sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A sátira e seus limites

Todos ficamos chocados com o “massacre de Paris”, o maior ataque terrorista, pode-se dizer, levado a cabo não simplesmente contra a França, mas contra um dos valores fundamentes de seu povo, e do ocidente, desde a Revolução Francesa: a liberdade. Sobretudo, a liberdade de expressão. O assassinato de 12 inocentes, por extremistas islamizados, foi justificado como uma vingança em nome de Maomé, fundador do islamismo, por ter sido insultado pelo pasquim parisiense (Charlie Hebdo).
O ataque de Paris teve, sem dúvida, motivações religiosas, mas a questão central é de ordem política, e não se trata, creio, de uma luta entre duas civilizações: de um lado, o ocidente cristão e, de outro, o "oriente" islâmico. A questão mereceria uma atenção mais demorada, o que não proponho fazer aqui nesse momento.

            É difícil precisar os fatores que levaram ao massacre de Paris. O ressentimento de radicais islâmicos contra a atitude dos cartunistas mortos, de desrespeitos a alguns de seus valores religiosos, pode explicar, em parte, o evento. Com uma forte tradição anticlerical, na esteira de Voltaire “o sarcástico”, os jornalistas liderados por Charlie adotaram um profundo e revoltante deboche contra as religiões: católicos, judeus e muçulmanos eram sempre os seus alvos prediletos, bem de acordo com seus ideais profundamente laicizados. Em sua maioria eram ateus, não poupando ataques à crença de tudo e todos.
            É preciso esclarecer que a maioria do povo muçulmano é pacifista e não é absolutamente a favor do tipo de ação que chocou a França e todos nós.
            O episódio, acredito, despertará o debate sobre a liberdade de expressão e até que ponto se dever colocar limites a ela, evitando-se artigos e desenhos que ofendam desrespeitosamente a fé religiosa. Se, de um lado, as charges podem ser interpretadas pelos franceses como de mau gosto, por outro, podem ser interpretadas, pelas vítimas, como uma ofensa, sacrilégio e falta de respeito. Há um desencontro entre o riso ocidental e a ofensa ao mundo muçulmano. Creio que os jornalistas franceses ultrapassaram a barreira do que se pode tolerar, o que não justifica, é óbvio, o ato bárbaro, inadmissível, dos terroristas.
            Na relação entre a liberdade de expressão e os valores religiosos é preciso refletir até que ponto a fronteira da mera sátira não é violada e caímos no erro de incitar o ódio. Talvez os cartunistas tenham violado essa fronteira.    



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Para ler antes de morrer - As cidades invisíveis

