, quando Antonio Macambira, feito um gato, pulou de lado, desviando-se do golpe mortal por um milímetro e, num gesto brusco, aproveitando-se de um escorregão do inimigo, cravou a faca nas costelas de Joaquim. Joaquim até pôde sentir o aço frio e cortante da faca-peixeira inundar seu pulmão. E, num último movimento, muito mais de reflexo do que de destreza, pôde ele cravar seu punhal no peito seminu de Macambira. Os dois cambalearam, como bêbados e caíram ao chão quase ao mesmo tempo. Estaria Joaquim morto? Maria gritou por ele e partiu em seu socorro, mas ele não respondeu. Macambira deu seu último suspiro antes de Joaquim. (Os dois se veriam daqui a pouco no Tribunal de Jesus). A jovem amparou a cabeça de seu amante em seu colo, e viu que ele tentava lhe dizer alguma coisa, por entre gemidos de dor e golfadas de sangue, numa língua já morta: “-Umm, hummm, humm”, mas o som era inaudível, incompreensível. E a morte lhe acenava do alto, com um sorriso sinistro a lhe arrastar para o além. Suas mãos tremiam, num espasmo. Antes que a vida lhe deixasse por completo, Maria ainda tivera tempo de lhe dizer ao ouvido uma última palavra de adeus: “-Joaquim! Não morra não, Joaquim, meu amor! Não morra não! Eu tô esperando um filho teu! O que vai ser de mim, Joaquim?” Ele ouviu a notícia, sorriu com os lábios gélidos, arregalou os olhos, e morreu...
 La fora um vento frio trazia na voz sussurrada de um tocador andarilho do sertão um réquiem para Joaquim:
“Tanta gente vai
Tanta gente vemmmmm
A bordo do tremmm
A mercê da vida!
Ôôô, menina linda
A luz não finda
Este torpor!
O meu coração chorou
Por uma razão qualquer
A mercê da vida...”


Continua...

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Imprensa e cidade: o jornalismo no início do século XX em Ipu-Ce. Parte I


Gazeta do Sertão (1913). Capa. Nº 1. Acervo de Raimundo Alves de Araújo
A imprensa surge na cidade de Ipu em fins do século XIX. Inicialmente se resumia a pequenas folhas manuscritas e com um forte viés literário. Somente nos últimos anos do século XIX, e mais ainda nos primeiros anos do século seguinte, é que surgiriam jornais e revistas em “letras de forma”, isto é, impressos. É essa imprensa que nos permite, em grande medida e por sua abundância, visualizar a cidade daquela época, os conflitos que se desenrolaram em seu palco, os desejos buscados e, mais importante ainda, as representações construídas sobre o espaço urbano.

