terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A Revolução dos Bichos

Fazia tempo que a Revolução dos Bichos estava na minha lista de livros a serem lidos. Semana passada chegou a vez dele. Como fui capaz de esperar tanto tempo? É inadmissível, para mim, que ainda não o tivesse lido. Mas a verdade é que outras obras estavam na sua frente e demorou um pouco até que chegasse nele. O li em dois dias, tão instigante foi a leitura. Como já disse, a literatura é uma grande paixão que cultivo e esse pequeno livro já entrou para o hall daquelas obras que se deve ler antes de morrer.
A linguagem adotada é deliciosa, envolvente e prende a atenção. Apesar de ser uma fábula, apresenta uma analogia gritante, às vezes irritante, no bom sentido, com a realidade histórica.
Vou adotá-lo como leitura obrigatória em alguns cursos que ministro, quando for discutir o totalitarismo stalinista na Rússia.

Grande obra

A Revolução dos Bichos, livro de George Orwell, pseudônimo para Eric Arthur Blair, foi publicado em 1945, após ter sido recusado por vários editores. É uma espécie de denúncia do mito soviético, com base numa história de fácil compreensão, em que os bichos, personagens centrais do romance, se revoltam contra a exploração dos humanos e buscam construir uma sociedade igualitária, mas acabam caindo numa nova escravidão ainda mais impiedosa nas mãos de seus semelhantes, os dirigentes dessa nova sociedade, personificados nos porcos, uma espécie de intelligentsia. 
O expediente usado pelo autor, para denunciar os rumos da Revolução Russa, é o das fábulas tradicionais, isto é, o uso de animais para representar os homens.
A Revolução dos Bichos é, portanto, uma sátira feroz da ditadura adotada por Stalin na Rússia socialista, uma denúncia aos rumos que tomaram a R  evolução naquele país. A ambição do autor era analisar a teoria de Marx do ponto de vista dos animais.
O enredo é construído com base numa analogia quase explicita entre a Granja dos Bichos, antes da Revolução era chamada Granja do Solar, local onde os fatos se desenrolam, e a Rússia socialista, sob a liderança de Stalin. Quem conhece um pouco da história do socialismo soviético identifica, claramente, os fatos que se passam na Granja dos Bichos.
Os bichos vivem na opressiva fazenda do sr. Jones, no momento em que são convidados para ouvir o último discurso do velho porco, animal respeitado por todos ali. Trata-se do velho Major. Este analisa a vida de provação e sacrifício dos animais, a forma como são explorados pelos humanos e como eles, que trabalham e produzem, não ficam com os seus frutos. Estes são apropriados pelos humanos, que os exploraram com o objetivo de produzirem sua riqueza.
No final, pede que todos os animais se unam e façam uma revolução com o objetivo de derrubar seus exploradores e construírem uma sociedade baseada na ajuda mútua e na coletivização da propriedade. Propõe um hino, caso a revolução seja vitoriosa, “Bichos da Inglaterra”, para servir como sua versão da “Internacional Socialista”. Mesmo morrendo, sua mensagem, baseada nas ideias de Karl Marx - ou ele representaria o próprio Marx? - logo é adotada pelos porcos mais cultos, a intelligentsia do mundo animal. Forjam uma aliança entre os cavalos Sansão e Quitéria, que eram fortes, e representavam o proletariado, e os elementos representantes dos trabalhadores do campo e da classe média, personificados nas ovelhas, vacas e galinhas, e outras forças dos pastos e do quintal. Somente a égua Mimosa, uma espécie de tipo pequeno-burguês, e Moisés, um corvo, de fala fácil e eloquente, que prega a existência de um mundo além do céu, se mantêm indiferentes.
Numa série de batalhas, o proprietário da Granja, o sr. Jones, é expulso, e sua tentativa de retomar a propriedade, com a ajuda de outros proprietários de Granjas, próximas, alarmados com o exemplo da Granja dos Bichos, é, mais uma vez, derrotado.
Começa então um período de construção, acompanhada de isolamento e perigo e da sensação de que os porcos, líderes da revolução, tinham se apoderado de uma fatia excessiva de poder e privilégios.
Os paralelos com o governo de Stalin são evidentes: a excomunhão dos dissidentes, a reescrita da História, os julgamentos espetaculares, a coletivização da produção e a fome que a acompanha e as execuções em massa. O porco Napoleão representa, obviamente, Stalin, que expurga e manda para o exílio aquele que representava um obstáculo ao eu poder, o porco Bola-de-Neve, que representa Trotski. Este, não apenas cai em desgraça, jogado na lama e transformado em inimigo da Revolução. A história reescrita trata de apresentá-lo como um aliado aos inimigos da Revolução.
A história termina com os animais reunidos, do lado de fora, observando um banquete entre os porcos, dirigentes, e os seres humanos. Nisso, são incapazes de distinguir entre porcos e humanos (quem seriam os mais opressores?). Era uma clara referência sarcástica ao então encontro de Teerã, em 1943, reunindo Churchill, Roosevelt e Stalin, combinando uma coordenação dos ataques soviéticos à Alemanha nazista com o iminente desembarque dos aliados na Normandia. Na visão de Orwell, aquilo não passava de uma reunião cínica destinada à divisão dos espólios da guerra.
Os bichos, em nome da Revolução, de uma vida mais igualitária e na promessa de segurança acabaram, como na Rússia stalinista, ficando sem uma nem outra.

O uso político do romance

Recusado por vários editores, mas uma vez que foi publicado, o romance causou mal-estar entre os literatos e a elite política da época, pois foi percebido como uma sátira feroz do stalinismo. Ora, os soviéticos eram aliados das democracias ocidentais contra o nazifascismo. Uma crítica aos aliados não caia bem naquele momento. O desconforto era agravado pelo fato de os líderes da Granja dos Bichos serem os porcos, o que era visto como uma ofensa aos dirigentes russos.
Com a Guerra Fria as coisas se inverteram. Os capitalistas ocidentais passaram a usar a fábula como arma ideológica anticomunista, situação que era incomoda para o próprio autor, que se dizia socialista ou seu simpatizante, estando descontente pelo desvirtuamento do socialismo da União Soviética stalinista.


Referência.

ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Claro Enigma, 2012.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Escola Auton Aragão é referência na educação ipuense

Fonte: ipunoticias.com.br
A centenária escola de Ensino Médio, Auton Aragão, localizada no centro de Ipu-Ce, recebeu o prêmio do Programa Aprender pra Valer. Aprender Pra Valer é um programa do governo do Estado do Ceará e tem por finalidade a elevação do desempenho acadêmico dos alunos do Ensino Médio, com vistas à aquisição dos níveis de proficiência adequados a cada série/ano, bem como a articulação deste nível de ensino com a educação profissional e tecnológica.
A escola Auton Aragão se destacou na consolidação de competências avançadas de leitura e de raciocínio lógico-matemático, nos resultados do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (SPAECE), dentre outros critérios de avaliação do programa.
O resultado coloca a escola Auton Aragão como o 3º melhor estabelecimento de ensino secundário, em aprendizagem, entre as 575 escolas estaduais do Ceará.
Além das homenagens, os servidores da escola receberão ainda, como prêmio, o 14º salário.
Para o professor Antonio Vitorino, docente da escola, o resultado não é de todo uma surpresa. Por três anos consecutivos a escola já vem se destacando em 1º lugar, entre as escolas estaduais regulares de Ipu, no resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Enfatizou que na última edição do exame (2015), entre as 32 escolas estaduais da região da Ibiapaba, ficou na nona colocação.
Perguntado sobre qual é o segredo do sucesso da escola, o professor Vitorino, como é mais conhecido, enfatizou que dos muitos fatores que poderiam ser apresentados para justificar o feito inédito da escola, estão dois. Disse que, de um lado, tem-se a gestão da escola, comprometida com a aprendizagem do aluno, e, de outro, um corpo docente não apenas qualificado, o que é essencial, mas que, em sua maioria, já está lecionando ali há um bom tempo, algo que permite uma continuidade de um trabalho que começa lá no 1º ano do Ensino Médio.
 A escola tem também apresentado resultados positivos no desempenho dos alunos nos exames de vestibulares, com destaque para aquele realizado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA-Sobral). Segundo matéria publicada no site de notícias Ipunotícias, Auton Aragão é a “maior Escola em inscrição e aprovação no Vestibular da UVA”.
Os resultados dos alunos da escola Auton Aragão a consolidam como estabelecimento de referência na educação secundária na cidade de Ipu e no estado do Ceará.




sábado, 3 de dezembro de 2016

O Trem e a cidade: livro conta a história do Ipu nas décadas iniciais do século XX

O trem e a cidade, livro do professor e historiador, Antonio Vitorino, discute e analisa como a ferrovia foi importante para produzir transformações de ordem social, econômica e cultural na cidade de Ipu e, também, como as mudanças propiciadas pelo trem foram experimentadas por estratos sociais que viviam ali nas primeiras décadas do século XX.
Para o autor, a cidade de Ipu, entre fins do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, teria passado por mudanças significativas, sobretudo no que se refere à economia, à sociedade e à cultura, ligadas estreitamente ao advento da ferrovia. Teria sido o início de uma fase de expansão comercial e também urbana, possíveis, mesmo, com a locomotiva. Esta fez surgir novos bairros, novas ruas e traçados. Deslocou o eixo central do “velho povoamento” para um novo em torno da estação ferroviária. A ferrovia veio incrementar o comércio e a produção agropecuária locais e, também, da região a sua volta. Contribuiu para transformar a cidade em um polo de atração de toda a produção econômica das regiões circunvizinhas a Ipu. Com a chegada do trem a sociedade se transforma ou pelo menos parte de sua elite. Novos hábitos e códigos sociais são buscados.
O autor revela aspectos interessantes da história e da sociedade ipuenses das três primeiras décadas do segundo XX.
O livro é resultado de uma pesquisa realizada entre os anos de 2005 e 2007 no curso de pós-graduação realizado pelo autor.
Escrito em linguagem acessível e leve, a obra é indicada para estudantes de todos os níveis, para os pesquisadores e amantes da história do Ipu.
Leia abaixo, resenha escrita por Raimundo Alves de Araújo, professor, historiador e doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense:

"O trabalho do professor e Doutor em História Antonio Vitorino Farias Filho, tal como um “Prometeu acorrentado”, vem pioneiramente lançar luz sobre a face obscura da história da modernização nos interiores do Estado do Ceará na virada do século XIX para o século XX. Tomando a cidade de Ipu (localizada no Noroeste do Estado) como palco privilegiado para suas investigações e fazendo uso das modernas teorias da História Social ligadas à tradição da escola francesa, Farias Filho nos vem oferecer uma profunda e enriquecedora análise acerca da inserção e da maturação, nos interiores do Ceará (na pequena cidade de Ipu do entresséculos), do avassalador processo de modernização ocidental. Processo este que teve, segundo o autor, na Estrada de Ferro de Sobral a sua principal afirmação. Distanciando-se dos arquétipos do “sertão eternamente flagelado”, “bandoleiro”, “retirante” ou “fanático” (que segundo Durval Muniz em seu clássico A Invenção do Nordeste teriam sido inventados pela literatura ficcional dos anos 1930), o trabalho pioneiro do autor vem oferecer ao leitor – acadêmico ou não – um novo olhar sobre os sertões do Ipu e de sua região. Um trabalho que nada deixa a dever aos melhores produzidos em Fortaleza ou mesmo no eixo Rio-São Paulo. Esta publicação é desbravadora, mostrando-se fundamental para o público acadêmico de universidades como a UVA, o INTA, a URCA e demais instituições de ensino superior, radicadas nos interiores do Estado do Ceará, do presente momento. Mas esta publicação também se destina ao público leitor menos especializado, que visa apenas compreender pela pena de um historiador local o processo de modernização dos interiores do Ceará do período aludido.
Tenha uma boa leitura".
Raimundo Alves de Araújo.

Título: O trem e a cidade
Autor: Antonio Vitorino Farias Filho 
Editora: SertãoCult
102 Páginas
Preço: R$: 15,00
Contato e encomendas: 9.9901-7773


quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O pai e o décimo quarto filho

