quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

NUNCA É TARDE PARA CHORAR parte IV (1)

Rixa de morte no cabaré

Folhetim de Gabriel Arcanjo

Na movimentada praça da estação ferroviária, em meio ao apito estridente da locomotiva e ao sol escaldante de janeiro, uma multidão contrita percorria em alvoroço as ruas do centro colonial acanhado do Ipu. Era a Rua da Goela uma aldeia senil cuja idade se perdeu no tempo; a Rua do Mercado com seu comércio imemorial; a Rua do Cabaré, onde jovens meretrizes vendiam sexo por um vintém, e a Rua da Matriz, onde velhas senhoras sexagenárias debulhavam o terço e a Ave-Maria em honra dos vivos e dos mortos do lugar. Como loucos num festim profano, todos, todos sem exceção, estavam a procurar por algo que ninguém saberia dizer ao certo o que era: o que poderia ser? O que poderia querer a moça de vestido florido a vagabundear com suas amigas pelo Jardim de Iracema; o velho septuagenário à espera da morte; o burguês aprisionado em seu comércio; o bêbado caído na praça, e os rapazes analfabetos que tangiam mulas, vestiam roupas grosseiras de algodão? O que esperariam todos eles da vida e da morte no sertão estéril e inútil do Ipu dos anos quarenta para cinquenta do século XX? Um trago de cachaça para afugentar a dor? Um lugarzinho no Céu ao lado de Deus? Uma pessoa honrada para dividir a vida?  Ou uma viagem só de ida para o Rio de Janeiro? Quem saberia dizer o porquê de haver tanta dor nesta vida? Só os anjos, talvez... ou os demônios!
E o velho cego a esmolar pelo mercado (seu nome era Antõe Joana), de mão estendida para a impiedade de Deus e para a piedade dos homens, o que ele esperaria para a sua vida e para a sua morte, naquele festim profano? Uma morte sem dor? Uma vida sem alegria? Um milagre de Deus? Uma utopia sem nexo? Sexo no Cabaré? Um trago de cachaça? Para ele, ali prostrado, inerte, pedindo esmola com uma cuia e a mercê da caridade alheia, num canto sujo do mercado imundo do Ipu, a morte seria um alívio, e a vida seria uma sentença! Seria verdade, como lhe dissera sua avó, já morta e enterrada há muito tempo no cemitério da cidade, que o mundo iria mesmo se acabar antes do ano dois mil? “-De dois mil não passarás”, teria profetizado o velho padre Cícero no Juazeiro, e os romeiros supersticiosos e crendeiros de Canindé acreditaram como se fora dito pelo próprio Cristo!
Por entre as pessoas e as barracas que vendiam café, tapioca, aluá, milho, roupas, sandálias, chapéus, cachaça e facas pontiagudas, um alvoroço comprimia os corpos, um calor mordaz abatia os ânimos e um vento abrasador – como que saído das fornalhas do inferno - aterrorizava as mentes e os corações dos homens e das mulheres que ali estavam diante da estação ferroviária avassaladora, ali posta como uma catedral monstruosa dedicava ao Progresso! No horizonte distante, tal qual o rugido saído da garganta de um monstro fantástico, a locomotiva a vapor vinha de longe, bem longe, rasgando o azul do horizonte, com seu berro de Titã enfurecido, fazendo gelar o sangue e perturbando as almas dos vivos e dos mortos da cidade centenária: era ela a besta-fera do Apocalipse prevista por São João Batista, pelo Padre Cícero e pelo beato Antônio Campelo como o último presságio para antes do fim do mundo? Era ela a sétima Trombeta anunciada pelo profeta Elias? Nada disso fazia sentido, ou trazia consolo para os transeuntes, ou para o cego a esmolar na porta do mercado naquela manhã de sol.  
Para os sertanejos, o trem era uma invenção do Diabo! Sim, do Diabo! E ele tinha qualquer coisa de mal-assombrado, de endemoninhado, de fera saída do Inferno! “-De onde teria vindo esta fera de aço, que cospe fogo e fumaça pelas estradas de terra do sertão, percorrendo um dia o espaço que um bom cavalo levaria uma semana?!” Perguntavam os matutos contritos. E quando o apito estridente da locomotiva lhes dizia algo era um presságio do fim do dia, do fim do mundo, do fim da festa e do fim da vida! O trem estava chegando à estação carregada de gente e de sonhos, e de dentro da alma dos homens e das mulheres que o fitavam ao longe da trilha de aço e de fumaça que ele deixava, um calafrio ancestral percorria-lhes a espinha. E de dentro das entranhas do monstro de ferro um jovem violeiro de cabelos compridos chama a atenção dos passantes por seu porte avantajado de sertanejo agigantado – tinha um metro e noventa e poucos, o que era muito raro pelos sertões – e sua voz era majestosa e imponente, como a voz de um anjo entoando cânticos aos céus num domingo.
O jovem vate desembarcara de uma peregrinação a Canindé (a Meca do sertão-central), com uma viola na mão e muita esperança na algibeira. Depois de Canindé, o Ipu era a cidade mais religiosa do norte do Estado, e Sabiá – este era o nome deste jovem - pretendia ganhar alguns trocados cantando suas cantigas tristes na feira da estação para os serranos e para os sertanejos que iam e que vinham naqueles dias festivos. Arriando seu corpanzil fatigado em cima de um tamborete tosco à sombra de uma oiticica centenária, o jovem cantador inicia seu canto triste na praça da estação debaixo do sol abrasador:
Tanta gente vai
Tanta gente vemmmmm
A bordo do tremmm
A mercê da vida!
Ôôô, menina linda
A luz não finda
Este torpor!
O meu coração chorou
Por uma razão qualquer
A mercê da vida
...    ....   ...
Ôôô, menina linda
A luz não finda
Este torpor!
Tanta gente vai
Tanta gente vemmmmm
A bordo do trem
A mercê da vida!
Ôôô, menina linda

