sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Para ler antes de morrer - Em busca do tempo perdido I

         


Comecei a ler o longo romance Em busca do tempo perdido em 2010, quando ingressei no doutorado. Sua leitura era obrigatória numa das cadeiras que cursei. Na ocasião, só havia me debruçado sobre o primeiro volume, No caminho de Swann. A leitura de Proust me causou uma ampla sensação. Lembro-me que foi tão deliciosa, tão agradável e enigmática, que perdia a noção do tempo, esquecia do mundo a minha volta. Li-o na biblioteca da UFPE, em Recife. Entrava lá depois do almoço, com o sol a pino, e só saia quando os seus funcionários me “expulsavam”, na escuridão da noite. Creio que em três dias consumi aquele calhamaço. Prometi, para mim mesmo, num futuro próximo, ler os outros seis volumes. Isso só ocorreu em 2013, quando já estava com a minha tese pronta. O fiz de uma tirada só e, ao final, escrevi uma extensa resenha sobre a obra, cujo resumo, em sete partes, compartilho com meus leitores. Quem estiver disposto a ler até o final, irá descobrir por que considero Em busca do tempo perdido um de meus romances preferidos.
No caminho de Swann inaugurou uma das obras mais importantes da literatura mundial, embora ainda pouco lida, precisamente porque poucos se interessam em ler o romance quando descobre que, no Brasil, foi publicado em vultosos sete volumes — mais de três mil páginas, na edição da editora Globo.
         Ao longo dos sete volumes, o autor apresenta reflexões sobre o amor, a arte, a passagem do tempo, a homossexualidade, dentre outros temas.
A partir de hoje publicarei sete resenhas dedicadas a cada um dos romances que formam a narrativa de Em busca do tempo perdido.

