domingo, 29 de março de 2015

Para ler antes de morrer - Noites Brancas

DOSTOIÉVSKI – Noites Brancas

            Noites brancas não é daqueles grandes romances de Dostoiévski, mas tem os seus encantos. Me atraiu justamente porque fala da solidão de um homem em meio à multidão das grandes cidades. A cidade como um monstro parece tragar o homem, perdido em meio aos seus movimentos, à colmeia humana, ao burburinho e a velocidade dos transportes e pessoas indo e vindo, características centrais da modernidade citadina de meados do século XIX, tema de muitos romances, poesias e obras da filosofia escritas nos séculos XIX e XX. Nestes últimos casos, Baudelaire e Walter Benjamin talvez sejam os nomes mais importantes. Como sou um estudante e pesquisador dessa modernidade oitocentista, o romance tem, para mim, valor especial. Além de tudo, a nostalgia dos personagens e do cenário me causaram vibrantes sensações. A primeira leitura foi, creio, mágica.
Noites brancas, de Dostoiévski, foi publicada em 1848 pouco antes de seu exílio na Sibéria e pode ser considerado um romance que encerra a sua fase de juventude e abre caminho para a sua fase madura na literatura. Marca, junto com outros trabalhos, um momento decisivo na transição para sua maturidade artística.  Talvez seja a sua obra com traços mais nítidos do romantismo. Segundo Joseph Frank, foi escrito sob a influência de Hoffmann e do romantismo alemão, como toda a ficção russa da década de 1830, farta das discussões entre o ideal e o real, o espiritual e o material[1]. No entanto, o ataque que sofreu o romantismo na década de 1840, pelos críticos realistas russos, contribuiu para transformar o universo literário. O verdadeiro artista, do romantismo da década de 1830 deu lugar a um sonhador fracassado, incapaz de enfrentar e dominar as exigências e dos desafios da vida. É nesse contexto que o “sonhador” de Dostoiévski adquire uma nova roupagem.
            Neste conto, a psicologia do “sonhador” passa a ocupar o centro da narrativa. O personagem central, nomeado apenas como “sonhador” (em momento algum ficamos sabendo o seu nome), parece ser um tipo característico de São Petersburgo, vivendo no isolamento e na solidão, parecendo ser tragado pela grande cidade. No entanto, ao contrário de muitos outros, enxerga a urbs e as pessoas com grande curiosidade e desmedido interesse benevolente, desenvolvendo uma relação afetiva com pessoas que vê, mas que efetivamente não conhece, e com os espaços da cidades, suas casas, ruas e logradouros pelos quais passa diariamente. O personagem central parece viver numa “realidade” imaginária, romanceada, enquanto o mundo concreto ao seu redor parece sempre distante e inatingível.
De um lado, o discurso elevado e pomposo do “sonhador” e sua linguagem declamatória parece ser uma paródia dos personagens da escola romântica.  De outro, aos olhos do leitor, a maneira como fala e se comporta o “sonhador” o torna um personagem, no mínimo, ridículo, talvez inverossímil.
Embora Nástenka, a sua amada, se pareça bastante com o “sonhador”, aparece mais ligada ao mundo real, com atitudes mais simplórias. Os seus sonhos não ultrapassam o seu mundo cotidiano e material. A sua única ambição parece ser casar-se com o homem que ama, acreditando ter chegado a idade para isso
            O primeiro contato com a realidade, que lhe arrebata de seu mundo solitário e resignado, é com uma jovem de 17 anos, Nástenka, encontro fortuito num dos locais por onde transitava o “sonhador”. Um ano antes do encontro,  Nástenka havia ficado noiva de um rapaz, que morara como inquilino na casa de sua avó, com quem vivia desde a morte de seus pais. Partira para se estabelecer, prometendo voltar exatamente naquele dia em que se conhecem os personagens centrais do conto, naquela mesma estação, para encontrar-se com ela nas “noites brancas” da primavera de São Petersburgo, na mesma ponte onde o sonhador a viu pela primeira vez.
            O noivo não aparece no dia marcado e Nástenka se encontra com o “sonhador” nas três noites seguintes, sempre no mesmo lugar e sempre com a esperança de reencontrar o noivo, seu amado. Apesar do sofrimento de ambos (dela pela suposta traição do noivo e dele por ter-se apaixonado por ela), vivem noites de encantamento. Na última noite, Nástenka, impulsionada talvez por um saldável instinto feminino de autoproteção decide transferir para o “sonhador” o seu afeto e casar-se com ele. Por um instante, encorajado por Nástenka, o “sonhador” vislumbra a possibilidade de uma felicidade “real”. Mas, ela se lança aos braços do noivo na mesma hora em que ele finalmente aparece, logo depois de ter firmado compromisso com o outro. Sozinho mais uma vez, o mundo volta a ter a cor cinzenta de antes. Passa a ver os espaços como sempre vira antes. O romance termina na manhã seguinte, com a desilusão do sonhador: “não sei por quê, pareceu-me que de repente meu quarto envelhecera tanto quanto a velha [que limpava o seu quarto]. As paredes e o piso haviam perdido a cor, tudo se apagara; as teias de aranha tinham se proliferado. Não sei por quê, quando olhei pela janela, pareceu-me que a casa em frente também ficara decrépita, apagada, que o reboco das colunas tinham descascados e caído, que as cornijas estavam enegrecidas e rachadas, e que as paredes, de um amarelo forte e brilhante, todas manchadas...”. [2]
            O encontro com Nástenka tira o “sonhador’ de seu mundo de encantos, solidão e sofrimento, e coloca-o num mundo real, modificando, para sempre, sua vida. Ainda que a felicidade do “sonhador” tenha durado um instante ele parece achar ter sido o suficiente para abarcar toda a sua existência. Sem aparentar ciúmes ou inveja, parece aceitar o seu destino de alguém fadado à resignação e à solidão.
            Para Nivaldo dos Santos, no posfácio do romance, o isolamento do narrador, o “sonhador”, reflete a própria visão de Dostoiévski diante da agitada capital russa, São Petersburgo. Logo que deixou Moscou para estudar em São Petersburgo, Dostoiévski teria logo percebido o contraste existente na cidade. No meio de uma cidade que cresce e se moderniza, perambulavam indivíduos isolados e excluídos da vida social, talvez engolidos pela indiferença e gigantismo dos novos espaços. Num mundo, assim, tão voraz, o sonho e a imaginação parecem ser caminhos capazes de devolver a dignidade das pessoas, que não encontram consolo ante feras ou talvez a existência concreto de muitos indivíduos só tenham sentido nesse mundo imaginário. Coisas simples, como ter um amigo sincero ou alguém capaz de ouvir e dividir as angústias, passa a ter um valor desmedido. Parece ser os caso não apenas do “sonhador”, mas também de Nástenka.
            O sonhador parece adquirir a mesma imagem fantasmagórica daquela cidade fantástica, local dos sonhos, da solidão, da alegria e das decepções. Assim parece ser o narrador.