Era para ser um dia alegre, feliz, mas foi de uma imensa decepção. Acabara de pegar o ônibus em Icaraí, Niterói, no Estado do Rio de Janeiro - onde estava vivendo fazia alguns meses, ou seria semanas? Não lembro, mas isso não fará diferença alguma sobre aquilo que quero contar - em direção a São Gonçalo. Ia de encontro ao meu pai. Tinha dezoito anos e a última vez que o vira havia sido quando ainda tinha apenas oito anos. Não me lembro o ano, nem o mês e muito menos o dia. Minha revolta foi tal, que não faço nenhum esforço para descobrir. Para falar a verdade, ia conhecer meu pai naquele dia. Logo entenderá.
Estava de peito aberto e acreditava que a partir dali teríamos uma relação de pai e filho, como nunca havíamos tido.
A história que me contaram foi que meu pai saiu de casa quando eu ainda tinha dois meses de idade ou talvez dois anos. Nunca quis confirmar essa história. Por quê? Não me pergunte, pois não sei. Na verdade nem quero saber. Se descobrir, por favor, não me diga! Desculpe a arrogância, é que às vezes pensar sobre isso me aborrece.
Homem de poses, segundo contam – talvez isso seja só lenda - havia virado a cabeça e se tornado um mulherengo, o que o teria arrasado. Dizem que no famoso cabaré do Ipu, quando ia, logo mandava fechá-lo. Naquele dia tudo seria por sua conta. Negligenciado os negócios (tinha alguns comércios, dentre eles uma padaria, onde funcionava um alambique, produzindo uma tal cachaça ou vinho, sucesso de vendas). Não teria sabido lidar com uma vida de fortuna. Logo caíra nos braços de “mulher fácil” e na bebedeira. Pode até ser que nada disso seja verdade, mas foi como me contaram. Para mim, é a verdade.  Nunca soube de sua versão dos fatos.
 Arruinado, e com vergonha talvez de sua nova condição, vendera tudo, inclusive a própria casa onde morávamos, que pertencia a minha mãe, e se mandara para o Rio de Janeiro, levando consigo alguns dos filhos mais velhos, e deixando esposa com uma “reca de menino”. Eu era apena o mais novo de uma tropa de quatorze. Posso imaginar o desespero ou frustração de minha mãe, que teve de se virar para sustentar um “time de futebol”, com reservas no banco e tudo, costurando para fora, ofício que deve ter aprendido em casa. Afinal, naquele tempo, estavam reservado às mulheres os afazeres de casa. Cozinhar, lavar, coser, fazer crochê, eram ofícios de uma boa dona de casa. Mulher que estudava, por exemplo, não era bem vista por muitos naquela sociedade, poderia desviá-la de seus papeis sociais que, em resumo, eram os de ser dona de casa, esposa e mãe.
Apenas aos oito anos vi meu pai pela primeira vez. E dez anos depois se alguém me pedisse para descrevê-lo fisicamente não saberia fazê-lo, não me lembrava como era. Se me perguntasse sobre o seu comportamento, pior ainda. Parece que o tempo se encarregou de apagar qualquer lembrança que tivesse sobre ele ou talvez fosse criança demais para guardar alguma coisa.
Naquela época, ao que parece, havia se separado da família que constituíra em São Gonçalo: esposa e duas filhas. Tentara a reconciliação com minha mãe e os filhos do primeiro casamento. Imagina como deve ter sido a viagem, de mais de três dias, dentro de um ônibus desconfortável, uma Itapemirim, de fabricação talvez dos anos 1970. As estradas deviam ser uma maravilha! Lembro apenas que me diverti muito, não sei bem como, sem também saber direito o que acontecia ou, ao certo, para onde estava indo. Éramos uma imensa família, com mais de dez pessoas, indo embora. Quanta galinha assada e farofa para comer naqueles dias!
 Não sei se nos recebeu de braços abertos. Todos fomos morar no Estado do Rio. A reconciliação durou apenas seis meses: o que aconteceu, não sei. Nunca ninguém me contou e nem tive vontade de perguntar.
Parece até que, involuntária ou voluntariamente, esteja tentando enterrar esse passado. Por que então, agora, resolvi escrever sobre isso? Sei lá! Somos mesmo seres contraditórios.
Voltava então, para o Ceará, de onde nunca devia ter saído, minha mãe com apenas parte dos filhos que levara. Outros ficaram lá. E o rebanho sob sua saia ia diminuindo, aos poucos.
Não tenho uma só lembrança com meu pai durante aqueles seis meses. É incrível isso! De forma que não o conheci, de fato.
Mas aos dezoitos anos surgira a oportunidade. Olhando retrospectivamente, era apenas uma criança, ingênua, mas cheia de sonhos de grandeza. Ia para o Rio de Janeiro com uma ilusão tão grande, com uma vontade de vencer! Vencer o quê? Nem mesmo eu sabia! Naquele ano que saí de casa fiz algumas promessas somente para mim, tudo que gostaria de fazer e conquistar. São coisas íntimas demais para expor aqui. Mas não é nada do que está pensando! Todas conquistei, mas não sem esforços, ou dores ou sem abrir mão de alguma coisa.
Estava tão feliz e esperançoso, radiante e motivado: finalmente ia conhecer meu pai e acreditava que a partir dali construiríamos uma relação profícua.
Descemos do ônibus, aquele mesmo que havia pego naquela manhã. Fomos direto a casa do velho, onde morava com a sua segunda família. Havia reatado com sua segunda esposa. Era aquela mesma casa onde por seis meses moramos. O mais engraçado é que não a reconheci. Não podia ser a mesma sala, o mesmo quarto, a mesma cozinha. Nada me trazia lembrança. Também não reconheci meus antigos amigos, que ao saber que lá estava aquele amigo de antes, “o paraíba”, foram me ver. Ainda se lembravam de mim. As suas imagens eram tão diferentes das poucas lembranças que guardei que fiquei atordoado. Olhava para eles e tentava buscar as semelhanças, mas não havia nenhuma. Não consegui entender nada.
Lá meu pai não estava. Mas conheci minhas duas irmãs, por parte de pai, e sua segunda esposa. As meninas se pareciam fisicamente tanto com as minhas outras irmãs! Lembro que foi uma conversa bem agradável, apesar do constrangimento que devo ter causado. Que ousadia, um dos filhos legítimos do velho ir à casa de sua segunda esposa?
Como ele não chegava, fomos, eu e meu irmão que lá me levara, até o bar onde estava trabalhando. Era o dono. Nome do estabelecimento? “Vitorino’s bar”.
Lá chegando, ele estava jogando sinuca com amigos ou clientes. Era um bar bem pequeno, sem muitos atrativos, de poucos clientes, muito parecido com todos esses bares onde se vai para beber um cafezinho depois do almoço, jogar conversa fora ou tragar um pinga! Meu irmão me anunciou e a alegria sincera, ingênua e o sorriso que estavam no meu rosto logo se dissiparam. Meu pai nem sequer olhou no meu rosto! Continuou a jogada que ia fazer, debruçado sobre a mesa, apontando o taco para a bola da vez e, poool! Não me deu atenção, não quis conversa, e, com naturalidade, continuou jogando e conversando ao mesmo tempo. Parecia que eu nem estava ali.
Percebi que não era bem-vindo. Chorei por dentro. Fui embora com uma angustia tal e com um vazio interior sem igual, como nunca havia sentido antes. O mundo parecia que se acabara ali, naquele momento.
Descobri que nunca tive pai!

Foi a maior decepção de toda a minha vida. Nunca mais o procurei.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A Idade Média nunca existiu: é um mito! Parte II