As cidades invisíveis[1] é um desses livros fenomenais que não se pode morrer antes ler sob pena de não ter vivido um saboroso prazer indescritível. A maneira como o autor entende as cidades muito me ajudou na escrita da minha tese - já que nela eu discutia o espaço urbano - precisamente porque Ítalo Calvino colocou em xeque a ideia de que houvesse uma homogeneidade na cultura urbana, enfatizando a complexidade das muitas cidades, como representada por seus diversos habitantes ou pelos viajantes e estrangeiros que por ela passam.
Além disso, o texto é uma delícia, podendo ser comparado, com exagero, é claro, às narrativas de Scherazade que conta, noite após noite, mil e uma histórias saborosas ao sultão, para fugir da morte. Tal como o sultão se apaixonou por Scherazade, podemos nos apaixonar, também, não pelo autor de As cidades invisíveis, péra lá!, mas por suas belas narrativas.
Nesse instigante livro, Marco Polo descreve para Kublai Khan, a quem serviu durante muitos anos, as incontáveis cidades do imenso império mongol.
Para além das histórias, o que mais me ajudou foi perceber e chegar à noção de que as cidades, como a própria realidade, não são concretas, como uma pedra ou um objeto material. Elas são “experiençadas”, vividas, sentidas. Desta forma, não existem como algo único, total, mas em suas multiplicidades.
A cidade, que não pode se resumir a algo concreto como uma rocha, portanto, tem a sua existência na percepção e nas imagens que seus habitantes criam dela. Ela só tem existência neste patamar. Portanto, é uma experiência plural.
As experiências múltiplas se configuram como a própria realidade, toma o seu lugar. Cada um, cada grupo de pessoas a representa ou a constrói. A cidade, como a realidade, não supõe nenhuma unidade ou totalidade e não remete a um único sujeito. Parece ser, para Calvino, uma construção. Pode-se descrever uma mesma cidade como se fossem muitas outras cidades. E isso ocorre por pelo menos dois artifícios: o primeiro diz respeito aos aspectos que o narrador privilegia: sua forma, ruas, povo, esquina, edificações etc. O segundo, e mais importante, refere-se ao fato de que uma cidade é vivida, “experiençada”, sentida de formas diferentes por seus diversos habitantes, viajantes, estrangeiros. Cada um a representa de uma forma singular. Assim, pode-se falar de uma mesma cidade como se fosse outra, dependendo de quem narra ou a representa. Creio, esse é um procedimento usado por Ítalo Calvino, por meio da narrativa de Marco Polo.
A cidade, portanto, só tem existência em sua relação com os seus habitantes e grupos que a compõe. Cada um deles vê o mundo e o espaço onde vive de uma determinada forma, cuja ligação é dada por sua vivência, seus interesses. Cada indivíduo ou grupo representa a cidade segundo sua visão de mundo e seus interesses ligados à sua vivência.  Volta-se para aspectos específicos da realidade e constrói, ou reconstrói, a cidade e seu mundo incessantemente e de forma criativa. As pessoas selecionam aspectos singulares num leque de opções disponíveis em sua cultura e relação com o seu mundo para representar o local onde vive ou por onde passa.
As cidades são invisíveis porque não existem materialmente, como unidade ou totalidade que podem ser ditas de uma vez por todas. Essa metáfora permite pensá-la como construção feita com base nos significados que representa para cada habitante ou grupo de pessoas. As ruas, edificações, traçados, esquinas, casas, só adquirem sentido quando “experiençadas”, vividas e, portanto, estão carregadas de simbolismos para aqueles que vivem e trafegam por seus espaços. Como pode uma cidade ser descrita por alguém e essa descrição se colocar no lugar da cidade? A cidade é apenas uma representação entre as tantas possíveis. E mesmo para quem escuta uma tal descrição, como faz Khan,  a cidade é visualizada e significada de forma diferente porque entra em contato com outra experiência de vida e interesses.
As cidades nunca se resumem ao seu espaço físico, geográfico ou a uma única representação. São invisíveis. É isso que Calvino quer dizer?
Cada cidade, para Calvino é única, sem ser total, e contém um pouco de cada uma, porque vividas, e o seu número é infinito, porque as experiências são igualmente infinitas.





[1] CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

NUNCA É TARDE PARA CHORAR parte V (1)

  

