terça-feira, 31 de janeiro de 2017

1984 - Parte II (Para ler antes de morrer)

Podemos dizer que o romance clássico moderno, 1984, de George Orwell, é, de um lado, uma espécie de denúncia dos rumos que o futuro da humanidade poderia tomar no pós-Segunda Guerra Mundial. Expressa o medo de que a busca pelo poder econômico e a influência política sobre o mundo, levasse as potências do pós-Segunda Guerra à construção de regimes políticos monstruosos, ainda piores do que os totalitarismos nazifascistas e soviético. De outro lado, expressa a angústia de que, caso o mundo não mude seu rumo, estaríamos fadados a um sistema em que o homem perderia suas qualidades humanas, tornar-se-iam criaturas sem alma, máquinas que trabalhariam como autômatos.
O romance foi publicado em 1949. O mundo vinha da experiência de duas grandes guerras e dos totalitarismos. Viver numa Europa que foi palco de tantas atrocidades, levou Orwell à percepção de que o futuro era algo muito incerto e aterrador. Em 1984, ele expressou toda a sua angústia e medo com os rumos que a história da humanidade tomaria dali para a frente. Os horrores não eram algo que pudessem ficar só no passado. Tão logo as potências vencedoras da Segunda Guerra organizaram o mundo, partilhando o butim, deram início a um novo conflito que, naquele momento, parecia ser mais destruidor e que recebeu, mais tarde, o nome de Guerra Fria, opondo dois sistemas econômicos, políticos, sociais e ideológicos.
Visto no contexto em que foi escrito, 1984, não é, em absoluto, um absurdo. Era uma denúncia, uma angústia, um medo com o que estava por vim.
Por outro lado, Orwell expressa, em seu romance, a descrença na ideia iluminista do contínuo progresso da humanidade, a descrença na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, aquilo que poderíamos chamar de utopia. A Primeira Guerra Mundial, que levou a milhões de mortos, pelas ambições territoriais das grandes potências europeias, deu início à destruição da tradição ocidental de acreditar que o futuro seria, necessariamente, melhor, como consequência do progresso da ciência e da técnica. O resultado de décadas de conflito, mortes e atrocidades foi a substituição da crença na esperança pelo desespero.
1984 expressa, portanto, um sentimento de desesperança que, mais tarde, tomaria conta de parte da população mundial. O livro de Orwell poderia ser definido como “uma utopia às avessas”, uma espécie de contraponto às utopias anteriores. 1984 demonstra, em última análise, um sentimento de impotência do homem frente aos acontecimentos.
Não podemos pensar que Orwell acreditasse que o mundo insano de 1984 pudesse se realizar. Na minha concepção é algo irrealizável, de tão absurdo. Creio que o autor usou a arte para denunciar um mundo igualmente absurdo, que poderia levar a uma sociedade onde a ganância e a vontade de poder colocasse em segundo plano a humanidade do homem, sua dignidade e valores morais e espirituais construídos ao longo da história.

Como demonstra Erich Fromm, ”Orwell simplesmente sugere que a nova forma de industrialismo gerencial, na qual o homem constrói máquinas que agem como homens e desenvolve homens que agem como máquinas, conduz a uma era de desumanização e completa alienação, na qual homens são transformados em coisas e se tornam apêndices do processo de produção e consumo”. (Posfácio, p. 374).

Nenhum comentário:

Postar um comentário