terça-feira, 28 de julho de 2015

Para ler antes de morrer - Genealogia da moral

Nietzsche é um desses autores que desconserta qualquer leitor, mesmo os mais avisados, quer dizer, mais preparados. É preciso dizer que não é uma leitura fácil e que nem o que escreveu está isento de contradições.  Sua obra é das mais polêmicas e controvertidas. Põe em questão nossa maneira de pensar, agir e enxergar o mundo e, com um martelo na mão, mira em todos os ídolos construídos pela moral, pela filosofia que chama de socrático-platônica e pela ciência.
Na minha concepção não se pode morrer sem lê-lo ainda que seja para discordar dele. O perigo de tal leitura é nos deixar perturbados, nos tirar da inercia, nos colocar sobre areia movediça. Há algo melhor do que isso?
A interpretação abaixo é um resumo, simplificado, com linguagem mais acessível, voltada para o leitor não especializado, de uma resenha que escrevi quando li Genealogia da moral[1], considerada por muitos especialistas, um dos principais livros de Nietzsche.  

Nietzsche e a Genealogia da Moral


            Neste livro o filósofo alemão empreende uma severa crítica à ciência e à filosofia. Em primeiro lugar, para ele, elas não estão isentas da moral, pelo contrário, sempre partem de um ponto de vista particular. A questão da verdade na moral e na ciência são secundários no pensamento de Nietzsche. O mais fundamental é a questão dos valores e, no seu âmago, os valores morais. Qual o valor dos valores morais? Essa é a pergunta fundamental da filosofia de Nietzsche.
            Para ele, a crítica dos valores só pode ser feita com base numa perspectiva extramoral, amoral, imoral ou se situar além do bem e do mal, quer dizer, para além da moral. Desta forma, a vida é considerada como instinto, como força, como vontade, como potência, isto é, como vontade de potência. O que torna possível a genealogia da moral como genealogia da vontade de potência, que tem como principal objetivo avaliar os valores morais com base na vida, é a relação intrínseca estabelecida por ele entre moral e vida. O critério último de julgamento da vida deve partir da própria força que a institui.
Não lhe interessa saber se os juízos de valor sobre a vida são verdadeiros ou falsos, mas avaliar a sua força que institui um tipo de vida. Que tipo de vida instituiu a moral judaico-cristã? Qual o seu valor?