A gravidez e o funeral



Folhetim de Gabriel Arcanjo


A sentinela de Joaquim foi um acontecimento marcante, lá compareceram em peso os representantes de todas as classes e pessoas da cidade, desde os seus parentes e amigos mais ilustres aos mais humildes e paupérrimos cabras e caboclos da povoação. A família Martins distribuiu cachaça, café e aluá aos presentes. O padre Meireles encomendou a alma do defunto aos anjos de Deus, e após pouco mais de meia hora estava feito o ritual de velório. “-Que descanse em paz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” e a multidão contrita respondeu “-Amem!”
            Maria fora proibida pela família do defunto de comparecer ao velório de seu amante. “-Onde já se viu”, disse a mãe de Joaquim, “uma rameira como aquela! Pois ela que não se atreva a botar a cara por aqui, que a gente manda dá uma surra de cipó de urtiga naquela égua!” “-Dizem que tá amojada, e que o menino é nosso neto, mulher!”, disse o velho coronel, senhor de terras e empreendedor falido do mercado. No que a velha responde: “-E quem é que garante que o fie é dele? Uma puta que já foi de outro home! Pois ela que se atreva a aparecer por aqui, que vai ver o que é bom pra tosse!”
            A lua estava alta no céu. Era meia-noite. De dentro das torceras de cana da fábrica de cachaça e rapadura do coronel Marinho, entre o Quadro da Igrejinha e a Rua da Goela, Maria pôde acompanhar de longe o funeral de seu amado. As pessoas riam, conversavam nas calçadas, e o vento passou, sorrateiro e frio congelando o sangue e a alma dos supersticiosos que ali estavam. Seria Joaquim, de dentro da noite, a murmurar para sua amante que ele morrera infeliz? Maria ouvia no vento a voz de Joaquim: “-O que será de nossa criança, Maria? O que será de seu futuro? Se for mulher será uma renegada, como você? E se for menino, teria melhor sorte? Tornar-se-á um alcoólatra, um boia-fria ou um João-ninguém qualquer a gastar a vida no cabo da enxada?! “-Vou tomar um abortivo”, disse Maria, “-pra que nossa criança nasça morta, Joaquim! É melhor nascer morta do que vir pra essa vida fudida!”
E o vento passou por ela, arrastando a terra e o pó, adentrando as alcovas, assustando os homens e as mulheres no velório – era a alma do finado?-, como a lhe pedir perdão?: “- Perdão Maria!” De dentro da carcaça sem vida estendida no caixão, Joaquim, se pudesse falar, provavelmente diria a seus pais para protegerem seu filho no ventre da jovem; mas Maria vai tomar um abortivo, pois é melhor nascer morto do que vir para esse mundo fudido!
Já é meia-noite, e a lua está alta no céu. Maria vai tomar um abortivo! O vento é um presságio. O que fazer? A quem recorrer? Como alimentar a si mesma e a uma criança sem trabalho, sem renda, sem dignidade numa cidade impiedosa, como esta? Como silenciar a dor da morte do amado? A cada dia a barriga crescia um pouco mais, e os parentes da criança em nada queriam ajudá-la. “É filho de uma puta, quem é que sabe quem é o pai?”, dizia a avó. Maria sabia. Sabia perfeitamente: era Joaquim Martins, comerciante do mercado, fazendeiro falido, pai de dois filhos, marido de outra mulher, pois ela não conhecera outro homem além dele e do desgraçado que a violentou no sítio de seu pai adotivo, no bairro da Lagoa, meses atrás.
            Uma chuva fina caia do céu, lavando a cidade, e espalhando um odor de inverno e de tristeza. A chuva parecia um choro. Era um choro de um milhão de anjos? Ou uma prova cabal da indiferença de Deus, diante da dor e do sofrimento do mundo? As lágrimas da chuva se misturavam às lágrimas dos homens e mulheres no funeral. Maria não sabia como seria o seu amanhã (não possuía um só tostão no bolso que lhe bastasse para comprar uma xícara de café ao raiar do dia). Mas sabia perfeitamente que seu filho (que também era filho do defunto ali estirado) não teria futuro e que era melhor nascer morto do que vir pra esta vida fudida! E o sono e o cansaço lhe encontraram debaixo do alpendre da casa de farinha abandonada do coronel Marinho. Ela transcendeu tempo e espaço. Adormeceu ao relento. De repente viu a si mesma, numa ciranda de roda, ao lado de seus irmãos e irmãs ricos do Ipu (era a família Araújo, fausta e feliz). Viu uma mesa farta, com pães, carne e ovos sendo servido por criados vestindo roupas humildes. Viu seu pai na cabeceira da mesa se servindo de um prato suculento, e ao fundo da sala, viu sua mãe, Julia Alves, arrumando a cabeleira esvoaçante com um pente de osso de tartaruga. Mas aquela não era a mãe que Maria conhecia. Em seu sonho Julia era uma megera terrível, possuía uma língua disforme, como a língua grossa e roxa de um enforcado, e os seus olhos eram amarelos e malignos, como os olhos de uma gata raivosa no cio. E de sua garganta hedionda saia um som gutural, como se viesse das profundezas do inferno.
No sonho viu Joaquim, seu amante, assentado ao lado de seu pai, José Alves, de sua mãe Júlia, de seus irmãos e do solteirão Antonio, seu pai adotivo. Todos se banqueteavam calmamente numa mesa de jantar posta à sombra de uma grande mangueira frondosa, que estava assentada sobre um tripé de pedras onde uma grande panela de ferro pendia numa corrente longa e suja. E era dela que vinha a comida que era servida aos comensais. Todos comiam e bebiam tranquilamente um prato e os licores servidos pelas mãos da mãe monstruosa. Maria viu a si mesma menina, sendo chamada pela mãe para assentar-se à mesa com o resto da família. Trouxeram-lhe o prato principal, “-Coma, minha filhinha, coma!”, disse-lhe sua mãe. Maria, com uma colher de madeira, mexeu no caldo que estava na superfície da panela de ferro, para saborear as porções do fundo. Ao movimento da colher, a pasta que estava submersa veio à superfície: era a face horrorosa de uma criança natimorta cosida e servida aos comensais do banquete por sua mãe monstruosa. Julia Alves, a besta-fera do abismo, disse-lhe com sua voz gutural e terrivelmente sádica (voz saída do abismo!): “-Coma, minha filhinha, coma!” e rio um riso frouxo e amedrontador (era o cadáver do bebê, que ela, Maria, carregava no ventre que estava sendo servido na mesa? Ou era ela mesma, abandonada pela mãe cretina ao nascer? Ela não sabia).
A voz de sua mãe ecoava em sua imaginação: “-Coma, minha filhinha, coma”, e se transformava na gargalhada hedionda de um gárgula: “Há-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra!!!!”. Os sonhos são coisas sem nexo, mas não deixam de ter um filete de realidade; uma luz perdida de razão em meio ao deserto louco e nebuloso do inconsciente cru, sem barreiras morais ou eufemismos éticos. Um limbo onde a consciência humana vem prestar contas com o inconsciente, segundo Freud. A voz terrível de sua mãe repetia a mesma sentença “-Coma, minha filhinha, coma”, e ela sabia que era uma voz saída do abismo. Ou era aquele sonho um presságio do fim - o fim do mundo estava próximo, ela tinha certeza disso - era a lembrança da vida fudida, do cadáver de Joaquim, ou do vento e da chuva lá fora?). E a noite caia mais tenebrosa e impenetrável do que antes, como se fosse uma neblina espessa, negra quase palpável ao tato dos homens e das mulheres da sentinela de Joaquim, que lembravam ratos num labirinto. Era uma noite esparsa, pavorosa, de dores, de gemidos, de almas penadas, de trovoadas e de tristezas mil.  