Os homens pararam para ouvir... A voz perdeu-se em meio aos transeuntes da feira e da novena, penetrou nas casas e nos casarões antigos como um invasor inoportuno, adentrou as ruas, as alcovas, a Igreja, o Cabaré, os corações e as mentes dos homens fracos e fortes, e por fim veio falar às almas contritas dos habitantes do Ipu que aqueles eram tempos difíceis, tempos derradeiros, de quebradeira geral; tempos finais, de falência das famílias ilustradas, de queda nos preços do algodão, de ascensão de caboclos e pardos e que antes do fim, os homens ricos do lugar estariam de joelhos, a esmolar como o cego do mercado, pedindo ajuda a Deus ou ao governo do Estado, para vir abastecê-los de víveres e de dinheiro fácil, para que eles assim possam socorrer suas frágeis e débeis clientelas e ganhar mais um pleito na política local. “-Nós deveríamos arrumar dinheiro, distribuir no dia da eleição, garantir os votos no nosso candidato!”
A música triste dizia:

“-O meu coração chorou
Por uma razão qualquer
A mercê da vida...”

Faltava comida, água e dignidade para toda população da cidade! E quem controlasse as benesses dadas pelo governador controlaria os votos da população sedenta e analfabeta. 

Continua...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

O Legado das Manifestações

         
Alarmada com a nova onda de manifestações populares, parte dos intelectuais e da grande mídia faz uma análise assaz sombria do cenário atual, identificando, pelo menos dois pontos negativos: em primeiro lugar, que o país vive um momento de anarquia (caso não seja veemente combatidas, poderão colocar em xeque a democracia) e, em segundo lugar, que o governo se mostra incapaz de lidar com as manifestações, cujo resultado poderia ser a volta de um Estado de exceção, uma nova ditadura, por exemplo. Encaro essa análise com desconfiança.
        Ao contrário, creio que vivemos um momento bastante singular na recente história do Brasil. As manifestações populares são resultado, a meu ver, das transformações pelas quais passou o país nestes últimos 25 anos, deste a promulgação da constituição de 1988, a mais democrática de todas, por ser inclusiva, garantir a participação de corporações e da sociedade civil no processo político. Os últimos movimentos de rua expressam, de um lado, a elevação dos padrões de justiça e dos direitos dos cidadãos, reconhecidos pela Carta Magna, bem como um processo de igualdade jurídica, e, de outro lado, os avanços no campo econômico e social, medidos por vários indicadores, que foram capazes de diminuir a miséria, a pobreza e as desigualdades sociais, a despeito das persistências.
        Dito de outra forma, a onda de protestos que assistimos ultimamente é resultado do sucesso do processo democrático pós-ditadura militar e, consequentemente, da constituição de 1988, que garantiu, no papel, a igualdade dos cidadãos e a defesa dos seus direitos, quando violados, e de manifestação em defesa de seus interesses. O que está em choque é, penso, uma sociedade que aprendeu a viver melhor e a defender o que garantem as leis do país e a experiência de violação desses mesmos direitos por aqueles que estão no poder.
        Estamos vivemos o que a cientista política Maria Hermínia Tavares de Almeida chama de “revolução tocqueviliana”, o que significa dizer, em resumo, que assistimos a ampliação de uma cultura de igualdade e de direitos. No entanto, tais direitos são sistematicamente negados pelas elites políticas em nosso processo histórico e que, agora, diante da insatisfação popular, são obrigadas a abrir mão de seu passado patrimonialista, cujos resquícios ainda são fortes.
        Poderia dizer ainda, de uma terceira forma, que as manifestações resultam de uma insatisfação da juventude com a situação vivida pelo país que, não obstante os avanços, apresenta uma ausência de possibilidade de um futuro melhor, com os excessivos gastos com a Copa do Mundo, com a corrupção na política e uma sensação de impotência ante a impunidade, com a falta de recursos para áreas essenciais, como educação e saúde e, de quebra, com os transportes urbanos, que agonizam e, finalmente, com a falta de canais de participação nas decisões, num cenário em que os políticos e o Estado, com uma visão estreita da democracia, buscam decidir em nome do povo, mas sem o povo, como se o fato de terem sido eleitos lhes garantissem qualquer decisão.
É preciso que a postura do governo em relação aos manifestantes mude, não mais os encarando de forma estereotipada, como se eles fossem vândalos, baderneiros ou vagabundos, e lidar com as manifestações como algo legítimo, garantido pela constituição. Por outro lado, não se pode admitir que grupos partidários e a grande imprensa, igualmente partidária, por estar nas mãos de empresas e políticos, usem-nas com o objetivo de canalizar as insatisfações contra o governo federal, por supostamente negligenciar seus interesses, e com a intenção de direcionar a opinião pública.
Creio, finalmente, que está ficando para trás um processo político e cultural que ensinava as pessoas a permanecer caladas, resignadas, a aceitar pacificamente a sua condição, o seu destino, a sua miséria, a não se manifestar, a não participar de movimentos em defesa de seus interesses, esperando um salvador da pátria.
É o legado, a meu ver, dos atuais movimentos populares.