Genealogia da Moral e Vontade de Potência


Fazer uma crítica radical da moral é uma das tarefas essenciais de Nietzsche. Colocando a questão do valor, Genealogia da moral está avaliando a sua força. Ao suspeitar do valor da moral, a genealogia pretende desvalorizar os valores prevalecentes até então. O objetivo central dessa filosofia é colocar em questão o próprio valor dos valores pelo conhecimento das condições de seu nascimento, desenvolvimento e modificação. Desta forma, considera que os valores não são algo em si, não são dados, não têm existência exterior ao homem, não são um fato, uma realidade e, portanto, como além de todo questionamento.
A tese central do livro é a existência de uma dupla origem dos valores morais e de sua oposição histórica entre dois tipos fundamentais de moral: uma “moral dos mestres”, dos senhores, e uma “moral dos escravos”, ou uma “moral sadia”, “natural”, como fala em O Crepúsculo dos ídolos[2], regida pelos instintos da vida, e uma “moral contranatural” voltada contra os instintos da vida.
A moral dos mestres, aristocrática, é uma ética do bom e do mau, entendida como uma força vital,  que define o homem por sua potência, pelo que ele pode e é capaz de fazer. Ao contrário, a moral plebeia ou dos escravos é um sistema de juízos que institui o bem e o mal considerados como valores metafísicos, transcendentes ou transcendentais. No primeiro caso, a vida é definida como positividade. No segundo caso, é definida como negatividade, mas não porque uma seja verdadeira e outra falsa, mas porque uma é símbolo de vitalidade, potência, força, plenitude e a outra símbolo de decadência, diminuição dos valores vitais, da potência, do vigor.  
Colocando a questão dessa forma, o objetivo central do filósofo da suspeita é realizar uma crítica radical dos valores morais dominantes na sociedade moderna. É ela feita com base nos valores da vida, tomando a vida como único critério de avaliação. Nesse sentido, a ética do bom e do mau, aristocrática, desempenha o papel de um princípio de avaliação e de modelo de alternativa crítica aos valores dominantes. O modelo de Nietzsche é a Grécia arcaica, momento em que, segundo ele, operou os valores aristocráticos e que sempre significou o apogeu da civilização, onde encontra na arte (na epopeia, na poesia lírica, na tragédia) os valores que opõe à moralidade. Da mesma forma que a filosofia socrático-platônica estabeleceu uma ruptura entre o trágico (instinto) e o racional (lógica), a religião judaico-cristã instituiu uma ruptura entre ética e moral. Momentos distintos, têm em comum assinalar o nascimento de um período de decadência.
Desta forma, a filosofia socrático-platônica e a moral judaico-cristã teriam transformado o homem vital em animal doméstico, uma ave de rapina em cordeiro. Teriam transformado o tipo forte de homem num homem fraco, superação das forças ativas pelas forças reativas, fazendo os próprios fortes assumirem os valores dos fracos e produzindo um animal doente, decadente.
A moral judaico-cristã, como moral do fraco, dos valores reativos, dos valores vitais, teria realizado uma total inversão de valores ao afirmar que os bons são apenas os miseráveis, pobres, necessitados, impotentes, baixos, sofredores, doentes, disformes e que os nobres e poderosos são malvados, cruéis, lúbricos, insaciáveis, ímpios. Desta forma, a moral judaico-cristã ao inverter os valores positivos da ética aristocrática, expressou o ódio contra a vida, contra o que é positivo, afirmativo, ativo, na vida. Essa moral, na medida em que nega os valores da vida, é, para Nietzsche, niilista.
Como demostra Roberto Machado[3], leitura que nos serve de baliza aqui, Nietzsche define, em Genealogia da moral, esse tipo de niilismo com base em três figuras: o ressentimento, a má consciência e o ideal ascético.
O ressentimento é o predomínio das forças reativas sobre as forças ativas. O ressentido é alguém que nem age, nem reage, produz apenas uma vingança imaginária, um ódio insaciável. Criando um inimigo que considera malvado e imaginando uma vingança contra seus valores, o ressentido dá sentido à sua falta de força. Coloca sempre a culpa de sua inércia no outro, é sempre o culpado do que não pode, do que ele não é. Concebendo o inimigo forte como malvado, o ressentido pode então se considerar melhor ou se imaginar bom.
A má consciência ou o sentimento de culpa tem, para Nietzsche, uma dupla origem. A primeira é a transformação do tipo altivo em culpado que se deu com o nascimento do Estado. O Estado, como força repressora, coercitiva, abateu-se sobre uma população de nômade, selvagem e livre, desvalorizou abruptamente os instintos, reduzindo esses “semianimais” ao pensamento, à consciência. Esses instintos vitais, força, potência, voltaram-se para dentro, para o interior, criaram a interioridade. Essa força voltou-se contra o próprio indivíduo. É, pois, a interiorização das forças ativas, da vontade de potência, que cria a má consciência.
A segunda forma de má consciência é a transformação do ressentido em culpado realizado pelo padre ascético. O ressentido que é ao mesmo tempo o sofredor busca um culpado para o seu sofrimento, para sobre ele descarregar todo o seu ódio. É o padre que ensina que o único culpado desse sofrimento é ele mesmo. A má consciência é o ressentido voltado contra ele mesmo. É assim que nasce o pecado.
A terceira forma de niilismo é o ideal ascético, caracterizado pelo fato de considerar a vida um erro, negá-la e fazer dela uma ponte para outra vida, a vida verdadeira. É o ideal ascético que inventa um além para caluniar um aquém, que inventa um outro mundo para condenar a vida. É a vingança da vida com a ideia da existência de uma outra vida, melhor que esta.
Assim, o que caracteriza a moral cristã, ao interligar a noção de ressentido, má consciência e ideal ascético, é caluniar e envenenar a vida. Desta forma, essa moral é niilista. Com ela os instintos de decadência dominam os instintos de expansão da vida, a vontade de nada vence a vontade de viver. Para ela não-ser é melhor do que ser. Se a essência é ser nada, é não ser, então essa vida não vale nada, por isso é condenável. Niilista, a moral exprime uma vontade de nada, de depreciar a vida. É o próprio triunfo das forças reativas.
Nietzsche, como dissemos, empreende uma crítica aos valores modernos, porque os considera niilistas, isto é, dominados por valores morais, pelos valores superiores, da decadência, pois a moral dos escravos foi vencedora e impera na Europa.
Contra o enfraquecimento do homem, a transformação dos fortes em fracos é necessário assumir uma perspectiva além do bem e do mal, ou seja, além da moral. Para além do bem e do mal não significa para além do bom e mau. É bom tudo que intensifica no homem o sentimento de potência, a vontade de potência. Mau é tudo que provém da fraqueza.




[1] NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da moral. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.
[2] ______. Crepúsculo dos ídolos ou como filosofa  com o martelo. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
[3] MACHADO, Roberto. Nietzsche e a verdade. 2.ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999.

segunda-feira, 20 de julho de 2015

Grupo Outra História lança o seu segundo livro

NAS TRILHAS DO SERTÃO: ESCRITOS DE CULTURA E POLÍTICA NOS INTERIORES DO CEARÁ 


O Grupo Outra História, comunidade de pesquisadores em história do Ipu, lançou na última quinta-feira, dentro do ciclo de debates do VII Simpósio de Ipu, o livro, “Nas trilhas do sertão: escritos de cultura e política nos interiores do Ceará", volume 2. Trata-se do nº 2 da série Outra História. A obra é uma coletânea que reúne sete artigos sobre a história do Ipu e da antiga “zona norte”.
Na ocasião do lançamento, os autores participaram de uma mesa redonda que discutiu a obra, em interação com o público presente.
O livro tem como organizadores, os historiadores ipuenses, Antonio Vitorino Farias Filho e Antonio Iramar Miranda Barros. Os artigos foram escritos pelos professores e historiadores, Antonio Iramar Miranda Barros, Antonio Vitorino Farias Filho, Carlos Augusto Pereira dos Santos (UVA), Francisco Denis Melo (UVA), Maria Janicleia dos Santos, Raimundo Alves de Araújo e Reginaldo Alves de Araújo.
Os textos reunidos no livro resultaram de trabalhos acadêmicos, mas com uma linguagem mais leve e instigante.


