terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Tempos difíceis. (Para ler antes de morrer)

Um dos grandes autores da literatura inglesa do século XIX, na chamada Era Vitoriana, foi Charles Dickens, também tido como um dos principais romancistas do realismo. Em seus romances dá visibilidade aos problemas sociais da Inglaterra, como o desemprego, a violência, as condições de trabalho nas fábricas, a prostituição, dentre outros, durante o período da chamada Revolução Industrial.
Tempos difíceis é um desses romances engajados, do escritor inglês, que expõem as questões sociais geradas pelo avanço da industrialização durante o século XIX. Vale muito a pena ler.

            Tempos difíceis, décimo segundo romance de Charles Dickens, tem como cenário a Inglaterra durante a chamada Revolução Industrial. O autor cria uma cidade fictícia, de nome Coketown, e um enredo singular, para discutir, a meu ver, questões centrais daqueles anos de grandes transformações. Nele, empreende uma crítica profunda das condições de trabalho, evidenciando o contraste entre a extrema pobreza da classe trabalhadora e o conforto em que viviam os industriais da Era Vitoriana, século XIX.
            Na obra o autor empreende um esforço para retratar a vida miserável dos trabalhadores, das pessoas comuns, daquele período, enfatizando as diferenças entre classes, condições de trabalho e formas de educação.
            Um dos personagens centrais é o sr. Thomas Grandgrind, um homem de fatos e cálculos. Proprietário de uma escola, busca moldar os espíritos de seus alunos, e de seus dois filhos, dentro dos preceitos do mais puro racionalismo e método matemáticos, na qual tudo pode ser medido e interpretado com base em fatos e estatísticas. Para ele, apenas os fatos lhe interessam, não importando sentimentos (subjetividade) e nem a imaginação (sensibilidade). Isso contrasta com a menina Sissy Jupe, filha de um palhaço do circo e que a matricula na escola modelo. Enquanto Grandgrind defende uma educação científica, o pai de Sissy vive da arte e de fazer as pessoas rirem. Abandonada pelo pai, Sissy passa a morar com o senhor Grandgrind, que pretende educá-la segundo o seu modelo, não obtendo sucesso, uma vez que ela dar vazão aos seus sentimentos e imaginação.
            Parece que Thomas Grandgrind foi criado, por Dickens, para satirizar os valores iluministas e positivistas da classe burguesa ou a ideia que a razão podia dar conta de tudo, aquela capaz de produzir conhecimento, tecnologia, progresso e a felicidade geral. Tal é a forma como pensa o industrial Josiah Bounderby, ao defender que seus operários são todos felizes e vivem bem não tendo, portanto, motivos para revoltas. Qualquer insubordinação deveria ser punida com severidade.
            As alegorias criadas (a escola da cidade, onde só os fatos interessavam, a fábrica e suas chaminés, vomitando fumaça e tornando a cidade e seus tijolos em negra cor, o circo do sr. Sleary, com sua trupe, e a posição entre o industrial e seu honesto funcionário, Stephen Blackpool) parecem ser estratégias que permitem ao autor fazer uma crítica severa à mentalidade capital, onde só os números e os fatos eram importantes, e à exploração da força de trabalho, que pareciam, aos olhos de Charles Dickens, estar destruindo a criatividade humana e a alegria das pessoas. A alegria e os sentimentos iam contra a racionalidade capitalista e eram vistas como fraquezas e que deveriam ser combatidas, daí o desprezo pela imaginação e pela trupe que acompanhava o circo, local para “vagabundo”.
            Na visão de Grandgrind e do industrial Bounderby, defensores dos fatos e das estatísticas, a escola e o sistema educacional deveriam moldar os corpos e os espíritos das crianças para os fatos e para a obediência, desviando-as da imaginação e dos sentimentos.
            Na escola modelo do sr. Grandgrind, tudo que não for ciência não serve. À sua filha, Louisa, sempre diz “nunca imagine”. Seu filho Tom, parece se dar conta, desde o início, de que tal sistema não leva à felicidade e, logo, às escondidas, parece fugir de seus preceitos.
Grandgrind, cegamente apegado aos fatos, é o tipo de personagem cômico. Mas ao longo da narrativa vai sendo humanizado, a ponto de, no final, se dar conta de que seu sistema, por meio do sofrimento da filha, não é dos melhores. Louisa é, talvez, a grande personagem do romance. Ela é uma espécie de vítima do sistema adotado por seu pai. Educada segundo os princípios das ciências naturais, da objetividade, foi impedida de qualquer diversão na infância e de mesmo imaginar. Privada dos sentimentos, cairá num casamento arranjado. Parece que Louisa é vítima daquilo que Dickens via como equívoco do século XIX: um sistema econômico que dava valor a apenas números e esquecia da humanidade das pessoas.
 No romance, os operários são vistos, pelos patrões, como “as mãos” das fábricas, uma massa de trabalhadores sem rostos e sem identidade definida. Eles existem como números. Aí é que aparece um operário, personificação dos demais trabalhadores, desgraçado, porém honesto e leal aos seus companheiros, e que é levado à morte pela insensibilidade e ganância de seu patrão que vê, sempre, em seus empregados, potenciais arruaceiros e descontentes.
Tom, filho mais novo do sr. Grandgrind, e insensível, privado de uma educação que enxergasse a humanidade das pessoas, bola um plano para incriminar um trabalhador pobre e honesto, pelo crime que ele mesmo cometeu. Roubou o banco de seu bem feitor, para saudar dividas de jogo. A vítima de sua insensibilidade é Stenphen Blackpool. Este vive uma vida de infortúnios: tem uma esposa alcoólatra, que não mais suporta, e nutre uma paixão por Rachael, também operária, com quem divide suas tristezas.
Creio que o grande tema de Tempos difíceis é a desumanização proveniente das transformações econômicas propiciadas por aquilo que se convencionou chamar de Revolução Industrial, produzindo um número pequeno de industriais enriquecidos com a exploração do trabalhador fabril.
Enquanto Grandgrid é um sujeito bem intencionado, apesar de cômico, Dickens cria o personagem do sr. Bounderby, industrial e banqueiro, arrogante, insensível, estúpido e cruel. É a figura que se orgulha de sua suposta origem humilde e de que chegou onde chegou unicamente com os esforços próprios. Casa-se com Louise, mas não tem uma vida feliz com ela, enquanto ela nutre um desprezo por ele.

