terça-feira, 6 de dezembro de 2016

A Revolução dos Bichos

Fazia tempo que a Revolução dos Bichos estava na minha lista de livros a serem lidos. Semana passada chegou a vez dele. Como fui capaz de esperar tanto tempo? É inadmissível, para mim, que ainda não o tivesse lido. Mas a verdade é que outras obras estavam na sua frente e demorou um pouco até que chegasse nele. O li em dois dias, tão instigante foi a leitura. Como já disse, a literatura é uma grande paixão que cultivo e esse pequeno livro já entrou para o hall daquelas obras que se deve ler antes de morrer.
A linguagem adotada é deliciosa, envolvente e prende a atenção. Apesar de ser uma fábula, apresenta uma analogia gritante, às vezes irritante, no bom sentido, com a realidade histórica.
Vou adotá-lo como leitura obrigatória em alguns cursos que ministro, quando for discutir o totalitarismo stalinista na Rússia.

Grande obra

A Revolução dos Bichos, livro de George Orwell, pseudônimo para Eric Arthur Blair, foi publicado em 1945, após ter sido recusado por vários editores. É uma espécie de denúncia do mito soviético, com base numa história de fácil compreensão, em que os bichos, personagens centrais do romance, se revoltam contra a exploração dos humanos e buscam construir uma sociedade igualitária, mas acabam caindo numa nova escravidão ainda mais impiedosa nas mãos de seus semelhantes, os dirigentes dessa nova sociedade, personificados nos porcos, uma espécie de intelligentsia. 
O expediente usado pelo autor, para denunciar os rumos da Revolução Russa, é o das fábulas tradicionais, isto é, o uso de animais para representar os homens.
A Revolução dos Bichos é, portanto, uma sátira feroz da ditadura adotada por Stalin na Rússia socialista, uma denúncia aos rumos que tomaram a R  evolução naquele país. A ambição do autor era analisar a teoria de Marx do ponto de vista dos animais.
O enredo é construído com base numa analogia quase explicita entre a Granja dos Bichos, antes da Revolução era chamada Granja do Solar, local onde os fatos se desenrolam, e a Rússia socialista, sob a liderança de Stalin. Quem conhece um pouco da história do socialismo soviético identifica, claramente, os fatos que se passam na Granja dos Bichos.
Os bichos vivem na opressiva fazenda do sr. Jones, no momento em que são convidados para ouvir o último discurso do velho porco, animal respeitado por todos ali. Trata-se do velho Major. Este analisa a vida de provação e sacrifício dos animais, a forma como são explorados pelos humanos e como eles, que trabalham e produzem, não ficam com os seus frutos. Estes são apropriados pelos humanos, que os exploraram com o objetivo de produzirem sua riqueza.
No final, pede que todos os animais se unam e façam uma revolução com o objetivo de derrubar seus exploradores e construírem uma sociedade baseada na ajuda mútua e na coletivização da propriedade. Propõe um hino, caso a revolução seja vitoriosa, “Bichos da Inglaterra”, para servir como sua versão da “Internacional Socialista”. Mesmo morrendo, sua mensagem, baseada nas ideias de Karl Marx - ou ele representaria o próprio Marx? - logo é adotada pelos porcos mais cultos, a intelligentsia do mundo animal. Forjam uma aliança entre os cavalos Sansão e Quitéria, que eram fortes, e representavam o proletariado, e os elementos representantes dos trabalhadores do campo e da classe média, personificados nas ovelhas, vacas e galinhas, e outras forças dos pastos e do quintal. Somente a égua Mimosa, uma espécie de tipo pequeno-burguês, e Moisés, um corvo, de fala fácil e eloquente, que prega a existência de um mundo além do céu, se mantêm indiferentes.
Numa série de batalhas, o proprietário da Granja, o sr. Jones, é expulso, e sua tentativa de retomar a propriedade, com a ajuda de outros proprietários de Granjas, próximas, alarmados com o exemplo da Granja dos Bichos, é, mais uma vez, derrotado.
Começa então um período de construção, acompanhada de isolamento e perigo e da sensação de que os porcos, líderes da revolução, tinham se apoderado de uma fatia excessiva de poder e privilégios.
Os paralelos com o governo de Stalin são evidentes: a excomunhão dos dissidentes, a reescrita da História, os julgamentos espetaculares, a coletivização da produção e a fome que a acompanha e as execuções em massa. O porco Napoleão representa, obviamente, Stalin, que expurga e manda para o exílio aquele que representava um obstáculo ao eu poder, o porco Bola-de-Neve, que representa Trotski. Este, não apenas cai em desgraça, jogado na lama e transformado em inimigo da Revolução. A história reescrita trata de apresentá-lo como um aliado aos inimigos da Revolução.
A história termina com os animais reunidos, do lado de fora, observando um banquete entre os porcos, dirigentes, e os seres humanos. Nisso, são incapazes de distinguir entre porcos e humanos (quem seriam os mais opressores?). Era uma clara referência sarcástica ao então encontro de Teerã, em 1943, reunindo Churchill, Roosevelt e Stalin, combinando uma coordenação dos ataques soviéticos à Alemanha nazista com o iminente desembarque dos aliados na Normandia. Na visão de Orwell, aquilo não passava de uma reunião cínica destinada à divisão dos espólios da guerra.
Os bichos, em nome da Revolução, de uma vida mais igualitária e na promessa de segurança acabaram, como na Rússia stalinista, ficando sem uma nem outra.