Título: “Nas trilhas do Sertão: escritos de cultura e política nos interiores do Ceará". Volume 2.
Organizadores: Antonio Vitorino Farias Filho e Antonio Iramar Miranda Barros
Editora: Sertão Cult
208 Páginas
Preço: R$: 15,00


terça-feira, 26 de maio de 2015

A Coluna Prestes em Ipu - Parte II

O Tenentismo

 
OS 18 do Forte. Da esquerda para direita, tenentes Eduardo Gomes, Siqueira Campos, Newton Prado e o civil Otávio Correia. Fonte: Domínio Público.
A Coluna Prestes é resultado do movimento Tenentista, surgido na década de 1920. Era composto por uma ala do Exército Brasileiro, principalmente de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, descontente com a política oligárquica adotada durante a República Velha (1889-1930). Desde a montagem da Política dos Governadores, pelo Paulista Campos Sales - que permitia que a República e o poder estivessem nas mãos dos cafeicultores paulistas – os militares foram afastados do poder. E isso gerou, ao longo da década de 1920, muitas insatisfações numa ala do exército brasileiro. Desde então, os tenentes passaram a querer derrubar a República Oligárquica sob o pretexto de moralizar a política e defender o desenvolvimento do Brasil.
Nas eleições de 1922, os tenentes se opuseram à candidatura à presidência do Paulista Artur Bernardes, malvisto por eles, e apoiaram um candidato opositor. A insatisfação e a rebeldia de um grupo significativo de jovens capitães e tenentes do exército (e também alguns da Marinha) contra Artur Bernardes foi tal que resultou numa ação mais radical. O fechamento, por ordem do governo, do Clube Militar e a prisão de seu presidente, o Marechal Hermes da Fonseca, acusado de interferir indevidamente na política pernambucana, fizeram explodir revoltas armadas. Um dos movimentos mais emblemáticos foi a revolta dos 18 do Forte, fazendo com que no dia 5 de junho de 1922, jovens oficiais do Forte de Copacabana se rebelassem, com o apoio das guarnições do Distrito Federal e Mato Grosso. O objetivo era impedir a posse de Artur Bernardes.
Embora a rebelião tenha fracassado, os jovens militares resolveram abandonar o forte e marchar pela praia de Copacabana para combater as forças do governo.  Desse episódio, conhecido como Os 18 do forte, sobreviveram apenas os tenentes Siqueira Campos e Eduardo Gomes. Iniciou-se aí o longo episódio de rebeldia a que se chamou Tenentismo.
Seguiu-se revolta no Rio Grande do Sul, quando unidades do exército aquarteladas nas cidades gaúchas de São Borja, Uruguaiana e Santo Ângelo se sublevaram. Seus líderes eram o capitão Luís Carlos Prestes e o tenente Siqueira Campos. Depois de alguns dias de combate, os rebeldes se retiraram para Foz do Iguaçu.
Em São Paulo, no dia 5 de julho de 1924, unidades do exército e da Força Pública (PM), se rebelaram. Seus líderes eram o general Isidoro Dias Lopes, O Major Costa e o Capitão Joaquim Távora (morto na revolta). Os rebeldes ocuparam o palácio do governo, provocando a fuga do governador, e controlaram a cidade por 23 dias. Eles exigiam a renúncia do presidente Artur Bernardes e contavam com o apoio dos trabalhadores e de alguns grupos de populares. Para evitar o bombardeio da cidade por forças legalistas (do governo), os rebeldes se deslocaram para Foz do Iguaçu, Paraná, onde se encontrariam mais tarde com os oficiais rebeldes vindos do Rio Grande do Sul. Deste encontro surgiu a Coluna Prestes, que tinha como objetivo estender a campanha anti-governo a todo o país.

Entre abril de 1925 e fevereiro de 1927 (dois anos e três meses), os rebeldes com 800 a 1500 civis e militares percorreram cerca de 25 mil quilômetros por treze estados, sem perder qualquer dos 53 combates contra as forças governistas e a “jagunçada” de muitos coronéis. Inutilmente procurou sublevar as populações do interior contra Bernardes e a oligarquia dominante. Com o fim do mandato de Artur Bernardes, em 1926, a Coluna entrou na Bolívia e, finalmente, se dissipou.

Continua... 
Primeira parte em: http://amoscanomeupao.blogspot.com.br/2013/03/a-coluna-preste-em-ipu-parte-i.html
Terceira parte em: http://amoscanomeupao.blogspot.com.br/2013/03/a-coluna-prestes-em-ipu-parte-iii.html

