quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

A Idade Média nunca existiu: é um mito! Parte II

A terceira questão relacionada ao conceito de Idade Média e que considero importante para essa discussão, é a noção de periodização. Ela tem sua importância didática e o seu uso é inevitável, mas coloca também questões para o pesquisador e estudioso. A periodização é também uma construção, baseada em escolhas feitas pelo historiador, estabelecendo aquilo que deve ser lembrado/esquecido. As periodizações são construídas com base em características estabelecidas para determinado período. O caso da Idade Média talvez seja o mais significativo.
Estabeleceu-se para esse momento marcos divisórios que vão do século V ao século XV (mil anos). É preciso ter em mente que houve muitas rupturas, descontinuidade ao longo desse tempo, apesar das permanências, e que não se pode homogeneizar esse período com base em características comuns como fizeram os humanísticas do século XVI e os nacionalistas do século XIX. Também é preciso esclarecer que a Idade Média refere-se à história europeia e que os valores defendidos pelos personagens que a viveram não eram os mesmos em todos os lugares num mesmo tempo e nem durante todo aquele período.
Em quarto e último lugar, é preciso ter em mente que a produção sobre qualquer período histórico é fruto de escolhas dos historiadores, conscientes ou não, que produzem e, por que não dizer, inventam a história.
Concordamos com Le Goff quando propõe pensar a Idade Média de modo a historicizá-la em todas as suas facetas sem essa ou aquela intenção a priori, mas sim com o propósito de pensar o homem em seu tempo. Para ele, como para Marc Bloch, a “História é a ciência do homem no tempo”, e isso leva o trabalho historiográfico não para a identificação de fatos e pessoas, mas para a compreensão sobre as possíveis mudanças de um determinado contexto.
Embora os estudos sobre a Idade Média tenham se renovado, sobretudo a partir da chamada História Nova, e tenha inventado um outro conceito do medievo, que combate as visões cristalizadas, preconceituosas sobre o ele, permanece no imaginário uma visão negativa para caracterizá-lo. É que quase não há diálogo entre o que se produz na universidade e o Ensino Básico. Muitas vezes os livros didáticos demoram para incorporar essas novas produções e acabam reforçando visões estereotipadas, preconceituosas sobre a Idade Média, com algumas exceções, é bem verdade.
Dito de outra forma, embora tenha havido uma renovação no campo dos estudos medievais, desde Marc Bloch e Lucien Febvre, com a História Nova, que buscaram pensar a Idade Média com base na história das mentalidades, das imagens e gestos, do imaginário, alargando e problematizando o seu conceito, muitas vezes permanece a noção anterior, reforçada pelos manuais didáticos
Em primeiro lugar, nem sempre o conteúdo sobre Idade Média presente no livro didático é escrito por um especialista, o que contribui para falhas. Em segundo lugar, o mercado livreiro não deixa muito espaço para uma elaboração mais apurada dos conteúdos presentes nos manuais, o que acaba comprometendo a sua qualidade, levando à simplificações, construção de padrões gerais, lugares comuns já superados pela historiografia, o pouco cuidado na exploração dos documentos e que são reproduzidos, muitas vezes apartados dos textos, apenas em boxes, e com a iconografia colocada ali apenas para ilustrar, sem que sejam usadas para permitir a interpretação, o que daria ao aluno a possibilidade de se familiarizar com os procedimentos básicos do trabalho do historiador.
Muitas vezes também os professores de história do Ensino Básico têm como única ferramenta pedagógica, o livro didático, e acabam reforçando o que está escrito naquele suporte, entendendo-o como a única verdade, não buscando se apoiar na produção acadêmica.

É preciso reconhecer, no entanto, que há muitos bons livros didáticos e uma preocupação maior em incorporar os novos estudos. Para o seu uso, no entanto, é preciso ao professor estar atento para o fato de que para além da transmissão de conteúdos já cristalizados é imprescindível que os alunos compreendam que o conhecimento histórico é resultado de criação, da pesquisa, que comporta descoberta e invenção. O conhecimento histórico não pode ser encarado como um amontoado de fatos, nomes e datas, mas como uma disciplina que contribua para a formação intelectual do indivíduo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