Continua...

sábado, 3 de janeiro de 2015

Para ler antes de morrer - Gente pobre

DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Gente pobre. São Paulo: Editora 34, 2009.
Iniciarei hoje uma nova seção dedicada exclusivamente à literatura, uma grande paixão que tenho. Na verdade, é uma forma de escrever para mim mesmo, uma necessidade de discutir os bons livros que leio, já que tenho poucos amigos dispostos a conversar abertamente sobre livros e autores, coisas “chatas e que não trazem diversão alguma”. Escrever é uma forma de me manter interessado nos assuntos que fortalecem o meu espírito, e vivo para o mundo.
Embora escreva para me sentir bem, para mim mesmo, a partir de hoje compartilharei as minhas resenhas, um resumo dos meus escritos – já que o espaço impõe isso - com os possíveis leitores interessados no assunto.

Dostoiévski I

Há autores e livros que, para os amantes da leitura, devem ser lidos antes do juízo final, antes de morrer. Dostoiévski é uma dessas mentes brilhantes que dispensa qualquer elogio meu. Leitura obrigatória para aqueles que amam a boa literatura, como é o meu caso, por exemplo.

O grande escritor russo é muito lembrado por suas obras da maturidade artística, aquelas escritas na segunda metade do século XIX, após o seu exílio forçado na Sibéria, como Crime e Castigo e Os irmãos Karamázov. Hoje, no entanto, gostaria de falar de seu romance (ou “novela”) de estreia, um anão se comparado com suas obras-primas, mas que já revela alguns traços característicos de boa parte de sua produção posterior e do universo literário russo dos anos 1840, momento em que o romantismo, que soprava da Europa, recebia críticas contundentes dos realistas russos, como Bielínski. 