domingo, 29 de março de 2015

Para ler antes de morrer - Noites Brancas

DOSTOIÉVSKI – Noites Brancas

            Noites brancas não é daqueles grandes romances de Dostoiévski, mas tem os seus encantos. Me atraiu justamente porque fala da solidão de um homem em meio à multidão das grandes cidades. A cidade como um monstro parece tragar o homem, perdido em meio aos seus movimentos, à colmeia humana, ao burburinho e a velocidade dos transportes e pessoas indo e vindo, características centrais da modernidade citadina de meados do século XIX, tema de muitos romances, poesias e obras da filosofia escritas nos séculos XIX e XX. Nestes últimos casos, Baudelaire e Walter Benjamin talvez sejam os nomes mais importantes. Como sou um estudante e pesquisador dessa modernidade oitocentista, o romance tem, para mim, valor especial. Além de tudo, a nostalgia dos personagens e do cenário me causaram vibrantes sensações. A primeira leitura foi, creio, mágica.
Noites brancas, de Dostoiévski, foi publicada em 1848 pouco antes de seu exílio na Sibéria e pode ser considerado um romance que encerra a sua fase de juventude e abre caminho para a sua fase madura na literatura. Marca, junto com outros trabalhos, um momento decisivo na transição para sua maturidade artística.  Talvez seja a sua obra com traços mais nítidos do romantismo. Segundo Joseph Frank, foi escrito sob a influência de Hoffmann e do romantismo alemão, como toda a ficção russa da década de 1830, farta das discussões entre o ideal e o real, o espiritual e o material[1]. No entanto, o ataque que sofreu o romantismo na década de 1840, pelos críticos realistas russos, contribuiu para transformar o universo literário. O verdadeiro artista, do romantismo da década de 1830 deu lugar a um sonhador fracassado, incapaz de enfrentar e dominar as exigências e dos desafios da vida. É nesse contexto que o “sonhador” de Dostoiévski adquire uma nova roupagem.
            Neste conto, a psicologia do “sonhador” passa a ocupar o centro da narrativa. O personagem central, nomeado apenas como “sonhador” (em momento algum ficamos sabendo o seu nome), parece ser um tipo característico de São Petersburgo, vivendo no isolamento e na solidão, parecendo ser tragado pela grande cidade. No entanto, ao contrário de muitos outros, enxerga a urbs e as pessoas com grande curiosidade e desmedido interesse benevolente, desenvolvendo uma relação afetiva com pessoas que vê, mas que efetivamente não conhece, e com os espaços da cidades, suas casas, ruas e logradouros pelos quais passa diariamente. O personagem central parece viver numa “realidade” imaginária, romanceada, enquanto o mundo concreto ao seu redor parece sempre distante e inatingível.
De um lado, o discurso elevado e pomposo do “sonhador” e sua linguagem declamatória parece ser uma paródia dos personagens da escola romântica.  De outro, aos olhos do leitor, a maneira como fala e se comporta o “sonhador” o torna um personagem, no mínimo, ridículo, talvez inverossímil.
Embora Nástenka, a sua amada, se pareça bastante com o “sonhador”, aparece mais ligada ao mundo real, com atitudes mais simplórias. Os seus sonhos não ultrapassam o seu mundo cotidiano e material. A sua única ambição parece ser casar-se com o homem que ama, acreditando ter chegado a idade para isso
            O primeiro contato com a realidade, que lhe arrebata de seu mundo solitário e resignado, é com uma jovem de 17 anos, Nástenka, encontro fortuito num dos locais por onde transitava o “sonhador”. Um ano antes do encontro,  Nástenka havia ficado noiva de um rapaz, que morara como inquilino na casa de sua avó, com quem vivia desde a morte de seus pais. Partira para se estabelecer, prometendo voltar exatamente naquele dia em que se conhecem os personagens centrais do conto, naquela mesma estação, para encontrar-se com ela nas “noites brancas” da primavera de São Petersburgo, na mesma ponte onde o sonhador a viu pela primeira vez.
            O noivo não aparece no dia marcado e Nástenka se encontra com o “sonhador” nas três noites seguintes, sempre no mesmo lugar e sempre com a esperança de reencontrar o noivo, seu amado. Apesar do sofrimento de ambos (dela pela suposta traição do noivo e dele por ter-se apaixonado por ela), vivem noites de encantamento. Na última noite, Nástenka, impulsionada talvez por um saldável instinto feminino de autoproteção decide transferir para o “sonhador” o seu afeto e casar-se com ele. Por um instante, encorajado por Nástenka, o “sonhador” vislumbra a possibilidade de uma felicidade “real”. Mas, ela se lança aos braços do noivo na mesma hora em que ele finalmente aparece, logo depois de ter firmado compromisso com o outro. Sozinho mais uma vez, o mundo volta a ter a cor cinzenta de antes. Passa a ver os espaços como sempre vira antes. O romance termina na manhã seguinte, com a desilusão do sonhador: “não sei por quê, pareceu-me que de repente meu quarto envelhecera tanto quanto a velha [que limpava o seu quarto]. As paredes e o piso haviam perdido a cor, tudo se apagara; as teias de aranha tinham se proliferado. Não sei por quê, quando olhei pela janela, pareceu-me que a casa em frente também ficara decrépita, apagada, que o reboco das colunas tinham descascados e caído, que as cornijas estavam enegrecidas e rachadas, e que as paredes, de um amarelo forte e brilhante, todas manchadas...”. [2]
            O encontro com Nástenka tira o “sonhador’ de seu mundo de encantos, solidão e sofrimento, e coloca-o num mundo real, modificando, para sempre, sua vida. Ainda que a felicidade do “sonhador” tenha durado um instante ele parece achar ter sido o suficiente para abarcar toda a sua existência. Sem aparentar ciúmes ou inveja, parece aceitar o seu destino de alguém fadado à resignação e à solidão.
            Para Nivaldo dos Santos, no posfácio do romance, o isolamento do narrador, o “sonhador”, reflete a própria visão de Dostoiévski diante da agitada capital russa, São Petersburgo. Logo que deixou Moscou para estudar em São Petersburgo, Dostoiévski teria logo percebido o contraste existente na cidade. No meio de uma cidade que cresce e se moderniza, perambulavam indivíduos isolados e excluídos da vida social, talvez engolidos pela indiferença e gigantismo dos novos espaços. Num mundo, assim, tão voraz, o sonho e a imaginação parecem ser caminhos capazes de devolver a dignidade das pessoas, que não encontram consolo ante feras ou talvez a existência concreto de muitos indivíduos só tenham sentido nesse mundo imaginário. Coisas simples, como ter um amigo sincero ou alguém capaz de ouvir e dividir as angústias, passa a ter um valor desmedido. Parece ser os caso não apenas do “sonhador”, mas também de Nástenka.
            O sonhador parece adquirir a mesma imagem fantasmagórica daquela cidade fantástica, local dos sonhos, da solidão, da alegria e das decepções. Assim parece ser o narrador.