A terceira questão relacionada ao conceito de Idade Média e que considero importante para essa discussão, é a noção de periodização. Ela tem sua importância didática e o seu uso é inevitável, mas coloca também questões para o pesquisador e estudioso. A periodização é também uma construção, baseada em escolhas feitas pelo historiador, estabelecendo aquilo que deve ser lembrado/esquecido. As periodizações são construídas com base em características estabelecidas para determinado período. O caso da Idade Média talvez seja o mais significativo.
Estabeleceu-se para esse momento marcos divisórios que vão do século V ao século XV (mil anos). É preciso ter em mente que houve muitas rupturas, descontinuidade ao longo desse tempo, apesar das permanências, e que não se pode homogeneizar esse período com base em características comuns como fizeram os humanísticas do século XVI e os nacionalistas do século XIX. Também é preciso esclarecer que a Idade Média refere-se à história europeia e que os valores defendidos pelos personagens que a viveram não eram os mesmos em todos os lugares num mesmo tempo e nem durante todo aquele período.
Em quarto e último lugar, é preciso ter em mente que a produção sobre qualquer período histórico é fruto de escolhas dos historiadores, conscientes ou não, que produzem e, por que não dizer, inventam a história.
Concordamos com Le Goff quando propõe pensar a Idade Média de modo a historicizá-la em todas as suas facetas sem essa ou aquela intenção a priori, mas sim com o propósito de pensar o homem em seu tempo. Para ele, como para Marc Bloch, a “História é a ciência do homem no tempo”, e isso leva o trabalho historiográfico não para a identificação de fatos e pessoas, mas para a compreensão sobre as possíveis mudanças de um determinado contexto.
Embora os estudos sobre a Idade Média tenham se renovado, sobretudo a partir da chamada História Nova, e tenha inventado um outro conceito do medievo, que combate as visões cristalizadas, preconceituosas sobre o ele, permanece no imaginário uma visão negativa para caracterizá-lo. É que quase não há diálogo entre o que se produz na universidade e o Ensino Básico. Muitas vezes os livros didáticos demoram para incorporar essas novas produções e acabam reforçando visões estereotipadas, preconceituosas sobre a Idade Média, com algumas exceções, é bem verdade.
Dito de outra forma, embora tenha havido uma renovação no campo dos estudos medievais, desde Marc Bloch e Lucien Febvre, com a História Nova, que buscaram pensar a Idade Média com base na história das mentalidades, das imagens e gestos, do imaginário, alargando e problematizando o seu conceito, muitas vezes permanece a noção anterior, reforçada pelos manuais didáticos
Em primeiro lugar, nem sempre o conteúdo sobre Idade Média presente no livro didático é escrito por um especialista, o que contribui para falhas. Em segundo lugar, o mercado livreiro não deixa muito espaço para uma elaboração mais apurada dos conteúdos presentes nos manuais, o que acaba comprometendo a sua qualidade, levando à simplificações, construção de padrões gerais, lugares comuns já superados pela historiografia, o pouco cuidado na exploração dos documentos e que são reproduzidos, muitas vezes apartados dos textos, apenas em boxes, e com a iconografia colocada ali apenas para ilustrar, sem que sejam usadas para permitir a interpretação, o que daria ao aluno a possibilidade de se familiarizar com os procedimentos básicos do trabalho do historiador.
Muitas vezes também os professores de história do Ensino Básico têm como única ferramenta pedagógica, o livro didático, e acabam reforçando o que está escrito naquele suporte, entendendo-o como a única verdade, não buscando se apoiar na produção acadêmica.

É preciso reconhecer, no entanto, que há muitos bons livros didáticos e uma preocupação maior em incorporar os novos estudos. Para o seu uso, no entanto, é preciso ao professor estar atento para o fato de que para além da transmissão de conteúdos já cristalizados é imprescindível que os alunos compreendam que o conhecimento histórico é resultado de criação, da pesquisa, que comporta descoberta e invenção. O conhecimento histórico não pode ser encarado como um amontoado de fatos, nomes e datas, mas como uma disciplina que contribua para a formação intelectual do indivíduo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Idade Média nunca existiu: é um mito! Parte I

A rigor, seguindo a reflexão do historiador e medievalista, Jacques Le Goff[1], a Idade Média não existe. Esse período que é tradicionalmente compreendido entre a queda do Império Romano do Ocidente (476) e a Queda ou Tomada de Constantinopla (1453) não passa de uma construção, um mito, um conjunto de representações, de imagens em perpétuo movimento. O período medieval tem sido construído e reconstruído com diferentes objetos e por diferentes grupos.
            A segunda questão a ser levantada diz respeito ao fato de que o termo Idade Média tem uma história que precisa ser levada em consideração, sob pena de considerar as imagens construídas sobre ele como verdades atemporais. Nesse sentido, há inicialmente a imagem ou construção de duas Idades Médias. A primeira é aquela produzida pelos humanistas do chamado período moderno e carregada de estereótipos e preconceitos. É aí que nasce a noção de Idade Média como um período intermediário entre a Antiguidade clássica e a modernidade ou entre dois movimentos onde a cultura teria se desenvolvido. O período é caracterizado como aquele marcado por hábitos violentos e pela inexistência de uma produção cultural, presente ainda no imaginário de nossos alunos.
Buscando inspiração nos valores humanísticos da cultura greco-romana, os modernos produziram uma visão negativa da chamada, por eles, Idade Média, como um período de decadência e de atraso na história da humanidade, como a “idade das trevas” ou como “uma noite de mil anos”. Segundo o já citado Jacques Le Goff, quando os humanistas definiram como tempo intermediário o período compreendido entre eles próprios e a Antiguidade o fizeram tomando como parâmetro ideias como flagelo e ruína. Desta forma, para eles, o tempo compreendido entre a antiguidade e a modernidade, ou seja, a Idade Média, seria de atraso e vazio cultural. A Idade Média teria sido uma interrupção do progresso humano, inaugurado pelos gregos e romanos e retomados pelos homens do século XVI. Também para o século XVI os tempos “medievais” teriam sido de barbárie, ignorância e superstição. Visão reforçada e levada ao extremo pela filosofia iluminista do século XVIII na França ao estabelecer a razão humana como único guia infalível para a humanidade em detrimento do caráter religioso presente na Idade Média.
A segunda noção de Idade Média é construída no XIX com base numa visão romântica do medievo, cuja versão a transforma numa “idade da luz”. Essa construção ocorreu frente ao movimento nacionalista, sobretudo francês, que passou a buscar fatos e personagens medievais cujos valores fossem relevantes para a identidade nacional, como é o caso de Joana Darc, transformada em heroína. A Idade Média transforma-se assim numa espécie de infância dos primórdios da nacionalidade e que atinge sua idade adulta com o Renascimento.
Desta forma, cada presente construiu a noção de Idade Média segundo os interesses dos grupos envolvidos nessa produção. Nós historiadores estamos hoje conscientes do fato de que os homens visitam o passado com as questões do presente e que cada presente produz uma revisão do passado. O mesmo ocorre com os historiadores.
Seja entendida do ponto de vista negativo, como “Idade das Trevas”, seja do ponto de vista positivo, como “Idade da Luz”, ambas as noções têm sido negadas no sentido de uma apreensão mais abrangente do período medieval. Ao historiador, por exemplo, é preciso se despir dessas noções cristalizadas e na pesquisa entender o período com base em sua própria historicidade, o que não se trata de tentar buscar uma verdade melhor, como se ela existisse, mesmo porque nós historiadores estamos hoje conscientes de que o nosso discurso, embora partindo de uma operação metodológica extremamente complexa e apenas apreendida pelo iniciado, é, em parte, também, uma construção nossa. A noção de ciência objetiva, cujo modelo era o das ciências naturais, como queria o positivismo ou a Escola Metódica, já não tem mais espaço. O conceito de cientificidade adotado hoje pelos historiadores é outro e não descarta que a subjetividade é um componente da qual não podemos fugir embora façamos esforço para isso.

Continua...