domingo, 23 de fevereiro de 2014

Ipu Antigo VII


Vista da cidade (1940). Acervo: prof. Mello.
É preciso esclarecer, igualmente, que mesmo antes da chegada dos trilhos, o município apresentava uma importante produção de algodão, açúcar e outros gêneros, contando, apenas no perímetro da cidade, com 13 engenhos de produção de açúcar, aguardente e derivados da cana, 10 de ferro e 3 de madeira,  como anota ainda Antônio Bezerra de Meneses em 1884:

Admirei a quantidade de algodão em caroço que entrava continuamente dos pontos vizinhos, e que oferecia serviço incessantemente ao locomóvel do Sr. José Liberato de Carvalho[1], e às inúmeras máquinas no descaroçamento e arrumação em sacas desse valioso produto, a fim de serem transportados aos centros consumidores.
Não é somente algodão que se cultiva com vantagem no município, mas o açúcar, a aguardente, a rapadura, os cereais, e porção de gado no sertão[2].

Toda uma gama de artigos, produzidos em âmbito local e comercializados no circuito interno, passou a ter um meio de escoamento: rapadura, farinha, arroz, feijão, mamona, couro, cereais, lenhas, gado e outros. Produtos como o algodão e o açúcar, cada vez mais importantes e que já eram exportados para outras localidades, mesmo antes do advento do trem, ainda que precariamente, passam a ter, neste transporte, um grande suporte para o incremento da produção e atração de capitais.
Da mesma forma, o trem teria favorecido o crescimento das transações comerciais e o surgimento de inúmeros pequenos e médios estabelecimentos erguidos nas primeiras décadas do século XX, e que passaram a comercializar com os produtos da economia local ou importados de outras praças, alguns deles de grosso trato[3]. Data deste momento, ainda, o surgimento das feiras diárias, verificado no período, e uma maior circulação de capitais. Toda a produção de hortifrutigranjeiros da fértil serra da Ibiapaba descia a ladeira da mina, na subida da serra, e encontrava nas feiras, ao redor do Mercado Público, um meio de escoamento. Elas exerciam ainda uma atração de pessoas e mercadorias produzidas em cidades vizinhas.
Muitos são os relatos das feiras que ocorriam em torno do mercado nos anos iniciais do século XX, sobretudo aquelas realizadas aos sábados, as mais concorridas, e que exerciam atração sobre uma grande quantidade de pessoas das regiões rurais do município e de outras cidades, como aquele escrito por Francisco Magalhães Martins, que viveu aqueles anos. Inicialmente, o autor discorre sobre o crescimento da cidade com a chegada da ferrovia, para depois falar da importância das feiras:

(...) Na cidade corria dinheiro, o comércio tornou-se ativo, abastecendo não só os habitantes dos sertões cearenses do alto Acaraú como o da Serra-Grande e de alguns municípios do Piauí.
Passavam, então, pelas estradas que cruzavam o antigo Ipu-Grande, as tropas e boiadas tangidas por comboeiros e por vaqueiros metidos em gibão e chapéu de couro. Muitos vinham dos sertões de Santa Quitéria, Ipueiras, Tamboril, Inhamuns; alguns demandavam o Piauí, subindo a Ibiapaba pela ladeira da Mina e do Corrente, esta mandada fazer por D. Pedro II. As feiras ficavam regurgitando de sertanejos e serranos, mascates, vendeiros, cegos pedindo esmolas, cantadores tocando violas. Os matutos tiravam do dorso de alimárias as cargas de gêneros, farinha, rapadura, frutas: amarrando os animais de sela ou de cangalha – cavalos, muares, jumentos – nas árvores em derredor do mercado, insuficientes para tantos[4].

Em outros relatos, Francisco Magalhães Martins e Francisco das Chagas Paz arrolam uma infinidade de produtos que eram comercializados nas feiras: cereais, peles, artigos produzidos nos engenhos, frutas, legumes, galináceos, animais de pequeno e grande portes, carne, peixes, mel de abelha, tapioca, raízes, folhas, sementes de plantas medicinais, farinha, goma, arroz, artigos artesanais, dentre outros[5].