No final, Louise descobre que teve uma vida infeliz, e que isso foi fruto da educação que recebeu do pai, não o condenando, por isso, uma vez que a intenção de seu pai era verdadeira. Chega a essa conclusão ao se apaixonar pelo sr. James Harthouse - quem veio para a escola modelo, colaborar com o sistema, mas que o despreza - e descobrir sentimentos jamais vivido por ela. Acaba se separando de seu marido. O moleque tom, ao ser descoberto, foge para a América, ajudado pelo pai e a irmã.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

1984 - Parte II (Para ler antes de morrer)

Podemos dizer que o romance clássico moderno, 1984, de George Orwell, é, de um lado, uma espécie de denúncia dos rumos que o futuro da humanidade poderia tomar no pós-Segunda Guerra Mundial. Expressa o medo de que a busca pelo poder econômico e a influência política sobre o mundo, levasse as potências do pós-Segunda Guerra à construção de regimes políticos monstruosos, ainda piores do que os totalitarismos nazifascistas e soviético. De outro lado, expressa a angústia de que, caso o mundo não mude seu rumo, estaríamos fadados a um sistema em que o homem perderia suas qualidades humanas, tornar-se-iam criaturas sem alma, máquinas que trabalhariam como autômatos.
O romance foi publicado em 1949. O mundo vinha da experiência de duas grandes guerras e dos totalitarismos. Viver numa Europa que foi palco de tantas atrocidades, levou Orwell à percepção de que o futuro era algo muito incerto e aterrador. Em 1984, ele expressou toda a sua angústia e medo com os rumos que a história da humanidade tomaria dali para a frente. Os horrores não eram algo que pudessem ficar só no passado. Tão logo as potências vencedoras da Segunda Guerra organizaram o mundo, partilhando o butim, deram início a um novo conflito que, naquele momento, parecia ser mais destruidor e que recebeu, mais tarde, o nome de Guerra Fria, opondo dois sistemas econômicos, políticos, sociais e ideológicos.
Visto no contexto em que foi escrito, 1984, não é, em absoluto, um absurdo. Era uma denúncia, uma angústia, um medo com o que estava por vim.
Por outro lado, Orwell expressa, em seu romance, a descrença na ideia iluminista do contínuo progresso da humanidade, a descrença na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, aquilo que poderíamos chamar de utopia. A Primeira Guerra Mundial, que levou a milhões de mortos, pelas ambições territoriais das grandes potências europeias, deu início à destruição da tradição ocidental de acreditar que o futuro seria, necessariamente, melhor, como consequência do progresso da ciência e da técnica. O resultado de décadas de conflito, mortes e atrocidades foi a substituição da crença na esperança pelo desespero.
1984 expressa, portanto, um sentimento de desesperança que, mais tarde, tomaria conta de parte da população mundial. O livro de Orwell poderia ser definido como “uma utopia às avessas”, uma espécie de contraponto às utopias anteriores. 1984 demonstra, em última análise, um sentimento de impotência do homem frente aos acontecimentos.
Não podemos pensar que Orwell acreditasse que o mundo insano de 1984 pudesse se realizar. Na minha concepção é algo irrealizável, de tão absurdo. Creio que o autor usou a arte para denunciar um mundo igualmente absurdo, que poderia levar a uma sociedade onde a ganância e a vontade de poder colocasse em segundo plano a humanidade do homem, sua dignidade e valores morais e espirituais construídos ao longo da história.

Como demonstra Erich Fromm, ”Orwell simplesmente sugere que a nova forma de industrialismo gerencial, na qual o homem constrói máquinas que agem como homens e desenvolve homens que agem como máquinas, conduz a uma era de desumanização e completa alienação, na qual homens são transformados em coisas e se tornam apêndices do processo de produção e consumo”. (Posfácio, p. 374).

domingo, 29 de janeiro de 2017

1984 - Parte I (Para ler antes de morrer)

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, parece usar a arte para refletir sobre suas insatisfações. Foi assim com o seu romance anterior, A Revolução dos Bichos, fábula construída pelo autor para atacar os rumos que a Revolução Russa havia tomado, no comando de Stalin. Foi assim, também, com seu último romance, 1984.
1984 tem como personagem central, Winston. O romance se passa no ano de 1984, em Londres, na Oceania, uma das três superpotências que disputam o controle do mundo, comandada pelo Partido e por seu líder, o Grande Irmão (Big Bhother). Oceania é uma espécie de estado totalitário, cuja sociedade é dominada pelo Estado e nada escapa ao seu controle. Nele, tudo é feito de forma coletiva, mas cada indivíduo que a compõe vive sozinho. O Partido, que controla as engrenagens da máquina estatal, desenvolveu um eficiente sistema de vigilância em que ninguém escapa ao controle.
O Partido não apenas exerce uma vigilância implacável, mas tem por objetivos, de um lado, controlar o pensamento e a mente de seus habitantes, não deixando espaço para ideias ou atitudes que destoam da ortodoxia reinante e, de outo lado, controlar o passado, alterado constantemente, em prol dos interesses do núcleo do Partido e qualquer suspeita de não-aceitação é considerada pensamentocrime.
A sociedade é organizada de forma hierárquica e tripartite, dividida entre o Núcleo do Partido, o mais privilegiado, um Partido Externo subserviente, e uma massa indistinta de “proletas”.

O herói do romance, Winston Smith, é um membro do Partido Externo que trabalha no ministério da verdade como falsificador de registros (controle do passado). Ele reage secretamente contra o sistema. Vive um romance com Júlia, que também se revolta, a seu modo, contra o controle. Encorajados pelo amor, algo proibido naquela sociedade, eles se reúnem com um burocrata de alto escalão do Núcleo do Partido que os coloque em contato com uma suposta força de oposição chamada Confraria, e que teria como líder o arqui-inimigo do Grande Irmão, à maneira de Trotski, Emmanuel Goldstein. O’Brien, no entanto, se revela como traidor. Winston e Júlia são presos e separados. Sucumbem a interrogatórios e traem um ao outro. Liberado antes de sua liquidação e após ter sofrido uma espécie de lavagem cerebral, Winston descobre que aprendeu a amar o Grande Irmão.

Continua...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O retrato de Dorian Gray. Parte III (Para ler antes de morrer)

