quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

A Nova História do Ipu - XVI

Livro do acervo do Gabinete de Leitura

Unidade 3 – Formação econômica e social

Introdução

A economia ipuense, nas primeiras décadas do século XIX, era bastante tímida. Porém, quando nos aproximamos de meados daquela centúria as coisas começam a mudar. A produção de algodão se desenvolve e em pouco tempo aquele artigo torna-se o principal produto da economia local. Mas também, muitas outras atividades eram importantes, produziam riqueza e ocupação. A segunda metade do século marca, nessa trajetória de crescimento, um momento impar. A quantidade de escravos e suas ocupações mostram bem isso.
        Este momento é ainda aquele em que a Vila Nova do Ipu Grande começa a organizar-se. Como centro político e sede da justiça, a violência do bacamarte é aplacada e os discursos em nome do desarmamento da população tornam-se mais enfáticos. O monopólio das armas, no entanto, passa, lentamente, para o poder instituído.
        Finalmente, entre fins do século XIX e primórdios do século XX, surge um primeiro grupo de intelectuais. Estes erguem as primeiras associações dançantes e literárias, fundam a imprensa local e dão asas a ideia de que a cidade de Ipu caminha nos trilhos do progresso e da modernidade ansiados e que, por isso, seu povo deve civilizar-se. Viviam-se novos tempos?

Sobre o Livro: Histoire de la Civilisation. É o primeiro volume do clássico "História da civilização", de J. de Crozals, pertencente ao acervo do Gabinete de Leitura. Aquele que se reconhecia como civilizado, no início do século XX, devia saber francês e ter um vasto conhecimento da história universal e das artes (literatura, pintura, música, etc). Os membros do Gabinete procuraram juntar, em seu acervo, os clássicos da história e da literatura mundiais da época. Grandes nomes da literatura francesa não podiam faltar, tais como Alexandre Dumas, Vitor Hugo, Musset, Flaubert, Émile Zola, Chateaubriand, Balzac, dentre outros.

Continua...

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Ipu Antigo V

Correio do Norte. Do meu acervo.
A ferrovia passa a ter papel de destaque para o crescimento econômico da então pequena Ipu. O final do século XIX e as primeiras décadas do século XX representam, para esta cidade, um momento de crescimento sem precedentes. Embora já se verifique que ele tenha sido contínuo, embora com avanços e recuos, desde pelo menos meados do século XIX, quando a região teria passado por um primeiro surto de produção de algodão e dinamizado outros setores, como o açucareiro, é somente após a chegada da ferrovia, em 1894, que se pode verificar um crescimento econômico mais acentuado.
A ferrovia teria contribuído para dinamizar ainda mais a produção de algodão. Em 1921, segundo dados dos “assentamentos da Estrada de Ferro”, apresentados pelo Jornal Correio do Norte, em 1921, Ipu e Serra da Mata eram os dois maiores exportadores de algodão no norte do Ceará. A primeira cidade teria exportado 298 toneladas de algodão beneficiado “não se falando na grande porção de algodão em rama, que a casa J. Lourenço, d’esta cidade enviou para Ipueiras onde possui uma fábrica de descaroçar e que d’áli foi remettida para Camocim”[1].
O Cel. José Lourenço de Araújo[2] possuía duas fábricas de beneficiamento de algodão, uma em Ipu (sede do município), outra na localidade de Ipueiras e pelo menos três estabelecimentos comerciais (armazéns), um em Ipu, outro em Ipueiras, e um terceiro em Crateús, que negociavam produtos locais e efetuava transações de importação e exportação. Os seus armazéns vendiam ainda miudezas, ferragens e materiais de construção. Segundo matéria do Jornal Correio do Norte, citada acima, o Cel. José Lourenço de Araújo era o maior exportador de algodão da região.
É preciso esclarecer que o algodão exportado pela cidade de Ipu, e que aparece nas estatísticas, não era produzido unicamente no município. Os comerciantes locais compravam o algodão bruto dos produtores desta cidade e das regiões circunvizinhas. Em seguida, o produto era beneficiado, descaroçado e ensacado. Só depois era exportado para os mercados consumidores. Data do início do século o surgimento de inúmeros armazéns que comerciavam com artigos de exportação. Além daqueles pertencentes ao Cel. José Lourenço de Araújo, citados acima, outros importantes estabelecimentos foram o Armazém Dias, pertencente aos sócios José Aragão e Manuel Dias, e a Mercearia e Bilhar, de propriedade de Osório Martins e José de Farias, que além do algodão, exportavam couro, peles, mamona e café[3], este último produzido na Serra da Ibiapaba, antes da ferrovia, consumido localmente e vendido para o Piauí[4].




[1] Algodão. Correio do Norte. Ipu, p. 1-2, 3 Ago. 1922.
[2] O cel. José Lourenço de Araújo era natural da Ribeira do Acaraú, da velha cidade de Santana. Veio para o Ipu no início do século XX. Como comerciante, abriu na cidade várias firmas e adquiriu muitas propriedades.
[3] Revista dos Municípios. Op. cit.
[4] BEZERRA, Antônio. Notas de Viagem. Fortaleza: Imprensa Universitária do Ceará (UFC), 1965.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Tour Elegante VI

Teatro Municipal

Teatro Municipal. Fotografias do meu acervo
O Teatro Municipal, no centro do Rio de Janeiro, foi construído no início do século XX, durante a reforma urbana do Rio de Janeiro, que visava modernizar a capital republicana para torná-la a vitrine da “civilização” brasileira, levada a cabo pelo prefeito Pereira Passos. Uma das vias centrais da reforma foi a abertura da Avenida Central, hoje Avenida Rio Branco, onde está o teatro, moldada à imagem dos bulevares (Boulevards) parisienses da reforma do Barão de Haussmann, prefeito de Paris na época de Napoleão III.
O desenho do projeto de construção do teatro teve como base a Ópera de Paris, de Charles Garnier. O edifício foi iniciado ainda em 1905 e inaugurado em 1909.
O interior do prédio é de uma beleza rara: um verdadeiro espetáculo! O monumento mais bonito que já tive o prazer de visitar. Vale a pena conhecer.