Imprensa e cidade

O surgimento de jornais, em Ipu, é também resultado da expressão de agentes sociais com desejos pelo novo e em busca de cimentar projetos diversos. A própria imprensa, como novidade, era entendida como atributo de um povo letrado e, portanto, progressista, moderno.
No dizer de Eusébio de Sousa, juiz da Comarca de Ipu entre 1913 e 1918, a imprensa é “a bella manifestação do progresso de um povo”[1]. Devia ter ela um papel fundamental para o desenvolvimento do caráter de uma população, na medida em que uma de suas funções era instruir. Devia ter também, uma feição intelectual e cunho artístico, algo que faltava, por exemplo, segundo ele, ao jornalismo desenvolvido pela capital do Ceará até 1918, momento em que escrevia, representado pelos jornais Folha do Povo, Diário do Estado, Correio do Ceará, Jornal Pequeno e o Imparcial[2].
A imprensa, para o magistrado, devia ter uma função pedagógica, jogar um papel importante para a formação moral e do “caráter” de um povo. Devia esclarecer, no sentido de instruir, ensinar, de mostrar o melhor caminho a ser perseguido pela sociedade e atacar o que considerava errado, do ponto de vista de “nossa” (sua) formação ética e moral. Devia ela, em última instância, moldar os indivíduos, ser “a escola que modifica o nosso caracter e nos habilita a acompanhar questões de alta importância”, ter uma ação moralizadora e combativa das paixões partidárias, um mal a ser extirpado da folha impressa, mas que a assolava. A imprensa, em Fortaleza, naquele momento, “ao que parece não tem querido ella comprehender o verdadeiro papel que lhe assiste, desvirtuando quase sempre sua acção moralizadora para o terreno das paixões partidárias”[3].
O jornalismo, pensado desta forma, teria um papel importante no caminho de “apontar os nossos defeitos, combater o erro, defender o que necessitava de auxilio, enfim propugnar pelo bem, abandonando de vez as paixões, os falsos expedientes até então postos em pratica”[4].
Esses vieses, de fato, aparecem na folha impressa em Ipu nas primeiras décadas do século XX, sobretudo em seus órgãos mais bem elaborados e importantes naquele momento: o Jornal Gazeta do Sertão (1913) e o Correio do Norte (1918-1924). Ambos conheceram a pena ávida de Eusébio de Sousa e onde escreviam os intelectuais do círculo de sua amizade. Do segundo periódico, o juiz imprimiu diretamente as suas diretrizes ao fundá-lo e ser o seu primeiro diretor. 

Continua...




[1] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 226.
[2] SOUSA, Eusébio. A Imprensa do Ceará em 1918. In: Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza. Tomo. XXXIII, Ano XXXIII, 1919, p. 22-107, p. 25. O autor negligencia os pequenos jornais, com características de pasquim.
[3] Id. Ibidem, p. 28.             
[4] Id. Ibidem, p. 29.

sábado, 29 de março de 2014

Ipu Antigo VIII (Final)


Porto de Camocim, mostrando a Estação Ferroviária. Quadro do pintor e artista camocinense Eduardo de Souza. Pertence ao historiador Carlos Augusto Pereira dos Santos
Ao lado do crescimento econômico da cidade houve, igualmente, um aumento significativo da população da sede e das regiões em sua volta. O recenseamento de 1890 apontava para o município de Ipu uma população de 11.216 pessoas. Dez anos depois novo recenseamento computava a existência, na cidade, de 13.263 habitantes. Em 1915, segundo Eusébio de Sousa, a população do município era de cerca de 20.000 almas. Assim em apenas 15 anos, entre 1900 e 1915, o crescimento populacional, se se der crédito aos números apresentados por Eusébio de Sousa, teria sido de quase 50%[1].
Não há por que duvidar dos números arrolados pelo magistrado, pois o censo realizado pelo governo federal, em 1920, apontava, para a cidade, uma população de 22.834 pessoas. Aparecia como 15º mais populoso entre os 86 municípios do Estado do Ceará. A população de Fortaleza, na época, era de 78.536 habitantes, de Sobral, 39.003 e, de Camocim, 17.271.

TABELA
População de alguns Municípios do Ceará em 1920
Posição
Cidade
População
Posição     
Cidade
População
Fortaleza
78.536
Granja
27.962
Sobral
39.003
Aracati
27.551
Iguatú
32.406
15º
Ipu
22.834
Baturité
30.032
17º
Juazeiro
22.067
Crato
29.032
28º
Camocim
17.271
Tabela elaborada pelo autor. Fonte: População dos Municípios do Ceará. Revista do Instituto do Ceará. Tomo XXXVI, Ano XXXVI, 1922, pp. 495-497.

É desse crescimento da cidade, na virada do século, e das transformações que engendra, que emerge, no seio de um grupo de pessoas, a construção da percepção do progresso e da modernidade. É o crescimento da cidade e as mudanças que produz no âmbito local, precisamente em um dado momento - os anos finais do século XIX e as primeiras décadas do século XX - a chave para entender como foi possível a emergência de uma dada representação da cidade. Optamos, no entanto, por não analisar esse crescimento, em seu pormenor, como fizemos em trabalho anterior, já citado[2], mas apenas tangenciá-lo. O que pretendemos é discutir como somente naquele momento, caracterizado por mudanças, é que surge a ideia de que a cidade caminhava nos trilhos do progresso e se constrói sua imagem de urbs moderna.