Marcel Proust. Em busca do Tempo Perdido. Volume 1. No caminho de Swann
Em busca do tempo perdido, romance com mais de três mil páginas, formado por sete volumes, de Marcel Proust, é considerado uma das obras primas da literatura mundial. O primeiro volume, No caminho de Swann, é uma espécie de abertura da obra, onde são apresentados os principais personagens, o narrador, cujo nome não sabemos, uma vez que apresenta apenas a sua família e o círculo de pessoas que frequentam a sua casa. O descobriremos, mais adiante, como Marcel, um jovem sensível e sofisticado.
O narrador ou o herói de Proust, neste primeiro volume, relata sua infância, segundo suas lembranças: as férias em casa de seus avôs em Combray, cidade fictícia, seus passeios de verão; a visita de um conhecido da família, personagem central da trama, que impossibilita sua mãe de dar-lhe um beijo de boa noite, momento mágico e de felicidade para o narrador, o romance de Swann com Odette, uma cortesã, que aparece, aos olhos de outros personagens, no segundo volume, como de um passado de prostituição (uma cocote), e seus momentos de alegria e paixão por Gilberte, filha do casal Swann. Tais lembranças, como que congeladas, presas, são liberadas quando num final de tarde, durante o inverno, ao retornar de um passeio, desanimado e com frio, aceita, contra os seus hábitos, uma xícara de chá com um bolinho seco, de nome Madeleine, que sua mãe propõe. Ao colocar na boca um pouco de chá, onde molhou com um pedaço de Madeleine, sente de imediato um sobressalto, “um prazer delicioso” invadindo-o, ficando meio que atônico, extasiado, feliz, imortal. Ao final de uma busca espirituosa e cheia de felicidades, reconhece finalmente a lembrança trazida pelo gosto do chá com migalha de Madeleine, verdadeira experiência sensorial análoga a que tinha quando sua tia-avó oferecia as mesmas iguarias nas manhãs de domingo antes da missa, em Combray, onde viveu sua infância.
Todas as lembranças, antes enterradas ou quase sepultadas pelo esquecimento, lhe descortina de súbito uma outra possibilidade de acesso ao, até então, esquecido passado. É a partir daí que se desenrola todo o romance, uma narrativa do passado evocando as lembranças do narrador, uma busca incessante pelo tempo perdido, evocado num ato aparentemente banal. O gosto do chá e da Madeleine transporta o herói de Proust para um tempo desconhecido, mas apreendido apenas no momento da narrativa, como se a sua identidade móvel, e de seus personagens, fosse construída e incessantemente modificada conforme o transcorrer do tempo, esse ser invisível, na maioria das vezes imperceptível, mas que tem um papel central, creio, no romance proustiano.
O personagem que narra encontra e revive todo um mundo, ou novo mundo, aparentemente esquecido, evocado por memória involuntária, no gosto de um pedaço de Madeleine com chá. Ao contrário da memória voluntaria, a involuntária, como o acaso, permite relembrar o passado com suas cores vivas, seu charme, com alegria. Após sentir o gosto daquela iguaria, todo um mundo formado por jardins, paisagens, momentos, seres esquecidos se configuram ou ganham contornos aos seus olhos, levando o herói de Proust a narrá-los, bem ao seu estilo, em pormenores. Ler Proust é entrar em contato, como diz a nota 196, na página 164, com uma “psicologia do espaço”. É aprender a dar voltas em torno de temas, lugares e seus personagens. Ora eles aparecem como pano de fundo, ora em destaque.
Como mostra Jeanne-Marie Gangnebin, o romance de Proust pode ser lido como um texto que se inscreve na tradição, tanto filosófica quanto literária, da autorreflexão do sujeito, em sua reflexão sobre si, mais especificamente, e sua atividade de fala. p. 542
Parece que a beleza do texto: a construção narrativa, longas descrições, elegante escrita e temas, são mais importantes do que o próprio enredo. Este, creio, é de somenos importância: o que importa, parece, é se perder, divagar, em longas descrições como se fossem resultado das suas lembranças do passado, uma forma de reencontrá-lo, revivê-lo, retomar o tempo perdido ou de imaginá-lo, ressignificando-o.
Os personagens de Proust não são os mesmos do início ao fim do romance e nem enxergam o mundo sempre da mesma forma. Eles mudam ao longo do tempo, precisamente porque suas relações mudam. Para Swann, quando está apaixonada por Odette, por exemplo, o mundo lhe parece um lugar bem melhor, mas quando passa a desconfiar da infidelidade dela, o enxerga com outros olhos, e passa a encará-lo como um lugar não tão bom assim para se viver. Parece que há, pelo menos no primeiro volume, dois temas ou subtemas: as mudanças dos personagens ao longo do tempo e a mudança de percepção do mundo segundo o estado de espírito das personagens. E há, creio, pelo menos dois planos: a história do herói, em sua infância, e a história do amor de Swann por Odette.
Creio que para Proust, assim como para santo Agostinho, o tempo não é algo fixo, mas percebido, sentido, vivido. Da mesma forma, o espaço, para Proust, não é físico, geográfico, mas carregados de sentidos, simbolismo, psicologia e sentimento: “Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior felicidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saúde de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenida são fugitivos, infelizmente, como os anos”. 508

Continua...



domingo, 8 de fevereiro de 2015

Para ler antes de morrer - O livro negro


Conheci Orhan Pamuk em 2010, quando li seu romance “O livro negro”. A leitura dessa obra me causou uma profunda impressão. Lembro-me que fiquei extasiado, quase em choque, com exagero, é claro, tal foi a impressão que me causou. Mais tarde, creio que em 2013, reli-o e escrevi uma resenha sobre esta instigante obra. Apresento abaixo, aos meus ínfimos leitores, um grande resumo do artigo que produzi. Para os amantes da boa leitura, neste mundo carregado de futilidades, frivolidades, sugiro que não morram sem antes lê-lo.
Hoje, Orhan Pamuk é um dos meus autores contemporâneos preferidos. Principal romancista turco, reconhecido mundialmente, foi premiado, em 2006, com o prêmio nobel de literatura. Autor de vários romances, dentre eles “O Livro negro”, tem um estilo de escrita que muito me agrada, com suas longas descrições de locais e sensações, da velha Istambul, que me lembram o estilo de Marcel Proust na sua obra monumental “Em busca do tempo perdido”. 


