quinta-feira, 24 de novembro de 2016

O pai e o décimo quarto filho

Era para ser um dia alegre, feliz, mas foi de uma imensa decepção. Acabara de pegar o ônibus em Icaraí, Niterói, no Estado do Rio de Janeiro - onde estava vivendo fazia alguns meses, ou seria semanas? Não lembro, mas isso não fará diferença alguma sobre aquilo que quero contar - em direção a São Gonçalo. Ia de encontro ao meu pai. Tinha dezoito anos e a última vez que o vira havia sido quando ainda tinha apenas oito anos. Não me lembro o ano, nem o mês e muito menos o dia. Minha revolta foi tal, que não faço nenhum esforço para descobrir. Para falar a verdade, ia conhecer meu pai naquele dia. Logo entenderá.
Estava de peito aberto e acreditava que a partir dali teríamos uma relação de pai e filho, como nunca havíamos tido.
A história que me contaram foi que meu pai saiu de casa quando eu ainda tinha dois meses de idade ou talvez dois anos. Nunca quis confirmar essa história. Por quê? Não me pergunte, pois não sei. Na verdade nem quero saber. Se descobrir, por favor, não me diga! Desculpe a arrogância, é que às vezes pensar sobre isso me aborrece.
Homem de poses, segundo contam – talvez isso seja só lenda - havia virado a cabeça e se tornado um mulherengo, o que o teria arrasado. Dizem que no famoso cabaré do Ipu, quando ia, logo mandava fechá-lo. Naquele dia tudo seria por sua conta. Negligenciado os negócios (tinha alguns comércios, dentre eles uma padaria, onde funcionava um alambique, produzindo uma tal cachaça ou vinho, sucesso de vendas). Não teria sabido lidar com uma vida de fortuna. Logo caíra nos braços de “mulher fácil” e na bebedeira. Pode até ser que nada disso seja verdade, mas foi como me contaram. Para mim, é a verdade.  Nunca soube de sua versão dos fatos.
 Arruinado, e com vergonha talvez de sua nova condição, vendera tudo, inclusive a própria casa onde morávamos, que pertencia a minha mãe, e se mandara para o Rio de Janeiro, levando consigo alguns dos filhos mais velhos, e deixando esposa com uma “reca de menino”. Eu era apena o mais novo de uma tropa de quatorze. Posso imaginar o desespero ou frustração de minha mãe, que teve de se virar para sustentar um “time de futebol”, com reservas no banco e tudo, costurando para fora, ofício que deve ter aprendido em casa. Afinal, naquele tempo, estavam reservado às mulheres os afazeres de casa. Cozinhar, lavar, coser, fazer crochê, eram ofícios de uma boa dona de casa. Mulher que estudava, por exemplo, não era bem vista por muitos naquela sociedade, poderia desviá-la de seus papeis sociais que, em resumo, eram os de ser dona de casa, esposa e mãe.
Apenas aos oito anos vi meu pai pela primeira vez. E dez anos depois se alguém me pedisse para descrevê-lo fisicamente não saberia fazê-lo, não me lembrava como era. Se me perguntasse sobre o seu comportamento, pior ainda. Parece que o tempo se encarregou de apagar qualquer lembrança que tivesse sobre ele ou talvez fosse criança demais para guardar alguma coisa.
Naquela época, ao que parece, havia se separado da família que constituíra em São Gonçalo: esposa e duas filhas. Tentara a reconciliação com minha mãe e os filhos do primeiro casamento. Imagina como deve ter sido a viagem, de mais de três dias, dentro de um ônibus desconfortável, uma Itapemirim, de fabricação talvez dos anos 1970. As estradas deviam ser uma maravilha! Lembro apenas que me diverti muito, não sei bem como, sem também saber direito o que acontecia ou, ao certo, para onde estava indo. Éramos uma imensa família, com mais de dez pessoas, indo embora. Quanta galinha assada e farofa para comer naqueles dias!