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Grupo Outra História

"Logotipo", "selo", sei lá, do Grupo Outra História. Desenho de Raimundo Arcanjo.
A ideia de criar um grupo de pesquisadores da história do Ipu parece ter partido não apenas de um estudante universitário. Na ocasião, creio, estávamos indignados com a tão pouca produção historiográfica sobre o município. A partir daí, um grupo de cinco formandos em história e outro já formado, começou a reunir-se frequentemente para propor caminhos. Eram eles Petrônio Lima, Jorge Luis, Raimundo de Araújo, Reginaldo Araújo, Iramar Miranda e eu. A ideia de formar um grupo de pesquisa veio em 2004. O nome foi sugerido por Raimundo de Araújo. Concordamos de imediato: Grupo Outra História. Este resumia muito de nossas pretensões. Queríamos fazer uma história diferente da que nos era apresentada, mas sem desprezá-la, evidentemente. O nosso objetivo era reescrever a “história de Ipu”, a partir do que já se tinha escrito. Hoje temos plena consciência de que aquele nome era, senão totalmente, pelo menos impróprio, meio arrogante até, ainda que inconscientemente.
        O objetivo principal do grupo era a produção historiográfica, sobretudo, tendo a cidade de Ipu como objeto privilegiado de estudo. Nossas pretensões eram arrojadas. Queríamos, em primeiro lugar, fundar uma revista anual, em forma de livro, algo que só se concretizará neste ano, cujo primeiro número contemplaria a “nossa história”: uma espécie de coletânea de artigos que reuniria os resultados das nossas pesquisas, então em andamento, hoje, no entanto, concluídas; manter um jornal histórico-literário, o mais longe possível do partidarismo político e dos ditamos cruéis do mercado; e, finalmente, pretendíamos publicar um livro didático sobre a História do Ipu, pois considerávamos inadmissível que nossos alunos estudassem em nossas escolas as tradicionais História do Brasil e Geral, sem terem, sequer, um conhecimento rasteiro de sua própria história. Era e ainda é uma falha imensa de nosso sistema educacional, que não valoriza sua própria história e cultura, devidamente, creio.
        Na nossa concepção, o grupo deveria fugir das formalidades (nada de estatutos, nada de cerimônias pomposas, nem mensalidade, sistema classificatório ou regras para aceitar seus membros. Nada de símbolos usados para produzir impacto, respeito ou afirmar uma posição superior: diploma, medalha, beca, smoking, cartola, sei mais lá mais o quê. Em última análise, queríamos fugir do academicismo, do peso da tradição, do conservadorismo estanque, do pensamente reacionário.
No entanto, o Outra História acabou se transformando num grupo de pesquisa, e que já deu bons frutos. Dos seis membros fundadores, um já é doutor em história, preparando seu livro para publicação; três são doutorandos em história; um é mestre em história, se preparando para o doutorado; e o outro é especialista em Teoria e Metodologia da História.
O Grupo, disperso, permanece na informalidade. Em julho lançaremos, no V Simpósio de Ipu, o nosso primeiro livro (coletânea de seis artigos), número 1 da coleção intitulada Outra História, cujo “selo” é a imagem acima, carregada de simbolismo.
Alguém se arriscaria a analisá-la?



quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Ipu: perfil urbano VII


Jardim de Iracema. Fotografia do acervo do prof. Mello
Seguindo pelas ruas pavimentadas por paralelepípedos, ainda no início do século, e símbolos do progresso para parte da população local, o viajante pode perceber que a velha Estação Ferroviária é ligada ao centro da cidade por duas vias largas, retilíneas e regulares, as atuais ruas Cel. Felix de Sousa Martins e Cel. Liberalino. Seguindo por qualquer uma delas, poderia avistar à sua esquerda o antigo prédio, inaugurado em 1927, construído para ser a sede do Grêmio Ipuense (1912) e do Gabinete de Leitura (1916), duas associações erguidas com o objetivo de fundar novas sociabilidades antenadas com os ideais do progresso e da modernidade, desejo de homens e mulheres seduzidos por tais valores. O antigo Palacete Iracema, símbolo de novos valores buscados, vendido à iniciativa privada, modificado e “modernizado”, é hoje a sede da Caixa Econômica Federal. A memória das Soirées, dos bailes, partidas literárias e saraus, realizados em seu interior, permanece apenas na mente dos mais velhos de seus frequentadores. A sua antiga sede já não lembra suas noites de “gala”.
Da calçada do antigo Palacete Iracema, na rua Cel. Liberalino, o viajante vê, a poucos metros de distância, a atual Praça de Iracema, bem no coração pulsante da cidade, onde, em 1927 foi inaugurado o Jardim de Iracema, por iniciativas de homens desejosos de espaços de sociabilidades modernas. No centro do Jardim foi erguido um coreto onde, aos domingos, as bandas de música do Centro Artístico Ipuense[1] e da Euterpe Ipuense[2] realizavam retretas para o deleite de pessoas abastadas e que se reuniam para sociabilizar-se e respirar os ares de um mundo novo buscado, sem ser incomodados pelo “populacho”, mantidos a distância pela força policial. O viajante se decepcionaria, também, ao saber que aquele logradouro foi destruído e reconstruído quatro sucessivas vezes e que a Praça de Iracema[3], atual, foi inaugurada apenas nos primeiros anos do século XXI. É escusado dizer que a atual praça nada lembra a antiga ali erguida.
Seguindo ainda por uma das duas vias que ligam a Estação Ferroviária ao centro, o viajante chega a uma das duas esquinas do Mercado Público. Talvez se impressione com a robusteza do comércio, apesar de seu crescimento lento atual: para qualquer lado que olhe avista um mar de estabelecimentos comerciais e um burburinho constante, em alguns dias ensurdecedor, de veículos e pessoas circulando, algo pouco característico das pequenas cidades do interior do Ceará.

Continua...





[1] O Centro Artístico Ipuense foi fundado em 29 de junho de 1918. Era uma sociedade anônima e, segundo seus estatutos, beneficente, cujo objetivo era o “alevantamento physico, intellectual e moral de seos associados”. Como o Grêmio e o Gabinete de Leitura, congregava parte da “escól social” local. Realizavam-se em seus salões as concorridas soirées e contava com uma banda de música, que tocava nos espaços de sociabilidade, reunindo os abastados e letrados da cidade. Ver Estatutos do Centro Artístico Ipuense. Ipu: Typographia do Campo, 1921, p. 1.  Para uma discussão mais detalhada sobre esta associação ver FARIAS FILHO, Antonio Vitorino. O Discurso do progresso e o desejo por uma outra cidade. imposição e conflito em Ipu-CE (1894-1930). 2009. 151 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico em História e Culturas) - Centro de Humanidades, Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza.
[2] A Euterpe Ipuense foi outra associação fundada na segunda década do século XX, com o objetivo de desenvolver em seus sócios o gosto pela “boa música” e para prestar “benefícios ao seu torrão natal”, segundo seus estatutos. Possuía uma banda de música sempre solicitada para tocar nos bailes das associações elitistas locais e nas comemorações oficiais do município. Idem.
[3] Em 1961, na administração do prefeito Antônio Pereira de Farias (1960-1966), o Jardim de Iracema passou por uma ampla reforma, sendo o coreto destruído. Em seu lugar foi construído um lago e a escultura de um cisne. Em seguida, o cisne deu lugar a uma escultura da índia Iracema (1965), que até bem pouco podia ser vista. A estátua foi presente do prefeito de Fortaleza, Cel. Murilo Borges, uma réplica de outra erguida na Praia de Iracema, em homenagem ao centenário do romance Iracema, de José de Alencar. Esta também foi destruída quando a praça passou por uma nova reforma, no governo do Prefeito Francisco Eufrásio Mororó (1982-1988), no ano de 1985.  Mais uma vez, houve nova reforma que destruiu totalmente a praça anterior. Finalmente, no governo municipal de Maria do Socorro Pereira Torres (2005-2008), a praça foi, novamente, destruída e em seu lugar foi erguida uma nova, a atual Praça de Iracema, com as estátuas de Iracema e do Guerreiro Branco, que não lembram em nada a singeleza do antigo Coreto e a imponente escultura da Avenida de Iracema. Jardim de Iracema – ou Avenida do Ipu. Os anos de Ouro do Ipu. Jornal dos Tabajaras. Ipu, p. 3, dez. 1996.  

