quinta-feira, 29 de agosto de 2013

A Nova História do Ipu - X

Para Refletir: Joana Paula Vieira Mimosa e o Mito fundador

Na historiografia tradicional do município há um consenso de que o seu povoamento teve como “baluarte” a “catequista” Joana Paula Vieira Mimosa. Ela teria recebido da corte portuguesa, no ano de 1694, uma extensa sesmaria de 20 léguas, em reconhecimento pelos seus serviços prestados ao Rei, existindo um silêncio em relação ao passado “indígena”.
Sobre esse fato escreveu Eusébio de Sousa em sua Chronica do Ipú: Reza a tradição – e não base para contestal-a – que o local onde estar hoje assentada a sede da comarca, consequentemente a cidade de Ipu, faz parte da doação real de vinte léguas do territorio feita no anno de 1694, pelas Côrtes de Portugal, a d. Joanna Paula Vieira Mimosa, denodada matrona que, ao lado de seus filhos, contribuiu fortemente para a catechese dos indios então aldeiados nessas paragens (...). (SOUSA, Eusébio. Um pouco de historia (Chronica do Ipú). Revista do Instituto do Ceará. Fortaleza. Tomo XXIX, Ano XXIX, 1915, p. 153).
Uma das passagens mais citadas sobre o “mito” de Joana Paula, encontra-se registrada na Enciclopédia dos Municípios. Tal citação não faz referencia à obra de Eusébio, se furtando a apenas colher os dados e escrever sobre ela dizendo: Rezam as crônicas que, em 1694, a Corte de Portugal fez doação de vinte léguas de terras a Dona Joana Paula Vieira Mimosa, mulher excepcional, mãe de muitos filhos e que foi um baluarte para a conquista e definitiva colonização das terras onde hoje se ergue a cidade. (ENCICLOPÉDIA DOS MUNICÍPIOS BRASILEIROS. Volume XVI – (IBGE) Rio de Janeiro, 1959, p. 27).
Mais adiante continua: O historiador Eusébio de Sousa, filho de Ipu, referindo-se ao fato, afirma que, D. Joana conseguia, com muito jeito, catequizar a indiada que descia a Serra Grande e vinha pescar nos rios e riachos localizados nas proximidades do Ipu. (Idem, p. 278).
            Desde que escreveu sua Chronica do Ipu, os estudiosos têm repetido as conclusões do magistrado. Alguns autores utilizam as suas afirmações, com algumas modificações na escrita, sem indicar, na maioria das vezes, a fonte de pesquisa. Por sua vez, Eusébio não fundamenta muitas de suas conclusões. O caso de Joana Paula evidencia isso.
Para ele, já no século XVII a “missionária” vinha prestando seus serviços catequéticos, tendo concluído sua obra “heróica” já em 1694. Diz ele que Não se pode affirmar a época do começo de sua catechese, sabendo unicamente que, pelo dec[orrer] do anno de 1694, jugava a heroína completa a sua obra, conclusão que se tira da data em que lhe era feita a doação real, pelo governo de Portugal, em reconhecimento dos seus serviços prestados na catechese. (SOUSA, Eusébio. Um pouco de História... ).
Segundo a versão do magistrado (Eusébio foi juiz de direito em Ipu entre 1913 e 1918), coube a Joana Paula a obra de colonizar o Ipu e catequizar os índios. Em troca pelos serviços prestados à coroa, teria recebido uma das maiores sesmarias concedidas na época para o Ceará.
Não podemos negar que muito dos escritos de Eusébio de Sousa partiu da comprovação documental. No entanto, o autor se utilizou, para as lacunas existentes, dos relatos orais, incorrendo muitas vezes em equívocos, tal é o caso da D. Joana Paula Vieira Mimosa. Não à toa que ele diz, segundo a Enciclopédia dos Municípios: “rezam as Crônicas...” e em Chronicas do Ipu: “Reza a tradição – e não há base para contestal-a (...)”.