A Idade Média nunca existiu: é um mito! Parte I

A rigor, seguindo a reflexão do historiador e medievalista, Jacques Le Goff[1], a Idade Média não existe. Esse período que é tradicionalmente compreendido entre a queda do Império Romano do Ocidente (476) e a Queda ou Tomada de Constantinopla (1453) não passa de uma construção, um mito, um conjunto de representações, de imagens em perpétuo movimento. O período medieval tem sido construído e reconstruído com diferentes objetos e por diferentes grupos.
            A segunda questão a ser levantada diz respeito ao fato de que o termo Idade Média tem uma história que precisa ser levada em consideração, sob pena de considerar as imagens construídas sobre ele como verdades atemporais. Nesse sentido, há inicialmente a imagem ou construção de duas Idades Médias. A primeira é aquela produzida pelos humanistas do chamado período moderno e carregada de estereótipos e preconceitos. É aí que nasce a noção de Idade Média como um período intermediário entre a Antiguidade clássica e a modernidade ou entre dois movimentos onde a cultura teria se desenvolvido. O período é caracterizado como aquele marcado por hábitos violentos e pela inexistência de uma produção cultural, presente ainda no imaginário de nossos alunos.
Buscando inspiração nos valores humanísticos da cultura greco-romana, os modernos produziram uma visão negativa da chamada, por eles, Idade Média, como um período de decadência e de atraso na história da humanidade, como a “idade das trevas” ou como “uma noite de mil anos”. Segundo o já citado Jacques Le Goff, quando os humanistas definiram como tempo intermediário o período compreendido entre eles próprios e a Antiguidade o fizeram tomando como parâmetro ideias como flagelo e ruína. Desta forma, para eles, o tempo compreendido entre a antiguidade e a modernidade, ou seja, a Idade Média, seria de atraso e vazio cultural. A Idade Média teria sido uma interrupção do progresso humano, inaugurado pelos gregos e romanos e retomados pelos homens do século XVI. Também para o século XVI os tempos “medievais” teriam sido de barbárie, ignorância e superstição. Visão reforçada e levada ao extremo pela filosofia iluminista do século XVIII na França ao estabelecer a razão humana como único guia infalível para a humanidade em detrimento do caráter religioso presente na Idade Média.
A segunda noção de Idade Média é construída no XIX com base numa visão romântica do medievo, cuja versão a transforma numa “idade da luz”. Essa construção ocorreu frente ao movimento nacionalista, sobretudo francês, que passou a buscar fatos e personagens medievais cujos valores fossem relevantes para a identidade nacional, como é o caso de Joana Darc, transformada em heroína. A Idade Média transforma-se assim numa espécie de infância dos primórdios da nacionalidade e que atinge sua idade adulta com o Renascimento.
Desta forma, cada presente construiu a noção de Idade Média segundo os interesses dos grupos envolvidos nessa produção. Nós historiadores estamos hoje conscientes do fato de que os homens visitam o passado com as questões do presente e que cada presente produz uma revisão do passado. O mesmo ocorre com os historiadores.
Seja entendida do ponto de vista negativo, como “Idade das Trevas”, seja do ponto de vista positivo, como “Idade da Luz”, ambas as noções têm sido negadas no sentido de uma apreensão mais abrangente do período medieval. Ao historiador, por exemplo, é preciso se despir dessas noções cristalizadas e na pesquisa entender o período com base em sua própria historicidade, o que não se trata de tentar buscar uma verdade melhor, como se ela existisse, mesmo porque nós historiadores estamos hoje conscientes de que o nosso discurso, embora partindo de uma operação metodológica extremamente complexa e apenas apreendida pelo iniciado, é, em parte, também, uma construção nossa. A noção de ciência objetiva, cujo modelo era o das ciências naturais, como queria o positivismo ou a Escola Metódica, já não tem mais espaço. O conceito de cientificidade adotado hoje pelos historiadores é outro e não descarta que a subjetividade é um componente da qual não podemos fugir embora façamos esforço para isso.

Continua...




[1] Ver LE GOFF, Jacques. Uma longa Idade Média. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008, e, LE GOFF, Jacques. Em busca da Idade Média. 6.ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2014

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Imprensa e cidade: o jornalismo no início do século XX em Ipu-Ce. Parte V