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

NUNCA É TARDE PARA CHORAR II de parte II

  FOLHETIM DE GABRIEL ARCANJO

A justiça dos costumes

Atado ao pescoço e pelas mãos numa corda que se prendia à sela da montaria de um dos três policiais, e acompanhado de perto pela escolta sinistra dos homens do coronel Manoel Marinho, Joaquim Catunda seguiu na direção do Ipu para enfrentar julgamento. Estava visivelmente arrependido. “- Tu inda vai, safado, arrancar cabaço de moça donzela?” E foi neste passo tardo, sôfrego, e ao mesmo tempo lento que a cidade fora acordada na antemanhã do dia seguinte, quando a tropa de oito homens escoltava o infeliz moribundo. Era Joaquim Catunda, agregado do coronel Antonio Soares, sendo exibido nas ruas da cidade como um troféu pelos homens do coronel Marinho. Seu corpo martirizado, com olhos inchados, quase não se deixou reconhecer: “- Negrada, é o disgraçado do Joaquim! Mata esta peste!” Fora sua sina reviver, em cores vivas e fortes, 52 anos após a abolição da escravatura, a triste sina do flagelo de sua gente.
        Naquela manhã seca de setembro, debaixo do chicote de Sete Mortes a população da cidade do Ipu, que até então nutria ódio profundo pelo estuprador, deixou de lado este sentimento para sentir por ele certa piedade. Piedade se sente pelos que sofrem castigos vorazes! Pelos que apanham de chibata! Pelos que morrem a morte dos santos e dos mártires! De cima de seu cavalo negro o assassino Sete Mortes dá uma ordem direta a seus cabras, “- Metam a chibata!”, e até a polícia obedece: “- Já chega, bota ele na carroça, e leva pra cadeia!” disse o delegado, Valdemar Feitosa.
A cadeia do Ipu havia sido concluída há cerca de três anos, pelos trabalhadores da seca de 1932, na gestão do então prefeito Joaquim de Oliveira Lima. Possuía ela paredes grossas e muros altos, tão altos que dificilmente um homem que se atirasse ao chão de sua cumeeira poderia escapar ileso de tão alta queda. Distante da sede da povoação, a cadeia do Ipu parecia uma sentinela em vigília atenta sobre a população paupérrima e perigosa do Alto dos Quatorze, localizada ao sul da cidade. Suas muralhas eram imponentes, inexpugnáveis, lembrando mesmo a proeminência dos casarões dos homens mais poderosos da região, como a residência do coronel Thomaz Corrêa, ou mesmo o palacete do finado Senador Pompeu, em Sobral.
Logo que soube que seus homens haviam capturado o estuprador, Manoel Marinho desceu de seu sobrado, para ir, com mais cinquenta agregados, à cadeia da cidade. O boato da captura correu a cidade e a feira de quinta se desfez, pois todos queriam ver o infeliz prisioneiro. O coronel gostou quando viu a multidão que se formou diante da porta da delegacia. Sentiu-se um titã invencível quando de sua montaria ergueu a mão direita pedindo silêncio e proferiu inflamado discurso: “- Este cabra safado vai pagar pelo que fez! Ele vai saber o que é que acontece com cabra que mexe com moça que é protegida pelo Coronel Antonio Manoel Marinho de Sousa! A multidão deu vivas. Empolgado, o coronel adentrou o estabelecimento com o chicote em uma das mãos e o revolver na outra. A cada passo sentia-se a encarnação da justiça. Os policiais arredaram caminho paralisados pela hercúlea figura do titã do sertão.” - Sim, seus fela-da-puta, saiam da frente!” No tempo de meu pai e de meu avô, eram os Melos, os Marinhos, os Martins e os Aragão que mandavam no Ipu! Agora estes policiaiszinhos de merda querem lhe dizer o que que é certo e o que que é errado! Não se pode nem mais manter uns cabras-valentes abrigados em suas terras, que a polícia vivia querendo prendê-los! Seus felá-das-puta, saiam da frente!” Este caboco vai pagar pelo que fez!”
Sacou do revolver, deu dois tiros para o alto, instigando ainda mais o furor da multidão espavorida, e adentrou a delegacia (que policial seria louco o bastante para tentar barrar a marcha do Coronel Marinho?). Desapareceu nos corredores da cadeia com seus cabras, em meio a três policiais atônitos, um escrivão impotente e um delegado complacente. De dentro do prédio ouviram-se gritos desesperados e juras de maldição. Vários tiros foram disparados, um cão correu ao terreiro, os pássaros dispararam em revoada, em seguida fez-se um silêncio enlouquecedor, seguido por um berro que parecia saído das masmorras do Inferno: “-Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaiiiiiiiiiiiii” e fez-se silêncio novamente. Um silêncio de morte. Ouviram-se passos lentos, de botas de couro, com o tilintar de esporas de metal tinindo no chão.
A porta de ferro da cadeia abriu-se. Primeiro saiu Sete Mortes e seus homens, todos bramindo facas, revolveres e espingardas! Depois veio o coronel Marinho, gigantesco em sua soberba! Seu um metro e setenta de estatura haviam se transformado em três metros de altura. Montado em seu cavalo negro, parecia capaz de desafiar o próprio Cão no Inferno! A fumaça que saia de seu revolver desenhando figuras sombrias no ar lembrava uma cobra sinistra a subir para o céu! Seu chapéu de palha lhe dava um ar tenebroso. Seus olhos azuis possuíam um brilho maligno, que lembravam os olhos flamejantes e amedrontadores de um gavião. Ele sorria com o canto da boca. Sua desbotada camisa de brim azul lhe parecia uma farda surrada e honrosa da velha e extinta Guarda Nacional! A praça em frente à cadeia estava tão admirada pela imponência do velho proprietário e seus homens, que permanecia muda até então. A multidão prendia o fôlego, esperando o tritão falar. Foi quando o coronel ergueu o gládio e, num gesto de general em batalha, deu seu brado de guerra: “- Fela-da-puta!! Tu nunca mais vai comer mulher nenhuma!!”
Numa das mãos trazia a velha espada enferrujada da Guarda Nacional, espada que fora de seu avô, e na outra um estranho e sinistro troféu. Fitou a multidão emudecida. Um rasgo de fúria e de vaidade lhe percorreu a espinha. Lembrou-se da figura hercúlea de Dom Pedro I (ou será Dom Pedro II?) no dia da Independência do Brasil, que ele vira nos livros de história e, num gesto enérgico, louco, e vingador erguendo o gládio e gritando em plenos pulmões no ar da manhã, deu vivas aos Martins, aos Marinhos e ao Partido Republicano Cearense, e atirou no chão empoeirado, aos pés da multidão espavorida, os ovos de Joaquim Catunda.

