terça-feira, 16 de janeiro de 2018

CONTRAPONTOS E INTENÇÕES: USOS E ABUSOS NO LABOR DA ARTE MERETRÍCIA




 Por Iramar Miranda
Pensando a cidade como um aglomerado de diferentes “mundos”, temos a impressão de que os conflitos de ideias, intenções e ideologias, se esbarram principalmente no campo político, entretanto, a questão é bem mais complexa. Se assim defendêssemos, estaríamos nos rendendo a um gesso historiográfico, que embora tenha suas virtudes, limita a ação do pesquisador, não dando margem para abertura interpretativa, nem tampouco, voz aos “esquecidos da História”.
Enquanto ser profissional, nossas relações sociais tendem a ser direcionadas, na maioria das vezes, aos nossos pares, com discursos e projetos de vida que se entrelaçam, organizando assim, espaços de convívio que se tornam pertinentes a determinados setores da sociedade, tendo como exemplo, os clubes recreativos, os grêmios sociais, as associações ou mesmo, na informalidade, as reuniões de amigos de trabalho aos fins de semana, em espaços não estabelecidos, mas comuns a todos.
Assim, o ser humano vai se fechando em suas relações, em seus “mundos”, onde as falas, modos e projetos, são apresentados em defesas de classes, e não de sociedade. Elias[1] muito bem analisa a questão, quando nos apresenta “as sociedades fechadas”, a desconfiança com aqueles que vêm de fora, ou mesmo, aqueles que não conseguiram ainda “se estabelecer”.
Entre tantos mundos difíceis de serem adentrados, a arte meretrícia se apresenta como uma das mais complexas, talvez por conta de tantas incógnitas, superstições ou mesmo exclusões à qual está submetida, se mostrando como um universo ainda a ser explorado, principalmente quando se analisa o início do século XX e as transformações sociais que o Ceará e o Brasil vivenciaram, transformações estas que refletiram substancialmente nas pequenas cidades do interior do Ceará.
Fazendo uma análise documental e bibliográfica do período compreendido principalmente entre os anos de 1900 a 1930 na cidade de Ipu, interior do Ceará, discursos sobre modernidade, controle social, melhoramento urbano e mudanças de paradigmas[2], dominam as páginas dos principais jornais e periódicos, bem como já foram bastante analisados na atualidade em monografias, dissertações ou teses de conclusões de cursos, contudo, ainda existindo várias possibilidades de visões acerca de como vivia esta sociedade, utilizando para isto os resquícios deixados nestas fontes.
Exercitando a compreensão dos registros, voltamos à questão dos “mundos” anteriormente retratados. Àqueles que detinham o poder econômico e politico no início do século XX, também se fizeram “Guardiões da História”, organizando-se em associações e blocos, sendo o mais conhecido e elitizado no Ceará, o Instituto Histórico e Geográfico Cearense[3], que reunira entre seus associados, a “elite pensante cearense”, registrando à posteridade, tudo o que achavam ser importante a ser lembrado.
E como o pesquisador também pode ser confundido como garimpeiro, tentamos tirar destes registros, o não dito, ou seja, aquelas informações que ficam nas entrelinhas dos registros, para montarmos nossas teses e análises. Por vezes, percebemos a importância das informações mais naquilo que fora negligenciado, do que mesmo no que fora exposto e aqui voltamos à questão meretrícia.
Qual era efetivamente o papel da meretriz? A sua função social? Ora, se existiam os meretrícios dentro de uma sociedade vigiada, era por consentimento principalmente das elites, que de uma forma ou de outra, tiravam algum proveito da questão.
Sabemos que em Ipu as meretrizes foram excluídas do centro da cidade, formando um novo bairro próximo ao açude Bergdoff, margeando a zona rural da cidade de pouco mais de 4 mil habitantes na zona urbana em 1920, longe dos olhares da “melhor sociedade”. Mas sabemos também que esta mesma sociedade era assídua frequentadora deste espaço, mantendo relações tanto sexual como sociais com as meretrizes. Portanto, neste contexto, a cidade se confundia em determinado momento, ou os “mundos” se confundiam, ou seja, o mundo das meretrizes e o mundo da “melhor sociedade”.
É conhecido o rito de passagem sexual dos homens no Brasil Colônia e Império, e que reinou por grande parte no período republicano, no que concerne à prova da masculinidade por parte dos varões. Sabemos também que as moças tinham como premissa para o casamento, a prova e certeza da pureza, representada pela virgindade. Ora, o dilema estava criado.
Como manter as moças de família virgens, ao mesmo tempo em que pudessem comprovar a masculinidade dos homens, iniciando-os na vida sexual? Aí surge o papel social da meretriz. Como válvula de escape, ela tinha todo o traquejo e oficio da arte do sexo, sem a necessidade de satisfação social, muito menos a preocupação com a manutenção de uma relação conjugal.
Os encontros eram sazonais e a rotatividade de clientes em grande escala. Sem escolha, sem cobranças e muito menos sem a necessidade de conhecimento. A variação e rotatividade das cidades visitadas, era norteada pelo fluxo de clientes em que nelas aparecessem e assim, pouco se sabia da vida particular das moças do baixo meretrício, pois delas se desejavam apenas os momentos de prazer, o uso sem responsabilidades e acima de tudo, a satisfação à sociedade sobre a masculinidade dos moços, que “agora”, pós-iniciação sexual, estavam prontos para o casamento.
As moças, se resguardando em seus mundos, sonhando com seus “príncipes encantados” a seres escolhidos por seus pais, ficavam à mercê dessas situações, pois diferente do que se desejava para os homens, os espaços profanos das ruas às mulheres, principalmente às “moças indefesas” eram negados. Neste sentido, voltamos à questão dos diferentes mundos. O mundo das mulheres era totalmente diferente do mundo dos homens, tendo por base esta situação.
Mas em algum momento, estes dois mundos também teriam que se encontrar e assim, formar um terceiro “mundo”, ou seja, o mundo do moço que se saciara sexualmente no meretrício, o mundo da moça pura que se preparara para recebê-lo, com castidade e por fim, o mundo da meretriz, de vida solta, sexualidade aberta e sem responsabilidade.
Voltamos às fontes deixadas pela elite intelectual no Ceará do início do século XX. Quando se apresentara a cidade de Ipu em diferentes aspectos, ainda utilizando o modo de escrita engessado que apresentamos no início destas páginas, algo nos chama a atenção. Quando o autor cala-se diante de uma problemática que assola a cidade de Ipu e que sem muito interesse em discorrer sobre o assunto, faz uma denúncia acerca da saúde pública a qual a cidade vivenciava, percebemos que, mesmo cada um a seu modo se feche em seus espaços, em algum momento, as consequências dos atos aparecerão e assim, uma nova ordem social se apresentará.
Vamos a uma consequência em Ipu, da união destes três mundos:

A syphilis e blennorrhagia e as moléstias venéreas, em geral communs a toda cidade e a todos os países, não tendo preferencia de clima, raça, alimentação, etc., no Ipú se encontram com muita frequência.
As consequências funestas destas affecções mórbidas, o estudo de suas variadas manifestações pathologicas, não cabem nos moldes de nossa exposição.
As medidas hygienicas a tomar seriam as mesmas das outras localidades. Seria utopia querer-se entravar , obstar ou limitar a acção maléfica de taes moléstias, que sem duvida, representam um factor importantíssimo na pathologia. Mesmo assim, medidas de alcance geral são requeridas e o poder competente dellas deve cuidar[4].

Portanto, o que vamos ter na cidade de Ipu no início do século XX, são algumas neo-famílias doentes, onde as moças, sem nenhuma experiência sexual antes do casamento, eram acometidas por doenças venéreas causadas por homens que, pela imposição machista da sociedade, e sem conhecimento prévio dos perigos a qual estavam submetidos, adquiriam doenças e contaminavam suas companheiras.
O reflexo desta junção de mundos, neste sentido, refletiu-se numa questão de saúde pública, se aceitarmos a fala do autor, principalmente quando ele diz que:

Os preceitos hygienicos (...) que possam contribuir para para melhorar o estado actual de cousas da cidade, pelo menos dando-se –lhe um aspecto mais apreciável e pittoresco, mesmo de asseio, nas suas principaes artérias, não devem ficar no ouvido e sim restrictamente observados[5].

Embora inconsciente, fechados em nossos mundos, criados ou não, nossa sociedade reflete nossas ações, e isto vem se apresentando desde a formação das cidades e das sociedades. No caso apresentado, o reflexo se deu negativamente, a partir da patologia oriunda da junção carnal de três atores sociais diferentes: o homem virgem, a mulher pura e a meretriz, socialmente desregrada.



[1] ELIAS, Norbert; SCOTSON, John L. Os Estabelecidos e os Outsiders: sociologia das relações de poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.
3 Fundado em 04 de março de 1887, é a mais antiga instituição cultural do Ceará e uma das mais antigas do Brasil em atividade, com lançamento de Revistas a partir de sua fundação.


[4] SOUSA, Eusébio. Um pouco de História (Chronica do Ipu). Fortaleza: Revista do Instituto Histórico, 1915. p. 217
[5] Idem, 217
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