Depois da Gazeta, o jornal mais importante publicado em Ipu foi o Correio do Norte, que passou a circular a partir de 1º de janeiro de 1918, com o seu número de estreia. O seu nascimento foi anunciado ainda em 1917, quando Abílio Martins publicou um jornal datilografado fazendo a propaganda humorística daquele periódico, que logo nasceria. A grande novidade foi a compra em Sobral, pelos redatores do Correio, de uma oficina tipográfica para imprimir, inicialmente, a revista O Campo[1] e, depois, também aquele jornal.
Trabalhavam em suas oficinas gráficas Francisco das Chagas Paz (gerente-comercial), mais tarde também tipógrafo, Francisco Pilcomar Campos e Gessy França, contratados em Sobral e que exerciam as funções de tipógrafos e compositores. “Havia ainda dois meninos, arrebatadores para a aprendizagem no manuseio dos tipos: Francisco Mariano Mesquita (Peba) e José Oliveira Pombo (Zé Pombo)”. Em seguida, este último e João Mozart da Silva se tornariam, também, tipógrafos daquele estabelecimento. Fundaram e dirigiram inicialmente o jornal, Eusébio de Sousa e Abílio Martins. Estes foram os seus diretores no primeiro ano de circulação daquele periódico. Mais tarde, quando Eusébio de Sousa foi transferido de Ipu para assumir o cargo de juiz em outra cidade e Abílio Martins foi morar em Fortaleza, onde, em 1920 assumiu o cargo de chefe de polícia do Estado, o órgão passou a ser dirigido por Thomaz Correia, um de seus redatores desde 1º de janeiro de 1918[2]. Foram seus redatores, ainda, o médico, futuro prefeito de Ipu, Francisco das Chagas Pinto, Oswaldo Araújo, Manuel Dias Martins, Leonard Martin e João Bessa Guimarães.
            Organizando-se como um misto de empresa com uma produção artesanal, a Typographia d’O Campo, como foi batizada, trouxe para suas oficinas gráficas categorias profissionais, casos dos tipógrafos e compositores. Este fato revela um processo em que cada vez mais a mecanização da impressão estava se impondo. Embora não empregasse nos trabalhos técnicos do maquinário não mais do que 7 pessoas, já havia, no entanto, uma certa divisão e especialização do trabalho. O resultado foi um processo que permitia transpor para as páginas do jornal uma qualidade gráfica evidente, uma grande novidade em se tratando de um trabalho totalmente produzido em âmbito local. Com um novo maquinário, a tecnologia disponível permitia o uso de imagens e gravuras entre os textos, um avanço em relação ao jornal Gazeta do Sertão, no entanto, não tão explorado, talvez por encarecer os custos.
Igualmente o novo processo mecânico, ao que tudo indica, com a tecnologia da linotipo, permitia uma produção acelerada do processo de impressão e o aumento da tiragem, bem como o barateamento dos custos. É isso que explica, em parte, o fato do Correio do Norte sair rigorosamente toda semana, sem nenhum imprevisto.
Embora o Correio fosse produzido em oficinas próprias e contasse com uma tecnologia mais ou menos avançada para a época, sobretudo para um pequeno burgo, isso não é suficiente para se afirmar que, a partir de então, a imprensa local se organizava como uma empresa capitalista, característica apenas da chamada grande imprensa, que surgia nos grandes centros urbanos na virada do século XIX para o século XX, segundo propõe a análise feita por Nelson Werneck Sodré[3].
A tipografia foi instalada provisoriamente no pátio de uma casa que pertencia a Oswaldo Araújo. Dois anos depois, passou a ter sede própria em um prédio na Praça São Sebastião, local que foi a residência do Padre Feitosa, quando pároco da cidade. Mais tarde, no mesmo prédio, foi instalada a sede do Gabinete de Leitura.
            A Typographia d’O Campo não imprimia apenas a revista mensal O Campo e jornais, mas também cartões de visita, envelopes, faturas, memorandos, folhetos, convites e outros pequenos panfletos. Tais serviços eram anunciados nas páginas do jornal. Em um anúncio de um quarto de página, em letras grandes, os redatores ofereciam os serviços tipográficos disponíveis:

LEIAM
NOTAS PROMISSORIAS cartões phantasias, de visitas e participações, cartas, Facturas, Enveloppes, Memorandus e todo qualquer serviço Typographico faz-se na TYPOGRAPHIA D’O CAMPO.[4]





[1] SOUSA, Eusébio. A Imprensa do Ceará em 1918. Op. cit. Em nossa pesquisa não encontramos nenhum exemplar da revista mensal O Campo, que dá nome à tipografia.
[2] Segundo o Historiador Cearense Barão de Studart, Eusébio de Sousa foi o fundador e redator (diretor) do Correio do Norte, substituindo-o, logo depois, Abílio Martins: Sobre o periódico diz “O 1º nº é de 1 de janeiro. Fundador e redactor o Dr. Eusebio de Souza. Retirando-se para Fortaleza afim de tomar parte nos trabalho da commissão de Codificação das leis do estado, substituindo-o como redactor o Dr. Abilio Martins. Terminado o 1º anno de existência do “Correio do Norte”, assumiu a redacção o Cel. Th. Correa com a collaboração dos Drs. Abilio Martins, Chagas Pinto, Cel. Manoel Dias e João Bessa”. STUDART, Barão. Jornaes Publicados no Ceará em 1918. In: Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza. Fortaleza. Tomo. XXXIII, Ano XXXIII, 1919, p. 249-251, p. 249.
[3] SODRÉ, Nelson Werneck. A imprensa no Brasil. Op. cit.
[4] Correio do Norte. Ipu, p. 4, 19 fev. 1920.