Boa Leitura





[1] FRANK, Joseph. Dostoiévski: As sementes da revolta, 1821-1849. 2.ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008, p. 421.
[2] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites brancas: romance sentimental (das recordações de um sonhador). 3.ed. São Paulo: Editora 34, 2009, 81-82.

domingo, 1 de março de 2015

Imprensa e cidade: o jornalismo no início do século XX em Ipu-Ce. Parte IV

As páginas seguintes, com exceção da quarta, totalmente dedicada aos anúncios, traziam as notícias regionais (do Ceará), nacionais e internacionais, colhidas nos inúmeros periódicos de outras praças, assinados por seus redatores e recebidos pelo sistema de correios. Quando os serviços de correios ficavam temporariamente suspensos, por problemas técnicos, que impossibilitavam a circulação dos trens da Estrada de Ferro de Sobral, muito comum em invernos fortes, cujas águas das chuvas danificavam os trilhos e trechos da ferrovia, os redatores deixavam de noticiar os eventos nacionais e internacionais.
        Também noticiava sobre os acontecimentos locais, dedicando grande espaço para dar visibilidades aos saraus e soirées realizados periodicamente pelo Grêmio Ipuense e pelos salões dos “palacetes” das famílias abastadas, bem como, aos chamados Assaltos organizados pelas moças oriundas da, assim denominada, “fina sociedade”. Todos compunham a seção intitulada Revista Social, que anunciava também os aniversariantes do mês, os batizados, casamentos, visitantes ilustres, que passavam pela cidade, e noticiava sobre aqueles que viajavam para outras paragens.
        Algumas edições davam grande destaque, em suas páginas, para as crônicas e para longos artigos, especializados em leis, escritos pelos bacharéis, juízes e entendidos em direito. Eusébio de Sousa, Souto Maior e Apolônio de Barros escreveram alguns deles.
        Mas também o jornal tinha um componente literário muito forte, característica da imprensa do final do século XIX e primeiras décadas do século XX, como anotam os trabalhos de Werneck Sodré[1] e Juarez Bahia[2], Brito Broca[3],  Machado Neto[4], Antonio Candido[5],  dentro outros, publicando com destaque, como ressaltamos, belas poesias. Além daquela que geralmente vinha impressa na primeira página, dedicada a um poeta cearense, a terceira página trazia a transcrição de outra composição poética, agora de um autor consagrado nacionalmente, quase sempre um soneto. Ao lado disso, abria espaço para as chamadas palestras literárias e discursos retóricos, alguns deles proferidos por Leonardo Mota, tido por seus pares como grande orador.
        Após nove meses de circulação (março-novembro), a Gazeta encerrou seus trabalhos com o número 33, de 28 de novembro de 1913. Os motivos de sua “morte” são quase totalmente ignorados tanto por Eusébio de Sousa quanto por Oswaldo Araújo, nos trabalhos que falam sobre o nascimento e desenvolvimento da imprensa local. O primeiro, que na verdade apresenta uma justificativa para isso, apenas diz que “a Gazeta, por força de circumstancias momentosas – a retirada temporária desta cidade de seu director suspendeu a sua atividade”[6].

Continua





[1] SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. São Paulo: INTERCOM; Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011. A primeira edição data de 1966.
[2] BAHIA, Benedito Juarez. História, jornal e técnica: história da imprensa brasileira. 5. ed. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009. Vol. 1. A primeira edição data de 1964.
[3] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. 4. ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio; Academia Brasileira de Letras, 2004.
[4] MACHADO NETO, Antônio Luís. Estrutura social da república das letras: sociologia da vida intelectual brasileira, 1870-1930. São Paulo, Grijalbo: Editora da Universidade de São Paulo, 1973.
[5] CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 8. ed. São Paulo; T. A. Queiroz; Publifolha, 2000 (Grandes nomes do pensamento brasileiro).
[6] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 228.