[1] José Liberato de Carvalho era sócio do cel. José Lourenço de Araújo e de Antônio Manuel, na firma Lourenço Martins & Cia. A firma comprava gado do Ceará e vendia madeira do Pará. Ver, MARTINS, Francisco Magalhães. Ídolos, Heróis e Amigos. Ensaios Críticos. Fortaleza: Gráfica Editorial Cearense, 1982, p. 58.
[2] MENEZES, Antonio Bezerra de. Notas de Viagem. Op. cit., p. 202.
[3] Sobre este crescimento econômico e as transformações geradas, ver FARIAS FILHO, Antonio Vitorino. O Discurso do progresso e o desejo por uma outra cidade: imposição e conflito em Ipu-CE (1894-1930). 2009. 151 f. Dissertação (Mestrado Acadêmico em História e Culturas) - Centro de Humanidades, Universidade Estadual do Ceará. Fortaleza.
[4] MARTINS, Francisco Magalhães. Ídolos, Heróis e Amigos. Op. cit., p. 54-55.
[5] Ver: MARTINS, Francisco Magalhães. O Coronel João Martins da Jaçanã. Fortaleza: Henriqueta Galeno, 1997, p. 13.  PAZ, Francisco das Chagas (Direção). Almanaque Ipuense. Nº 2, Ipu: Oficinas Gráficas da Escola Profissional de Ipu, 1963, p. 79.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Ipu: perfil urbano IX - Final

Caso o nosso viajante quisesse conhecer este local, se decepcionaria mais uma vez, pois ali funcionam hoje alguns estabelecimentos comerciais e sedes de secretarias da administração local. Mas sabedor de que as prostitutas, expulsa do centro da cidade, se deslocaram para o local que ficaria conhecido à época como Rua da Mangueira, então desabitado, no atual bairro da Caixa D’água, e lá ergueram um famoso cabaré, poderia ele querer visitá-las lá. Bastaria, para isso, pegar o caminho de volta, pela Rua Cel. Liberalino, até o mercado público, virar, então, à esquerda, na atual rua Antonio Martins, subir, passar pelo antigo Bilhar e Padaria do Zé Padeiro, que não existe mais, onde os rapazes da época se reuniam, à noite, para dali rumar “em esticada”, com suas lanternas, à Rua da Mangueira, para uma noitada no cabaré. Após andar por algum tempo, chegaria ao local onde no início do século passado foi erguido o mais famoso cabaré da região e que fez a fama da cidade de Ipu como lugar do prazer e da perdição, um contraponto a sua imagem construída de cidade moderna. Inicialmente, era composto por “oito casinhas” “rebocadas”, “caiadas” e “cobertas de telhas” [1] e aonde se ia não apenas para a prática do sexo, mas para diversões várias.
O último foco do cabaré foi destruído na década de 1980, quando, já decadente, as suas últimas casinhas foram destruídas na administração de Francisco Eufrásio Mororó (1982-1988). A cidade tinha crescido e englobado o antigo cabaré. A antiga Rua da Mangueira é hoje parte de uma área nobre da cidade.
Embora a história que nos propomos a contar faça parte, cronologicamente, de um passado relativamente distante, a sua lembrança parece estar bastante viva na memória de parte de seus habitantes, que ainda pode identificá-la em construções e costumes. Em alguns momentos, esta memória vem à tona, como foi o caso da luta do povo ipuense pela devolução da Estação Ferroviária, vendida à iniciativa e resgatada posteriormente pela pressão da sociedade organizada, tendo papel de destaque a entidade que reúne os ipuenses espalhados pelo mundo, com a denominação de Associação dos Filhos e Amigos de Ipu (Afai), preocupada com a preservação do patrimônio local e a memória da cidade, ainda que ligada aos grupos dominantes. Não à toa que parte de seus membros são parentes dos homens poderosos que viveram as décadas iniciais do século XX e lutaram para erguer os monumentos que hoje estão sendo destruídos.




[1] SILVA, João Mozart. Ipu do Meu Xodó: memórias. Fortaleza: Nacional, 2005, p. 101.

sábado, 15 de fevereiro de 2014

Pinceladas Vibrantes I

A Pintura Impressionista

Claude Monet. Femme à l'ombrelle (mulher com sombrinha), 1875. Óleo sobre tela.

A pintura impressionista me fascina, em primeiro lugar, por ter sido, em sua época, rebelde. Os pintores dessa nova técnica romperam com regras da pintura oficial, uma vez que foram marginalizados pela estrutura artística estatal francesa, que selecionava as obras a ser admitidas nos salões. Em segundo lugar, por ter escolhidos como um de seus temas o cotidiano ou a vida moderna na segunda metade do século XIX, sendo, pois, uma fonte importante para analisar a sociedade da época.
As transformações pelas quais passou a Europa na segunda metade do século XIX acabaram por modificar radicalmente o conceito estético que tinha servido de guia para a produção artística durante os séculos anteriores e surgiram novas vias de investigação nessa área que resultaram em formas de expressão muito diferentes. Isso se refletiu nas artes: literatura, escultura, arquitetura. Na pintura, gerou o “movimento” que ficou conhecido como impressionismo.
Hoje gostaria de analisar apenas um dos quadros de Édouard Manet, um dos autores impressionistas e que elegeram temas parisienses e da vida moderna, precisamente por eu ser um fascinado pesquisador da modernidade fin-de-siècle.
La musique aux Tuileries, 1862, Óleo sobre tela. Londres, coleção da National Gallery