Ainda que não fosse possível contrapor as suas afirmações com base numa pesquisa empírica, documental, seria difícil sustentar suas conclusões. A ocupação efetiva do Ceará e sobretudo da Ibiapaba, só se deu tardia e espaçadamente após a expulsa dos holandeses do nordeste açucareiro em 1654. E só se consolidou com a pecuária bovina, entre fins do século XVII e ao longo do século XVIII. Ora, em 1694, após algum tempo de catequese, a “missionária”  já havia, de acordo com o juiz, pacificado os índios e dado início à ocupação sistemática do povoado. Parece ilusório para aquela centúria.
Restam algumas questões: por que há um silêncio quanto aos descendentes de Joana Paula Viera Mimosa? Por que não se sabe nada sobre o período posterior à catequese daquela “missionária”? Por que, na história de Ipu, escrita por Eusébio de Sousa, não existem conflitos entre o “homem branco” e os nativos?
Eusébio buscou criar para o Ipu uma história harmônica, sem conflitos e que refletisse os efeitos da “civilização” em oposição à “selvageria” dos “índios”. Buscou criar a imagem de que seus “primeiros moradores” foram “homens de trabalho”, pacatos e ordeiros, o que permitia antever o seu futuro promissor. O povoado nascia. Já começava a sentir os effeitos da civilização, era formado um núcleo composto dos seus primeiros moradores, os quais, homens de trabalho, congragados, constituíram um sitio de plantações com denominação de Ipu (…). (Idem).
Não sendo possível negar a miscigenação do elemento branco com o nativo, Eusébio buscou minimizar a influência da “raça indígena” na formação do ipuense. (...) Pouco a pouco, assistia-se a transição da raça indígena, a qual, a proporção que a civilização avançava como pela mortalidade resultante da perseguição que lhe moviam os conquistadores, principalmente naquellas tribos mais ferozes que dificilmente podia se appoximar o valoroso trabalho daqueles martyres e denodados trabalhadores. (Idem, p. 158).
Assim, como a maioria dos intelectuais que viveram entre fins do século XIX e a primeira metade do século XX, foi ele influenciado pelas ideologias racistas europeias, do século XIX.  Portanto, buscou atenuar, premido pelas ideias de base racial, a nossa ascendência indígena. Para que o ipuense fosse dotado de uma inteligência e de uma formação superior era preciso maximizar sua ascendência europeia. É nesse sentido que a figura de Joana Paula é supervalorizada no que diz respeito à nossa formação, ela mesma de “origem nobre”.
Na análise do magistrado, teria cabido a Joana Paula e seus filhos o trabalho de abrir caminho à civilização local, “regenerando uma raça sem valor”: Si por um lado recebia a respeitavel Senhora o premio de seu trabalho dispendido com a collaboração de seus filhos no alevantamento idéal da regeneração de uma raça sem valor como a dos nossos primitivos, hodiernamente assistimos a flagrante injustiça de nossos historiadores silenciando essa obra perdida na obscuridade dos tempos esquecida nas paginas de história patria como si a mesma não fora filha de rara abnegação, de esforços inauditos, improprios, até de seu sexo, máxime naquellas remotas área. (Idem, p. 154).
            O ipuense, civilizado, seria, portanto descendente de uma heroína “corajosa”, “varonil” e “abnegada”, pois sem seus trabalhos seríamos, futuramente, “incultos” e “selvagens”. [Joana Paula] era uma mulher varonil que, corajosamente, abnegadamente, contribuía para a formação de um nucleo que mais tarde, obedecendo a lei geral da evolução, abrindo caminho ao mundo culto e civilisado, num crescendo incessante de idéias novas que ia surgindo, uma após outras, viria a occupar posição honrosa na história contemporanea, constituindo a cidade actual, magestosa, toda ufana de si, admirada e respeitada por todos. (Idem. P. 154).