Continua...


OBS: O autor adverte que os fatos e nomes aqui citados são ficção, e que qualquer semelhança com fatos e nomes reais são mera coincidência.

Pergunto: Mas a ficção não se alimenta da "realidade"? Ficção é mentira ou uma estratégia narrativa para falar da "realidade"? A história não é uma forma de ficção ou a ficção não é uma forma de contar uma história?

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Ipu Antigo IV

Tela do camocinense F Chagas de Albuquerque
Desta forma, com uma estrada de ferro que permitia a ligação de boa parte da então região norte do Ceará ao porto de Camocim, as cidades beneficiadas por ela passaram a ter um canal de comunicação direto e mais eficiente com o circuito de transporte de mercadorias e de passageiros com o mercado nacional e internacional. 
Para a historiografia tradicional, a construção da EFS e o resgate e prolongamento da Estrada de Ferro de Baturité, pelo Governo Imperial[1], teriam sido resultados da seca de 1877-1879 que assolou a capitania do Ceará e flagelou extensa população.
Uma ferrovia era o sonho de boa parte dos homens de amplas posses, donos de extensas terras, gado e negócios na região norte, principalmente na cidade de Sobral, a mais populosa e desenvolvida daquelas paragens. Homens como o Dr. José Júlio de Albuquerque Barros, presidente da província do Ceará em 1878, nomeado no mesmo ano, por carta imperial de 9 de fevereiro, e posteriormente agraciado pelo Governo Imperial com o título de Conselheiro, por seus serviços prestados ao país[2], e o Dr. João Ernesto Viriato de Medeiros, Deputado Geral entre 1867 e 1868 e entre 1878 e 1881, ambos muito influentes junto aos ministros imperiais, trabalharam no sentido de convencer o governo imperial da necessidade de se construir uma estrada de ferro na então região norte do Ceará[3]. Usaram como argumento para isso, o fato de que aquela obra, necessária ao desenvolvimento da região, atenuaria os flagelos da seca que assolava a população cearense.
Aquela era a grande oportunidade. A seca significou, naquele momento, o surgimento de uma imensa massa de mão de obra barata, utilizada na construção da ferrovia. Resolver, ou pelo menos combater os seus efeitos, se apresentava apenas em nível discursivo, pois era um argumento que impressionava. Ou melhor, para legitimar a construção da ferrovia, as “elites” inteligentemente se utilizaram do discurso da seca para angariar recursos necessários ao seu projeto de desenvolvimento, uma constante em todos os momentos de flagelos a partir daquele momento. Visando beneficiar-se dos recursos públicos, homens de posses e os governos locais influentes junto ao governo imperial, na maioria das vezes, superestimavam os efeitos das secas.
Como mostra Durval Muniz de Albuquerque Jr. a seca foi usada como justificativa para as grandes obras na região. Dali em diante essa prática seria uma constante. Cabia às autoridades e as elites locais apenas relatar ao governo central os “horrores” das secas e, depois, administrar os recursos, não raras vezes desviados para cofres particulares. Para este historiador, as condições históricas de fins do século XIX fizeram da seca de 1877/79 um grande marco na sua história. Foi a partir daquele momento que as “elites do Norte” descobriram a grande arma que tinham em suas mãos para angariar recursos federais para a região. As elites do Norte, mais tarde Nordeste, passaram a politizar a temática da seca e a colocá-la no centro das atenções, por meio da qual se solicitavam recursos para a solução dos problemas da região[4]





[1] Ver, CAVALCANTI. José Pompeu de A. Chrographia da Província do Ceará. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1888, p. 174.
[2] Em 1887 recebeu o título de Barão de Sobral. Ver a respeito OLIVEIRA, André Frota de. A Estrada de Ferro de Sobral. Op. cit., p. 35.
[3] Segundo o estudioso André Frota de Oliveira, “Notável também foi o empenho, mencione-se de passagem, de alguns cearenses ilustres como o Dr. José Júlio de Albuquerque e Barros e o Dr. João Ernesto Viriato de Medeiros, ambos naturais de Sobral e figuras de relevo durante o Império, pode-se afirmar sem exagero que, graças a seus esforços junto ao ministério de Sinimbu, deve a construção da Estrada de Ferro de Sobral”. Idem, p. 38.
[4] ALBUQUERQUE JR. Durval Muniz. Palavras que calcinam, palavras que dominam: a Invenção da seca no Nordeste. In: Revista Brasileira de História. São Paulo: ANPUH / Marco Zero / MCT – CNPq – FINEP, 14 (28): p. 111-120, 1994. Em outro estudo, Durval Muniz afirma que o discurso da seca, amplamente utilizado pelas “elites do Norte”, para angariar recursos para a região, era uma forma de contrabalançar uma posição cada vez mais subalterna no contexto nacional. Os recursos conseguidos permitiam manter e mesmo reafirmar sua posição de dominação, contrabalançado a perda de espaços em nível nacional. ALBUQUERQUE, Durval Muniz. A invenção do Nordeste e outras artes. Recife: FJN, Massangana; São Paulo: Cortez, 1999. 

domingo, 19 de janeiro de 2014

A Festa de Sebastião de Ipu-Ce. Parte II

São Sebastião. Por Sandro Botticelli
Nos dias seguintes, todas as noites, ocorrem as tradicionais novenas, sempre após o cortejo em volta da imagem de São Sebastião, pelas ruas da cidade, como no dia da alvorada, celebradas em ampla praça aberta na frente da Igreja, em razão de esta não suportar a multidão de devotos. Após as celebrações religiosas, ocorrem as seculares quermesses, no centro da cidade, onde se reúnem uma multidão de pessoas, vendedores ambulantes, camelôs, etc. É lá na praça da quermesse que fica o parque de diversões para a alegria da população.
No último dia é realizado o tradicional leilão da paróquia em que as pessoas mais abastadas e as autoridades da cidade (prefeito e vereadores), em uma “clara demonstração de religiosidade e amor a terra e ao santo”, aos olhos da população e no dizer de um padre, se reúnem para arrematar o que a Igreja recebeu de donativos, da população, “para o santo padroeiro”.  A falta de uma autoridade ao evento é (ERA) vista com maus olhos pela população. [1]
No penúltimo ou último dia dos festejos, dia 19 ou 20, há uma tradicional festa dançante, autorizada pela paróquia. Em troca, a Igreja fica com parte da arrecadação.
Mais recentemente, durante o mês de janeiro e mais ainda, nos 10 dias de festejos, o executivo municipal e entidades da sociedade civil instituem um cronograma de atividades culturais para a cidade para receber os filhos ipuenses que escolhem a data para gozar suas férias na Terra de Iracema. Exemplos disso é a reunião anual, aberta ao público, da Academia Ipuense de Letras e Artes (AILCA), cuja maior parte de seus membros, ou pelo menos uma parte significativa deles, reside em outras cidades, e da tradicional Festa do Reencontro, organizada pela Associação dos Filhos e Amigos de Ipu (AFAI). É que a cidade de Ipu, no mês de janeiro, fica apinhada de devotos e turísticas. 
Há ainda muito presente nos mais velhos uma memória dos “verdadeiros’ festejos de outrora e uma visão negativa dos festejos atuais. Essa memória espera pacientemente pelas análises dos historiadores da terra que apenas descrevem, na maioria das vezes, de forma saudosista, os festejos do padroeiro.