Sentido do romance
Um dos temas do romance, o ideal de beleza e perfeição, remete às influências da cultura grega. Remete ao mito de Narciso, que cultua a sua própria imagem e vive em função dela. Dorian Gray, um jovem belo e ingênuo, só reconhece sua própria beleza quando Basil pinta o seu retrato e Dorian está diante dele mesmo: “Ao vê-lo, recuou, e as maçãs de seu rosto erubesceram de prazer por um instante. Um ar de felicidade surgiu em seus olhos, como se lhe houvesse se reconhecido pela primeira vez, Ficou parado, imóvel, espantado, com uma consciência vaga de que Hallward estava falando com ele, mas sem apreender o significado das palavras. O sentido da própria beleza o assaltou como uma revelação. Ele nunca o tinha sentido antes”. (p. 34).
Como Narciso, que só reconheceu sua beleza ao ver a sua imagem refletida na água, Doria só reconhece sua beleza ao estar diante de seu próprio retrato.
Também, como no Fausto de Goethe, o personagem central, Dorian Gray, bem que poderia ter feito um pacto com o demônio, vendendo sua alma em troca da beleza, juventude eterna, prazeres e poder. Embora não tenha feito nenhum pacto, a sua beleza e juventude resistem ao tempo. Dorian, exprime seus sentimentos na seguinte passagem: “ ‘Como é triste!’ murmurou Dorian Gray, com os olhos ainda fixos no próprio retrato. ‘Como é triste! Eu vou ficar velho e horrendo e medonho. Ele jamais envelhecerá além deste dia de junho... Se pudesse ser diferente! Se eu permanecesse sempre jovem e o retrato envelhecesse! Por isso – por isso – eu daria tudo! Sim, não há nada em todo o mundo que eu não daria! Daria a minha alma por isso’”!
O herói do romance parece ter sido o personagem trágico criado por Oscar Wilde para atacar os valores puritanos. A obsessão de Dorian com o belo, a beleza superficial, e do prazer estava em desacordo com a moral arraigada da sociedade vitoriana na Inglaterra do século XIX. É um claro ataque à ideia de que a moral faz um grande homem e os pecados perturbam a consciência.
Oscar Wilde era adepto de um movimento chamado esteticismo, que defendia a “arte pela arte”, isto é, o que interessa é apenas o belo. Apenas o belo era a solução para os malefícios da sociedade. A arte poderia servir como um ataque ao tradicionalismo da sociedade inglesa da época vitoriana. Nesse sentido, seu romance não tinha pretensão alguma de trazer ensinamentos ou defender uma moral, uma postura.
Outro personagem, o Lorde Henry, parece ter sido criado para atacar os valores morais e a conduta aristocrática dos salões londrinos. A alta sociedade, civilizada, parecia viver, aos olhos de Wilde, mais da aparência do que de sua essência, que procura esconder seus pequenos “defeitos” em nome de uma posição de respeitabilidade e status social, o que se pode chamar de hipocrisia. Henry representa, ao que parece, o desejo de muitos: viver uma vida de prazeres sem se importar muito com suas consequências, embora essa vida seja levada a termo apenas por aquele que seduziu, o jovem Dorian Gray.
O romance também traz para discussão um tema que inquieta a humanidade: o medo de envelhecer. Questiona também a beleza, a juventude e os valores morais da sociedade.

Parece existir uma pergunta implícita no romance: o que mais vale: o corpo ou a alma?

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O retrato de Dorian Gray. Parte II (Para ler antes de morrer)

O Herói conhece o seu primeiro amor, uma jovem atriz, Sibyl Vane, de apenas 17 anos. Apaixona-se por sua beleza e talento. Resolve casar-se com ela. Convida Basil e Lorde Henry para assistir a uma dramatização da jovem. Antes de Dorian, toda a energia dessa atriz estava centrada para os palcos, mas agora estava voltada para o amor a Dorian. Perdendo a capacidade de atuar, é desprezada cruelmente por Dorian. O desespero da perda de seu amor, leva-a ao suicídio. Tal fato exerceu uma primeira mudança no caráter do herói, o que se faz sentir em seu retrato. Percebe algo de estranho em seu sorriso: espécie de cinismo e maldade. Outros acontecimentos exercem sobre o caráter do herói influências profundas, alterando sua personalidade.
Todas essas mudanças são visíveis no quadro de Dorian Gray que se modifica conforme sua personalidade sofre alterações, como se sua alma ficasse transfigurada, o que o faz esconder o seu retrato.
O ideal de Dorian, incitado por Lorde Henry é a busca de prazer. As consequências disso são desprezadas em nome de um valor maior.
Dorian parece ser aquele jovem em busca de uma identidade. As influências sobre ele são devastadoras. Entregando-se aos prazeres sensuais, vive uma vida decadente. O seu retrato parece registrar as suas transgressões, o que o horroriza. O contrário do que pensou ocorre. Ao invés de envelhecer e o seu retrato permanecer o mesmo, ocorro o oposto: ele se mantém com a aparência jovem e bela, enquanto o seu retrato envelhece. Representa a sua alma decadente.
Dorian, no seu mundo de prazeres, tornou-se frio. Destruiu vidas, assassinou seu amigo Basil, quando este descobriu o seu segredo. Levou um outro amigo, um químico, ao suicídio após obrigá-lo a livrar-se do corpo moribundo.
Escondendo as provas de sua culpa, acreditou que seria o suficiente, mas não conseguiu libertar a sua consciência do peso de suas ações.
Passados 25 anos da morte do primeiro amor de Dorian, um irmão daquela atriz retorna da Austrália. James Vane procura pelo sedutor de sua irmã para matá-lo, porém morre em um acidente. Este fato liberta Dorian Gray de sua vida de sedução e prazer. Pensou ser possível curar a sua alma e levar uma vida pura. Amaldiçoou sua beleza e mocidade, culpando-a de suas desgraças.
Apesar de suas boas ações, o quadro não se alterara, denunciando a decadência de sua alma. O seu retrato estava ali para condená-lo, bastava fitá-lo. Diante daquela figura monstruosa, que lembrava à sua consciência de todas as suas ações horrendas, comete, ao final, suicídio.

Continua...


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O retrato de Dorian Gray. Parte I (Para ler antes de morrer)