[1] Ver LE GOFF, Jacques. Uma longa Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, e, LE GOFF, Jacques. Em busca da Idade Média. 6.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Imprensa e cidade: o jornalismo no início do século XX em Ipu-Ce. Parte V

Depois da Gazeta, o jornal mais importante publicado em Ipu foi o Correio do Norte, que passou a circular a partir de 1º de janeiro de 1918, com o seu número de estreia. O seu nascimento foi anunciado ainda em 1917, quando Abílio Martins publicou um jornal datilografado fazendo a propaganda humorística daquele periódico, que logo nasceria. A grande novidade foi a compra em Sobral, pelos redatores do Correio, de uma oficina tipográfica para imprimir, inicialmente, a revista O Campo[1] e, depois, também aquele jornal.
Trabalhavam em suas oficinas gráficas Francisco das Chagas Paz (gerente-comercial), mais tarde também tipógrafo, Francisco Pilcomar Campos e Gessy França, contratados em Sobral e que exerciam as funções de tipógrafos e compositores. “Havia ainda dois meninos, arrebatadores para a aprendizagem no manuseio dos tipos: Francisco Mariano Mesquita (Peba) e José Oliveira Pombo (Zé Pombo)”. Em seguida, este último e João Mozart da Silva se tornariam, também, tipógrafos daquele estabelecimento. Fundaram e dirigiram inicialmente o jornal, Eusébio de Sousa e Abílio Martins. Estes foram os seus diretores no primeiro ano de circulação daquele periódico. Mais tarde, quando Eusébio de Sousa foi transferido de Ipu para assumir o cargo de juiz em outra cidade e Abílio Martins foi morar em Fortaleza, onde, em 1920 assumiu o cargo de chefe de polícia do Estado, o órgão passou a ser dirigido por Thomaz Correia, um de seus redatores desde 1º de janeiro de 1918[2]. Foram seus redatores, ainda, o médico, futuro prefeito de Ipu, Francisco das Chagas Pinto, Oswaldo Araújo, Manuel Dias Martins, Leonard Martin e João Bessa Guimarães.
            Organizando-se como um misto de empresa com uma produção artesanal, a Typographia d’O Campo, como foi batizada, trouxe para suas oficinas gráficas categorias profissionais, casos dos tipógrafos e compositores. Este fato revela um processo em que cada vez mais a mecanização da impressão estava se impondo. Embora não empregasse nos trabalhos técnicos do maquinário não mais do que 7 pessoas, já havia, no entanto, uma certa divisão e especialização do trabalho. O resultado foi um processo que permitia transpor para as páginas do jornal uma qualidade gráfica evidente, uma grande novidade em se tratando de um trabalho totalmente produzido em âmbito local. Com um novo maquinário, a tecnologia disponível permitia o uso de imagens e gravuras entre os textos, um avanço em relação ao jornal Gazeta do Sertão, no entanto, não tão explorado, talvez por encarecer os custos.
Igualmente o novo processo mecânico, ao que tudo indica, com a tecnologia da linotipo, permitia uma produção acelerada do processo de impressão e o aumento da tiragem, bem como o barateamento dos custos. É isso que explica, em parte, o fato do Correio do Norte sair rigorosamente toda semana, sem nenhum imprevisto.
Embora o Correio fosse produzido em oficinas próprias e contasse com uma tecnologia mais ou menos avançada para a época, sobretudo para um pequeno burgo, isso não é suficiente para se afirmar que, a partir de então, a imprensa local se organizava como uma empresa capitalista, característica apenas da chamada grande imprensa, que surgia nos grandes centros urbanos na virada do século XIX para o século XX, segundo propõe a análise feita por Nelson Werneck Sodré[3].
A tipografia foi instalada provisoriamente no pátio de uma casa que pertencia a Oswaldo Araújo. Dois anos depois, passou a ter sede própria em um prédio na Praça São Sebastião, local que foi a residência do Padre Feitosa, quando pároco da cidade. Mais tarde, no mesmo prédio, foi instalada a sede do Gabinete de Leitura.
            A Typographia d’O Campo não imprimia apenas a revista mensal O Campo e jornais, mas também cartões de visita, envelopes, faturas, memorandos, folhetos, convites e outros pequenos panfletos. Tais serviços eram anunciados nas páginas do jornal. Em um anúncio de um quarto de página, em letras grandes, os redatores ofereciam os serviços tipográficos disponíveis:

LEIAM
NOTAS PROMISSORIAS cartões phantasias, de visitas e participações, cartas, Facturas, Enveloppes, Memorandus e todo qualquer serviço Typographico faz-se na TYPOGRAPHIA D’O CAMPO.[4]





[1] SOUSA, Eusébio. A Imprensa do Ceará em 1918. Op. cit. Em nossa pesquisa não encontramos nenhum exemplar da revista mensal O Campo, que dá nome à tipografia.
[2] Segundo o Historiador Cearense Barão de Studart, Eusébio de Sousa foi o fundador e redator (diretor) do Correio do Norte, substituindo-o, logo depois, Abílio Martins: Sobre o periódico diz “O 1º nº é de 1 de janeiro. Fundador e redactor o Dr. Eusebio de Souza. Retirando-se para Fortaleza afim de tomar parte nos trabalho da commissão de Codificação das leis do estado, substituindo-o como redactor o Dr. Abilio Martins. Terminado o 1º anno de existência do “Correio do Norte”, assumiu a redacção o Cel. Th. Correa com a collaboração dos Drs. Abilio Martins, Chagas Pinto, Cel. Manoel Dias e João Bessa”. STUDART, Barão. Jornaes Publicados no Ceará em 1918. In: Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza. Fortaleza. Tomo. XXXIII, Ano XXXIII, 1919, p. 249-251, p. 249.
[3] SODRÉ, Nelson Werneck. A imprensa no Brasil. Op. cit.
[4] Correio do Norte. Ipu, p. 4, 19 fev. 1920.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O livro didático de História: uma reflexão - Parte II