O uso político do romance

Recusado por vários editores, mas uma vez que foi publicado, o romance causou mal-estar entre os literatos e a elite política da época, pois foi percebido como uma sátira feroz do stalinismo. Ora, os soviéticos eram aliados das democracias ocidentais contra o nazifascismo. Uma crítica aos aliados não caia bem naquele momento. O desconforto era agravado pelo fato de os líderes da Granja dos Bichos serem os porcos, o que era visto como uma ofensa aos dirigentes russos.
Com a Guerra Fria as coisas se inverteram. Os capitalistas ocidentais passaram a usar a fábula como arma ideológica anticomunista, situação que era incomoda para o próprio autor, que se dizia socialista ou seu simpatizante, estando descontente pelo desvirtuamento do socialismo da União Soviética stalinista.


Referência.

ORWELL, George. A revolução dos bichos: um conto de fadas. São Paulo: Claro Enigma, 2012.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Escola Auton Aragão é referência na educação ipuense

Fonte: ipunoticias.com.br
A centenária escola de Ensino Médio, Auton Aragão, localizada no centro de Ipu-Ce, recebeu o prêmio do Programa Aprender pra Valer. Aprender Pra Valer é um programa do governo do Estado do Ceará e tem por finalidade a elevação do desempenho acadêmico dos alunos do Ensino Médio, com vistas à aquisição dos níveis de proficiência adequados a cada série/ano, bem como a articulação deste nível de ensino com a educação profissional e tecnológica.
A escola Auton Aragão se destacou na consolidação de competências avançadas de leitura e de raciocínio lógico-matemático, nos resultados do Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará (SPAECE), dentre outros critérios de avaliação do programa.
O resultado coloca a escola Auton Aragão como o 3º melhor estabelecimento de ensino secundário, em aprendizagem, entre as 575 escolas estaduais do Ceará.
Além das homenagens, os servidores da escola receberão ainda, como prêmio, o 14º salário.
Para o professor Antonio Vitorino, docente da escola, o resultado não é de todo uma surpresa. Por três anos consecutivos a escola já vem se destacando em 1º lugar, entre as escolas estaduais regulares de Ipu, no resultado do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM). Enfatizou que na última edição do exame (2015), entre as 32 escolas estaduais da região da Ibiapaba, ficou na nona colocação.
Perguntado sobre qual é o segredo do sucesso da escola, o professor Vitorino, como é mais conhecido, enfatizou que dos muitos fatores que poderiam ser apresentados para justificar o feito inédito da escola, estão dois. Disse que, de um lado, tem-se a gestão da escola, comprometida com a aprendizagem do aluno, e, de outro, um corpo docente não apenas qualificado, o que é essencial, mas que, em sua maioria, já está lecionando ali há um bom tempo, algo que permite uma continuidade de um trabalho que começa lá no 1º ano do Ensino Médio.
 A escola tem também apresentado resultados positivos no desempenho dos alunos nos exames de vestibulares, com destaque para aquele realizado pela Universidade Estadual Vale do Acaraú (UVA-Sobral). Segundo matéria publicada no site de notícias Ipunotícias, Auton Aragão é a “maior Escola em inscrição e aprovação no Vestibular da UVA”.
Os resultados dos alunos da escola Auton Aragão a consolidam como estabelecimento de referência na educação secundária na cidade de Ipu e no estado do Ceará.