O livro negro

O Livro negro é um romance do escritor turco Orhan Pamuk. A trama gira em torno da busca do jovem personagem Galip, um advogado casado com sua prima, para encontrar a sua esposa: Rüya, que desaparece de casa sem motivo deixando apenas um ambíguo bilhete de despedida. Todo o romance se desenrola com a busca desesperada de Galip, transitando pelas ruas e espaços da cidade de Istambul, para descobrir o paradeiro da esposa.
Ao longo do romance, a busca de Galip é dividida com às crônicas diárias de um famoso jornalista, Celâl Salik, meio-irmão de Rüya, publicadas diariamente pelo jornal Milliyet. O cronista que vive se escondendo, para evitar ser localizado, escreve sobre temas os mais vaiados, que vão desde aqueles que falam da política, Gângsteres, memórias pessoais, poetas, religião e o hurufismo, uma seita antiga que acreditava ser possível encontrar a essência de nossas vidas em letras escritas por Alá em nossos rostos, passíveis de serem decifradas.
A trama deixa implícita que Ruya estaria com seu meio-irmão e que nas crônicas escritas por Celâl apareciam pistas e indícios que permitiriam a Galip descobrir onde eles estavam escondidos. Após descobrir o apartamento onde supostamente o cronista se escondia, se instala ali e passa obsessivamente a ler suas crônicas e anotações. As pistas que acredita encontrar nestes escritos o levam aos mais distantes e instigantes recantos da velha Istambul, talvez o personagem principal, não declarado do romance. Pelas ruas da capital da Turquia, se depara com um mundo aparentemente cheio de enigmas, armadilhas, surpresas e locais que se parecem muito mais saídos das Mil e uma noites, frutos da imaginação do autor, do que reais. Esses enigmas se encaixam na narrativa, levando de uma história a outra, num crescendo e num vai e vem instigante.
Em algum momento do romance, o infeliz advogado Galip, sem conseguir solucionar o enigma, chega à conclusão de que para encontrar sua esposa, precisa compreender como Celâl pensa. Conforme o romance flui, assim como as leituras das cônicas de Celal por Galip, este cada vez mais vai se tornando parecido com o cronista a ponto de acreditar ter se transformado em outra pessoa. Em resumo, para descobrir o paradeiro da esposa e de seu meio-irmão compreende que teria de se transformar em outra pessoa. É assim que, aproveitando-se do fato de que o primo também desapareceu, ele passa a escrever suas crônicas usando os seus mesmos artifícios literários e o estilo. Desta forma, Galip assume a própria identidade de Celâl e vive um conflito entre ser ele mesmo ou tornar-se outra pessoa. Por outro lado, assumir a identidade de seu primo deixa-o vulnerável aos muitos inimigos do jornalista, capazes de cometer assassinato.

