quinta-feira, 26 de junho de 2014

Imprensa e cidade: o jornalismo no início do século XX em Ipu-Ce. Parte II

O “Jornalismo Matuto"[1]


Correio do Norte. Fonte: Biblioteca Menezes Pimentel
 Esta arte só teria começado a se desenvolver na Terra de Iracema, segundo o mesmo autor, quando tivera início a “formação mental dos ipuenses”. Ele se refere às últimas décadas do século XIX, quando, por influência do Padre Francisco Correia de Carvalho e Silva, a Vila Nova do Ipu Grande, elevada a condição de cidade em 1885, se viu livre da sanha sanguinária dos destemidos Mourões - família influente na freguesia da Serra dos Cocos, da qual a Vila Nova do Ipu Grande fazia parte, e com o uso da força e das armas aterrorizou a região - e do pronto estabelecimento da lei[2].
Se se der crédito à análise feita pelo magistrado nos primórdios do século XX, teria sido, portanto, nos últimos anos do século XIX que a “vida intellectual do Ipú começou a movimentar-se”[3]. Umas de suas manifestações teria sido o desenvolvimento da imprensa local.
De fato, as primeiras folhas vieram a lume naquele momento. No início, eram pequenos jornais, todos manuscritos, em função de não haver ainda um prelo na cidade. As precárias comunicações com outras localidades, sempre relativamente muito distantes, pela falta de meios de transportes seguros, rápidos e regulares, não favorecia o uso do prelo, existente em algumas cidades, como é o caso de Sobral. Somente após a chegada da ferrovia e o surgimento das facilidades das comunicações, sua maior velocidade e barateamento dos transportes, foi possível se contratar serviços gráficos e tipográficos de estabelecimentos para esse fim, existentes em outras cidades.
No entanto, os primeiros jornais manuscritos, todos de “orientação literária, social e humorística” saíam ainda no último quartel do século XIX. A primazia coube ao ensaio A Lyra, já em 1886. Depois deles vieram outros, como O Povir, O Sol, A Brisa, O Espelho, Beija-Flor e O Paladino, todos redatoriados, principalmente, por Júlio Cícero Monteiro, literato e jornalista, Thomaz de Aquino Correia e Sá, farmacêutico e estudioso das letras, e Francisco Ximenes de Aragão, “então acadêmico”[4].
Segundo José Oswaldo de Araújo, “a cidade do Ipu não madrugou na publicação de jornais em relação ao interior do Ceará” e foi a 12ª localidade a editar um periódico impresso. Trata-se do jornal O Ipuense, um semanário fundado e dirigido por Júlio Cícero Monteiro[5], cujo número de estreia data do dia 24 de outubro de 1890 e teve 20 edições consecutivas. Foi “este, o primeiro jornal em letra de fôrma da terra de Iracema”[6]. Este hebdomandário era impresso na tipografia do jornal A Ordem, de Sobral.
            Em seguida, os irmãos Teles e Jovelino de Sousa, diretores do educandário José de Alencar, o mais importante colégio particular local até aquela data, editaram e fizeram circular o jornalzinho Cidade de Ipu, “jornal bem feito, com excelente parte editorial e literária”. O seu primeiro número data de 18 de fevereiro de 1904. Teve vinte edições e encerrou suas atividades em 15 de outubro do mesmo ano. Marcaram suas páginas os escritos do Dr. Félix Cândido de Sousa Carvalho, juiz de direito da Comarca naquele momento e futuro Desembargador do Tribunal da Relação do Estado[7], do poeta Liberato Filho, Manoel Ribeiro de Miranda, Alba Valdez, Júlio Cícero Monteiro, Dr. José Mendes de Vasconcelos, Luis Porfírio e do professor João da Mata Cavalcante, dentre outros[8].

Continua...



[1] Id. Ibidem. É assim que Eusébio de Sousa se refere à imprensa do interior do Ceará no início do século XX.
[2] Sobre os Mourões ver: MACÊDO, Nertan. O bacamarte dos mourões. Fortaleza: Editora Instituto do Ceará, 1966.
[3] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 222. 
[4] ARAÚJO, Oswaldo. Imprensa de Ipu. In: Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza. Tomo LXXX, Ano LXXX, 1966, p. 162-165, p. 162. Segundo Eusébio de Sousa, a imprensa teve início com o jornal O Sol, que tinha como redatores Tomaz Correia e Felix Candido. Segue-se com O Ipuense, “de Thomaz Correia, Felix Candido e Manoel Marinho, seguindo-se-lhe A Brisa, ainda da responsabilidade de Thomaz Correia, Felix Candido e José Candido; O Espelho, de Eduardo Saboya, actualmente deputado ao Congresso Federal, jornalzinho que durou mais de um anno; e o Paladino, órgão da sociedade litteraria PALANDINOS DO PROGRESSO, de Julio Cicero Monteiro, Felix Porfirio de Souza, Herculano José Rodrigues e Manoel Coêlho”. SOUSA, Eusébio. Para a Historia. Op. cit., p. 227.
[5] Júlio Cícero Monteiro se mudaria para a cidade de Camocim, mantendo, no entanto, intenso diálogo com os intelectuais ipuenses daquele período, inclusive escrevendo periodicamente para o Correio do Norte. Nunca deixou de retornar à cidade de Ipu. Em Camocim, fundou o Grêmio Literário e foi diretor-proprietário do Jornal A Razão (1928-1931), um semanário. Reconhecido como um intelectual brilhante, escrevia para diversos jornais que circularam na região norte.
[6] ARAÚJO, Oswaldo. Imprensa de Ipu. Op. cit., p. 162.
[7] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 229.
[8] ARAÚJO, Oswaldo. Imprensa de Ipu. Op. cit., p. 162-163.