A principal questão a ser levantada, no entanto, diz respeito à concepção de história veiculada pelos livros didáticos. Embora avanços tenham sido notados no últimos anos, ainda são marcantes as lacunas e descompassos entre os novos paradigmas historiográficos e o que se vincula enquanto conteúdo dos manuais didáticos de História. Ele continua com um forte caráter alienador, já que se constitui em canal de transmissão e manutenção de mitos que povoam a história ensinada.
Pesquisas recentes têm demonstrado que a perspectiva de abordagem tradicional ainda é dominante na maioria dos manuais, com uma dimensão meramente informativa e que não valoriza o conhecimento histórico em seu aspecto construtivo. As narrativas são organizadas com base em recortes já consagrados, as fontes ganham caráter mais ilustrativo e não são exploradas numa dimensão que aproxime o aluno daquilo que preside o procedimento histórico. Nesse sentido, uma concepção de verdade pronta e irrefutável preside a obra. Em geral, as coleções que integram esse subconjunto mantêm coerência com a visão processual e evolutiva do tempo e das sociedade e não rompe com a clássica divisão eurocêtrica. Nesse sentido, coloca-se excessiva ênfase nos fatos e não na reflexão, perpetuando uma perspectiva enciclopédica, acumuladora de conteúdos, factual, portanto.
Isso se dá, porque há muitas vezes uma distância entre a produção acadêmica e a confecção dos livros didáticos. Estes, muitas vezes, não incorporam ou demoram a incorporar a produção no campo.
É preciso ter em mente que a narrativa não se confunde com o recorte de tempo estudado, pesquisado. A lógica da narrativa, como tem demonstrado Michel de Certeau e Keith Jenkins, é pertinente ao tempo de sua produção, o presente do historiador, e não ao tempo original do acontecimento. Nesse sentido, é preciso considerar o caráter construtivo da narrativa, cuja cientificidade não é dada pela busca da verdade, mas pela “operação historiográfica”, pela metodologia empregada na pesquisa. Os manuais didáticos, em sua grande parte, ao não incorporarei essa noção, própria do campo da história, estabelecem narrativas que se colocam como o próprio passado, cristalizando verdades não passíveis de discussão.
Nesse sentido, a maior parte dos livros didáticos de História não incorpora as revisões derivadas dos estudos contemporâneos no campo da pesquisa
            Ao analisar o livro didático como ferramenta que auxilia na qualidade do ensino básico, percebe-se pelo menos duas grandes vertentes sobre a concepção que deve nortear a sua produção. De um lado, estão aqueles que defendem que o manual pedagógico deva organizar o estudo do passado tendo como base levar ao entendimento do presente. Dito de forma diferente, o estudo do passado deve se justificar para levar o aluno a entender o mundo contemporâneo. Daí, deve-se se buscar, por exemplo, entender a democracia moderna, recuando à Grécia antiga onde o conceito nasce. 
           De outro lado, há aqueles que defendem que o estudo do passado deve ser feito por si mesmo e não simplesmente buscando entender as questões do mundo contemporâneo, como forma de compreender a lógica de organização das sociedades longínquas em seus próprios termos. Defendem que estudar o passado com base apenas nas questões do presente pode levar a incompreensões, não descartando, portanto, a possibilidade de se fazer comparações, o estabelecimento de permanências e rupturas no longo processo histórico. Essa atitude é defendida, sobretudo pelos estudiosos das sociedades longínquas, como a antiguidade, cuja lógica de organização só pode ser compreendido por sua cultura.
            Por isso, o livro didático deve ser encarado pelo professor como um recurso e não um meio pelo qual o ensino-aprendizagem se realiza. É preciso recuperar o papel do professor no processo educativo, e colocar o livro didático como um instrumento auxiliar e não como direcionar do ensino-aprendizagem, da perspectiva pedagógica e do currículo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O livro didático de História: uma reflexão - Parte I

Iniciamos hoje uma nova seção dedicada ao debate historiográfico, voltada mais às discussões nesse campo de estudo, destinada aos estudiosos de um modo geral e ao estudante de história em particular. Apresentaremos textos curtos e com uma linguagem mais acessível ao não iniciado. O texto de hoje faz uma reflexão sobre o livro didático de história, uma ferramenta que se tornou quase o único recurso pedagógico adotado pelos professores do ensino básico.
Boa leitura!

A primeira questão a ser colocada é de que o livro didático é material elaborado para nortear as práticas de mediação do conhecimento dentro das salas de aula no ensino básico. Tem como papel central auxiliar no processo pedagógico. É uma ferramenta produtora de conhecimento reconhecida pelas instâncias educacionais superiores. É amplamente utilizado pelos professores que, por vezes, preparam as suas aulas tomando-o como única referência ao transformá-lo no próprio currículo. Assim, os conteúdos a serem ensinados já estão selecionados previamente. Neste último caso, isso é resultado, em parte, de uma precária formação dos professores.
            Utilizado como única ferramenta na condução da aprendizagem na disciplina de história, coloca alguns problemas. Em primeiro lugar, no que se refere a forma pela qual apresenta os conteúdos, parte dos manuais didáticos trazem um conhecimento categórico, característica perceptível pelo discurso unitário e simplificado que reproduz o conhecimento, não deixando margem para a contestação. Ao expressar uma “verdade”, bastante impositiva, não abrem espaço para a contestação ou confronto[1].
            Em segundo lugar, como esclarece Circe Bittencourt[2], o livro didático é, antes de tudo, uma mercadoria, um produto do mundo da edição que obedece à evolução das técnicas de fabricação e comercialização pertencentes à lógica do mercado. É também, um suporte básico e sistematizador privilegiado dos conteúdos escolares elencados pelas propostas curriculares, além de ser, é verdade, um instrumento pedagógico e, finalmente, um veículo portador de um sistema de valores, de uma ideologia, de uma cultura.
            Como mercadoria, inserida nos ditames do mercados e da indústria cultural, o livro didático está sujeito a muitas interferências em seu processo de produção e vendagem. Para as editoras, por exemplo, importa menos a orientação metodológica ou ideologia contida em uma coleção e mais a sua capacidade de vendagem e adequação ao comprador. Nesse processo que envolve interesses diversos, nem sempre a preocupação com a qualidade do texto, exclusivamente acadêmica, é respeitada. O livro didático, como produto cultural, transmite o posicionamento de seu autores, expressam leituras, posicionamentos políticos, ideológicos e pedagógicos.
            Portanto, os manuais didáticos não são apenas ferramentas pedagógicas, mas também recortes de seleções culturais variáveis, de verdades a serem transmitidas às novas gerações, veiculador de visões de mundo de seu produtor.
            Os manuais pedagógicos possuem como objetivo a transposição dos saberes acadêmicos para o espaço escolar, consubstanciadas com base em textos, representações, imagens. A sua materialização envolve também concepções educacionais, políticas, sociais e pedagógicas que, em conjunto, transmite uma visão de mundo que determina a diagramação aplicada, a construção dos conteúdos, a estrutura da narrativa e os exercícios propostos[3].
            Um grande problema que podemos levantar é que os textos e imagens presentes no livro didático são geralmente percebidos como verdades históricas por partes não apenas dos alunos, mas também por parte dos docentes.

Continua...



[1] BITTENCOURT. Circe. Ensino de História: fundamentos e métodos. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008, p. 313.
[2] Idem.
[3] MARTINS, M. B. e MATOS, J. S. Ensino de história moderna no livro didático: representações dos gêneros. XXVII Simpósio Nacional de História. Disponível em: http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1371331576_ARQUIVO_EnsinodeHistoriaModernanoLivroDidaticoRepresentacoesdosGeneros.pdf>. Acesso em: 23 de jan. 2016.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Para ler antes de morrer - A esfinge

Antes que me acusem de falar apenas de obras estrangeiras aqui, abro espaço também para discutir a literatura brasileira do século XIX e do início do século XX. Não começo com as obras consagradas, mas com um livro esquecido e pouco lido. Trata-se de a Esfinge, de Afrânio Peixoto. Descobri esta instigante obra, se não me falha a memória, em 2012, quando pesquisava sobre os salões e saraus do século XIX. A literatura se apresentava para mim como um discurso capaz de representar aqueles espaços. Daí o meu interesse pelo romance em questão, já que ele é ambientado nos salões mundanos, e cuja descrição é feita em detalhes. O autor, um frequentador daqueles espaços no Rio de Janeiro, então capital federal, apresenta-os como locais de intriga, espaços de discussões políticas, de questões econômicas, literárias e artísticas. Locais de flertes e de construção de alianças.

