terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Tempos difíceis. (Para ler antes de morrer)

Um dos grandes autores da literatura inglesa do século XIX, na chamada Era Vitoriana, foi Charles Dickens, também tido como um dos principais romancistas do realismo. Em seus romances dá visibilidade aos problemas sociais da Inglaterra, como o desemprego, a violência, as condições de trabalho nas fábricas, a prostituição, dentre outros, durante o período da chamada Revolução Industrial.
Tempos difíceis é um desses romances engajados, do escritor inglês, que expõem as questões sociais geradas pelo avanço da industrialização durante o século XIX. Vale muito a pena ler.

            Tempos difíceis, décimo segundo romance de Charles Dickens, tem como cenário a Inglaterra durante a chamada Revolução Industrial. O autor cria uma cidade fictícia, de nome Coketown, e um enredo singular, para discutir, a meu ver, questões centrais daqueles anos de grandes transformações. Nele, empreende uma crítica profunda das condições de trabalho, evidenciando o contraste entre a extrema pobreza da classe trabalhadora e o conforto em que viviam os industriais da Era Vitoriana, século XIX.
            Na obra o autor empreende um esforço para retratar a vida miserável dos trabalhadores, das pessoas comuns, daquele período, enfatizando as diferenças entre classes, condições de trabalho e formas de educação.
            Um dos personagens centrais é o sr. Thomas Grandgrind, um homem de fatos e cálculos. Proprietário de uma escola, busca moldar os espíritos de seus alunos, e de seus dois filhos, dentro dos preceitos do mais puro racionalismo e método matemáticos, na qual tudo pode ser medido e interpretado com base em fatos e estatísticas. Para ele, apenas os fatos lhe interessam, não importando sentimentos (subjetividade) e nem a imaginação (sensibilidade). Isso contrasta com a menina Sissy Jupe, filha de um palhaço do circo e que a matricula na escola modelo. Enquanto Grandgrind defende uma educação científica, o pai de Sissy vive da arte e de fazer as pessoas rirem. Abandonada pelo pai, Sissy passa a morar com o senhor Grandgrind, que pretende educá-la segundo o seu modelo, não obtendo sucesso, uma vez que ela dar vazão aos seus sentimentos e imaginação.
            Parece que Thomas Grandgrind foi criado, por Dickens, para satirizar os valores iluministas e positivistas da classe burguesa ou a ideia que a razão podia dar conta de tudo, aquela capaz de produzir conhecimento, tecnologia, progresso e a felicidade geral. Tal é a forma como pensa o industrial Josiah Bounderby, ao defender que seus operários são todos felizes e vivem bem não tendo, portanto, motivos para revoltas. Qualquer insubordinação deveria ser punida com severidade.
            As alegorias criadas (a escola da cidade, onde só os fatos interessavam, a fábrica e suas chaminés, vomitando fumaça e tornando a cidade e seus tijolos em negra cor, o circo do sr. Sleary, com sua trupe, e a posição entre o industrial e seu honesto funcionário, Stephen Blackpool) parecem ser estratégias que permitem ao autor fazer uma crítica severa à mentalidade capital, onde só os números e os fatos eram importantes, e à exploração da força de trabalho, que pareciam, aos olhos de Charles Dickens, estar destruindo a criatividade humana e a alegria das pessoas. A alegria e os sentimentos iam contra a racionalidade capitalista e eram vistas como fraquezas e que deveriam ser combatidas, daí o desprezo pela imaginação e pela trupe que acompanhava o circo, local para “vagabundo”.
            Na visão de Grandgrind e do industrial Bounderby, defensores dos fatos e das estatísticas, a escola e o sistema educacional deveriam moldar os corpos e os espíritos das crianças para os fatos e para a obediência, desviando-as da imaginação e dos sentimentos.
            Na escola modelo do sr. Grandgrind, tudo que não for ciência não serve. À sua filha, Louisa, sempre diz “nunca imagine”. Seu filho Tom, parece se dar conta, desde o início, de que tal sistema não leva à felicidade e, logo, às escondidas, parece fugir de seus preceitos.
Grandgrind, cegamente apegado aos fatos, é o tipo de personagem cômico. Mas ao longo da narrativa vai sendo humanizado, a ponto de, no final, se dar conta de que seu sistema, por meio do sofrimento da filha, não é dos melhores. Louisa é, talvez, a grande personagem do romance. Ela é uma espécie de vítima do sistema adotado por seu pai. Educada segundo os princípios das ciências naturais, da objetividade, foi impedida de qualquer diversão na infância e de mesmo imaginar. Privada dos sentimentos, cairá num casamento arranjado. Parece que Louisa é vítima daquilo que Dickens via como equívoco do século XIX: um sistema econômico que dava valor a apenas números e esquecia da humanidade das pessoas.
 No romance, os operários são vistos, pelos patrões, como “as mãos” das fábricas, uma massa de trabalhadores sem rostos e sem identidade definida. Eles existem como números. Aí é que aparece um operário, personificação dos demais trabalhadores, desgraçado, porém honesto e leal aos seus companheiros, e que é levado à morte pela insensibilidade e ganância de seu patrão que vê, sempre, em seus empregados, potenciais arruaceiros e descontentes.
Tom, filho mais novo do sr. Grandgrind, e insensível, privado de uma educação que enxergasse a humanidade das pessoas, bola um plano para incriminar um trabalhador pobre e honesto, pelo crime que ele mesmo cometeu. Roubou o banco de seu bem feitor, para saudar dividas de jogo. A vítima de sua insensibilidade é Stenphen Blackpool. Este vive uma vida de infortúnios: tem uma esposa alcoólatra, que não mais suporta, e nutre uma paixão por Rachael, também operária, com quem divide suas tristezas.
Creio que o grande tema de Tempos difíceis é a desumanização proveniente das transformações econômicas propiciadas por aquilo que se convencionou chamar de Revolução Industrial, produzindo um número pequeno de industriais enriquecidos com a exploração do trabalhador fabril.
Enquanto Grandgrid é um sujeito bem intencionado, apesar de cômico, Dickens cria o personagem do sr. Bounderby, industrial e banqueiro, arrogante, insensível, estúpido e cruel. É a figura que se orgulha de sua suposta origem humilde e de que chegou onde chegou unicamente com os esforços próprios. Casa-se com Louise, mas não tem uma vida feliz com ela, enquanto ela nutre um desprezo por ele.

No final, Louise descobre que teve uma vida infeliz, e que isso foi fruto da educação que recebeu do pai, não o condenando, por isso, uma vez que a intenção de seu pai era verdadeira. Chega a essa conclusão ao se apaixonar pelo sr. James Harthouse - quem veio para a escola modelo, colaborar com o sistema, mas que o despreza - e descobrir sentimentos jamais vivido por ela. Acaba se separando de seu marido. O moleque tom, ao ser descoberto, foge para a América, ajudado pelo pai e a irmã.

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