sábado, 23 de janeiro de 2016

O livro didático de História: uma reflexão - Parte II



A principal questão a ser levantada, no entanto, diz respeito à concepção de história veiculada pelos livros didáticos. Embora avanços tenham sido notados no últimos anos, ainda são marcantes as lacunas e descompassos entre os novos paradigmas historiográficos e o que se vincula enquanto conteúdo dos manuais didáticos de História. Ele continua com um forte caráter alienador, já que se constitui em canal de transmissão e manutenção de mitos que povoam a história ensinada.
Pesquisas recentes têm demonstrado que a perspectiva de abordagem tradicional ainda é dominante na maioria dos manuais, com uma dimensão meramente informativa e que não valoriza o conhecimento histórico em seu aspecto construtivo. As narrativas são organizadas com base em recortes já consagrados, as fontes ganham caráter mais ilustrativo e não são exploradas numa dimensão que aproxime o aluno daquilo que preside o procedimento histórico. Nesse sentido, uma concepção de verdade pronta e irrefutável preside a obra. Em geral, as coleções que integram esse subconjunto mantêm coerência com a visão processual e evolutiva do tempo e das sociedade e não rompe com a clássica divisão eurocêtrica. Nesse sentido, coloca-se excessiva ênfase nos fatos e não na reflexão, perpetuando uma perspectiva enciclopédica, acumuladora de conteúdos, factual, portanto.
Isso se dá, porque há muitas vezes uma distância entre a produção acadêmica e a confecção dos livros didáticos. Estes, muitas vezes, não incorporam ou demoram a incorporar a produção no campo.
É preciso ter em mente que a narrativa não se confunde com o recorte de tempo estudado, pesquisado. A lógica da narrativa, como tem demonstrado Michel de Certeau e Keith Jenkins, é pertinente ao tempo de sua produção, o presente do historiador, e não ao tempo original do acontecimento. Nesse sentido, é preciso considerar o caráter construtivo da narrativa, cuja cientificidade não é dada pela busca da verdade, mas pela “operação historiográfica”, pela metodologia empregada na pesquisa. Os manuais didáticos, em sua grande parte, ao não incorporarei essa noção, própria do campo da história, estabelecem narrativas que se colocam como o próprio passado, cristalizando verdades não passíveis de discussão.
Nesse sentido, a maior parte dos livros didáticos de História não incorpora as revisões derivadas dos estudos contemporâneos no campo da pesquisa
            Ao analisar o livro didático como ferramenta que auxilia na qualidade do ensino básico, percebe-se pelo menos duas grandes vertentes sobre a concepção que deve nortear a sua produção. De um lado, estão aqueles que defendem que o manual pedagógico deva organizar o estudo do passado tendo como base levar ao entendimento do presente. Dito de forma diferente, o estudo do passado deve se justificar para levar o aluno a entender o mundo contemporâneo. Daí, deve-se se buscar, por exemplo, entender a democracia moderna, recuando à Grécia antiga onde o conceito nasce. 
           De outro lado, há aqueles que defendem que o estudo do passado deve ser feito por si mesmo e não simplesmente buscando entender as questões do mundo contemporâneo, como forma de compreender a lógica de organização das sociedades longínquas em seus próprios termos. Defendem que estudar o passado com base apenas nas questões do presente pode levar a incompreensões, não descartando, portanto, a possibilidade de se fazer comparações, o estabelecimento de permanências e rupturas no longo processo histórico. Essa atitude é defendida, sobretudo pelos estudiosos das sociedades longínquas, como a antiguidade, cuja lógica de organização só pode ser compreendido por sua cultura.
            Por isso, o livro didático deve ser encarado pelo professor como um recurso e não um meio pelo qual o ensino-aprendizagem se realiza. É preciso recuperar o papel do professor no processo educativo, e colocar o livro didático como um instrumento auxiliar e não como direcionar do ensino-aprendizagem, da perspectiva pedagógica e do currículo.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

O livro didático de História: uma reflexão - Parte I

Iniciamos hoje uma nova seção dedicada ao debate historiográfico, voltada mais às discussões nesse campo de estudo, destinada aos estudiosos de um modo geral e ao estudante de história em particular. Apresentaremos textos curtos e com uma linguagem mais acessível ao não iniciado. O texto de hoje faz uma reflexão sobre o livro didático de história, uma ferramenta que se tornou quase o único recurso pedagógico adotado pelos professores do ensino básico.
Boa leitura!