A Esfinge, romance de Afrânio Peixoto, editado em 1911 pela Livraria Garnier, tem como personagens centrais Paulo de Andrade, um escultor que mora no Rio de Janeiro, oriundo do interior da Bahia, e Lúcia, sua prima, moça de uma família carioca da alta sociedade, frequentadora dos salões, que virara moda no entresséculos (final do século XIX e anos iniciais do século XX), na capital federal, onde se passa a maior parte do romance.
            O enredo gira em torno da angústia de Paulo, que pretendia desposar Lúcia, que parece estimá-lo e amá-lo, mas que acaba se casando com um deputado de posses do Ceará, que a conhece nos bailes em Petrópolis, para onde a alta sociedade carioca se debandava na estação quente, para seus veraneios elegantes e atividades mundanas.
            Quase todo o romance é ambientado nos salões mundanos, cuja descrição é feita em detalhes, verdadeiro “documento histórico” destes ambientes, locais de intrigas pessoais, espaços de discussões políticas, questões econômicas, literárias e artísticas, de construção de alianças e de, principalmente, flertes: espaços de exibição das posses familiares, da última moda masculina e feminina e da sedução, onde a mulher parece brilhar e fazer o seu jogo de sedução.
No entanto, o autor, profundo conhecedor desse espaço mundano, pois foi frequentador deles, segundo nos diz Brito Broca[1], parece usá-lo para tecer críticas à alta sociedade, frequetadora desses locais: assim é que o tênis, os chás e os salões são apresentados como o momentos e locais dos flertes, das intrigas, dos olhares maldosos, dos comentários nada lisonjeiros. O salão é o local onde se revela a hipocrisia dessa sociedade, espaço para selar alianças e casamentos, em detrimento do amor: é assim que Lúcia, mulher apresentada como doce, meiga, prendada, aceita casar-se com Vicente Câmara, homem de posses, prestes a ser nomeado para o senado, sem apresentar por ele nenhum sentimento, senão admiração pelos seus galanteios, em detrimento de Paulo, que parece amá-lo, mas que é apenas um escultor sem fama.
            É assim também que é apresentada Wanda, prima também dos personagens centrais, ambiciona, que casa-se com Brandão, homem bonito, estimado nos salões e de fama afortunada.
            O próprio personagem central, Paulo, homem simples, porém de virtudes elevadas, que não suporta a alta sociedade e as rodas dos salões por sua hipocrisia e seus frequentadores maldosos, que só os frequenta para estar perto de sua amada, parece confirmar a convicção de que o autor usa o romance para tecer críticas severas à alta sociedade carioca de sua época, mais afeita às frivolidades do mundanismo do que às coisas mais sublimes como a própria arte, representada por Paulo. Este não suporta a alta sociedade, mais ainda após sua decepção, que o fez querer fugir daquele mundo, primeiro, buscando esquecê-lo, depois, buscando em sua arte uma razão de viver. “Vivia daí por diante para ela”. [2]
            Parece haver para o autor uma relação inversa entre arte e correspondência no amor. A decepção de Paulo parece fazê-lo grande artista, a satisfação de deu desejo, a correspondência do amor da prima, mata o artista dentro dele, resumido na frase de Dr. Lisboa, após visita a casa de Paulo e depois de este ter se encontrado com Lúcia e resolvidos os dois a vida em conjunto: “E pensei com tristeza: um grande artista de menos... um pobre pai de família de mais...” [3]
            No romance o autor denuncia a corrupção de parte da imprensa e certamente da imprensa mundana, isto é, que dá visibilidade a este mundo, estando a serviço de favores, deixando de ser “um sacerdócio” para se tornar uma “indústria” a serviço do capital, ataca a política republicana, representada por Câmara, como corrupta e que faz mal à nação, contesta a ideia da República como fomentadora do progresso e denuncia a dicotomia das ideias dominantes na época de, ora condenar a nação por sua “raça inferior”, ora defender o seu futuro promissor pelas riquezas que possui.
            O título do romance parece sugerir o próprio dilema de Paulo, a sua incessante busca pela satisfação amorosa (Lúcia) e pessoal (a arte), numa relação inversa: a Esfinge pode muito bem ser representada pela mulher; um verdadeiro enigma a ser decifrado. A mulher quando não decifrada engole o homem e torna-o um desgraçado. Paulo parece querer decifrar Lúcia, e, enquanto não o faz, é engolido por sua decepção, torna-se triste, mas se revela grande artista.
Quando, no final do romance, parece decifrá-la, é engolido por Lúcia, que resolve ficar com ele e, assim, mata, destrói o artista dentro dele. O talento do escultor está em sua decepção? A decepção na arte está na vida burguesa? Paulo parece ter sido engolido pela sociedade que não suportava. Foi engolido pela esfinge ou ao decifrar o enigma se tornou um homem desgraçado como o próprio Édipo? O criador foi engolido pela criatura?



[1] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. 4.ed. Rio de Janeiro: José Olympio: Academia Brasileira de Letras, 2004.
[2] PEIXOTO, Afrânio. A esfinge. 12.ed. São Paulo: Clube do Livro, 1978, p. 172.
[3] Idem, p. 198.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Para ler antes de morrer - Crime e castigo


Uma das grandes paixões que cultuo é a leitura de Romances. Os clássicos do século XIX me interessam mais. Dentre os autores desse período, Dostoiévski é um dos meus favoritos. Há razões para isso, mas que no momento guardo-as só para mim. Pode me chamar de egoísta, não me importo!
            A primeira leitura de Crime e castigo, no passado, me trouxeram sensações nunca vividas. É um livro fenomenal e leitura obrigatória para aqueles que, como eu, amam a boa literatura.
Crime e castigo, primeiro livro da série de grandes romances da maturidade de Dostoiévski, tem como personagem central um ex-estudante universitário, rapaz pobre e inteligente e que vive num cubículo miserável na periferia de São Petersburgo. Pela pobreza e falta de recursos é obrigado a abandonar os estudos. Nestas condições, passa a cogitar e estabelecer um plano para assassinar uma velha agiota, a quem considera um ser imprestável e que só traz mau, para se apossar de seu dinheiro e assim continuar com os seus planos, que consiste em se formar e ajudar sua mãe e uma irmã que, igualmente, vivem com poucos recursos. Raskólnikov, nome do personagem central do romance, acredita que a má ação, assassinar uma velha imprestável e prejudicial à sociedade, seria recompensada com as muitas boas ações que poderia levar a cabo com o dinheiro dela. Acredita que sacrificar um ser inútil e prejudicial a sociedade seria recompensada e justificada com o ato benéfico e útil que faria para essa mesma sociedade.
Raskólnikov estabelece um plano para assassinar a velha e se apoderar de seu dinheiro. A partir de então, entra em um intenso conflito psicológico. As coisas não se passam como imaginado. Acaba matando não apenas a velha, como planejado, mas também uma sua irmã que, inesperadamente, apareceu na cena do crime. Se apodera de pertences da agiota e os esconde em baixo de uma pedra em um local da periferia de Petersburgo, não fazendo uso deles.
Raskólnikov teria sido impelido ao crime ao estabelecer uma teoria segundo a qual se pode considerar lícito um crime aos espíritos superiores, como se considerava, desde que tenha um bom motivo, como se pudesse ser criminoso se o crime fosse convertido para o bem da sociedade, isto é, um crime seria justificado pelas boas ações que proporcionaria à sociedade.
No entanto, as coisas não se passam como imaginava. “Mas eis que a consciência do homem forte, que ele julgava ser, treme involuntariamente perante este fato que o espanta: aquela criatura desprezível, a velha agiota, era, apesar de tudo, um ser humano, e o que o rapaz fizera fora derramar o sangue desse ser. Para além da filosofia, atuavam agora a natureza e a realidade espiritual humana. Raskólnikov julgava-se apenas um cérebro em ação, mas afinal era também um homem dotado de corpo e de nervos, que, além desse cérebro, possuía também uma alma. E, se a razão planejara e aceitara o crime, a carne e a alma não o aceitam, repelem-no, insurgem-se e entram em conflito ardente com essa razão fria, acabando por se lhe imporem. É nessa luta que reside o verdadeiro castigo, a expiação, luta tremenda, cheia de suores e de delírios, de pavor e de febres, travada nas mais profundas camadas vitais da consciência luta que vai tocar as raízes misteriosas da origem sagrada, talvez divina, da própria humanidade”.
Creio que o grande tema de Crime e castigo é o sentimento de culpa, o conflito psicológico entre razão e sentimento, entre ideias e a moral, ética, tão bem incorporado pelo personagem central.