sábado, 3 de dezembro de 2016

O Trem e a cidade: livro conta a história do Ipu nas décadas iniciais do século XX

O trem e a cidade, livro do professor e historiador, Antonio Vitorino, discute e analisa como a ferrovia foi importante para produzir transformações de ordem social, econômica e cultural na cidade de Ipu e, também, como as mudanças propiciadas pelo trem foram experimentadas por estratos sociais que viviam ali nas primeiras décadas do século XX.
Para o autor, a cidade de Ipu, entre fins do século XIX e as três primeiras décadas do século XX, teria passado por mudanças significativas, sobretudo no que se refere à economia, à sociedade e à cultura, ligadas estreitamente ao advento da ferrovia. Teria sido o início de uma fase de expansão comercial e também urbana, possíveis, mesmo, com a locomotiva. Esta fez surgir novos bairros, novas ruas e traçados. Deslocou o eixo central do “velho povoamento” para um novo em torno da estação ferroviária. A ferrovia veio incrementar o comércio e a produção agropecuária locais e, também, da região a sua volta. Contribuiu para transformar a cidade em um polo de atração de toda a produção econômica das regiões circunvizinhas a Ipu. Com a chegada do trem a sociedade se transforma ou pelo menos parte de sua elite. Novos hábitos e códigos sociais são buscados.
O autor revela aspectos interessantes da história e da sociedade ipuenses das três primeiras décadas do segundo XX.
O livro é resultado de uma pesquisa realizada entre os anos de 2005 e 2007 no curso de pós-graduação realizado pelo autor.
Escrito em linguagem acessível e leve, a obra é indicada para estudantes de todos os níveis, para os pesquisadores e amantes da história do Ipu.
Leia abaixo, resenha escrita por Raimundo Alves de Araújo, professor, historiador e doutorando em História pela Universidade Federal Fluminense:

"O trabalho do professor e Doutor em História Antonio Vitorino Farias Filho, tal como um “Prometeu acorrentado”, vem pioneiramente lançar luz sobre a face obscura da história da modernização nos interiores do Estado do Ceará na virada do século XIX para o século XX. Tomando a cidade de Ipu (localizada no Noroeste do Estado) como palco privilegiado para suas investigações e fazendo uso das modernas teorias da História Social ligadas à tradição da escola francesa, Farias Filho nos vem oferecer uma profunda e enriquecedora análise acerca da inserção e da maturação, nos interiores do Ceará (na pequena cidade de Ipu do entresséculos), do avassalador processo de modernização ocidental. Processo este que teve, segundo o autor, na Estrada de Ferro de Sobral a sua principal afirmação. Distanciando-se dos arquétipos do “sertão eternamente flagelado”, “bandoleiro”, “retirante” ou “fanático” (que segundo Durval Muniz em seu clássico A Invenção do Nordeste teriam sido inventados pela literatura ficcional dos anos 1930), o trabalho pioneiro do autor vem oferecer ao leitor – acadêmico ou não – um novo olhar sobre os sertões do Ipu e de sua região. Um trabalho que nada deixa a dever aos melhores produzidos em Fortaleza ou mesmo no eixo Rio-São Paulo. Esta publicação é desbravadora, mostrando-se fundamental para o público acadêmico de universidades como a UVA, o INTA, a URCA e demais instituições de ensino superior, radicadas nos interiores do Estado do Ceará, do presente momento. Mas esta publicação também se destina ao público leitor menos especializado, que visa apenas compreender pela pena de um historiador local o processo de modernização dos interiores do Ceará do período aludido.
Tenha uma boa leitura".
Raimundo Alves de Araújo.

Título: O trem e a cidade
Autor: Antonio Vitorino Farias Filho 
Editora: SertãoCult
102 Páginas
Preço: R$: 15,00
Contato e encomendas: 9.9901-7773