A primeira questão a ser colocada é de que o livro didático é material elaborado para nortear as práticas de mediação do conhecimento dentro das salas de aula no ensino básico. Tem como papel central auxiliar no processo pedagógico. É uma ferramenta produtora de conhecimento reconhecida pelas instâncias educacionais superiores. É amplamente utilizado pelos professores que, por vezes, preparam as suas aulas tomando-o como única referência ao transformá-lo no próprio currículo. Assim, os conteúdos a serem ensinados já estão selecionados previamente. Neste último caso, isso é resultado, em parte, de uma precária formação dos professores.
            Utilizado como única ferramenta na condução da aprendizagem na disciplina de história, coloca alguns problemas. Em primeiro lugar, no que se refere a forma pela qual apresenta os conteúdos, parte dos manuais didáticos trazem um conhecimento categórico, característica perceptível pelo discurso unitário e simplificado que reproduz o conhecimento, não deixando margem para a contestação. Ao expressar uma “verdade”, bastante impositiva, não abrem espaço para a contestação ou confronto[1].
            Em segundo lugar, como esclarece Circe Bittencourt[2], o livro didático é, antes de tudo, uma mercadoria, um produto do mundo da edição que obedece à evolução das técnicas de fabricação e comercialização pertencentes à lógica do mercado. É também, um suporte básico e sistematizador privilegiado dos conteúdos escolares elencados pelas propostas curriculares, além de ser, é verdade, um instrumento pedagógico e, finalmente, um veículo portador de um sistema de valores, de uma ideologia, de uma cultura.
            Como mercadoria, inserida nos ditames do mercados e da indústria cultural, o livro didático está sujeito a muitas interferências em seu processo de produção e vendagem. Para as editoras, por exemplo, importa menos a orientação metodológica ou ideologia contida em uma coleção e mais a sua capacidade de vendagem e adequação ao comprador. Nesse processo que envolve interesses diversos, nem sempre a preocupação com a qualidade do texto, exclusivamente acadêmica, é respeitada. O livro didático, como produto cultural, transmite o posicionamento de seu autores, expressam leituras, posicionamentos políticos, ideológicos e pedagógicos.
            Portanto, os manuais didáticos não são apenas ferramentas pedagógicas, mas também recortes de seleções culturais variáveis, de verdades a serem transmitidas às novas gerações, veiculador de visões de mundo de seu produtor.
            Os manuais pedagógicos possuem como objetivo a transposição dos saberes acadêmicos para o espaço escolar, consubstanciadas com base em textos, representações, imagens. A sua materialização envolve também concepções educacionais, políticas, sociais e pedagógicas que, em conjunto, transmite uma visão de mundo que determina a diagramação aplicada, a construção dos conteúdos, a estrutura da narrativa e os exercícios propostos[3].
            Um grande problema que podemos levantar é que os textos e imagens presentes no livro didático são geralmente percebidos como verdades históricas por partes não apenas dos alunos, mas também por parte dos docentes.

Continua...



[1] BITTENCOURT. Circe. Ensino de História: fundamentos e métodos. 2. ed. São Paulo: Cortez, 2008, p. 313.
[2] Idem.
[3] MARTINS, M. B. e MATOS, J. S. Ensino de história moderna no livro didático: representações dos gêneros. XXVII Simpósio Nacional de História. Disponível em: http://www.snh2013.anpuh.org/resources/anais/27/1371331576_ARQUIVO_EnsinodeHistoriaModernanoLivroDidaticoRepresentacoesdosGeneros.pdf>. Acesso em: 23 de jan. 2016.

domingo, 17 de janeiro de 2016

Para ler antes de morrer - A esfinge

Antes que me acusem de falar apenas de obras estrangeiras aqui, abro espaço também para discutir a literatura brasileira do século XIX e do início do século XX. Não começo com as obras consagradas, mas com um livro esquecido e pouco lido. Trata-se de a Esfinge, de Afrânio Peixoto. Descobri esta instigante obra, se não me falha a memória, em 2012, quando pesquisava sobre os salões e saraus do século XIX. A literatura se apresentava para mim como um discurso capaz de representar aqueles espaços. Daí o meu interesse pelo romance em questão, já que ele é ambientado nos salões mundanos, e cuja descrição é feita em detalhes. O autor, um frequentador daqueles espaços no Rio de Janeiro, então capital federal, apresenta-os como locais de intriga, espaços de discussões políticas, de questões econômicas, literárias e artísticas. Locais de flertes e de construção de alianças.