[1] Na cidade de Ipu, como em outras cidades do interior cearense, as disputas políticas  eram (e ainda são) muito acirradas. Há sempre dois grupos políticos muito fortes que disputam o voto da população. Assim, nos festejos do padroeiro e, sobretudo no dia do leilão, os grupos políticos rivais, num passado não tão remoto, compareciam. Na ocasião, tentavam arrematar os donativos numa clara luta de queda de braço. Parte da população, na hora do leilão, fazia uma grande algazarra, torcendo pelo seu candidato arrematar uma simples galinha ou um porco, por exemplo, com o lance mais alto. Muitos ali, naquele momento, decidiam o seu voto. Os políticos, de outrora, para além de manterem uma tradição e “preocupação com a saúde financeira da Igreja”, sabiam disso.

sábado, 18 de janeiro de 2014

A Festa de Sebastião de Ipu-Ce. Parte I

Segundo se registra, a festa do padroeiro teve início no século XIX, quando o Padre Correia veio para a Vila Nova do Ipu Grande, hoje cidade de Ipu, trazendo da capela da Freguesia da Serra dos Cocos[1], uma imagem de madeira de São Sebastião.
A capela de Ipu não passava de uma casa de taipa coberta de palha. O padre teria criado os festejos em homenagem a São Sebastião para arrecadar fundos para construção de um novo templo de alvenaria. É provável que a escolha do padroeiro da Vila tenha sido feita em função de se saber, por meio da oralidade, da existência de um surto de lepra em tempos remotos, contribuindo para existência, ainda em 1915, de alguns casos da doença, assombrando a população. Eusébio de Sousa, no entanto, tenta minimizar o fato dizendo:

Querem alludir aos decantados casos de morphéa ou lepra que dizem existir, em larga escala, no Ipú, propagando-se assustadoramente, quando a verdade é uma só e ninguem a poderá contestar: não ser absolutamente endemica essa doença no municipio, muito menos na cidade.
Ha sem duvida alguns casos dessa cruel enfermidade atacando preferencialmente pessoas de determinada família saliente da localidade. Estes mesmos foram transmittidos por um membro estranho, que a ella se ligou por affinalidade, aportando ao Ipú com um vírus inoculando, dizem que trazido das regiões da Amazônia. [2]

Relatos orais dos mais velhos, colhidos por Gorette Timbó, mostram que a população sempre se recorda das festas do padroeiro como algo glorioso e grandioso. Durante os dez dias de festejos, quase sempre entre os dias 10 e 20 de janeiro, a cidade atraia para o seu centro uma grande quantidade de pessoas vindas da serra e sertão do município e de outras cidades vizinhas. Muitos, como romeiros, buscavam a cidade, no período dos festejos de seu padroeiro, para pagar as promessas feitas ao santo mártir e outras para se divertirem nas noites alegres das festas profanas, que ocorriam após as novenas. Essa tradição ainda é forte nos dias atuais
Desde o surgimento dos festejos de São Sebastião, instituiu-se um cronograma de festividades que se mantém até hoje. No primeiro dia, a imagem do santo, ex-soldado das legiões romanas, consolador dos cristãos levado às masmorras romanas, enfeitada de galhos de laranjeira, percorre a cidade em procissão pelas principais ruas acompanhada por grande cortejo (muitos montados em animais, nos tempos idos, hoje com suas motocicletas e automóveis), tendo logo atrás, hoje, a banda de música municipal (no início do século era acompanhado pelas bandas de música do Centro Artístico Ipuense[3] e da Euterpe Ipuense[4]), cujo coro é entoado pelos mais devotos. Ao chegar à Igreja Matriz dá-se o hasteamento da bandeira (vermelha)[5] do santo, que fica suspensa na torre da igreja até o encerramento das comemorações, e tem início a missa de abertura (alvorada), quando, oficialmente são abertas as devoções religiosas em homenagem ao padroeiro.



[1] Por provisão de 30 de agosto de 1757 o bispado de Pernambuco dividiu o extenso Curato da Ribeira do Acaraú em quatro freguesias: A de Nossa Senhora da Conceição de Amontada; Santo Antônio de Pádua do Coreaú; Nossa Senhora da Conceição da Caiçara (Sobral); e São Gonçalo da Serra dos Cocos. Esta última compreendia as vertentes do Acaraú, da barra do Macaco para cima, o sertão e Serra da Ibiapaba. Provisoriamente foi destinada para Matriz da Freguesia a capela de São Gonçalo do Amarante, onde se chama Serra dos Cocos. Ver: ARAÚJO. Francisco Sadoc. História Religiosa de Guaraciaba do Norte. Fortaleza-Ce: Imprensa Oficial do Ceará, 1988. 
[2] SOUSA, Eusébio. Um pouco de historia. Op. Cit., p. 214.
[3] O Centro Artístico Ipuense foi fundado em 29 de junho de 1918. Era uma sociedade anônima e, segundo seus estatutos, beneficente cujo objetivo era o “alevantamento physico, intellectual e moral de seos associados”. Congregava parte da “elite” local. Realizavam-se em seus salões os concorridos soirées e contava com uma banda de música, que tocava nos espaços de sociabilidade que reunião os abastados e letrados da cidade. Estatutos do Centro Artístico Ipuense. Ipu: Typographia do Campo, 1921, p. 1.
[4] Associação elitista fundada na segunda década do século XX para desenvolver em seus sócios o gosto pela “boa música” e para prestar “benefícios ao seu torrão natal”, segundo seus estatutos. Possuía uma banda de música sempre solicitada para tocar nos bailes das associações elitistas locais (Gabinete de Leitura Ipuense, Grêmio Recreativo Sociedade Teatral e Dançante e Centro Artístico Ipuense) e nas comemorações oficiais do município.
[5] Em 1926, durantes o festejos em homenagem ao padroeiro da cidade, ocorreu um fato inusitado. Na madrugada do dia 13 daquele ano, por volta das 5 horas da manhã, 100 homens armados, do 2º destacamento da Coluna Prestes, vindos do Piauí, entravam na cidade de Ipu, descendo a ladeira da Mina (na subida da Serra da Ibiapaba).  O bando desceu rumo ao centro da cidade, por uma ladeira íngreme, atravessou uma ponte construída sobre o Riacho Ipuçaba, e penetrou no coração da Cidade, na Praça de São Sebastião. Logo, aqueles homens armados se sobressaltaram ao avistar no alto da Igreja, hasteada, uma bandeira vermelha. Todos se prepararam para o combate procurando ao redor, barricadas naturais, para se protegerem. Armados para o combate, esperavam o ataque inimigo, mas ele não vinha. Aquelas cem almas, comandadas pelo tenente-coronel João Alberto, vinham do Piauí e seu destino inicial era a cidade de Ipu. Nesta cidade, buscavam especificamente obter mapas geográficos detalhados dos Estados do Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco e Paraíba. No Piauí, souberam da notícia de que eles existiam e se encontravam no acervo do Gabinete de Leitura Ipuense. Reinava um silêncio nas imediações da Igrejinha, na praça São Sebastião. Algumas portas do casario começavam a se abrir. Logo que o bando tomou contato com a população, percebeu que a cidade não estava preparada para atacá-los. O que os deixou apreensivos foi aquela bandeira vermelha hasteada no alto da Igrejinha. Pensaram tratar-se de um sinal de que a cidade resistiria à sua chegada, mas logo souberam que a localidade estava festejando o seu padroeiro, São Sebastião, e que aquela bandeira não passava de um símbolo tradicional dedicada ao santo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Tour Elegante V