[1] SOUSA, Eusébio. Um pouco de historia (Chronica do Ipú). In: Revista do Instituto do Ceará. Tomo XXIX Ano XXIX, 1915, p. 152-143, p. 219.
[2] FARIAS FILHO, Antonio Vitorino. O Discurso do progresso e o desejo por uma outra cidade. Op. cit.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

NUNCA É TARDE PARA CHORAR parte IV (1)


Rixa de morte no cabaré

Folhetim de Gabriel Arcanjo

Na movimentada praça da estação ferroviária, em meio ao apito estridente da locomotiva e ao sol escaldante de janeiro, uma multidão contrita percorria em alvoroço as ruas do centro colonial acanhado do Ipu. Era a Rua da Goela uma aldeia senil cuja idade se perdeu no tempo; a Rua do Mercado com seu comércio imemorial; a Rua do Cabaré, onde jovens meretrizes vendiam sexo por um vintém, e a Rua da Matriz, onde velhas senhoras sexagenárias debulhavam o terço e a Ave-Maria em honra dos vivos e dos mortos do lugar. Como loucos num festim profano, todos, todos sem exceção, estavam a procurar por algo que ninguém saberia dizer ao certo o que era: o que poderia ser? O que poderia querer a moça de vestido florido a vagabundear com suas amigas pelo Jardim de Iracema; o velho septuagenário à espera da morte; o burguês aprisionado em seu comércio; o bêbado caído na praça, e os rapazes analfabetos que tangiam mulas, vestiam roupas grosseiras de algodão? O que esperariam todos eles da vida e da morte no sertão estéril e inútil do Ipu dos anos quarenta para cinquenta do século XX? Um trago de cachaça para afugentar a dor? Um lugarzinho no Céu ao lado de Deus? Uma pessoa honrada para dividir a vida?  Ou uma viagem só de ida para o Rio de Janeiro? Quem saberia dizer o porquê de haver tanta dor nesta vida? Só os anjos, talvez... ou os demônios!
E o velho cego a esmolar pelo mercado (seu nome era Antõe Joana), de mão estendida para a impiedade de Deus e para a piedade dos homens, o que ele esperaria para a sua vida e para a sua morte, naquele festim profano? Uma morte sem dor? Uma vida sem alegria? Um milagre de Deus? Uma utopia sem nexo? Sexo no Cabaré? Um trago de cachaça? Para ele, ali prostrado, inerte, pedindo esmola com uma cuia e a mercê da caridade alheia, num canto sujo do mercado imundo do Ipu, a morte seria um alívio, e a vida seria uma sentença! Seria verdade, como lhe dissera sua avó, já morta e enterrada há muito tempo no cemitério da cidade, que o mundo iria mesmo se acabar antes do ano dois mil? “-De dois mil não passarás”, teria profetizado o velho padre Cícero no Juazeiro, e os romeiros supersticiosos e crendeiros de Canindé acreditaram como se fora dito pelo próprio Cristo!
Por entre as pessoas e as barracas que vendiam café, tapioca, aluá, milho, roupas, sandálias, chapéus, cachaça e facas pontiagudas, um alvoroço comprimia os corpos, um calor mordaz abatia os ânimos e um vento abrasador – como que saído das fornalhas do inferno - aterrorizava as mentes e os corações dos homens e das mulheres que ali estavam diante da estação ferroviária avassaladora, ali posta como uma catedral monstruosa dedicava ao Progresso! No horizonte distante, tal qual o rugido saído da garganta de um monstro fantástico, a locomotiva a vapor vinha de longe, bem longe, rasgando o azul do horizonte, com seu berro de Titã enfurecido, fazendo gelar o sangue e perturbando as almas dos vivos e dos mortos da cidade centenária: era ela a besta-fera do Apocalipse prevista por São João Batista, pelo Padre Cícero e pelo beato Antônio Campelo como o último presságio para antes do fim do mundo? Era ela a sétima Trombeta anunciada pelo profeta Elias? Nada disso fazia sentido, ou trazia consolo para os transeuntes, ou para o cego a esmolar na porta do mercado naquela manhã de sol.  