            Buscando diminuir a influência indígena na formação do ipuense ou buscando criar uma imagem dócio e ordeira na formação do povoado, ou ainda, simplesmente escrevendo com base em relatos dos mais velhos, é que Eusébio de Sousa resgata a figura heróica de Joana Paula Vieira Mimosa.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

O 26 de agosto e a construção de uma data comemorativa

Inauguração da Praça 26 de agosto, 1940. Álbum de 1940. Acervo do Professor Mello.

Desde 1791, quando foi criada pelo rei de Portugal a Vila Nova d’El-Rey, com sede em Campo Grande, hoje Guaraciaba do Norte, o pequeno povoado, onde teria sido fundada a Fazenda Ipú no século XVIII, ficou subordinado politicamente à câmara municipal daquela Vila. Era Campo Grande, à época, uma região mais desenvolvida economicamente e cuja posição era estratégica tanto para o controle dos tributos na região quanto para debelar as lutas que assolavam a Freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos, criada em 1757 pelo bispado de Pernambuco, à qual a Capitania do Ceará estava subordinada.
            A questão é que o século XIX marca um período de crescimento econômico do pequeno povoado que mais tarde daria origem ao Ipu. Tal crescimento esteve intimamente ligado à produção de algodão, cujo preço estava em alta no mercado, sobretudo europeu, naquele momento. Da “febre de produção” (Raimundo Girão) do algodão naquele período no Ceará, Ipu teve sua parcela de participação.
            Em função de um incipiente crescimento econômico e das questões políticas e religiosas favoráveis da época, é que o povoado ganha importância, suplantando a sede da Vila. Pela lei nº 200 de 26 de agosto era suprimida a Vila Nova d'El-Rey, transferindo a sede do Município para o núcleo do Ipu Grande, elevando-o a vila com a denominação de Vila Nova do Ipu Grande. Pouco menos de seis meses depois em 1º ou 12 de janeiro de 1841, pela lei provincial nº 230, era suprimida a Vila Nova do Ipu Grande, sendo transferida de volta ao Campo Grande. Mais foi restaurada pela lei provincial nº 161 ou 261, de 3 de dezembro de 1842.
            Embora a Câmara municipal só tenha sido instalada, de fato, em 1842, instituiu-se como data oficial que marcaria a emancipação política da localidade o 26 de agosto de 1840.
            Mas o que significava para uma localidade naquela época ser elevada à condição de Vila? Em primeiro lugar, ganhava em importância política, já que passava a ser sede da Câmara Municipal, órgão responsável pela administração da Vila. Segundo, recebia as instituições jurídico-políticas. Tinha o poder de arrecadar os impostos, legislar, fiscalizar o comércio, lançar impostos quando necessário, zelar pela limpeza pública, pelo abastecimento de água, coleta de lixo, pela segurança pública, etc. Na medida em que o Ipu era agora a sede da vila, os recursos poderiam ser gastos na sede do município. Era lá onde estavam os vereadores eleitos indiretamente, cujo presidente tinha a função equivalente a de prefeito hoje. Como não havia uma separação clara entre o público e o privado, muitos dos recursos garantiam o poder de potentados e a construção de “impérios” econômico e político dos coronéis dos “sertões”, perpetuando ainda hoje sobrenomes “importantes”, ou “illustres”, como se dizia à época.
            Até o 26 de agosto de 1940 foi essa data ignorada e insignificante para o município. Não há nenhum documento que faça alusão à importância da data nas comemorações do município, anteriormente. Foi somente no governo de Francisco das Chagas Pinto, em plena era Vargas, que se instituir o 26 de agosto como data importante para a cidade, justamente no centenário da lei nº 200 (1840).
            A era Vargas foi marcada pela institucionalização e a valorização de algumas datas comemorativas e cívicas, sobretudo aquelas ligadas ao seu governo, como meio de se construir uma memória da “mudança” e de seu governo como “revolucionário”.
            Em Ipu o 26 de agosto de 1940 se insere nessa lógica e não à toa que lá esteja grafado a construção de uma memória do governo Vargas como revolucionário, no âmbito nacional, e do governo de Chagas Pinto, no âmbito municipal, como teria ocorrido no Governo de Joaquim Lima (1930-1935), anos antes.
            Ora, o 26 de agosto como data cívica do município é uma construção do governo de Chagas Pinto que teve de “inventar” uma data comemorativa como meio de exaltar a era Vargas e o seu próprio governo.
Engana-se aquele que ver no documento uma expressão da verdade. Ele é, senão, um discurso, uma construção, uma representação, é produzido intencionalmente com base uma relação de forças. E se for documento oficial tem a função de projetar uma memória positiva.