 A Rua do Ouvidor


Fotografias do meu acervo
Esta rua se tornou, na segunda metade do século XIX, o logradouro mais importante do Rio de Janeiro, então capital Imperial e depois republicana. Lá estava localizada a maioria dos jornais cariocas, as principais livrarias, cafés, espaços boêmios e as lojas que vendiam artigos vindos de Paris, então capital da “civilização” europeia e, portanto, mundial, no dizer de Walter Benjamim, escritor alemão, e onde se respirava os valores filosóficos da modernidade “fim de século”. Todo burburinho elegante se concentrava ali e era o local preferido da boemia e da intelectualidade da época para um bate papo “superior”. 
Era um dos locais preferidos de Marchado de Assis. Este escrevera certa vez que se o Rio de Janeiro tivesse um rosto, ele seria a Rua do Ouvidor. A via foi o grande cenário do final do século XIX na então capital republicana. O escritor carioca não só a retratou em suas obras como foi seu assíduo frequentador.

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Mídias Alternativas?

Três coisas, pelo menos, considero reprováveis em alguns blogs de “variedades”, que têm se proliferado ultimamente entre nós – o que não significa dizer que os condeno de todo. Em primeiro lugar, a exposição inconsequente, a meu ver, de cenas violentas chocantes (de mortos, acidentes, cadáveres em putrefação, etc). Creio, isso cria uma cultura que valoriza o espetáculo, o sensacionalismo a ponto de não “nos” sentimos mais chocados com o absurdo, o chocante, o fora do comum. Em segundo lugar, a disseminação de futilidades que vão desde noticiar os absurdos que ocorrem nas péssimas telenovelas (que me recuso a assistir, mas respeito quem assiste e acho que, em certo ponto, têm uma função social importante), como se fossem coisas das mais importantes, de vídeos de pornografia, depilação de celebridades, até traições (ou fofocas) de namoradas de jogadores famosos. Por último, a determinação de transformar tudo em notícia: um arroto de uma celebridade em local público, a depilação do púbis de uma modelo, o tropeço de um deputado, a ida da presidenta à praia, usando maiô. Neste último caso, a maioria das notícias é copiada e se traduz em cópia de outras cópias de péssima qualidade.
Contraditoriamente, a exposição da violência, o sensacionalismo e a disseminação de futilidades dão ibope. Funcionam bem. Se o objetivo é o aumento do número de acessos, a estratégia é boa, embora condenável do meu ponto de vista.
Entretanto, de um lado, a mídia passa a ser refém do mercado, pois para atrair investimentos noticia tudo, comprometendo a sua qualidade, criando uma rede de leitores de futilidades. De outro lado, perde autonomia, sendo, na maioria das vezes, cooptada por grupos que estão no poder e que, frequentemente, pagam caro para anunciar, nestes locais, suas ações e projetos, com o dinheiro do contribuinte, claro.
Na pior das hipóteses, cria-se uma mídia “alternativa” totalmente partidária, que reproduz as disputas, interesses e embates no âmbito do poder. Passa-se a ter, de um lado, uma imprensa defensora do grupo que está no poder (eles nem escondem isso) e, de outro, uma mídia ligada aos grupos opositores. Em última instância, para mim, perdem toda a credibilidade, funcionando como mídias manipuladoras de notícias, pretensamente neutras, opiniões e das consciências de uma população sedenta pela polêmica.
Faço minhas as palavras de um personagem do romance de Marcel Proust, em sua obra Em busca do tempo perdido (vol. 1), ao se referir à imprensa de sua época, dizendo que o que é censurável nos jornais “é fazer-nos prestar atenção todos os dias a coisas insignificantes ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais”.




quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Ipu: perfil urbano VI

O trem chegando à cidade. Sem data. Do acervo de Francisco de Assis Martins
O forasteiro ou viajante que queira passear pela cidade e identificar os símbolos ou vestígios de um passado que se mantém vivo no presente, pode começar a sua caminhada pela Avenida Dr. Eusébio de Sousa, no Bairro do Corte. O casario desta rua está disposto ao longo dos trilhos do trem, de um lado e outro. O bairro é assim chamado em função das obras de construção da Ferrovia, que abriu caminho em meio a um “barranco” com altura aproximada de 5 metros. A partir daí, o casario começou a ser edificado de um lado e outro dos trilhos da ferrovia.
Seguindo a linha do trem no sentido Camocim-Ipu, o viajante chega à Estação Ferroviária, onde no dia 10 de outubro de 1894 tinha lugar a solenidade de inauguração daquele prédio “monumental”, para os padrões locais, e onde vários discursos saudando a chegada da modernidade e do progresso foram levados a cabo. Foi a primeira vez que o trem circulou sobre os trilhos da cidade, fazendo vibrar os sentidos aguçados de parte de sua população. A Estação passou a ser o local mais movimentado da cidade: espaço de chegada e partida de pessoas, mercadorias e valores, como mostra uma crônica escrita por Antonio Tarcízio Aragão, no Jornal dos Tabajaras, lembrando à época em que ainda existiam os trens de passageiro:

Na estação, o som característico de um estridente sino que ecoava em todos os recantos da cidade, fazia uma espécie de chamado aos passageiros e indicava que o trem havia partido da última estação e que, dentro de 30 minutos chegava nessa cidade. A reação do povo era imediata, quem ainda não estivesse na estação convergia em direção a ela mesmo que não fosse viajar. Muitos iam apenas ver o trem passar, saber das novidades e de quem chegava ou partia (...). Quando a locomotiva apitava no corte ou na curva das pedrinhas[1] o alvoroço era generalizado (...). Os vendedores de guloseimas, agitados, corriam de um lado para o outro e gritavam oferecendo os seus produtos. (olha o café quentinho feito na hora, olha a tapioca, laranja, doce, batida da Sussuanha, tijolinho de coco)[2].