O retrato de Dorian Gray é apontado por muitos como um grande clássico da literatura internacional. A ideia de beleza ou perfeição física é um de seus grandes temas e remete ao mito grego de Narciso, que cultua a sua própria imagem e vive em função dela. É um romance bem instigante e que nos leva à reflexão. Vale a pena ler antes de morrer.
Romance de Oscar Wilde, escritor Holandês, foi publicado, em sua versão final, em 1891. Tem como cenário a cidade de Londres aristocrática do século XIX, da era Vitoriana, e como personagem central o encantador e belo jovem, Dorian Gray, cuja beleza exerce influência marcante sobre todos aqueles que o rodeiam. Torna-se inspiração para o pintor, renomado, Basil Hallward, que o retrata em um quadro. Dorian torna-se não apenas um modelo para o artista, mas o inspira na produção de uma nova arte, com traços modernos.
Na casa do pintor, Dorian é apresentado àquele que exercerá sobre o seu espírito uma influência devastadora. Trata-se do Lorde Henry Wotton, um hedonista, aristocrata inglês e amigo de Basil. O herói de Oscar Wilde é seduzido pelas ideias e inteligência de Henry e passa a venerar o mundo da beleza e dos prazeres imediatos, desprezando as consequências de seus atos, inicialmente, e toda a moral mediana de uma sociedade hipócrita, a seus olhos, e que vive de aparências.
Dorian supera seu mestre e se entrega à superficialidade dos prazeres e ao egoísmo. A partir de então, parece ter início uma espécie de conflito psicológico que oscila entre dar vazão aos seus desejos e a reflexão sobre sua verdadeira alma, inscrita apenas no seu Retrato, pintado por Basil. Ali estava pintado algo horrível aos seus olhos. O quadro revelava-lhe os segredos ocultos de sua alma, por isso, o mantem escondido de todos, guardado em sua biblioteca, trancada a chave, e coberto por um manto.
Incitado por Henry, passa a cultivar um grande medo: a velhice e a perda de sua juventude. O seu retrato deveria imortalizar a sua juventude. Mas, paradoxalmente, parece ocorrer o oposto. Ao contrário da natureza humana, o rapaz preserva seus sinais físicos da beleza e da juventude enquanto sua imagem no quadro revela sinais de velhice ou de seus medos mais ocultos: os segredos de sua alma.
Dorian parece viver esse conflito entre dar vazão aos seus desejos, aproveitar a sua juventude, e cultivar seu espírito. Esses dois lados parecem representar os outros dois personagens centrais do romance, que estabelecem relações com o protagonista: o pintor Basil, que o ver como modelo e inspiração e pretende que continue sendo aquele rapaz doce e admirável, que cultiva a alma, e Henry, que desperta-o para os prazeres imediatos da vida. Esses dois outros personagens parecem representar a verdadeira dualidade da condição humana, que consistiria no conflito entre responder aos instintos ou se conformar com as regras morais e sociais. Henry é o lado cínico, hipócrita e maldoso, que defende a busca dos prazeres e desejos humanos a qualquer custo, sempre sugerindo ao herói do romance viver os momentos que sua beleza e juventude lhe proporcionam, enquanto Basil é aquele que tenta trazer Dorian Gray para o seu lado puro e gentil, tentando demonstrar que são justamente tais qualidades que provocam fascínio nas pessoas a sua volta.
Tive a impressão de que o autor buscou fazer uma crítica à sociedade inglesa de sua época ao demonstrar os preconceitos sociais e a não aceitação, em seu meio, daqueles que quebravam às normas morais defendidas, caso de Dorian Gray. Este, embora despreze uma série de convenções, parece viver uma vida dupla: no seio da sociedade e dos salões mantém uma postura “civilizada” e dentro dos padrões morais estabelecidos por ela, mas tão logo deixa os seus salões, busca às diversões ocultas, longe dos olhos arregalados de todos aqueles que se horrorizariam com sua conduta.
O retrato de Dorian Gray, pintado por Basil, horroriza o herói do romance precisamente pelo fato de revelar a sua alma. A pintura de Basil parece exteriorizar o que Dorian quer esconder: sua decadência moral, sua consciência, sua frieza e coração gelado, indiferente à quase tudo, sofrendo apenas se seus atos colocam em risco sua liberdade (diante do perigo de ser preso) ou vida (diante do perigo de ser assassinado).
Dorian Gray é uma espécie de novo Narciso, amante das artes e dos prazeres carnais, parecendo querer transformar sua vida em arte. Ao tentar enfrentar a sua culpa, esconde-se na superfície de seu retrato. No entanto, não consegue libertar-se de sua consciência.
Wilde parece perguntar se o caráter de uma pessoa pode ser determinado por sua exterioridade, pela superficialidade, tal é o caso de Dorian Gray, cuja beleza e encanto esconde uma alma degradada e engana a todos.
Seguindo a vida ao lado de Henry, Dorian se torna um sedutor, torna-se egoísta, libertino e mau, embora seu rosto permaneça jovem mesmo aos quarenta anos.

Continua...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O vermelho e o negro. Parte II (Para ler antes de morrer)

Stendhal é o pseudônimo para Henri Beyle. O vermelho e o negro é visto pela crítica como o romance que marca, na literatura francesa, o início do realismo, rompendo, pois, com o romantismo. E uma das características do realismo é a verossimilhança.
Stendhal viveu aqueles anos agitados na França entre os fins do século XVIII e princípios do século XIX. Por meio de Sorel, ele discute questões políticas e sociais do período. O autor percebeu as mudanças pelas quais passava a França e expressou, por meio da arte, uma imagem dos costumes naqueles agitados anos.

Mas, acima de tudo, creio, a grande questão do romance são os conflitos psicológicos que atormentam não apenas os personagens centrais. Julien Sorel, como disse antes, uma espécie de anti-herói, é um personagem complexo, contraditório, em profundo conflito interior. A narração, em terceira pessoa, se prende muito mais às reflexões dos personagens do que propriamente às ações, o que caracteriza O vermelho e o negro como um romance psicológico. Dito de forma diferente, a atenção é dada não aos fatos em si, mas como as pessoas os vivenciaram. Como elas os interiorizam e refletem sobre eles, como elas agiam diante de situações concretas, negociando e tendo por base seus interesses.
O romance dá vazão aos jogos de sedução, conflitos de interesses que perturbam os personagens. Sorel é, não apenas ambicioso, mas também uma espécie de hipócrita, calculista, um estrategista nato capaz de usar de qualquer artifício para conseguir o que queria, não se importando tanto com as consequências de seus atos, numa atitude de desprezo pela sociedade no seio da qual, almeja a uma posição. O irônico é que essa mesma sociedade é aquela que o condenará no final.

Mas Sorel não é apenas aquela figura sedutora e segura daquilo que busca. É alguém que é atormentado por um profundo complexo de inferioridade. E toda a busca é pelo reconhecimento, gloria e posição social. Suas fraquezas são denunciadas.  

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

O vermelho e o negro. Parte I (Para ler antes de morrer)