O sentido do romance

Para muitos estudiosos de Dostoiésvski, há ligações entre Crime e castigo e os anos que passou na prisão. Pessoas (e atitudes) com quem Dostoiévski se relacionou na prisão, teriam servido de base para alguns de seus personagens. O autor russo teria notado que muitos dos camponeses que estavam encarcerados eram pessoas calmas e dóceis mas que, por alguns motivo, em algum momento, perderam a paciência e cometeram um crime, como se tivessem bêbados, em delírio, como se, em um dia tivessem atravessado o limite do sagrado. Mas tão logo o acesso de fúria e delírio se passa, o criminoso se acalma e rapidamente retoma sua natureza dócil, original. É esse o modelo de Raskólnikov, embora ele não seja camponês, estando mais na condição de educado, de um intelectual.
Segundo Joseph Frank[1] não é tanto o assassinato em si que desencadeia o delírio de Raskólnikov, mas a ideia de “ultrapassar o limite do sagrado”. Logo que cometeu o crime o até então reticente estudante exibe raiva e ódio provocantes por todos aqueles que possam suspeitar dele e mesmo por aqueles que o auxiliam. Parece tronar-se uma outra pessoa, demonstrando uma vigorosa arrogância que surpreende até ele mesmo. “O que acontece a Raskólnikov é uma contrapartida moral-psíquica exata da transformação dos presos que se enfurecem contra todos”. P. 103
A decisão por matar a velha agiota, por sua condição de má, cruel e desumana, é justificada não por uma repulsa moral que demonstrasse repugnância da velha. Rascólnikov se convence da inutilidade da vida da agiota, sendo levado por um motivo utilitário e não, como se disse, moral. É esse o critério que confunde o jovem, que decide pelo assassinato para salvar seu projeto de terminar seu curso superior e para salvar a vida de sua família. Crime que seria compensado ao devotar o resto de sua vida a praticar boas ações, cumprido suas obrigações para com a humanidade.
Segundo Joseph Frank, é esse conflito entre o castigo moral de consciência e a nova moral utilitária que confunde Raskólnikov e molda a forma como Dostoiévski descreve a personalidade do protagonista do romance[2].
O utilitarismo egoísta é uma corrente filosófica, defendida na época por Tchernichévski, com quem Dostoiévski polemiza na década de 1860. O primeiro popularizou a ideia segundo a qual o critério supremo da moral era a utilidade. Os homens buscavam, portanto, o que lhes davam prazer e satisfazia seus interesses próprios, egoístas. No entanto, como os homens são também criaturas racionais, descobriram que a utilidade suprema consistia em identificar seus desejos pessoais com o bem-estar da maioria de seus pares. Finalmente, os radicais utilitaristas defendiam que apenas eles tinham a fórmula para a felicidade geral.
O personagem central do romance é usado para ridicularizar o utilitarismo. Este teria sido a causa de muita confusão e levado, na Rússia, jovens estudantes a cometerem crimes, acreditando que sua ação levaria à mudança da sociedade para melhor, uma vez que se julgavam os escolhidos e que seu projeto era o melhor para todos. Raskólnikov pode ser identificado como o protótipo disso. O utilitarismo teria obliterado de tal maneira a linha entre o bem e o mal, que poderia levar um jovem idealista sensível, revoltado com o sofrimento e a injustiça, a cometer um crime brutal.
Portanto, a natureza utilitária em Raskólnikov fornece a justificativa: pode-se matar um ser inútil por uma fortuna, desde que ela fosse usada para o bem. Assim, era possível passar por cima de qualquer ditame da consciência, diante da utilidade ninguém seria afetado por reguladores morais. Há, no personagem central, um conflito latente entre o desejo de mudar o mundo para melhor, a qualquer custo, e os velhos imperativos da moral cristã, sempre presentes nas obras do autor.
Crime e castigo foi escrito, portanto, dentro do clima ideológico da Rússia de meados dos anos 1860. Dostoiévski criou o personagem Raskólnikov para exemplificar os perigos do radicalismo egoísta. Os traços morais do caráter do personagem exemplifica o embate entre, de um lado, a bondade instintiva, a compaixão e a piedade e, de outro, o egoísmo orgulhoso dos radicais russos, chamados pelo autor de niilistas. O grande mistério do romance está nos motivos do assassinato cometido pelo personagem central. De um lado, o próprio Raskólnikov não entende por que motivo cometeu o crime e, de outro, toma consciência de que o propósito moral que supostamente o teria inspirado, não podia explicar sua conduta.
Logo no início do romance aparece em Raskólnikov o conflito entre sua intenção de matar e a resistência de sua consciência moral contra tirar uma vida humana. Conforme o romance avança, o Raskólnikov do início, um estudante sensível aos infortúnios, aos sofrimentos, dá lugar a outro personagem, frio e egoísta, indiferente e desdenhoso, insensível aos infortúnios que haviam estimulado sua piedade. A sua transformação se inicia quando começa a pensar no crime e, mais ainda, após cometê-lo. No entanto, essa transformação é passageira e, tão logo recupera sua consciência anterior, após os delírios pelos quais é acometido, associado simbolicamente pela dialética utilitarista, volta a seu estado anterior. O que domina em Raskólnikov, esclarece Joseph Frank[3], são as angústias e a força de consciência mesmo em meio a uma luta violentamente, egoísta, para manter a liberdade, e que o verdadeiro motivo do estudante foi unicamente testar se ele era, de fato, um piolho insignificante como os outros, se era uma trêmula criatura ou se tinha o direito de matar, se estava acima da lei moral, por se considerar um ser extraordinário, como um Napoleão, em contraste com a maioria das pessoas, apenas ordinárias.





[1] FRANK, Joseph. Dostoiévski: Os anos milagrosos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013.
[2] Idem, p. 108.
[3] Idem.