Mas, o viajante se decepcionaria ao perceber que não há mais ninguém ali, só o prédio fechado, embora recuperado, onde em dias de chuva ou em noites frias, animais descansam sob a gare da Estação que, outrora movimentada, recebia os artigos vindos de todos os locais do Brasil e da Europa e embarcava os muitos fardos de algodão, açúcar e artigos diversos produzidos pela economia local e estacionados ali, pois o depósito do prédio não dava vazão para tamanha quantidade de produtos.

Continua...




[1] O Bairro Pedrinhas tem esse nome em função da Seca de 1932. Nesta ocasião, foi erguido em Ipu, na localidade do Espraiado, distante cerca de três quilômetros da sede do município, um Campo de Concentração de flagelados da seca. O Campo era um local que reunia os famintos para a assistência do governo. A mão de obra dos assistidos foi amplamente usada para as obras locais, principalmente na pavimentação das ruas. Muitos deles transportaram pedras da localidade, onde hoje é aquele bairro, para o centro da cidade. As pedras serviam para os “calçamentos”. Muitas ruas de Ipu foram pavimentadas com as pedras daquela localidade.  Com o fim da seca e o fechamento do Campo de Concentração, alguns dos assistidos, muitos vindos de outras cidades, se estabeleceram nos subúrbios da cidade, alguns deles na região de onde se tiravam as pedras. O bairro Pedrinhas fica do lado oposto ao bairro do Corte.
[2]ARAGÃO, Antônio Tarcizio. Resgatando Memórias.  Jornal dos Tabajaras. Ipu, p. 3, ago. 1995. 

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

NUNCA É TARDE PARA CHORAR I de parte II

  Folhetim de Gabriel Arcanjo

A justiça dos costumes



Quando soube do acontecido, Antonio Soares correu à fazenda de seu parente e compadre, o afamado coronel Manoel Marinho, localizada na extremidade oeste da cidade, bem na ladeira que fora soerguida sobre a ancestral trilha indígena de tempos imemoriais, que permitia ao viajante vencer a Ibiapaba sem dar a volta por Crateús. A fazenda, um sobrado de dois pisos, com paredes de tijolo cru medindo quase um metro de largura cada era uma verdadeira fortaleza, guardada por uma dúzia de assassinos afamados, e alimentada pelo trabalho estafante de uma centena de trabalhadores infelizes. Lá chegando o aperreado Antonio encontrou nu da cintura para cima, com chapéu de palha, revolver na cinta e mascando fumo pelo canto da boca, o afamado e rude coronel Marinho. Sua fama o precede: semi-analfabeto, bronco, avesso a sapatos e a camisas, o coronel passaria facilmente por um de seus agregados miseráveis.  Ninguém lhe daria a riqueza em terras em dinheiro que ele de fato tem. Após ouvir a história de seu compadre, não demorou nem uma hora e o coronel havia reunido os seus cabras, homens como Juriti, Imburana e Sete Mortes, assassinos afamados, acostumados a espancar e a matar a mando de seu patrão “justiceiro”. 

Em pouco tempo, cada um desses três homens arregimentou uma patrulha de quatro a cinco rapazes, filhos e genros de agregados, e partiram para rumos diferentes, a busca de pistas que pudessem levar à captura do estuprador Joaquim Catunda. “– Tragam ele vivo, pois eu quero ensinar praquele cachorro como é que homem faz!”, disse o coronel, ao mesmo tempo em que entregava facas, espingardas e revolveres a seus sequazes. “– dou cinco contos de réis ao homem que o capturar com vida!”
Montando-se quase todos em possantes cavalos mansos, os três bandos partiram, o primeiro grupo, que estava a pé, tomou o rumo da serra, pela estrada de rodagem empoeirada que ligava o Ipu ao Campo Grande (nenhum cavalo conseguiria fazer a travessia das ladeiras abissais que se apresentavam a sede do Ipu de povoados como o São João). O segundo grupo seguiu para Ipueiras, precisamente para São Gonçalo da Serra dos Cocos. E o terceiro partiu para as bandas da Varjora. Levavam todos eles bilhetes escritos pelo coronel, orientando seus parentes e compadres na vasta região que se estendia de Ipu a Santa Quitéria, de Santa Quitéria a Campo Grande, de Campo Grande a Sobral, de Sobral ao Tamboril, e do Tamboril ao Piauí:
-Meu compadre,       
Escrevo-lhe para pedir sua ajuda na captura de um cabra safado, que violou moça donzela. Peço  que deem guarida e assistência a meus homens, que são gente disposta a matar e a morrer em meu nome. O dito cujo que procuro é Joaquim Catunda, caboclo metido a besta, 20 anos, de estatura mediana, que gosta de beber cachaça e de descabaçar filhas alheias. Assina o Coronel Antonio Manoel Marinho de Sousa, cidade do Ipu, 25 de setembro de 1936.