Para os sertanejos, o trem era uma invenção do Diabo! Sim, do Diabo! E ele tinha qualquer coisa de mal-assombrado, de endemoninhado, de fera saída do Inferno! “-De onde teria vindo esta fera de aço, que cospe fogo e fumaça pelas estradas de terra do sertão, percorrendo um dia o espaço que um bom cavalo levaria uma semana?!” Perguntavam os matutos contritos. E quando o apito estridente da locomotiva lhes dizia algo era um presságio do fim do dia, do fim do mundo, do fim da festa e do fim da vida! O trem estava chegando à estação carregada de gente e de sonhos, e de dentro da alma dos homens e das mulheres que o fitavam ao longe da trilha de aço e de fumaça que ele deixava, um calafrio ancestral percorria-lhes a espinha. E de dentro das entranhas do monstro de ferro um jovem violeiro de cabelos compridos chama a atenção dos passantes por seu porte avantajado de sertanejo agigantado – tinha um metro e noventa e poucos, o que era muito raro pelos sertões – e sua voz era majestosa e imponente, como a voz de um anjo entoando cânticos aos céus num domingo.
O jovem vate desembarcara de uma peregrinação a Canindé (a Meca do sertão-central), com uma viola na mão e muita esperança na algibeira. Depois de Canindé, o Ipu era a cidade mais religiosa do norte do Estado, e Sabiá – este era o nome deste jovem - pretendia ganhar alguns trocados cantando suas cantigas tristes na feira da estação para os serranos e para os sertanejos que iam e que vinham naqueles dias festivos. Arriando seu corpanzil fatigado em cima de um tamborete tosco à sombra de uma oiticica centenária, o jovem cantador inicia seu canto triste na praça da estação debaixo do sol abrasador:
Tanta gente vai
Tanta gente vemmmmm
A bordo do tremmm
A mercê da vida!
Ôôô, menina linda
A luz não finda
Este torpor!
O meu coração chorou
Por uma razão qualquer
A mercê da vida
...    ....   ...
Ôôô, menina linda
A luz não finda
Este torpor!
Tanta gente vai
Tanta gente vemmmmm
A bordo do trem
A mercê da vida!
Ôôô, menina linda

Os homens pararam para ouvir... A voz perdeu-se em meio aos transeuntes da feira e da novena, penetrou nas casas e nos casarões antigos como um invasor inoportuno, adentrou as ruas, as alcovas, a Igreja, o Cabaré, os corações e as mentes dos homens fracos e fortes, e por fim veio falar às almas contritas dos habitantes do Ipu que aqueles eram tempos difíceis, tempos derradeiros, de quebradeira geral; tempos finais, de falência das famílias ilustradas, de queda nos preços do algodão, de ascensão de caboclos e pardos e que antes do fim, os homens ricos do lugar estariam de joelhos, a esmolar como o cego do mercado, pedindo ajuda a Deus ou ao governo do Estado, para vir abastecê-los de víveres e de dinheiro fácil, para que eles assim possam socorrer suas frágeis e débeis clientelas e ganhar mais um pleito na política local. “-Nós deveríamos arrumar dinheiro, distribuir no dia da eleição, garantir os votos no nosso candidato!”
A música triste dizia:

“-O meu coração chorou
Por uma razão qualquer
A mercê da vida...”

Faltava comida, água e dignidade para toda população da cidade! E quem controlasse as benesses dadas pelo governador controlaria os votos da população sedenta e analfabeta. 

Continua...
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