Boa Leitura





[1] FRANK, Joseph. Dostoiévski: As sementes da revolta, 1821-1849. 2.ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2008, p. 421.
[2] DOSTOIÉVSKI, Fiódor. Noites brancas: romance sentimental (das recordações de um sonhador). 3.ed. São Paulo: Editora 34, 2009, 81-82.

domingo, 1 de março de 2015

Imprensa e cidade: o jornalismo no início do século XX em Ipu-Ce. Parte IV

As páginas seguintes, com exceção da quarta, totalmente dedicada aos anúncios, traziam as notícias regionais (do Ceará), nacionais e internacionais, colhidas nos inúmeros periódicos de outras praças, assinados por seus redatores e recebidos pelo sistema de correios. Quando os serviços de correios ficavam temporariamente suspensos, por problemas técnicos, que impossibilitavam a circulação dos trens da Estrada de Ferro de Sobral, muito comum em invernos fortes, cujas águas das chuvas danificavam os trilhos e trechos da ferrovia, os redatores deixavam de noticiar os eventos nacionais e internacionais.
        Também noticiava sobre os acontecimentos locais, dedicando grande espaço para dar visibilidades aos saraus e soirées realizados periodicamente pelo Grêmio Ipuense e pelos salões dos “palacetes” das famílias abastadas, bem como, aos chamados Assaltos organizados pelas moças oriundas da, assim denominada, “fina sociedade”. Todos compunham a seção intitulada Revista Social, que anunciava também os aniversariantes do mês, os batizados, casamentos, visitantes ilustres, que passavam pela cidade, e noticiava sobre aqueles que viajavam para outras paragens.
        Algumas edições davam grande destaque, em suas páginas, para as crônicas e para longos artigos, especializados em leis, escritos pelos bacharéis, juízes e entendidos em direito. Eusébio de Sousa, Souto Maior e Apolônio de Barros escreveram alguns deles.
        Mas também o jornal tinha um componente literário muito forte, característica da imprensa do final do século XIX e primeiras décadas do século XX, como anotam os trabalhos de Werneck Sodré[1] e Juarez Bahia[2], Brito Broca[3],  Machado Neto[4], Antonio Candido[5],  dentro outros, publicando com destaque, como ressaltamos, belas poesias. Além daquela que geralmente vinha impressa na primeira página, dedicada a um poeta cearense, a terceira página trazia a transcrição de outra composição poética, agora de um autor consagrado nacionalmente, quase sempre um soneto. Ao lado disso, abria espaço para as chamadas palestras literárias e discursos retóricos, alguns deles proferidos por Leonardo Mota, tido por seus pares como grande orador.
        Após nove meses de circulação (março-novembro), a Gazeta encerrou seus trabalhos com o número 33, de 28 de novembro de 1913. Os motivos de sua “morte” são quase totalmente ignorados tanto por Eusébio de Sousa quanto por Oswaldo Araújo, nos trabalhos que falam sobre o nascimento e desenvolvimento da imprensa local. O primeiro, que na verdade apresenta uma justificativa para isso, apenas diz que “a Gazeta, por força de circumstancias momentosas – a retirada temporária desta cidade de seu director suspendeu a sua atividade”[6].

Continua





[1] SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. São Paulo: INTERCOM; Porto Alegre: EDIPUCRS, 2011. A primeira edição data de 1966.
[2] BAHIA, Benedito Juarez. História, jornal e técnica: história da imprensa brasileira. 5. ed. Rio de Janeiro: Mauad X, 2009. Vol. 1. A primeira edição data de 1964.
[3] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. 4. ed. Rio de Janeiro: Jose Olympio; Academia Brasileira de Letras, 2004.
[4] MACHADO NETO, Antônio Luís. Estrutura social da república das letras: sociologia da vida intelectual brasileira, 1870-1930. São Paulo, Grijalbo: Editora da Universidade de São Paulo, 1973.
[5] CANDIDO, Antonio. Literatura e sociedade. 8. ed. São Paulo; T. A. Queiroz; Publifolha, 2000 (Grandes nomes do pensamento brasileiro).
[6] SOUSA, Eusébio. Um pouco de Historia. Op. cit., p. 228.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Para ler antes de morrer - Em busca do tempo perdido I

         