O quadro, “Música no palácio de Tulherias” é uma reunião de retratos tratados de maneira alusiva em pincelada de branco e negro, retocadas por algumas cores mais vibrantes, sobre uma abóboda de folhagens pintada com grande liberdade[1]. Manet retrata um dos salões elegantes da Paris, capital do século XIX na expressão de Walter Benjamin[2], onde só era recebida a alta aristocracia (barões, baronesas, marqueses, condes, príncipes, que ainda mantinham seus títulos e sua linhagem) e a ascendente burguesia enriquecida. Tais locais funcionavam como importantes espaços de afirmação de posições, poder e riqueza. De um lado, parte dessa aristocracia em decadência buscava estes espaços com o objetivo de encontrar maridos e esposas para seus filhos entre burgueses enriquecidos com as oportunidades do crescimento econômico, mais fáceis após a revolução industrial, na esperança de sair da crise, ainda que considerassem essa burguesia com base em sua visão de mundo aristocrática, e que a desprezava. Por outro lado, as famílias burguesas enriquecidas também iam a estes espaços com a esperança de serem aceitas nos fechados círculos aristocráticos, em busca de posição, e, em parte, de maridos e esposas para seus filhos no seio da decadente aristocracia, como estratégia de ascender socialmente. Ambos, no entanto, buscavam os salões para sociabilizar-se e viver a frivolidade, segundo Baudelaire, do mundo moderno.
Na literatura francesa, Marcel Proust nos permite entender melhor os salões aristocráticos de fins do século XIX em sua obra À la recherche du temps perdu, romance publicado no Brasil em sete volumes com o título de Em busca do tempo perdido, fazendo uma crítica a eles por sua frivolidade, hipocrisia e tagarelice vazia, sobretudo no terceiro volume, O caminho de Guermantes.

Continua...




[1] LOBSTEIN, Dominique. Les Impressionistes. Cavalier Bleu, coll. Idées Reçues.

[2] BENJAMIN, Walter. Passagens. Belo Horizonte/São Paulo: Editora da UFMG/IMESP, 2007. 




sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

NUNCA É TARDE PARA CHORAR II de parte III

A FRAQUEZA DA CARNE

 FOLHETIM DE GABRIEL ARCANJO

A moça saiu, deixando atrás de si a aflição de sua lembrança, seu perfume de menina-mulher, e o eco perturbador da silhueta de seu corpo esguio na mente confusa do jovem celibatário. “A mulher é uma criação de Deus? Ou será do Diabo?” Pensou em seu íntimo, e ele mesmo respondeu em pensamentos: “- A mulher é obra do Cão!”
A noite caiu, como uma manta sinistra sobre a cidade que dormia, e o padre, que era um homem como todos os outros, voltou a ter sua mente ocupada pela lembrança da jovem loira, que ele vira pela manhã, no confessionário. Lembrou-se de seus olhos de esmeralda, de seus seios de melão maduro, de sua boca de jasmim, e pediu perdão ao bom Deus por sua fraqueza (mas ele era um homem como todos os outros, e o fantasma da loira continuou a ocupar seus pensamentos). Naquela noite, o pároco teve sonhos tenebrosos e medonhos, sonhos em que Maria, a linda moça filha rejeitada dos Araújo, lhe vinha invadir o quarto e o leito vestida apenas com uma camisola transparente. Era possível ver, por debaixo da roupa, o desenho loiro de suas partes íntimas, o bico pontudo de seus seios, o volume de suas ancas. Veio esbelta, na direção do homem de Deus, e ele titubeou: “-O que é que tu quer aqui, menina? -Eu quero você, meu padre! Disse-lhe, e correu para os seus braços, num alvoroço de amante sedenta! –Arreda-te de mim Satanás! Disse o religioso, empunhando um crucifixo, como a exorcizar o próprio Demônio! Arreda-te de mim! E ele, que havia jurado nunca pecar, nunca provar da carne sedosa de uma bela mulher, se viu vencido ali em sonhos, naquela noite, pelos beijos e pelos afagos da linda bruxa dos Araújo! Repetiu as palavras de Cristo na Cruz: - Meu Deus, por que me abandonaste? E se entregou a luxúria! Falou ele, num desmaio e num sussurro, vendo sua voz ser sufocada pelo beijo apaixonado da mulher-anjo, que se despia diante de seus olhos, e ele se viu derrotado, incapaz de resistir. E, num raio da manhã, despertou sozinho em seu leito sujo de suor e de sêmen: - Por que é que tu vens me perseguir, filha do pecado? Disse ele, entre o sono e a vigília, arrependido de seus pecados, com o peito em brasa, o falo em riste, e ouvindo lá fora o som surdo do vento no telhado, e a pressa da chuva ligeira de dezembro a lhe inspirar versos estranhos de amor:
Maria, o teu olhar
É a dor da vida na vida!
É navalha ardendo na ferida!
É o sonho da morte vivida!
É o trem que apita!
É o carro que corre!
É o tempo que passa!
É a vida que morre!
Maria, o teu olhar
É a forca do suicida!
É a navalha na ferida!
É a noite sem fim!
É o crime de Cãim!
É o silêncio eterno!
É o inferno!
É o céu!
Maria, o teu olhar,
É a chuva que vem,
É a vida que vai!
De longe, bem longe!
De dentro da noite sem fim!
É o crime de Cãim!
É a vida que morre!
Maria o teu olhar
É prisão de amargar!
É triste,
Como o luar!
É Fundo,
Como o oceano!
Maria,...
É teu olhar.


Continua...