A Esfinge, romance de Afrânio Peixoto, editado em 1911 pela Livraria Garnier, tem como personagens centrais Paulo de Andrade, um escultor que mora no Rio de Janeiro, oriundo do interior da Bahia, e Lúcia, sua prima, moça de uma família carioca da alta sociedade, frequentadora dos salões, que virara moda no entresséculos (final do século XIX e anos iniciais do século XX), na capital federal, onde se passa a maior parte do romance.
            O enredo gira em torno da angústia de Paulo, que pretendia desposar Lúcia, que parece estimá-lo e amá-lo, mas que acaba se casando com um deputado de posses do Ceará, que a conhece nos bailes em Petrópolis, para onde a alta sociedade carioca se debandava na estação quente, para seus veraneios elegantes e atividades mundanas.
            Quase todo o romance é ambientado nos salões mundanos, cuja descrição é feita em detalhes, verdadeiro “documento histórico” destes ambientes, locais de intrigas pessoais, espaços de discussões políticas, questões econômicas, literárias e artísticas, de construção de alianças e de, principalmente, flertes: espaços de exibição das posses familiares, da última moda masculina e feminina e da sedução, onde a mulher parece brilhar e fazer o seu jogo de sedução.
No entanto, o autor, profundo conhecedor desse espaço mundano, pois foi frequentador deles, segundo nos diz Brito Broca[1], parece usá-lo para tecer críticas à alta sociedade, frequetadora desses locais: assim é que o tênis, os chás e os salões são apresentados como o momentos e locais dos flertes, das intrigas, dos olhares maldosos, dos comentários nada lisonjeiros. O salão é o local onde se revela a hipocrisia dessa sociedade, espaço para selar alianças e casamentos, em detrimento do amor: é assim que Lúcia, mulher apresentada como doce, meiga, prendada, aceita casar-se com Vicente Câmara, homem de posses, prestes a ser nomeado para o senado, sem apresentar por ele nenhum sentimento, senão admiração pelos seus galanteios, em detrimento de Paulo, que parece amá-lo, mas que é apenas um escultor sem fama.
            É assim também que é apresentada Wanda, prima também dos personagens centrais, ambiciona, que casa-se com Brandão, homem bonito, estimado nos salões e de fama afortunada.
            O próprio personagem central, Paulo, homem simples, porém de virtudes elevadas, que não suporta a alta sociedade e as rodas dos salões por sua hipocrisia e seus frequentadores maldosos, que só os frequenta para estar perto de sua amada, parece confirmar a convicção de que o autor usa o romance para tecer críticas severas à alta sociedade carioca de sua época, mais afeita às frivolidades do mundanismo do que às coisas mais sublimes como a própria arte, representada por Paulo. Este não suporta a alta sociedade, mais ainda após sua decepção, que o fez querer fugir daquele mundo, primeiro, buscando esquecê-lo, depois, buscando em sua arte uma razão de viver. “Vivia daí por diante para ela”. [2]
            Parece haver para o autor uma relação inversa entre arte e correspondência no amor. A decepção de Paulo parece fazê-lo grande artista, a satisfação de deu desejo, a correspondência do amor da prima, mata o artista dentro dele, resumido na frase de Dr. Lisboa, após visita a casa de Paulo e depois de este ter se encontrado com Lúcia e resolvidos os dois a vida em conjunto: “E pensei com tristeza: um grande artista de menos... um pobre pai de família de mais...” [3]
            No romance o autor denuncia a corrupção de parte da imprensa e certamente da imprensa mundana, isto é, que dá visibilidade a este mundo, estando a serviço de favores, deixando de ser “um sacerdócio” para se tornar uma “indústria” a serviço do capital, ataca a política republicana, representada por Câmara, como corrupta e que faz mal à nação, contesta a ideia da República como fomentadora do progresso e denuncia a dicotomia das ideias dominantes na época de, ora condenar a nação por sua “raça inferior”, ora defender o seu futuro promissor pelas riquezas que possui.
            O título do romance parece sugerir o próprio dilema de Paulo, a sua incessante busca pela satisfação amorosa (Lúcia) e pessoal (a arte), numa relação inversa: a Esfinge pode muito bem ser representada pela mulher; um verdadeiro enigma a ser decifrado. A mulher quando não decifrada engole o homem e torna-o um desgraçado. Paulo parece querer decifrar Lúcia, e, enquanto não o faz, é engolido por sua decepção, torna-se triste, mas se revela grande artista.
Quando, no final do romance, parece decifrá-la, é engolido por Lúcia, que resolve ficar com ele e, assim, mata, destrói o artista dentro dele. O talento do escultor está em sua decepção? A decepção na arte está na vida burguesa? Paulo parece ter sido engolido pela sociedade que não suportava. Foi engolido pela esfinge ou ao decifrar o enigma se tornou um homem desgraçado como o próprio Édipo? O criador foi engolido pela criatura?