Comecei a ler o longo romance Em busca do tempo perdido em 2010, quando ingressei no doutorado. Sua leitura era obrigatória numa das cadeiras que cursei. Na ocasião, só havia me debruçado sobre o primeiro volume, No caminho de Swann. A leitura de Proust me causou uma ampla sensação. Lembro-me que foi tão deliciosa, tão agradável e enigmática, que perdia a noção do tempo, esquecia do mundo a minha volta. Li-o na biblioteca da UFPE, em Recife. Entrava lá depois do almoço, com o sol a pino, e só saia quando os seus funcionários me “expulsavam”, na escuridão da noite. Creio que em três dias consumi aquele calhamaço. Prometi, para mim mesmo, num futuro próximo, ler os outros seis volumes. Isso só ocorreu em 2013, quando já estava com a minha tese pronta. O fiz de uma tirada só e, ao final, escrevi uma extensa resenha sobre a obra, cujo resumo, em sete partes, compartilho com meus leitores. Quem estiver disposto a ler até o final, irá descobrir por que considero Em busca do tempo perdido um de meus romances preferidos.
No caminho de Swann inaugurou uma das obras mais importantes da literatura mundial, embora ainda pouco lida, precisamente porque poucos se interessam em ler o romance quando descobre que, no Brasil, foi publicado em vultosos sete volumes — mais de três mil páginas, na edição da editora Globo.
         Ao longo dos sete volumes, o autor apresenta reflexões sobre o amor, a arte, a passagem do tempo, a homossexualidade, dentre outros temas.
A partir de hoje publicarei sete resenhas dedicadas a cada um dos romances que formam a narrativa de Em busca do tempo perdido.

Marcel Proust. Em busca do Tempo Perdido. Volume 1. No caminho de Swann
Em busca do tempo perdido, romance com mais de três mil páginas, formado por sete volumes, de Marcel Proust, é considerado uma das obras primas da literatura mundial. O primeiro volume, No caminho de Swann, é uma espécie de abertura da obra, onde são apresentados os principais personagens, o narrador, cujo nome não sabemos, uma vez que apresenta apenas a sua família e o círculo de pessoas que frequentam a sua casa. O descobriremos, mais adiante, como Marcel, um jovem sensível e sofisticado.
O narrador ou o herói de Proust, neste primeiro volume, relata sua infância, segundo suas lembranças: as férias em casa de seus avôs em Combray, cidade fictícia, seus passeios de verão; a visita de um conhecido da família, personagem central da trama, que impossibilita sua mãe de dar-lhe um beijo de boa noite, momento mágico e de felicidade para o narrador, o romance de Swann com Odette, uma cortesã, que aparece, aos olhos de outros personagens, no segundo volume, como de um passado de prostituição (uma cocote), e seus momentos de alegria e paixão por Gilberte, filha do casal Swann. Tais lembranças, como que congeladas, presas, são liberadas quando num final de tarde, durante o inverno, ao retornar de um passeio, desanimado e com frio, aceita, contra os seus hábitos, uma xícara de chá com um bolinho seco, de nome Madeleine, que sua mãe propõe. Ao colocar na boca um pouco de chá, onde molhou com um pedaço de Madeleine, sente de imediato um sobressalto, “um prazer delicioso” invadindo-o, ficando meio que atônico, extasiado, feliz, imortal. Ao final de uma busca espirituosa e cheia de felicidades, reconhece finalmente a lembrança trazida pelo gosto do chá com migalha de Madeleine, verdadeira experiência sensorial análoga a que tinha quando sua tia-avó oferecia as mesmas iguarias nas manhãs de domingo antes da missa, em Combray, onde viveu sua infância.
Todas as lembranças, antes enterradas ou quase sepultadas pelo esquecimento, lhe descortina de súbito uma outra possibilidade de acesso ao, até então, esquecido passado. É a partir daí que se desenrola todo o romance, uma narrativa do passado evocando as lembranças do narrador, uma busca incessante pelo tempo perdido, evocado num ato aparentemente banal. O gosto do chá e da Madeleine transporta o herói de Proust para um tempo desconhecido, mas apreendido apenas no momento da narrativa, como se a sua identidade móvel, e de seus personagens, fosse construída e incessantemente modificada conforme o transcorrer do tempo, esse ser invisível, na maioria das vezes imperceptível, mas que tem um papel central, creio, no romance proustiano.
O personagem que narra encontra e revive todo um mundo, ou novo mundo, aparentemente esquecido, evocado por memória involuntária, no gosto de um pedaço de Madeleine com chá. Ao contrário da memória voluntaria, a involuntária, como o acaso, permite relembrar o passado com suas cores vivas, seu charme, com alegria. Após sentir o gosto daquela iguaria, todo um mundo formado por jardins, paisagens, momentos, seres esquecidos se configuram ou ganham contornos aos seus olhos, levando o herói de Proust a narrá-los, bem ao seu estilo, em pormenores. Ler Proust é entrar em contato, como diz a nota 196, na página 164, com uma “psicologia do espaço”. É aprender a dar voltas em torno de temas, lugares e seus personagens. Ora eles aparecem como pano de fundo, ora em destaque.
Como mostra Jeanne-Marie Gangnebin, o romance de Proust pode ser lido como um texto que se inscreve na tradição, tanto filosófica quanto literária, da autorreflexão do sujeito, em sua reflexão sobre si, mais especificamente, e sua atividade de fala. p. 542
Parece que a beleza do texto: a construção narrativa, longas descrições, elegante escrita e temas, são mais importantes do que o próprio enredo. Este, creio, é de somenos importância: o que importa, parece, é se perder, divagar, em longas descrições como se fossem resultado das suas lembranças do passado, uma forma de reencontrá-lo, revivê-lo, retomar o tempo perdido ou de imaginá-lo, ressignificando-o.
Os personagens de Proust não são os mesmos do início ao fim do romance e nem enxergam o mundo sempre da mesma forma. Eles mudam ao longo do tempo, precisamente porque suas relações mudam. Para Swann, quando está apaixonada por Odette, por exemplo, o mundo lhe parece um lugar bem melhor, mas quando passa a desconfiar da infidelidade dela, o enxerga com outros olhos, e passa a encará-lo como um lugar não tão bom assim para se viver. Parece que há, pelo menos no primeiro volume, dois temas ou subtemas: as mudanças dos personagens ao longo do tempo e a mudança de percepção do mundo segundo o estado de espírito das personagens. E há, creio, pelo menos dois planos: a história do herói, em sua infância, e a história do amor de Swann por Odette.
Creio que para Proust, assim como para santo Agostinho, o tempo não é algo fixo, mas percebido, sentido, vivido. Da mesma forma, o espaço, para Proust, não é físico, geográfico, mas carregados de sentidos, simbolismo, psicologia e sentimento: “Os lugares que conhecemos não pertencem tampouco ao mundo do espaço, onde os situamos para maior felicidade. Não eram mais que uma delgada fatia no meio de impressões contíguas que formavam a nossa vida de então; a recordação de certa imagem não é senão saúde de certo instante; e as casas, os caminhos, as avenida são fugitivos, infelizmente, como os anos”. 508