Fazia tempo que pretendia ler este grande romance. Ele é citado pelos críticos como um dos grandes clássicos da literatura internacional, leitura obrigatória para os amantes da boa leitura. De fato, é um livro fenomenal.
O vermelho e o negro, de Stendhal, tem como personagem central, Julien Sorel, filho de um carpinteiro, movido por uma grande ambição: angariar posição numa França que, apesar das transformações profundas advindas com a Revolução Francesa, ainda mantinha uma sociedade nobiliárquica, orgulhosa de sua posição nobre e de linhagem.
O cenário onde se desenvolve o enredo é, portanto, a França do início do século XIX, logo após a queda de napoleão, ocorrida em 1815, e a restauração da monarquia. De um lado, valores burgueses estavam sendo estabelecidos e, de outro, os valores aristocráticos ainda eram fortes, mas em plena decadência. Pode-se dizer que aquele era um momento de transição onde havia um embate entre valores nascentes, capitalistas, e os valores nobiliárquicos, da nobreza, ainda fortes. É o momento do surgimento de novas relações sociais complexas, tão bem descritas no romance.
O romance explora e descreve paixões avassaladores, como aquelas vividas por Julien Sorel e duas mulheres de posição social reconhecidas, romances impossíveis. Sorel, ambicioso, orgulhosa e com certo desprezo para com aqueles de posição social, parece ser o personagem criado por Stendhal para colocar em relevo preconceitos sociais, homens orgulhosos e não menos desprezíveis.
Sorel parece ser uma espécie de anti-herói, com defeitos, mas também com qualidades que às vezes faltavam a muitos dos outros personagens. Ele e suas amantes vivem conflitos psicológicos intensos. Ele por sua inferioridade social e pela disposição de enfrentar as convenções sociais. Suas amantes, por terem de abrir mão de seus nomes, da linhagem, do seu orgulho, e a disposição quase cega por estabelecer um combate contra os valores de suas “castas”, em nome de uma amor avalassalador.
Embora de condição social inferior, o que fazia toda a diferença naquela sociedade das primeiras décadas do século XIX, Julien Sorel tinha uma inteligência diferenciada e uma memória excepcional, o que o levava a decorar, em latim, a Bíblia, gerando, entre aqueles que lhe davam ouvidos, uma admiração profunda por ele. Estudava teologia e desprezava qualquer trabalho braçal, o que desagradava seu pai e irmãos, que, também por isso, os desprezavam.
Algumas das qualidades do herói do romance eram a extrema beleza e o poder de sedução, usando-as a todo custo para conseguir o que almejava. Sem linhagem ou berço, sabia que sua ascensão social só poderia ser conseguida por dois caminhos: o militar ou a batina. O primeiro representa o vermelho (uniforme), o segundo o negro (a batina). Aproveita bem as oportunidades que se apresentam. Protegido do cura Chèlan, é convidado pelo senhor de Rênal, prefeito de Verrière, e homem de posição e poses, para ser preceptor de seus filhos. Desempenhando seu papel com desenvoltura e dedicação, ganha o respeito e a devoção de todos a sua volta. Divide seu tempo entre as aulas às crianças e a paixão proibida com a esposa de seu patrão. Ali aprende parte das convenções sociais, “os bons costumes”, próprias da chamada boa sociedade.
Mesmo ascendendo socialmente, faltava-lhe a fortuna. Acaba se apaixonando perdidamente pela senhora de Rênal, algo que, aparentemente ia contra os seus planos. Nesse momento suas ambições cedem um pouco em nome do amor.
Julien parte para o seminário tão logo seu romance é denunciado ao seu patrão por uma carta anônima, colocando em risco a reputação e a posição social da senhora de Rênal, sempre tida, na pequena cidade, como um espírito superior.
Mais tarde, ao deixar o seminário, por intermédio de seu protetor, e assumir o cargo de secretário na casa do Marquês de la Mole, um dos homens mais influentes, respeitados em Paris e de grande fortuna, se envolve com sua filha, Matihlde de la Mole, que a princípio o rejeita, por ele ser de classe inferior. Desenvolve um plano para conquistá-la, sendo bem sucedido em suas pretensões.

No final, quando tudo parece ir bem e que desposaria Mathilde, a quem julgava amar perdidamente, e à revelia do pai desta, é “denunciado” por uma carta da senhora Rênal que, movida pelo ciúme, declara ao marquês de a Mole, ter sido seduzida. Este, rompe com a filha e não aceita o casamento. O herói volta a pequena Verriére, cidade onde sua história teve início, e dispara duas vezes contra a sua antiga amante, com intenção de matá-la. Apenas um dos tiros a acerta no ombro. É condenado à guilhotina. Ao receber a visita de seus dois amores, descobre, na verdade, que sempre amou a senhora de Rênal.

Continua...

domingo, 15 de janeiro de 2017

Grêmio Ipuense. A ruína de um projeto - Parte IV (final)

A fundação do Grêmio, e de outras associações congêneres, responde ao desejo de viver os valores do progresso e da modernidade, de buscar distinção e reconhecimento como ser civilizado, marcando posição em relação à população menos abastada, espelhando-se em modelos alienígenas.
Enfim, surgiam como resultado da prática social de um grupo restrito de pessoas, os salões e uma nova forma de sociabilidade para os grupos abastados. Frequentar as soirées do Grêmio se revestia de uma desejada distinção social. Ir aos seus bailes revestia-se de um simbolismo ímpar. Era sinal distintivo de poder, de uma aura superior. Lá se ia para ouvir música, dançar, para uma “partida literária” e para o convívio de relações familiares. Os salões daquela agremiação funcionaram como importante para a vida social e para os relacionamentos afetivos de seus associados.
No caminho trilhado por aqueles homens, que consistia em dotar a cidade de signos da modernidade, a fundação de novos espaços de sociabilidade, que seguia uma pragmática própria, foi uma prática levada a cabo. Se, de um lado, buscava-se lutar contra os costumes “arcaicos”, de outro, efetivamente se procurou fundar outro tipo de sociabilidade, aberta aos segmentos mais abastados da cidade, alinhada com os ideais de civilidade.
Assim, ao mesmo tempo em que tais espaços eram entendidos como fundamentais a um grupo de pessoas, sedentas por distinção, também eram buscados como necessários a um povo em via de “civilizar-se”. A sua instituição era informada pela necessidade de instituir um padrão de comportamento mais condizente com o espírito dos valores defendidos. Foi dentro desse receituário que surgiram o Grêmio Ipuense (1912) mais tarde Grêmio Ipuense Sociedade Recreativa Dançante (1924), o Gabinete de Leitura Ipuense (1919), o Centro Artístico Ipuense (1918) e a Euterpe Ipuense[1].
Fazer parte de tais associações denotava distinção e marcava posições. Elas exerciam um fascínio sobre aqueles desejosos por se parecer superiores. As representações construídas em torno de seus membros caminhavam no sentido de mostrar que eram modernos e civilizados em oposição à grande maioria da população, sempre visualizada nos periódicos como portadoras de costumes “archaicos”, “atrasados”, “bárbaros”.
O grupo de pessoas que fazia parte de seus quadros buscou se apegar aos valores da modernidade como forma de produção de positividade, para qualificar a si mesmo (uma classe ou grupo social) como superior e desqualificar o que considerava arcaico, inferior. Na verdade, os símbolos e signos ligados à modernidade eram procurados por aqueles que transitavam pelos salões chics. Seus valores estéticos eram cobiçados como forma de distinção. Assim, constituiu-se numa espécie de “poder simbólico”, isto é, como um poder capaz de “construir a realidade” e produzir sentido (imediato) para o mundo, além de integrar indivíduos em torno de valores comuns. Os símbolos, como defende Bourdieu, são instrumentos, por excelência, da integração social. Na medida em que se traduzem como instrumentos de conhecimento e de comunicação, tornam possível o consensus acerca do sentido do mundo social que contribui essencialmente para a reprodução social[2].

Sobre a fotografia: Diretoria da Associação Comercial de Ipu em 1928. A sede funcionava no Palacete Iracema. Todos eram sócios do Grêmio[1]. Cópia digitalizada pertencente ao acervo do autor. O documento original é do acervo de Francisco de Assis Martins.