Gente Pobre
            Gente Pobre é o romance de estreia de Dostoievski, publicado em 1846, quando ele ainda tinha 25 anos. Como muitos críticos evidenciaram, é composto na forma epistolar entre dois personagens (troca de cartas). De um lado, temos Makar Diervúchkin, um escrevente de meia-idade que trabalha numa repartição pública de São Petersburgo, e, de outro, uma jovem de nome Várvara. Esta é parenta distante do funcionário público que a protege após ficar órfã de pai e mãe. Diervúchkin apresenta-se como timidamente apaixonado por Várvara, mas a diferença de idade e seu pudor o impede de externar o seu amor e propor uma união.
            Os personagens centrais são apresentados como dois espíritos delicados, solitários e frágeis que fazem de sua relação um porto seguro e que os permitem suportar os infortúnios do “destino”. Diervúchkin acaba reduzido à miséria por causa de sua amada, a quem cobre de presentes, recorrendo à empréstimos. No decorrer do romance, passa por angustiantes humilhações em decorrência de sua miséria, tanto no trabalho, entre seus colegas, quanto na pensão onde mora, e que procura esconder de todos, menos de Várvara, sua confidente. O que mais lhe machuca não é a condição de miséria, mas o orgulho ferido. No fim, o sedutor de Várvara, um homem rico do interior, propõe-lhe casamento. A situação desesperadora de Várvara e a oportunidade de melhorar de vida acaba levando-a a aceitar o pedido, para o desespero de seu protetor.
            Segundo Joseph Frank[1], o mais impressionante no romance é a capacidade de Dostoievski utilizar a forma epistolar para revelar os pensamentos ocultos de seus personagens. Para ele, o que se lê nas entrelinhas das cartas, o não-dito, é mais importante do que o que está na superfície. “A tensão entre o dito e o não-dito é que nos dá acesso à consciência dos personagens”. Há, para Frank, de um lado, uma luta entre o amor de Dievúchkin por Várvara e a consciência da impossibilidade e, de outro, uma batalha para preservar o seu amor-próprio, seu senso de dignidade humana, em meio à penúria e as humilhações que sofre.
Dá mesma forma, há também em Várvara uma tensão latente entre o desejo de respeitar os sentimentos de Dievúchkin e à impossibilidade de corresponder às suas tímidas investidas amorosas, o medo de vê-lo empobrecer por sua causa e, ao mesmo tempo, a alegria infantil com os presentes que recebe de seu protetor.
No final do livro, anota Joseph Frank, quando recorre a Dievúchkin para mandar recados referentes ao seu enxoval, “não se pode deixar de observar um comportamento um tanto leviano e insensível em Várvara”. [2]
O livro é apresentado por alguns críticos como romance social, isto é, que dá enlevo a situação de miséria e penúria da população pobre da Rússia naquele momento. Dostoievski começa a escrever o seu primeiro romance no momento em que se desenvolvia na Rússia uma tendência literária que se fortalecia com o nome de Escola Natural, que buscava apresentar de forma realista a situação do povo russo, mais voltada para as questões sociais, as estarrecedoras injustiças em que viviam as populações oprimidas da cidade e do campo. Desta forma, segundo Fátima Bianchi[3], Dostoievski foi seduzido por essa literatura, ao escrever a sua primeira obra. No entanto, não se contentou com as soluções a que se propuseram os escritores dessa escola.
Em primeiro lugar, o personagem central, Dievúchkin, vive uma permanente tensão entre as humilhações sofridas, resultantes de sua condição de penúria, e a defesa de sua dignidade humana, apontada para a defesa daquilo que parece ser a grande virtude da gente pobre, a “dignidade”, o valor humano.
No centro da obra, portanto, está o tema da dignidade humana dos mais pobres por meio da imagem interior de um homem à beira da miséria. Tenta demonstrar, creio, que nem uma situação degradante como a vivida por Dievúchkin é capaz de destruir o seu orgulho, sua honestidade, seus valores. A miséria exterior não é capaz de manchar o seu coração e suas convicções. A luta contra as forças exteriores é apresentada como forma de demonstrar a autoafirmação da dignidade do personagem central, sua sensibilidade e riqueza espiritual.
Embora o autor apresente a pobreza e a miséria que assolavam grande parte da população russa, sobretudo os funcionários públicos e as populações urbanas e rurais, estas são apenas a superfície de sua obra. O que importa é redimir essa população, isto é, mostrar a sua essência, sua humanidade e a grandeza de suas ações e sentimentos profundos, apenas apreendido nos detalhes, nos pequenos gestos, nas atitudes mais triviais, banais.
O tema da dignidade não aparece apenas no personagem de Dievúchkin, mas também em dois outros: o velho Pokróvski, pai do estudante, amigo, professor e primeira paixão de Várvara em sua adolescência, descrito em seu diário, enviado a Dievúchkin; e Gorchkov, escriturário, recém chegado da província para limpar seu nome de uma causação de desfalque na repartição em que trabalhou. No primeiro caso, o velho Pokróvski faz esforços desmedidos para preservar sua dignidade num mundo que o trata com desdém e superioridade. Com a morte do filho, tenta salvar os seus livros, símbolos do mundo glorioso da cultura e da probidade moral. No segundo caso, Gorchkov, imagem arquetípica da miséria, apesar de sua situação deplorável luta com todas as forças para provar a sua honestidade, limpar o nome de sua família e manter sua própria honra. Parecia manter-se vivo apenas para isso. Não à toa morre no mesmo dia em que sua dignidade havia sido devolvida.
Para Joseph Frank, a narrativa dostoievskiana constrói “a imagem da mesma luta inútil para manter-se humanamente à tona em face de circunstâncias desesperadoras; os mesmo tesouros de sensibilidade, de afetividade e refinamento moral que aparecem nos lugares mais insólitos – toda parte, pobreza e humilhação, tudo isso em meio à vida dos bairros pobres a apinhados de São Petersburgo, com seus odores fétidos e sua habitações cheias de lixo”. [4] 