O sentido do Romance

O livro negro, creio, foi um artifício usado pelo autor para discutir pelo menos duas coisas. Em primeiro lugar, a perda de identidade do povo turco, simbolicamente representada pela perda de memória do cronista Celâl. Em segundo lugar, a ocidentalização crescente da Turquia a partir da crise do Império Otomano, simbolicamente representada pela necessidade de Galip de tornar-se outra pessoa.
Na verdade, o romance foi uma forma, creio, que o autor encontrou para discutir a questões que o inquietam. Desta forma, Pamuk é ao mesmo tempo o cronista Celâl, permitindo-o discutir a perda da memória ou das raízes do povo turco, sua vontade de querer ser outra pessoa e não ele mesmo, vivendo entre a perda de suas raízes, a fantasias de ser ocidental, e Galip, cuja  busca é pelas raízes perdidas de seu povo e não por sua esposa. Transformando-se em Galip, esse artifício permite ao autor discutir a ocidentalização da Turquia e a frágil identidade de seu povo, que oscila entre duas culturas: a cultura oriental, em decadência, e a cultura ocidental, em ascensão, marca da Turquia moderna.
As vozes de Celâl e de Galip são as próprias vozes de Orhan Pamuk, que só consegue ser ele mesmo buscando ser outra pessoa. Só encontra a felicidade quando se afasta do muno real e conta/escreve histórias, cria personagens, se utiliza de outras histórias e autores para construir novas histórias, como se a literatura permitisse a ele enveredar por um labirinto complexo em busca de sua saída, tal como se mostra o livro em questão.
Celâl e Galip são o duplo do autor. Ele se utiliza dos personagens para falar de si mesmo, da literatura e para falar da cidade. Como no livro Istambul: memória e cidade, Pamuk fala de uma coisa apenas para chegar a outra coisa. Quando fala de si é para falar da cidade e quando fala da cidade é para falar de si, como se ele não vivesse sem sua memória, que se confunde com a cidade ou como se a cidade não pudesse viver sem ele.
Em “O livro negro”, Pamuk parece brincar com o leitor, construindo sentidos ocultos em sua escrita como que tentando levá-lo a descobrir um significado implícito capaz de antever o desfecho da história. Na verdade, o que está por trás do mistério é o próprio autor. A discussão sobre os manequins permite ao romancista refletir sobre a ocidentalização, momento em que os turcos não queriam mais ser turcos, querendo parecer-se com outras pessoas, contribuído para que perdessem a sua própria essência ou as letras ocultas em seus rostos, que só poderiam ser lidas pela cultura: seus jeitos de ser. Os manequins preservados são o próprio passado relegado para os subterrâneos. São a própria essência perdida dos turcos. Os manequins, finalmente, representam tudo aquilo que os turcos não mais queriam ser: eles mesmos, e, por isso, ninguém mais se interessava por eles. Com os manequins relegados ao esquecimento, a essência de Istambul está em seu subterrâneo e à medida que se aproxima da superfície, que dizer, do ocidente, mais se esquece ou se perde a sua essência. Quanto mais a cidade se ocidentaliza, mais os turcos perdem sua identidade, relegada apenas ao passado e à memória, simbolicamente representadas pelos manequins que guardam os gestos e rosto dos verdadeiros turcos.
Por que a ocidentalização, a vontade de ser outra pessoa, seduzia tanto? Porque ser outra pessoa fazia esquecer a sua essência, esquecer sua própria tristeza, da derrota e inquietações de seu mundo. Fazia esquecer todas as lembranças e toda a melancolia. Voltar-se para o ocidente era perder a memória, a melancolia que é a própria essência da cidade, a derrota, a pobreza. Isso é representado pelo episódio em que Galip, em sua busca pelas ruas da cidade, observa as pessoas que saiam de um cinema: “(...) o que se lia em todos aqueles rostos era a serenidade de quem consegue esquecer sua própria tristeza mergulhando totalmente numa história. Todas aquelas pessoas encontravam-se imersas no miolo da história em que se tinham instalado com tanta vontade. O espírito delas, havia muito esgotado pelas derrotas e inquietações, agora tornara a se preencher com uma história complexa, que as fazia esquecer todas as lembranças e toda a melancolia”. P. 258
A discussão sobre o olho invisível que nos olha parece representar a própria essência ou a melancolia da Istambul ou dos bairros secundários, que permite aos turcos perceber que eles não conseguem ser eles mesmos. Transitar pelos bairros turcos, para Pamuk, permite a população perceber sua essência perdida ou em transformação. Permite, finalmente, o contraste entre o homem que se ocidentaliza e a cultura oriental, que parece lutar para permanecer a mesma. Quando Celâl, após escrever sua crônica, resolve perambular, como um flaneur pelas ruas da velha Istambul e sente falta de alguma coisa, é a sua própria essência que lhe escapa. É por isso que não consegue ser ele mesmo e nem o outro. Aqui a discussão é existencialista: como ser eu mesmo ou tornar-se outro. Ninguém consegue ser ele mesmo e nem outro, a não ser como literato. É a literatura que permite ao escritor ser ele mesmo e ser outro ao mesmo tempo. Parece ser isso que Pamuk quer nos dizer...
Boa leitura...