Continua...



domingo, 8 de fevereiro de 2015

Para ler antes de morrer - O livro negro


Conheci Orhan Pamuk em 2010, quando li seu romance “O livro negro”. A leitura dessa obra me causou uma profunda impressão. Lembro-me que fiquei extasiado, quase em choque, com exagero, é claro, tal foi a impressão que me causou. Mais tarde, creio que em 2013, reli-o e escrevi uma resenha sobre esta instigante obra. Apresento abaixo, aos meus ínfimos leitores, um grande resumo do artigo que produzi. Para os amantes da boa leitura, neste mundo carregado de futilidades, frivolidades, sugiro que não morram sem antes lê-lo.
Hoje, Orhan Pamuk é um dos meus autores contemporâneos preferidos. Principal romancista turco, reconhecido mundialmente, foi premiado, em 2006, com o prêmio nobel de literatura. Autor de vários romances, dentre eles “O Livro negro”, tem um estilo de escrita que muito me agrada, com suas longas descrições de locais e sensações, da velha Istambul, que me lembram o estilo de Marcel Proust na sua obra monumental “Em busca do tempo perdido”. 


O livro negro

O Livro negro é um romance do escritor turco Orhan Pamuk. A trama gira em torno da busca do jovem personagem Galip, um advogado casado com sua prima, para encontrar a sua esposa: Rüya, que desaparece de casa sem motivo deixando apenas um ambíguo bilhete de despedida. Todo o romance se desenrola com a busca desesperada de Galip, transitando pelas ruas e espaços da cidade de Istambul, para descobrir o paradeiro da esposa.
Ao longo do romance, a busca de Galip é dividida com às crônicas diárias de um famoso jornalista, Celâl Salik, meio-irmão de Rüya, publicadas diariamente pelo jornal Milliyet. O cronista que vive se escondendo, para evitar ser localizado, escreve sobre temas os mais vaiados, que vão desde aqueles que falam da política, Gângsteres, memórias pessoais, poetas, religião e o hurufismo, uma seita antiga que acreditava ser possível encontrar a essência de nossas vidas em letras escritas por Alá em nossos rostos, passíveis de serem decifradas.
A trama deixa implícita que Ruya estaria com seu meio-irmão e que nas crônicas escritas por Celâl apareciam pistas e indícios que permitiriam a Galip descobrir onde eles estavam escondidos. Após descobrir o apartamento onde supostamente o cronista se escondia, se instala ali e passa obsessivamente a ler suas crônicas e anotações. As pistas que acredita encontrar nestes escritos o levam aos mais distantes e instigantes recantos da velha Istambul, talvez o personagem principal, não declarado do romance. Pelas ruas da capital da Turquia, se depara com um mundo aparentemente cheio de enigmas, armadilhas, surpresas e locais que se parecem muito mais saídos das Mil e uma noites, frutos da imaginação do autor, do que reais. Esses enigmas se encaixam na narrativa, levando de uma história a outra, num crescendo e num vai e vem instigante.
Em algum momento do romance, o infeliz advogado Galip, sem conseguir solucionar o enigma, chega à conclusão de que para encontrar sua esposa, precisa compreender como Celâl pensa. Conforme o romance flui, assim como as leituras das cônicas de Celal por Galip, este cada vez mais vai se tornando parecido com o cronista a ponto de acreditar ter se transformado em outra pessoa. Em resumo, para descobrir o paradeiro da esposa e de seu meio-irmão compreende que teria de se transformar em outra pessoa. É assim que, aproveitando-se do fato de que o primo também desapareceu, ele passa a escrever suas crônicas usando os seus mesmos artifícios literários e o estilo. Desta forma, Galip assume a própria identidade de Celâl e vive um conflito entre ser ele mesmo ou tornar-se outra pessoa. Por outro lado, assumir a identidade de seu primo deixa-o vulnerável aos muitos inimigos do jornalista, capazes de cometer assassinato.