 Não sei se nos recebeu de braços abertos. Todos fomos morar no Estado do Rio. A reconciliação durou apenas seis meses: o que aconteceu, não sei. Nunca ninguém me contou e nem tive vontade de perguntar.
Parece até que, involuntária ou voluntariamente, esteja tentando enterrar esse passado. Por que então, agora, resolvi escrever sobre isso? Sei lá! Somos mesmo seres contraditórios.
Voltava então, para o Ceará, de onde nunca devia ter saído, minha mãe com apenas parte dos filhos que levara. Outros ficaram lá. E o rebanho sob sua saia ia diminuindo, aos poucos.
Não tenho uma só lembrança com meu pai durante aqueles seis meses. É incrível isso! De forma que não o conheci, de fato.
Mas aos dezoitos anos surgira a oportunidade. Olhando retrospectivamente, era apenas uma criança, ingênua, mas cheia de sonhos de grandeza. Ia para o Rio de Janeiro com uma ilusão tão grande, com uma vontade de vencer! Vencer o quê? Nem mesmo eu sabia! Naquele ano que saí de casa fiz algumas promessas somente para mim, tudo que gostaria de fazer e conquistar. São coisas íntimas demais para expor aqui. Mas não é nada do que está pensando! Todas conquistei, mas não sem esforços, ou dores ou sem abrir mão de alguma coisa.
Estava tão feliz e esperançoso, radiante e motivado: finalmente ia conhecer meu pai e acreditava que a partir dali construiríamos uma relação profícua.
Descemos do ônibus, aquele mesmo que havia pego naquela manhã. Fomos direto a casa do velho, onde morava com a sua segunda família. Havia reatado com sua segunda esposa. Era aquela mesma casa onde por seis meses moramos. O mais engraçado é que não a reconheci. Não podia ser a mesma sala, o mesmo quarto, a mesma cozinha. Nada me trazia lembrança. Também não reconheci meus antigos amigos, que ao saber que lá estava aquele amigo de antes, “o paraíba”, foram me ver. Ainda se lembravam de mim. As suas imagens eram tão diferentes das poucas lembranças que guardei que fiquei atordoado. Olhava para eles e tentava buscar as semelhanças, mas não havia nenhuma. Não consegui entender nada.
Lá meu pai não estava. Mas conheci minhas duas irmãs, por parte de pai, e sua segunda esposa. As meninas se pareciam fisicamente tanto com as minhas outras irmãs! Lembro que foi uma conversa bem agradável, apesar do constrangimento que devo ter causado. Que ousadia, um dos filhos legítimos do velho ir à casa de sua segunda esposa?
Como ele não chegava, fomos, eu e meu irmão que lá me levara, até o bar onde estava trabalhando. Era o dono. Nome do estabelecimento? “Vitorino’s bar”.
Lá chegando, ele estava jogando sinuca com amigos ou clientes. Era um bar bem pequeno, sem muitos atrativos, de poucos clientes, muito parecido com todos esses bares onde se vai para beber um cafezinho depois do almoço, jogar conversa fora ou tragar um pinga! Meu irmão me anunciou e a alegria sincera, ingênua e o sorriso que estavam no meu rosto logo se dissiparam. Meu pai nem sequer olhou no meu rosto! Continuou a jogada que ia fazer, debruçado sobre a mesa, apontando o taco para a bola da vez e, poool! Não me deu atenção, não quis conversa, e, com naturalidade, continuou jogando e conversando ao mesmo tempo. Parecia que eu nem estava ali.
Percebi que não era bem-vindo. Chorei por dentro. Fui embora com uma angustia tal e com um vazio interior sem igual, como nunca havia sentido antes. O mundo parecia que se acabara ali, naquele momento.
Descobri que nunca tive pai!

Foi a maior decepção de toda a minha vida. Nunca mais o procurei.