[1] Na fotografia aparece o seu diretor, Joaquim de Oliveira Lima, sentado e de branco, Thomaz de Aquino Correia (vice-presidente), sentado e na ponta direita. Os demais são, José Oswaldo de Araújo, sentado ao centro (de óculos), ao seu lado direito, também sentado, está Francisco das Chagas Paz. Na ponta esquerda, sentado, está o Cel. José Raimundo de Aragão Filho. De pé, da esquerda para a direita, estão o Cel. Gonçalo Soares de Oliveira, Dr. Francisco das Chagas Pinto, José Gentil Paulino e Dorotheu Alves Farias. Fonte: Revista dos Municípios, Fortaleza-Ce, ano I, nº 1, fev. 1929, p. 53. 



[1] Pelas limitações deste capítulo, optamos por não analisar estas duas últimas associações. Embora apresentem algumas particularidades em relação ao Grêmio e ao Gabinete, um estudo sobre elas confirmam a interpretação que fazemos dos demais salões.
[2] BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Lisboa: Difel, 1989.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Grêmio Ipuense. A ruína de um projeto - Parte III

Embora a atividade principal, da associação, fosse o baile, também desenvolvia torneios e palestras literárias, brincadeiras e outras atividades cujo tom era de diversão e aprendizagem.
Os bailes do Grêmio, assim como os saraus realizados nos palacetes pertencentes aos homens abastados, e os assaltos, restritos ao convívio das famílias “distintas” locais, funcionavam como espaços que favoreciam as uniões matrimoniais dentro de um mesmo grupo. Os casamentos entre os rapazes e as moças que frequentavam os “salões elegantes” eram favorecidos também porque eram eles educados para “saberem escolher” o seu par. A mulher “de família” era educada para exercer as suas funções, aquelas que a sociedade lhes impunha que consistia, grosso modo, em ser mãe, esposa e dona de casa.
Além do baile ordinário, sempre uma vez por mês, o Grêmio realizava os saraus extraordinários, promovendo em seus salões, por exemplo, bailes em comemoração às datas festivas e cívicas, como o 7 de setembro, o 20 de janeiro, dia de São Sebastião e padroeiro da cidade, o 11 de julho, aniversário da batalha de Riachuelo. Quase sempre a solenidade chama-se “festival” e promovia um evento “litero-dansante”[1]. Os Salões e grêmios, durante o Segundo Império, como demonstra Wanderley Pinho[2], e mais ainda aqueles do final do século XIX, na capital federal, como esclarece Brito Broca[3], associavam de forma bastante estreita a soirée, baile dançante, com o sarau literário ou a partida literária. Literatura e mudanismo andavam juntos. Essa característica aparece de forma nítida nas atividades do Grêmio e parece ser um diferencial em relação, por exemplo, aos clubes sobralenses, que surgiram muito mais como clubes políticos, associados aos partidos, com demonstra o estudo de Elza Marinho Lustosa da Costa[4]. Além disso, o Grêmio Ipuense abria seus espaços para palestras, apresentação de peças teatrais e exibição de cinematógrafo.
Para fazer parte da diretoria daquela agremiação e ser aceito como sócio era necessário pertencer a “alta sociedade” da época, “ter bons modos”, uma “moral civilizada” e comungar com os ideais modernos e progressistas de seus fundadores, ser indicado por um ou mais sócios efetivos e aceito em votação pela maioria da diretoria em um de suas sessões ordinárias.
Como pertencer ao quadro social do Grêmio denotava distinção, ele exerceu sobre grande parte da população local certa atração. Todos desejosos de ares de superioridade queriam ser seus sócios. Mesmo aqueles que por ventura não gostasse de sê-lo e nem de ir a seus bailes, era aconselhável que o fizesse, por ser o Grêmio uma instituição prestigiada.
As poucas fotografias de alguns dos membros do Grêmio, sobretudo de sua diretoria, que conseguimos reunir permitem-nos afirmar que existia uma busca pelo bem trajar. Parecia haver uma preocupação no sentido de exteriorizar, conscientemente, um jeito aristocrático de ser, um refinamento nos modos, cujo paradigma estaria associado ao modelo aristocrático franco-inglês, buscado pela elite carioca no entre século, bem conhecido de grande parte dos membros do Grêmio, seja in loco ou por meio de imagens impressas nos periódicos cariocas.


Sobre a imagem: diretoria do Gabinete de Leitura em 1928.  Faziam parte, também, da cúpula do GrémioCópia digitalizada pertencente ao acervo do autor. O documento original pertence ao acervo de Francisco de Assis Martins. Da esquerda para a direta, sentados, Joaquim de Oliveira Lima, Dr. Chagas Pinto (presidente) e Abdoral Timbó. De pé, Antonio Marrocos e Dário Catunda. Fonte: Revista dos Municípios, p. 44.



[1] Gazeta do Sertão. Ipu, p. 3, 16 maio, 1913.
[2] PINHO. Vanderley. Salões e damas do Segundo Reinado. Op. cit.
[3] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. Op. cit.
[4] DA COSTA, Elza Marinho Lustosa. Sociabilidades e Cultura das Elites Sobralense: 1880-1930. Fortaleza: SECULT/CE, 2011. 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Grêmio Ipuense. A ruína de um projeto - Parte II

O aparecimento dos salões e grêmios na cidade de Ipu, nos anos iniciais do século XX, é parte de uma tradição que, no Brasil, remonta aos primórdios do século XIX. No final deste século e anos iniciais do século XX são os momentos por excelência de sua proliferação na capital republicana, como demonstra Brito Broca em sua análise sobre a vida literária no Brasil[1]. Os salões e os clubes, no Rio de Janeiro, em fins de século, não eram também uma novidade, uma vez que estes espaços surgiram ainda muito cedo, após a chegada de D. João VI em 1808 e se desenvolveram durante o período Imperial, como bem demonstra Wanderlei Pinho em seu estudo sobre os Salões e Damas do Segundo Reinado[2].
No caso de Ipu, os salões e grêmios têm suas especificidades próprias. É resultado, principalmente, de uma ânsia ou vontade de um grupo de pessoas para viver a modernidade e, por meio deles, marcar posições, buscar distinções.
Quando foi fundado? Aqui há uma confusão. Historiadores e memorialistas locais, baseando-se na Revista dos Municípios, de 1929, aludem que aquela associação foi erguida em 1924. Citam como prova a passagem escrita naquele periódico ao dizer que ela “foi fundada em 1924, instalando-se no dia 12 de outubro desse anno, quando tambem realizou a partida inaugural e empossou a primeira diretoria”[3].
Mas o Jornal Gazeta do Sertão, que circulou em 1913, amplamente noticia sobre as partidas realizadas pelo Grêmio Ipuense em suas páginas, quase que semanalmente. Em uma de suas edições, ao noticiar sobre um de seus bailes diz que a associação existe há pouco tempo[4]. A questão é que em 1924 ela aparece com a denominação de Grêmio Ipuense Sociedade Recreativa Dançante. Trata-se de fato da mesma associação, pois seus frequentadores são os mesmos.
Segundo o Correio do Norte, jornal que circulou em Ipu entre 1918 e 1924, o Grêmio Ipuense foi fundado em 1912[5]. Ao se desfazer, deu origem, em seguida, ao Grêmio Recreativo 7 de Setembro. Este último se transformaria no Grêmio Ipuense Sociedade Recreativa Dançante. Mas, algumas mudanças foram operadas, o que muito provavelmente justifica as trocas de nomes.
As festividades ocorriam à noite e a sede do Grêmio era iluminada a carbureto. A solenidade revestia-se de certa formalidade. Os convidados (espécie de sócios) eram recebidos pela comissão de recepção, geralmente oito pessoas, e os conduziam ao salão de recepção, onde outra comissão, formada pelos diretores de salão, os recebia e os acomodava. Quando todos os convidados já estavam apostos, iniciava-se o que se chamava de “partida literária”. Era uma espécie de sarau literário. Ao que parece, fazia-se um discurso retórico, liam-se poesias e abria-se o espaço para discussões entre os intelectuais. Servia-se, aos presentes comida e bebidas, de responsabilidade da comissão de Buffet, sob a direção de pelo menos quatro pessoas. Finalmente, uma banda contratada tocava quando o salão de festa se abria para as danças. Neste momento, o espaço era da soirée e entrava, muitas vezes, pela madrugada.