[1] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. 4.ed. Rio de Janeiro: José Olympio: Academia Brasileira de Letras, 2004.
[2] PEIXOTO, Afrânio. A esfinge. 12.ed. São Paulo: Clube do Livro, 1978, p. 172.
[3] Idem, p. 198.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Para ler antes de morrer - Crime e castigo


Uma das grandes paixões que cultuo é a leitura de Romances. Os clássicos do século XIX me interessam mais. Dentre os autores desse período, Dostoiévski é um dos meus favoritos. Há razões para isso, mas que no momento guardo-as só para mim. Pode me chamar de egoísta, não me importo!
            A primeira leitura de Crime e castigo, no passado, me trouxeram sensações nunca vividas. É um livro fenomenal e leitura obrigatória para aqueles que, como eu, amam a boa literatura.
Crime e castigo, primeiro livro da série de grandes romances da maturidade de Dostoiévski, tem como personagem central um ex-estudante universitário, rapaz pobre e inteligente e que vive num cubículo miserável na periferia de São Petersburgo. Pela pobreza e falta de recursos é obrigado a abandonar os estudos. Nestas condições, passa a cogitar e estabelecer um plano para assassinar uma velha agiota, a quem considera um ser imprestável e que só traz mau, para se apossar de seu dinheiro e assim continuar com os seus planos, que consiste em se formar e ajudar sua mãe e uma irmã que, igualmente, vivem com poucos recursos. Raskólnikov, nome do personagem central do romance, acredita que a má ação, assassinar uma velha imprestável e prejudicial à sociedade, seria recompensada com as muitas boas ações que poderia levar a cabo com o dinheiro dela. Acredita que sacrificar um ser inútil e prejudicial a sociedade seria recompensada e justificada com o ato benéfico e útil que faria para essa mesma sociedade.
Raskólnikov estabelece um plano para assassinar a velha e se apoderar de seu dinheiro. A partir de então, entra em um intenso conflito psicológico. As coisas não se passam como imaginado. Acaba matando não apenas a velha, como planejado, mas também uma sua irmã que, inesperadamente, apareceu na cena do crime. Se apodera de pertences da agiota e os esconde em baixo de uma pedra em um local da periferia de Petersburgo, não fazendo uso deles.
Raskólnikov teria sido impelido ao crime ao estabelecer uma teoria segundo a qual se pode considerar lícito um crime aos espíritos superiores, como se considerava, desde que tenha um bom motivo, como se pudesse ser criminoso se o crime fosse convertido para o bem da sociedade, isto é, um crime seria justificado pelas boas ações que proporcionaria à sociedade.
No entanto, as coisas não se passam como imaginava. “Mas eis que a consciência do homem forte, que ele julgava ser, treme involuntariamente perante este fato que o espanta: aquela criatura desprezível, a velha agiota, era, apesar de tudo, um ser humano, e o que o rapaz fizera fora derramar o sangue desse ser. Para além da filosofia, atuavam agora a natureza e a realidade espiritual humana. Raskólnikov julgava-se apenas um cérebro em ação, mas afinal era também um homem dotado de corpo e de nervos, que, além desse cérebro, possuía também uma alma. E, se a razão planejara e aceitara o crime, a carne e a alma não o aceitam, repelem-no, insurgem-se e entram em conflito ardente com essa razão fria, acabando por se lhe imporem. É nessa luta que reside o verdadeiro castigo, a expiação, luta tremenda, cheia de suores e de delírios, de pavor e de febres, travada nas mais profundas camadas vitais da consciência luta que vai tocar as raízes misteriosas da origem sagrada, talvez divina, da própria humanidade”.
Creio que o grande tema de Crime e castigo é o sentimento de culpa, o conflito psicológico entre razão e sentimento, entre ideias e a moral, ética, tão bem incorporado pelo personagem central.