Pobre Gente combinou esses méritos pictóricos do melhor dos ensaios fisiológicos com uma nova e fiel compreensão dos tormentos de uma sensibilidade reprimida (...). Essa ‘maneira diferente de olhar esse mundo de Deus’, o mundo visto de baixo, e não de cima, constitui a mais importante inovação de Dostoievski (...). O ‘humanismo’ que Belínski acolheu com entusiasmo na obra de Dostoievski consiste precisamente em ‘ter revelado tudo que há de admirável, nobre e sagrado no mais limitado dos seres humanos’ Dessa maneira, as circunstâncias críticas e a psicologia dos personagens de Pobre gente condenam por si mesmas o orgulho e o preconceito de classe e denunciam a pretensa superioridade dos mais ricos em relação aos mais pobres”. [5] 

Há nos personagens de Dostoievski uma tensão entre os aspectos materiais e espirituais, demonstrando que estes são tão ou mais importantes do que aqueles. Para os infelizes, aqueles que estão na penúria, as questões espirituais são importantes para minorar os seus tristes destinos. Há ainda um outro aspecto presente nos romances dostoievskianos e que diz respeitos à resignação de seus personagens em aceitar a sua condição como fruto do destino. Personagens como Raskólnikov, de Crime e Castigo, e Diervúchkin, nunca reclamam sinceramente de seus infortúnios, revelando uma resignação estoica revoltante.

Até a próxima...



[1] FRANK, Joseph. Dostoiévski: As sementes da revolta, 1821-1849. 2.ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008, p. 188.
[2] Idem, p. 189.
[3] BIANCHI, Fátima. Posfácio. In:  DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Gente pobre. São Paulo: Editora 34, 2009.

[4] FRANK, Joseph, op. Cit, p. 192.
[5] Idem, p. 192-193.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Imprensa e cidade: o jornalismo no início do século XX em Ipu-Ce. Parte III