Continua...


Sobre a imagem: Palacete Iracema. Fotografia que consta no Álbum Comemorativo do Centenário de Emancipação Política da cidade, de 1940. Cópia digitalizada pertencente ao acervo do autor. O documento original é do acervo de Francisco de Assis Martins.


[1] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. 4. ed. Rio de Janeiro: José Olympio: Academia Brasileira de Letras, 2004.
[2] PINHO, Wanderley. Salões e Damas do Segundo Reinado. 3. ed. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1959.
[3] Cf. Revistas dos Municípios. Op. cit., p. 44.
[4] Assim inicia o artigo ao dar ampla divulgação do sarau realizado em seus salões, por ocasião da passagem do dia 7 de setembro. “Às justas glorias do que já se ufana o ‘Gremio Ipuense’ em seu curto período existencial [veio] juntar-se a da elegante e linda recepção dada aos seus associados em a noite do 7 de setembro”. Gazeta do Sertão. Ipu, p. 4, 12 Set. 1913.
[5] Gremio Recreativo 7 de Setembro. Correio do Norte. Ipu, p. 2, 2 mar. 1924.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Grêmio Ipuense. A ruína de um projeto - Parte I

Fonte da imagem: www.ipunoticia.com.br
A destruição do prédio que serviu, por longos anos, de sede do antigo Grêmio Ipuense, inaugurado em 1927, surpreendeu a muitos de nós. Localizado bem na área central do município, aquele prédio, outrora imponente, lembrava, sobretudo aos mais velhos que circularam por seus espaços, outrora, uma memória de um tempo opulento. A sua destruição, por um lado, apaga a materialidade de parte dessa memória. A destruição daquele “monumento”, ainda que já estivesse descaracterizado, enterra histórias de amor, paixões, momentos de glória, decepções, preconceitos, arrogância, fantasias, poder.
Por outro lado, as ruínas daquele antigo prédio revelam, aos nossos olhos, como a memória e a história locais são tão desprezadas numa cidade centenária. Mostra, igualmente, como o orgulho do ipuense por viver em uma cidade cuja história é supostamente coberta de glória, de feitos de “homens ilustres”, de “personalidades marcantes”, berço de “grandes artistas”, “mentes brilhantes”, é mero formalismo ou orgulho vazio.
É preciso dizer que, as ruínas do antigo Palacete Iracema, sede do Grêmio, associação fundada em 1912, com outro nome, são as de uma memória elitista. São enterradas ali, junto a seus escombros, o desprezo de uma sociedade do passado contra toda a cultura e os valores das classes menos abastadas, das classes populares. Elas enterram as fantasias de grandeza, de superioridade, de moral polida, de sonhos de civilidade, de grandeza e superioridade. Enterram uma tentativa de moldar o caráter de um povo com base num modelo alienígena, que soprava da velha e “civilizada” Europa, e que representava a vitória do que se chama modernidade, técnica, conhecimento, ciência, progresso. Enterram, finalmente, um projeto de cidade que se ajustava aos interesses e valores de uma elite que queria uma cidade só para ela e mais ninguém.
Os bailes (as soirées) realizados nos salões do Grêmio eram a teatralização de uma sociedade que vivia o sonho de ser e parecer civilizada e que acreditava lutar para destruir os costumes “bárbaros” de um povo tido como “inferior”. Era a luta de uma “raça superior”, quer dizer, que se considerava assim, branca, cristã, depositária da cultura europeia, contra a “barbárie” de uma “raça inferior”, representada por elementos africanos e indígenas, e seus traços evidentes na pele e em rostos miscigenados. A própria face da “decadência”, a seus olhos.
A fantasia e os sonhos de grandeza estavam presentes ali, nos salões daquele palacete, quando sede de uma sociedade, no porte elegante dos cavaleiros e damas “honradas”, no brilho das joias no pescoço e braços da mademoiselle e da madame, no fraque preto do cavalheiro, em sua cartola, em seu vocabulário, recheado de expressões francesas, saído dos lábios de todos, na toilette, nos gestos, nos modos de andar, gesticular e portar-se daquela sociedade ilustre, de “ bons modos”.
Circular pelos salões daquela associação, espaço para poucos, dava a sensação de poder e superioridade. Pertencer ao quadro social do Grêmio denotava distinção. Ele exerceu sobre grande parte da população local certa atração. Para ser admitido como sócio era necessário, em primeiro lugar, possuir algum cabedal e, em segundo lugar, ser bem quisto no seio do que se chamava à época, a “melhor sociedade” e, por último, cultivar a moral e os “bons costumes”. Qualquer mancha ou falta era observada. Poderia barrar o sonho daquele desejoso de pisar no chão daquele prédio, outrora tão bem cuidado.
Aquele antigo prédio lembrava tudo isso, outrora símbolo do progresso e da modernidade, tornara-se, nos dias atuais, aos olhos de muitos, um anacronismo, um monumento totalmente fora de seu tempo, desbotado, sem vida, sem utilidade. Para a maioria dos ipuenses, creio, fora tarde. O passado é velharia. A memória deve ser apagada. O que importa é o presente e o futuro. A poeira do passado deve ficar no passado, é imprestável, não gera lucro.

Continua...