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

Ipu Antigo VI

Vista Parcial da Cidade (1940). Acervo: prof. Mello.
A importância da ferrovia para a cidade de Ipu não reside apenas no fato de ter favorecido o aumento da produção dos artigos produzidos localmente, mas também de ter transformado esta urbs num ponto de atração de toda a produção das regiões em sua volta, pela facilidade de comunicação com outras praças, e que antes de 1894 não encontrava facilidades de expansão. Já em 1884, Antônio Bezerra de Meneses[1], em sua viagem pelo norte da província, se admirou com tamanha riqueza natural e da produção das cidades e povoados da serra da Ibiapaba, que encontrava limites de expansão na falta de transportes e comunicações.  Não deixou de anotar que logo que os trilhos chegassem à cidade, com sua localização privilegiada, a dois quilômetros da serra, se tornaria a urbs mais importante e rica do norte cearense, sobrepujando Sobral. Ao passar por esta última cidade anota: “não tenho a intenção de ofuscar o brilho de Sobral, cuja prosperidade é visível, mas esta estacionará logo que chegue a estrada ao Ipu”. “Os produtos da Ibiapaba não se perderão como até hoje à falta de consumo”[2].
Igualmente, a ferrovia teria dinamizado a produção de açúcar e aguardente, bem como outros produtos agropecuários. José Bernardo Teixeira, por exemplo, que em meados do século XIX montou um engenho de produção de açúcar, rapadura e aguardente, por tração animal e mais tarde por tração a vapor, usando as águas do riacho Ipuçaba, passou a exportar para outras praças o açúcar produzido na “Lagôa do Teixeira”, como ficou conhecido o seu engenho. Segundo o relato do historiador Francisco das Chagas Paz, entre fins do século XIX e início do século XX a “Lagôa do Teixeira”

Fabricava aguardente, rapadura e o famoso açúcar turbinado que era vendido para a Capital, até mesmo para o estado do Pará, embarcando aqui, na Estrada de Ferro recentemente inaugurada, levando-o ao porto de Camocim. Dalí por via marítima chegava às praças onde era vendido[3].

Segundo ainda o autor da citação acima, os invernos irregulares dos primeiros anos do século XX, associado às dívidas contraídas pela família Teixeira, levou-o à falência. A “Lagoa dos Teixeiras” foi vendida para a Firma Boris Frères, com filial em Fortaleza, que fazia o comércio de importação e exportação entre o Ceará e a França[4] e já comerciava com o norte do Ceará mesmo antes da EFS[5], nutria projeto de investir mais pesadamente na região para explorá-la economicamente. Com os invernos bons após 1909, a propriedade foi comprada pelo Cel. José Lourenço de Araújo, que restaurou o maquinismo e retomou a produção de açúcar. No entanto, se notabilizou como grande exportador de algodão, como vimos. 

Continua...




[1] Antônio Bezerra de Meneses (1841-1921). Jornalista, poeta, historiador e naturalista. Em 1884, participou de uma comissão a Região Norte do Ceará, organizada pelo governo da província, com o objetivo de colher informações históricas, geográficas e de sua natureza. Profundo conhecedor e estudioso das ciências naturais, historiador da primeira geração do Instituo Histórico do Ceará, sendo um de seus fundadores em 1887, não se limitou apenas a colher informações estatísticas dos locais por onde passava, deixando suas impressões no livro citado, Notas de Viagem, publicado inicialmente em folhetim, para o jornal Constituição. Idem.
[2]  BEZERRA, Antônio. Notas de Viagem. Op. cit., p. 319.
[3] Ipu em Jornal. Ipu, p. 1, 6 e 7, Set. 1959.
[4] TAKEYA, Denise Monteiro. Europa, França e Ceará: origens do capital estrangeiro no Brasil. Natal: UFRN. Ed. Universitária, 1995.
[5] BEZERRA, Antônio. Notas de Viagem. Op. cit., p. 321.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Política ipuense: Pica-pau X Cururú III

Charge do Arcanjo (2006)
Nas eleições de 2004, Francisco da Chagas Torres Junior (o Torrim ou Pica-pau), então prefeito de Pires Ferreira, lançou a candidatura de sua esposa, Maria do Socorro Pereira Torres (Corrinha) à prefeitura de Ipu. Embora vencedora nas urnas, enfrentou grandes dificuldades para governar. Talvez o principal entrave encontrado tenha sido governar sem possuir maioria na Câmara Municipal, uma vez que só conseguiu eleger três vereadores: Raimundo Nonato Martins (presidente no biênio 2005-2006), Antonio Erivelto Alves de Sousa (Secretário deste biênio) e José Alves de Sousa. Faziam oposição ferrenha na Câmara, com ampla fidelidade ao grupo do José Carlos Sobrinho (o Zezé), que manteve, com benesses, seus "leais" correligionários, Efigênia Mororó, Carmem Lúcia Pinto, Manoel Josino de Freitas (Manoel Palácio), que depois, mudou de lado, Nilson Rufino Moreira, Ivo Sousa Oliveira e Antonio Carlos do Amarante.
        A situação piorou em 2007, com a eleição de Ivo Sousa de Oliveira para a presidência da Câmara para o biênio de 2007-2008,  um dos mais leais vereadores do grupo do Zezé Carlos.
        A ferrenha oposição na Câmara e os ataques empreendidos pela oposição à gestão da Corrinha, por meio de seus veículos de comunicação, acabaram sendo fatores importantes que não permitiram um governo mais tranquilo e a consolidadação da liderança do Grupo de Francisco das Chagas Junior, e que se expressou na derrota de seu grupo nas eleições de 2008.
        A charge acima é um verdadeiro testemunho que explica, em parte, um dos percalços encontrados pela administração do Grupo Pica-pau quando esteve no poder na Terra de Iracema.


quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Ipu: perfil urbano VIII

Mapa da cidade de Ipu mostrando o centro e regiões adjacentes. Adaptado com base no desenho que consta no Plano Diretor do Município. Os espaços numerados correspondem àqueles que mais mencionamos aqui e nos capítulos subsequentes.