Eusébio de Sousa. Acervo: Prof. Melo
Entre 1904 e 1913 deu-se um interregno na imprensa ipuense e nenhum jornal foi impresso. Somente em março de 1913 surgia um novo semanário com características novas. Trata-se da Gazeta do Sertão, fundado e dirigido pelo, então, estudante de direito, Leonardo Mota, que veio para o Ipu por intermédio de seu irmão, Aureliano Mota, pároco local, para dirigir o Instituto José de Alencar. Colaboraram em suas páginas Abílio Martins, líder político e bacharel em direito, com sua verve poética, sob o pseudônimo Kiamil, o padre Aureliano Mota, Dr. Ubaldino Maciel Souto Maior, futuro juiz de direito da Comarca, Eusébio Neri de Sousa, então juiz de direito, o francês, professor e agrimensor, Leonard Martin, Thomaz de Aquino Correia e José Oswaldo de Araújo, este advogado e filho do Cel. José Lourenço de Araújo. Segundo Oswaldo Araújo, a “Gazeta do Sertão marcou uma brilhante fase jornalística no interior do Estado pelo prestígio e fascínio de sua orientação”[1]. Para Eusébio de Sousa, “o período em que se publicou a Gazeta foi o de maior efferverscencia nas lettras da terra pelo abundante contigente, que ella offereceu para a historia” [2].
Embora em nossa pesquisa não tenhamos encontrado nenhum exemplar dos jornais publicados em Ipu antes da Gazeta do Sertão, para, assim, se fazer uma comparação entre eles, no entanto, a qualidade do papel, da impressão gráfica e da composição, deste último, salta aos olhos e dificilmente outro jornal desse porte teria sido impresso anteriormente. Além disso, o uso de reclames e propagandas bem elaboradas eram novidades para época. Sempre a última página do periódico era reservada para as propagandas. Embora a técnica tipográfica usada não permitisse incluir gravuras ou imagens ao lado dos textos, se fez uso delas para os anúncios. A questão é que o comércio local e regional, em profusão, descobriu a importância da propaganda como forma de expandir o consumo de seus produtos. Desde então, como mostra Heloisa Faria Cruz, as novas demandas colocadas pelo mundo das mercadorias passaram a moldar os conteúdos e as formas de dizer da imprensa. Era uma outra linguagem[3]. Ao lado disso, o uso de reclames e dos anúncios mais bem elaborados nas páginas do periodismo, em nosso caso, dos jornais, se tornou um componente importante para a manutenção e expansão da pequena imprensa local. O Correio do Norte, filho da Gazeta e que, portanto, veio depois dela, herdou este componente importante. Podemos dizer que o Correio nada mais foi do que o jornal Gazeta com algumas modificações. Ambos foram usados pelos mesmos homens, em quase sua totalidade, e com linhas editoriais similares, inclusive em seu formato técnico.
A Gazeta do Sertão era impressa em Sobral, na tipografia do jornal Patria, de propriedade de Carlos Rocha, em papel folio com quatro páginas. Eventualmente se publicava a edição com 6 páginas, mas essa não foi a regra. A linha editorial seguia, quase sempre, um padrão. Dividia o espaço da primeira página um artigo geralmente longo, que se chamava na época, “artigo de fundo”, discutindo as questões pertinentes à política nacional - com destaque para notícias do parlamento, para o processo de sucessão presidencial e as manobras políticas dos partidos – uma poesia de um escritor cearense consagrado ou de um jovem iniciante neste ramo, e uma crônica leve, com uma pitada de inteligente humor, escrita por Abílio Martins[4].
Vejamos o que diz Francisco Magalhães Martins sobre Abílio Martins, reportando-se àquele que escrevia na Gazeta do Sertão: “Abílio Martins possuía transbordante verve, inesgotável veia satírica que extravasava em geniais versos soltos”. Sobre os demais que “mancharam” as páginas daquele periódico em 1913, diz ainda o citado autor:

 Souto Maior, magistrado ilustre, era um causeur admirável que empolgava os auditórios com as palavras mágicas, fluentes e imaginosas, a ponto de ser considerado por Leota como o homem de a melhor palestra que conhecia; Tomáz Correia, venerando farmacêutico, músico, poeta, amigo das boas cousas e da boa prosa; gostava de bate-papos em sua casa[5].

Também Eusébio de Sousa deixou testemunho interessante sobre aqueles que escreviam na Gazeta do Sertão:

Hebdomandariamente as suas columnas trasiam um attestado exhuberante do fervet opu intellectual. Suas páginas vinham sempre prenhes de escriptas de Abilio Martins (Kiamil), como elle assignava as suas chronicas, Souto Maior, Apollonio de Barros [juiz de direito de São Benedito], Leo Martin e outros, inclusive a parte insulsa do autor destas linhas[6].



Continua...


[1] Id. Ibidem, p. 163.
[2] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 228.
[3] CRUZ, Heloisa de Faria.  São Paulo em tinta e papel. periodismo e vida urbana (1890-1915). São Paulo: EDUC: APESP; Arquivo do Estado de São Paulo; Imprensa Oficial de São Paulo, 2000, p. 151.
[4] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 228.
[5] MARTINS, Francisco Magalhães. Ídolos, Heróis e Amigos. Op. cit., p. 53-54.
[6] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 228.