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Os irmãos Karamázov. Parte III (Para ler antes de morrer)

Os Irmãos Karamázov é considerado pela crítica não apenas o romance mais importante de Dostoiévski, mas também uma obra-prima. É ainda a mais longa obra do autor russo, levando-o, durante três anos, ao trabalho árduo de escrita, tendo-o concluído apenas em 1880, às vésperas de sua morte.
Os Irmãos Karamázov pode ser entendido como uma síntese dos vários temas que perseguiram o autor ao longo de toda a sua vida e ponto culminante de sua obra. É ainda entendido com um dos grandes feitos literários de todos os tempos e que, por sua profundidade, influenciou pensadores como Nietzsche e Freud e sucessivas gerações.
O livro se destaca dos demais romances de Dostoiévski e levanta o grande tema que o vinha inquietando desde Memórias do subsolo, que consiste no conflito entre razão, identificada muitas vezes com o utilitarismo egoísta, e a fé cristã, os valores altruístas do amor ao próximo.  
N’Os irmãos Karamázov, como anota Joseph Frank, não existe uma figura central, mas cinco. Conta a história de uma família e uma comunidade, e não propriamente de um personagem. O romance serve a sua abordagem sobre a questão da falência da família russa que o preocupa desde a década de 1870. Para ele, o colapso da família era apenas o sintoma de uma doença mais profunda, isto é, a perda entre os russos educados dos valores morais, resultado, por sua vez, da perda de fé em Cristo e em Deus.
Esse já era um tema subjacente aos seus principais romances, mas sem a investigação de todas as desastrosas consequências psicológicas e sociais que derivam do abandono dos valores morais cristãos. Em Memórias do subsolo, Crime e castigo e Os demônios, Dostoiévski tentava mostrar, de forma artística, aquilo que vinha investigando desde a década de 1860, ou seja, as consequências morais e sociais das chamadas ideias niilistas russas, um amálgama local do utilitarismo, do ateísmo e do socialismo utópico. O propósito dos niilistas, na concepção do autor russo, era não apenas combater o despotismo czarista. Queriam também substituir os ideais herdados dos evangelhos e dos ensinamentos de Jesus Cristo por uma moral fundamentada no egoísmo racional.

No tempo em que passou no exterior (1865-1871), teria se convencido de que o niilismo russo não passava de uma transplantação artificial de todas as mazelas ideológicas que minavam a civilização ocidental. O romancista defendia que os intelectuais russos, devido à educação ocidental que haviam recebido, tinham-se alienado, e se afastado dos valores e crenças de seu povo. Desta forma, precisavam voltar às suas raízes nativas e redescobrir todos os tesouros ainda escondidos.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

Os irmãos Karamázov. Parte II (Para ler antes de morrer)

Sentido do Romance

Os personagens e fatos criados, em Dostoiévski, são sempre coloridos pelo contexto ideológico particular em que estava imerso no cenário russo contemporâneo. Uma fonte de inspiração do autor é a vida real. Nesse caso, os jornais eram seus documentos favoritos.
Na visão dele, o povo russo possuía uma fé religiosa que não só o resgataria do desastre, mas também capacitá-lo-ia a liderar o caminho para uma nova era cristã da regeneração do gênero humano. Estava convencido de que o cristianismo que os camponeses herdaram estava impregnado neles e que o povo russo, representado pelos camponeses, possuía todas as virtudes cristãs que a fé lhes ensinava.
Uma das qualidades do autor russo é sua capacidade de retratar personagens com um realismo social e psicológico sem paralelo na literatura e de encadear seus conflitos e dilemas numa investigação dos problemas da existência humana. Convencido de que o único cristianismo verdadeiro seria encontrado na ortodoxia russa, Dostoiévski busca provas que confirmem esse seu ponto de vista. Os seus personagens, sob influência de ideias avançadas, cometem crimes terríveis, como Raskólnikov, de Crime e castigo, ou mergulhados nas piores profundezas da degradação, como Stavróguin, de Os demônios. Mas, em determinado momento de suas vidas cheias de tormentos, encontram a visão de uma possível redenção por meio dos efeitos moralmente purificados do amor cristão. Nos dois casos citados, Crime e Castigo e Os demônios, o autor russo analisa a tragédia daqueles membros da intelectualidade que tinham se afastado de suas origens cristãs e, assim, de seu povo, o povo russo, o único capaz de redimir o mundo contra a decadência moral do Ocidente.
Em Os irmãos Karamázov, os principais personagens enfrentam a necessidade de transcender os limites do egoísmo pessoal num ato de autoentrega espiritual, na transcendência de seus interesses imediatos centrados no ego. Para Dostoiévski, a identificação entre razão, que no plano moral equivalera ao utilitarismo e o egocentrismo, estava arraigado profundamente no pensamento russo radical da época. O poder do romance reside justamente na descrição da luta moral-psicológica de cada uma das personagens principais para atender a voz da consciência.
O velho Karamázov encarnaria, para o autor, a própria síntese do vício pessoal e social, ao negligenciar os três filhos tidos de duas esposas, que crescem num ambiente de inexistência do núcleo familiar que, segundo o autor, tornava-se cada vez mais  típica da sociedade russa educada. Personagens como o velho Karamázov e Dmítri, seu primeiro filho, permitem a Dostoiévki discutir a ampla natureza russa, que oscila entre extremos morais e psicológicos. Dmítri, por exemplo, é perpassado por forças naturais que pode facilmente torná-lo escravo de seus instintos e de suas paixões.
Ivan, por sua vez, representa a suprema dramatização do conflito entre fé e razão, próprio cerne do livro. Todo o romance é, nas palavras do próprio autor, uma resposta a Ivan e sua fórmula de que Deus não existe e nem a imortalidade e, por isso, tudo seria permitido.
Em cada uma das principais personagens há o confronto e uma crise que exigirá delas uma escolha entre uma e outra. Em todos esses momentos prevalecerá a fé de algum tipo, não especificamente moral e religiosa, como ocorrera com Aliocha, mas uma fé que encarna um aspecto da moral do amor e da autotranscedência do egoísmo.

Há, ainda, nos capítulos sobre o inquérito e do julgamento de Dmítri uma crítica premente ao sistema jurídico Russo, que havia passado por uma reforma no período. Dostoiévski demonstra como um motivo pessoal, como a vaidade do promotor, poderia impedir a promotoria de procurar a verdade de forma imparcial. O romancista russo criticava a adoção, pela justiça russa, de normas abstratas ocidentais, que consistiam em boa parte, na reunião de provas materiais. A crença exclusiva nessas provas impedia a descoberta da verdade, que poderia ser revelada por uma percepção mais direta do caráter humano. Não se dá crédito às palavras de Dmítri, ao negar veementemente o assassinato do pai. Há aqui, também, uma réplica do conflito entre fé e razão. As provas materiais, racionais, reunidas pelos investigadores eliminam qualquer necessidade de pensarem em atribuir peso à palavra do acusado, um homem honrado, apesar de ser lascivo.

Continua...