        Joaquim fora identificado já cruzando as terras próximas à Matriz de São Gonçalo. Cabra, alto, magro e com uma cicatriz em forma de lua na face esquerda, ele não tivera tempo de adentrar os matagais do Piauí e desaparecer, ou de buscar a proteção de algum coronel inimigo dos Marinhos, ou dos Araújo do Ipu. Capturado pelos cabras do coronel Pedro Mourão, da Matriz, fora amarrado ao alpendre da fazenda, comendo sobras e bebendo pouquíssima água, como um porco, até que a tropa de cabras vindos do Ipu pudessem aparecer para escoltá-lo. Faminto e de mãos atadas, Catunda mal pôde ver, em meio à poeira vermelha da estrada, quando a tropa de cinco homens apareceu para levá-lo. À frente estava o temido assassino conhecido pelo apelido de Sete Mortes. Dizem as más línguas que Sete Mortes, na realidade, já tinha para mais de 20 mortes nas costas, mas o nome pegou, e não deixaram de assim chama-lo. Passou a chamar-se assim por causa de gente que ele eliminou nas mesas de baralho, nos cabarés e nas encruzilhadas dos sertões, ganhando dinheiro para isso, ou pelo puro prazer de matar “um cabra safado”. Dizia que preferia matar na faca, “-Não tem nada melhor do que enfiar uma faca-peixeira nas tripas de um safado e vê-lo dar o ultimo suspiro!”, dizia. Além da briga de facas, ele era um perito na emboscada. Atocalhando nas moitas dos caminhos escuros, ninguém poderia escapar de sua mira traiçoeira. Era capaz de ficar escondido por dias, sem se mexer, sem dormir, sem comer e sem beber, como uma cobra pronto para dar o bote, só para alvejar um de seus desafetos. Ele teria matado sete em emboscada. Vem daí o apelido tenebroso. Sete Mortes gostou quando passaram a lhe chamar assim, depois que ele dera cabo do sétimo infeliz de uma mesma família, no caminho que dava para a fazenda Boa Vista, na povoação de Curupaití (hoje Abílio Martins). Sete Mortes fora contratado pelo Coronel Manoel Martins, da Boa Vista, para dar cabo de atrevida família de homens destemidos, que insistiam em reivindicar para si a posse das terras da fazenda Vaca Brava, que o coronel dizia ser de sua gente.
Na realidade, o coronel e os rivais eram parentes, daí se depreende que todos teriam um pouco de razão, pois na época as questões de terra não eram decididas nos tribunais, mas nas emboscadas e nos desafios. Sete Mortes – ou Luiz Miranda da Silva – galgou a fama e o estrelato após eliminar três irmãos em emboscada, dois na peixeira, e um numa briga de cacetes: “- Que Luiz Miranda que nada! Eu me chamo é Sete Mortes!”, dizia nos botecos do mercado do Ipu, por ocasião das novenas do padroeiro, São Sebastião. 
Dizem que certa vez matou de uma só vez dois policiais que vieram lhe dar “busca de arma” numa festa no Caratiú. Por isso, fora obrigado a buscar o abrigo das terras do Coronel Marinho, seu protetor desde então. Impiedoso, certa feita, amarrou um infeliz pelos tornozelos num pé de juá, e lhe aplicou tão pesada surra que lhe tirou o couro das costas. Depois, Sete mortes o sangrou na goela, como se faz com os bodes no sertão. Enfim, Catunda sabia que com este assassino não adiantaria implorar por misericórdia ou piedade: sete Mortes era o Cão em forma de homem! Mas não deixou de tentar: “- Pelo amor de Deus, seu Sete Mortes, o senhor tenha piedade! Eu num queria fazer mal a moça não, ela é que me seduziu! – Cala a tua boca, seu felá-da-puta”, disse o capanga, apontando o revolver para o prisioneiro. “-Tu me custou cinco contos de Réis, cabra safado! Disse isso enquanto seus homens amarravam as mãos do estuprador em comprida corda atada à sela do cavalo. “-Te prepara pra morrer, disgraçado!” Foi ai que os cabras viram os policiais, que estavam ali perto, deitados em redes, na sala da casa: “- Não senhor, vamo intregá ele pro delegado do Ipu! É ordem do governador do Estado! Não se podi mais matar preso no Ciará assim, feito criação!” disse um dos policiais. 

Continua...

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Ipu Antigo III

Lloyde Brasileiro. Anúncio do início do séc. XX
De fato, no último quartel do século XIX, há uma proliferação das companhias de navegação a vapor que faziam a navegação de cabotagem, interligando os portos brasileiros, responsáveis, em grande medida, pelo processo de articulação e formação do mercado interno, “iniciando a formação de um sistema nacional de economia”[1]. Desde 1837 a Companhia Brasileira de Paquete a Vapor, de âmbito nacional, fazia a interligação dos portos brasileiros, operando duas linhas: a do norte, que fazia a ligação entre a Corte e os portos das capitais das províncias até Belém do Pará, e a do sul, que chegou a alcançar Montevidéu no Uruguai[2]. Com a falência da Paquete a Vapor, em 1871, formaram-se duas outras companhias que assumiram suas linhas, dando origem, mais tarde, ao Lloyd Brasileiro (1890).
A organização de várias companhias de navegação medianas, que operavam em escala regional, e pequenas, que operavam em âmbito local, foram incentivadas e subsidiadas pelo governo desde a primeira metade do século XIX, uma vez que, politicamente, entendia que a centralização do poder seria facilitada com o desenvolvimento das comunicações. Desta forma, o governo monárquico teria se preocupado com o fortalecimento da unidade do Império em um momento de instabilidade política e de revoltas que reclamavam a autonomia para as províncias, necessitando tornar mais rápidas, seguras e eficientes, suas comunicações com as diversas províncias. Para o governo Imperial, após o período regencial, a centralidade do poder só seria possível com o desenvolvimento das comunicações[3].
É dessa política associada ao desenvolvimento econômico da segunda metade do século XIX, que inúmeras companhias de navegação a vapor passam a operar em todo o litoral brasileiro. No nordeste, circulando em escala regional, a Companhia Pernambucana, fundada em 1853, cobria os portos do Ceará a Sergipe, chegando até Fernando de Noronha, e a Companhia do Maranhão, fundada em 1857, atendia aos portos do Ceará, chegando até Belém. Estas duas empresas, mesmo antes da construção da EFS, já atracavam no porto de Camocim, possuindo armazéns ali, colocados à disposição do governo em 1880 para servirem de depósitos aos materiais destinados às obras da ferrovia[4]. O comércio, o transporte de pessoas e serviços postais eram favorecidos, também, pelas companhias de navegação estrangeiras, autorizadas desde 1866 a fazer a navegação de cabotagem nos portos brasileiros. Em 1890, 25 companhias de navegação estrangeiras operavam no Brasil, ligando seus principais portos às importantes cidades da França, Inglaterra, Alemanha, Bélgica, Portugal, Itália, Espanha e dos Estados Unidos[5]. Entre fins de dezembro de 1879 até os últimos dias de maio do ano seguinte, estacionaram nas águas de Camocim pelo menos 10 vapores provenientes de Antuérpia, na Bélgica, com escalas em importantes cidades europeias, e um vapor inglês proveniente da Filadélfia, Estados Unidos[6].




[1] GULARTI FILHO, Alcides. Abertura da navegação de cabotagem brasileira no século XIX. In: Ensaios FEE. Potro alegre, v. 32, n. 2, p. 409-434, nov. 2011, p. 422.
[2] SAMPAIO, Marcos Guedes Vaz. Uma contribuição à história dos transportes no Brasil: a Companhia Bahiana de Navegação a Vapor (1839-1894). 2006. 341 f. Tese (Doutorado em História) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo.
[3] EL-KAREH, Almir Chaiban. A companhia brasileira de paquetes a vapor e a centralidade do poder monárquico. In: Historia Economica & História de Empresas/ABPHE. São Paulo, vol. VI, n. 2, p. 33-56, 2003. Ver também SAMPAIO, Marcos Guedes Vaz. Uma contribuição à história dos transportes no Brasil. Op. cit.
[4] OLIVEIRA, André Frota de. Op. cit., p. 61
[5] GULARTI FILHO, Alcides. Abertura da navegação de cabotagem brasileira no século XIX. Op. cit., 422.
[6] OLIVEIRA, André Frota de. Op. cit., p. 63-64.