O Mercado Público é um prédio que toma todo um quarteirão, disposto em um quadrilátero, com quatro entradas centrais e que dão acesso ao seu interior. Dentro, se vende de tudo, desde peixe e carnes, artigos de calçados, até refeições (café da manhã, almoço, lanche). Os pontos comerciais do interior e do exterior não têm comunicação, ao contrário do que ocorria no início do século. Em uma das reformas pelas quais passou, durante a administração de Francisco Rocha Aguiar (1967-1970), fechou-se o acesso de seus estabelecimentos para o seu interior, destruindo uma varanda, peculiar ao comércio da época.
Em um de seus lados, próximo à antiga Casa de Câmara e Cadeia Pública, ainda são realizadas as feiras semanais, ponto forte da economia da cidade nos primeiros anos do século passado. Estes dois prédios, o Mercado Público e a Casa de Câmara, embora novos no início do século XX, foram objetos de reclamação daqueles que sonhavam com a modernidade. Para o primeiro, defendia-se sua higienização e reformas, para transformá-lo, esteticamente, num prédio moderno e, para o segundo, uma ampla intervenção, que desse a ele uma face mais moderna, e que tivesse uma função apenas administrativa, expulsando para longe dos muros da cidade a cadeia pública, com base na construção de outro prédio para este mister, o que, de fato, é levado a cabo e inaugurado em 1933. 
Deste ponto, a poucos metros de distância e à direita, pode-se avistar a atual Igreja Matriz de Ipu, o grande templo, cujo início de construção data ainda de 1913, defendida por aqueles que acreditavam que a matriz de então, a hoje Igreja de Nossa Senhora do Desterro, construção que data da segunda metade do século XIX, estava em desacordo com “o grau de desenvolvimento da cidade”.
Derrubada do casarão que pertenceu ao Cel. José Raimundo de Aragão Filho. Fotografia de 2008. Acervo do autor.
Para o lado esquerdo, descendo a atual rua Dr. Chagas Pinto, pode-se avistar um grande prédio moderno, de dois andares, e construído recentemente no local onde existia um casarão que pertenceu, nos anos iniciais do século XX, ao Cel. José Raimundo de Aragão Filho, empresário e prefeito de Ipu, entre 1914 e 1925, e cuja arrogante calçada de mais de um metro de altura tinha a função simbólica de exteriorizar o poder e a riqueza de quem residia ali. Quem passava por ali, no início do século XX, poderia ter a sensação de que a calçada, as ricas janelas e imensas portas, arrotavam orgulho e queriam dizer algo para as pessoas. Em outro contexto, tal arrogância não foi suficiente para salvá-la da destruição.
Na interseção entre as ruas Dr. Chagas Pinto e Cel. Liberalino se pode ver a escola secundária Auton Aragão, antigo prédio das Escolas Reunidas, onde parte dos filhos das abastadas famílias ipuenses estudava. Fica em uma rua estreita, chamada no início do século XX de Beco do Progresso, hoje rua Teodoreto Souto. No lado oposto ao colégio, residiam, segundo João Mozart da Silva, as prostitutas, em quinze quartos que eram usados como cabaré à noite. Bem no centro da cidade, próximo ao mercado público e ao espaço da feira, era uma local frequentemente buscado por viajantes, feirantes e a população local, o que incomodava as famílias ilustres do lugar e os homens do poder que, logo, trataram de expulsá-las dali.

Continua...





terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

NUNCA É TARDE PARA CHORAR I de parte III

A Fraqueza da Carne

Do final dos anos quarenta para o início dos anos cinquenta chegou ao Ipu, logo após a morte do velho Monsenhor Gonçalo Lima, um jovem padre que era a “sensação” da cidade: seu nome era Francisco Pereira de Meireles. Por seu refinamento cultural e por sua ligação com o Bispo Dom José de Sobral, gozava ele de invulgar prestígio na cidade. Alto, esbelto e elegante, o jovem pároco era o preferido das damas da sociedade para fazer a confissão nos domingos. Ele, em si, despertava paixões e induzia muitas mulheres ao pecado, ainda que em pensamento. E naquela manhã de janeiro, logo após a comunhão, entrou na fila do confessionário uma respeitável e elegante dama da sociedade: Dona Julia, esposa legítima do coronel José Alves de Araújo, e mãe exemplar de uma criança de colo.
Acostumados, desde seus tempos de noviço, em que fora pupilo de Dom José, a ouvir de todo tipo de pecado, o jovem pároco não estava preparado para escutar a confissão de Julia: “- Seu padre eu pequei! Tenho o coração tomado de remorso pelo crime que pratiquei contra Nosso Senhor Jesus Cristo! E queria que o senhor me absolvesse de tamanho fardo!”. “-Diga que pecado foi esse, minha filha”. “-Seu padre, eu, pra me vingar das traições de meu marido, peguei nossa filhinha recém nascida e dei pros outros criarem, e hoje ela se perdeu e eu me sinto a responsável por isso. Ela foi tomada a força pelo cabra safado do Joaquim Catunda, que o coronel Marinho capou”. “-Ô minha filha, isso é um pecado mortal! Sua filha era uma inocente! Deus Nosso Senhor ama as criancinhas! Crianças são a encarnação de Deus! Eu vou lhe dar uma penitência bem forte, para que possa lavar sua alma de seus pecados: você tem que se vestir com uma mortalha negra, com uma cruz branca no peito, e ir no cemitério da cidade à meia-noite, acender uma dúzia de velas pras'almas do purgatório! Faça isso nove sextas-feiras seguidas, nove anos seguidos, a começar na sexta-feira da paixão, e peça perdão a Deus, reze pra São Francisco, São Lázaro e Santo Expedido! Quem sabe assim eles possam interferir junto à Deus, para salvar sua alma!”
        Desde aquela data as encruzilhadas e as ladeiras do Alto dos Quatorze passaram a ser assombradas por uma aparição fantástica.       Indiferente a real identidade desta assombração, a cidade dormia amedrontada por superstições ancestrais: “-É um vulto negro, alto e difuso que sempre aparece com a lua-cheia, usa uma mortalha escura e é visto pelos caminhos ao lado das sepulturas desertas e das encruzilhadas malditas. Dizem que é alguém que virou lobisomem, que amaldiçoou o pai e a mãe, o padrinho e a madrinha, e que fora excomungado pelo Papa, que carrega um pecado mortal e a marca de Caim no peito, que tem que peregrinar nove sextas-feiras em sete cemitérios pelas quatro províncias do mundo, nove anos seguidos, vestindo uma mortalha encantada e pedindo perdão a Deus por um pecado mortal! Se o amortalhado encontrar com você, meu filho, ele joga a sua mortalha maldita em cima de você, e assim lhe transfere todos os seus pecados! E será você a andar amortalhado! Corra, meu filho, corra do Amortalhado do Alto do Cemitério, se o vir pelos caminhos e pelas encruzilhadas do Ipu! Ele é cria do Demônio! É coisa do outro mundo! É um amancebado, homem que virou lobisomem!! Ou é um assassino do próprio pai e da própria mãe, um excomungado condenado pelos santos da igreja a peregrinar até o dia do Juízo! Assim, sem o querer, Julia Alves fez nascer a lenda do Amortalhado que povoaria o imaginário social da população do Ipu por quase toda a segunda metade do século XX!
Anos depois, José, o marido, amargurado pela infelicidade da filha, sentindo-se punido por Deus e pela esposa, passou a frequentar a igreja, para se confessar ao padre Meireles e a beber cachaça como nunca havia feito antes. E foi assim que o pároco se inteirou dos detalhes que rodeavam todo o ocorrido. Ninguém na cidade era mais informado do que ele. Graças às confissões dos fiéis, sabia o padre de primeira mão qual marido traia a esposa, qual esposa tinha sonhos pecaminosos com os homens alheios, quem era corno, que adolescente fornicava com cabritas ou jumentas na ausência dos pais, quem ia ao cabaré do Ipu pagar pelo sexo das mulheres da vida, quem sovinava esmola e comida aos pobres do sertão, e quem levantava falso testemunho!

E foi num domingo de confissão, por detrás das grades finas do confessionário, que o padre Meireles teve o prazer e a infelicidade de receber pela primeira vez a filha renegada dos Araújo, a jovem Maria Alves. Olhos azuis como o azul do céu (um azul safira, esmeralda), boca carnuda e sensual (como a manga jasmim), seios lindos e branquinhos (como um prato de coalhada), cintura fina e pernas - Meu Deus, as pernas! - eram uma obra de arte! Uma criação de Deus (ou será do Diabo?). Se é verdade que fora Deus que criou o homem a sua imagem, a mulher só pode é ser obra do Cão! Sim! A mulher é obra do Cão! pensou o padre, ao fitar, de súbito, por detrás das grades do confessionário, os olhos enigmáticos da bela jovem. Sentiu um calafrio na espinha, uma dor profunda em sua alma, e ele viu sua fé tremer diante daqueles olhos de oceano: “-Seu padre eu pequei!” E a frase lhe ardeu na alma: “Conte os seus pecados”. “-Depois que eu fui violada pelo Joaquim Catunda, eu vivo em pecado, amancebada com o Joaquim Martins, que é casado, e tem esposa e filhos pra criar!”. “-Você se arrepende, minha filha?” “-Sim seu padre, eu me arrependo, só não sei como viver, pois não tenho outro mei de vida, e minha mãe e meu pai, que são gente rica, me abandonaram!”. “-Reze 30 pai-nosso e 20 Ave-Maria, e peça perdão a Deus”, disse o padre à moça que estava ajoelhada em seus pés e que lhe perturbava o espírito. 

Continua...