O sentido do romance

Para muitos estudiosos de Dostoiésvski, há ligações entre Crime e castigo e os anos que passou na prisão. Pessoas (e atitudes) com quem Dostoiévski se relacionou na prisão, teriam servido de base para alguns de seus personagens. O autor russo teria notado que muitos dos camponeses que estavam encarcerados eram pessoas calmas e dóceis mas que, por alguns motivo, em algum momento, perderam a paciência e cometeram um crime, como se tivessem bêbados, em delírio, como se, em um dia tivessem atravessado o limite do sagrado. Mas tão logo o acesso de fúria e delírio se passa, o criminoso se acalma e rapidamente retoma sua natureza dócil, original. É esse o modelo de Raskólnikov, embora ele não seja camponês, estando mais na condição de educado, de um intelectual.
Segundo Joseph Frank[1] não é tanto o assassinato em si que desencadeia o delírio de Raskólnikov, mas a ideia de “ultrapassar o limite do sagrado”. Logo que cometeu o crime o até então reticente estudante exibe raiva e ódio provocantes por todos aqueles que possam suspeitar dele e mesmo por aqueles que o auxiliam. Parece tronar-se uma outra pessoa, demonstrando uma vigorosa arrogância que surpreende até ele mesmo. “O que acontece a Raskólnikov é uma contrapartida moral-psíquica exata da transformação dos presos que se enfurecem contra todos”. P. 103
A decisão por matar a velha agiota, por sua condição de má, cruel e desumana, é justificada não por uma repulsa moral que demonstrasse repugnância da velha. Rascólnikov se convence da inutilidade da vida da agiota, sendo levado por um motivo utilitário e não, como se disse, moral. É esse o critério que confunde o jovem, que decide pelo assassinato para salvar seu projeto de terminar seu curso superior e para salvar a vida de sua família. Crime que seria compensado ao devotar o resto de sua vida a praticar boas ações, cumprido suas obrigações para com a humanidade.
Segundo Joseph Frank, é esse conflito entre o castigo moral de consciência e a nova moral utilitária que confunde Raskólnikov e molda a forma como Dostoiévski descreve a personalidade do protagonista do romance[2].
O utilitarismo egoísta é uma corrente filosófica, defendida na época por Tchernichévski, com quem Dostoiévski polemiza na década de 1860. O primeiro popularizou a ideia segundo a qual o critério supremo da moral era a utilidade. Os homens buscavam, portanto, o que lhes davam prazer e satisfazia seus interesses próprios, egoístas. No entanto, como os homens são também criaturas racionais, descobriram que a utilidade suprema consistia em identificar seus desejos pessoais com o bem-estar da maioria de seus pares. Finalmente, os radicais utilitaristas defendiam que apenas eles tinham a fórmula para a felicidade geral.
O personagem central do romance é usado para ridicularizar o utilitarismo. Este teria sido a causa de muita confusão e levado, na Rússia, jovens estudantes a cometerem crimes, acreditando que sua ação levaria à mudança da sociedade para melhor, uma vez que se julgavam os escolhidos e que seu projeto era o melhor para todos. Raskólnikov pode ser identificado como o protótipo disso. O utilitarismo teria obliterado de tal maneira a linha entre o bem e o mal, que poderia levar um jovem idealista sensível, revoltado com o sofrimento e a injustiça, a cometer um crime brutal.
Portanto, a natureza utilitária em Raskólnikov fornece a justificativa: pode-se matar um ser inútil por uma fortuna, desde que ela fosse usada para o bem. Assim, era possível passar por cima de qualquer ditame da consciência, diante da utilidade ninguém seria afetado por reguladores morais. Há, no personagem central, um conflito latente entre o desejo de mudar o mundo para melhor, a qualquer custo, e os velhos imperativos da moral cristã, sempre presentes nas obras do autor.
Crime e castigo foi escrito, portanto, dentro do clima ideológico da Rússia de meados dos anos 1860. Dostoiévski criou o personagem Raskólnikov para exemplificar os perigos do radicalismo egoísta. Os traços morais do caráter do personagem exemplifica o embate entre, de um lado, a bondade instintiva, a compaixão e a piedade e, de outro, o egoísmo orgulhoso dos radicais russos, chamados pelo autor de niilistas. O grande mistério do romance está nos motivos do assassinato cometido pelo personagem central. De um lado, o próprio Raskólnikov não entende por que motivo cometeu o crime e, de outro, toma consciência de que o propósito moral que supostamente o teria inspirado, não podia explicar sua conduta.
Logo no início do romance aparece em Raskólnikov o conflito entre sua intenção de matar e a resistência de sua consciência moral contra tirar uma vida humana. Conforme o romance avança, o Raskólnikov do início, um estudante sensível aos infortúnios, aos sofrimentos, dá lugar a outro personagem, frio e egoísta, indiferente e desdenhoso, insensível aos infortúnios que haviam estimulado sua piedade. A sua transformação se inicia quando começa a pensar no crime e, mais ainda, após cometê-lo. No entanto, essa transformação é passageira e, tão logo recupera sua consciência anterior, após os delírios pelos quais é acometido, associado simbolicamente pela dialética utilitarista, volta a seu estado anterior. O que domina em Raskólnikov, esclarece Joseph Frank[3], são as angústias e a força de consciência mesmo em meio a uma luta violentamente, egoísta, para manter a liberdade, e que o verdadeiro motivo do estudante foi unicamente testar se ele era, de fato, um piolho insignificante como os outros, se era uma trêmula criatura ou se tinha o direito de matar, se estava acima da lei moral, por se considerar um ser extraordinário, como um Napoleão, em contraste com a maioria das pessoas, apenas ordinárias.





[1] FRANK, Joseph. Dostoiévski: Os anos milagrosos. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2013.
[2] Idem, p. 108.
[3] Idem.