O sentido do Romance

O livro negro, creio, foi um artifício usado pelo autor para discutir pelo menos duas coisas. Em primeiro lugar, a perda de identidade do povo turco, simbolicamente representada pela perda de memória do cronista Celâl. Em segundo lugar, a ocidentalização crescente da Turquia a partir da crise do Império Otomano, simbolicamente representada pela necessidade de Galip de tornar-se outra pessoa.
Na verdade, o romance foi uma forma, creio, que o autor encontrou para discutir a questões que o inquietam. Desta forma, Pamuk é ao mesmo tempo o cronista Celâl, permitindo-o discutir a perda da memória ou das raízes do povo turco, sua vontade de querer ser outra pessoa e não ele mesmo, vivendo entre a perda de suas raízes, a fantasias de ser ocidental, e Galip, cuja  busca é pelas raízes perdidas de seu povo e não por sua esposa. Transformando-se em Galip, esse artifício permite ao autor discutir a ocidentalização da Turquia e a frágil identidade de seu povo, que oscila entre duas culturas: a cultura oriental, em decadência, e a cultura ocidental, em ascensão, marca da Turquia moderna.
As vozes de Celâl e de Galip são as próprias vozes de Orhan Pamuk, que só consegue ser ele mesmo buscando ser outra pessoa. Só encontra a felicidade quando se afasta do muno real e conta/escreve histórias, cria personagens, se utiliza de outras histórias e autores para construir novas histórias, como se a literatura permitisse a ele enveredar por um labirinto complexo em busca de sua saída, tal como se mostra o livro em questão.
Celâl e Galip são o duplo do autor. Ele se utiliza dos personagens para falar de si mesmo, da literatura e para falar da cidade. Como no livro Istambul: memória e cidade, Pamuk fala de uma coisa apenas para chegar a outra coisa. Quando fala de si é para falar da cidade e quando fala da cidade é para falar de si, como se ele não vivesse sem sua memória, que se confunde com a cidade ou como se a cidade não pudesse viver sem ele.
Em “O livro negro”, Pamuk parece brincar com o leitor, construindo sentidos ocultos em sua escrita como que tentando levá-lo a descobrir um significado implícito capaz de antever o desfecho da história. Na verdade, o que está por trás do mistério é o próprio autor. A discussão sobre os manequins permite ao romancista refletir sobre a ocidentalização, momento em que os turcos não queriam mais ser turcos, querendo parecer-se com outras pessoas, contribuído para que perdessem a sua própria essência ou as letras ocultas em seus rostos, que só poderiam ser lidas pela cultura: seus jeitos de ser. Os manequins preservados são o próprio passado relegado para os subterrâneos. São a própria essência perdida dos turcos. Os manequins, finalmente, representam tudo aquilo que os turcos não mais queriam ser: eles mesmos, e, por isso, ninguém mais se interessava por eles. Com os manequins relegados ao esquecimento, a essência de Istambul está em seu subterrâneo e à medida que se aproxima da superfície, que dizer, do ocidente, mais se esquece ou se perde a sua essência. Quanto mais a cidade se ocidentaliza, mais os turcos perdem sua identidade, relegada apenas ao passado e à memória, simbolicamente representadas pelos manequins que guardam os gestos e rosto dos verdadeiros turcos.
Por que a ocidentalização, a vontade de ser outra pessoa, seduzia tanto? Porque ser outra pessoa fazia esquecer a sua essência, esquecer sua própria tristeza, da derrota e inquietações de seu mundo. Fazia esquecer todas as lembranças e toda a melancolia. Voltar-se para o ocidente era perder a memória, a melancolia que é a própria essência da cidade, a derrota, a pobreza. Isso é representado pelo episódio em que Galip, em sua busca pelas ruas da cidade, observa as pessoas que saiam de um cinema: “(...) o que se lia em todos aqueles rostos era a serenidade de quem consegue esquecer sua própria tristeza mergulhando totalmente numa história. Todas aquelas pessoas encontravam-se imersas no miolo da história em que se tinham instalado com tanta vontade. O espírito delas, havia muito esgotado pelas derrotas e inquietações, agora tornara a se preencher com uma história complexa, que as fazia esquecer todas as lembranças e toda a melancolia”. P. 258
A discussão sobre o olho invisível que nos olha parece representar a própria essência ou a melancolia da Istambul ou dos bairros secundários, que permite aos turcos perceber que eles não conseguem ser eles mesmos. Transitar pelos bairros turcos, para Pamuk, permite a população perceber sua essência perdida ou em transformação. Permite, finalmente, o contraste entre o homem que se ocidentaliza e a cultura oriental, que parece lutar para permanecer a mesma. Quando Celâl, após escrever sua crônica, resolve perambular, como um flaneur pelas ruas da velha Istambul e sente falta de alguma coisa, é a sua própria essência que lhe escapa. É por isso que não consegue ser ele mesmo e nem o outro. Aqui a discussão é existencialista: como ser eu mesmo ou tornar-se outro. Ninguém consegue ser ele mesmo e nem outro, a não ser como literato. É a literatura que permite ao escritor ser ele mesmo e ser outro ao mesmo tempo. Parece ser isso que Pamuk quer nos dizer...
Boa leitura...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

A sátira e seus limites

Todos ficamos chocados com o “massacre de Paris”, o maior ataque terrorista, pode-se dizer, levado a cabo não simplesmente contra a França, mas contra um dos valores fundamentes de seu povo, e do ocidente, desde a Revolução Francesa: a liberdade. Sobretudo, a liberdade de expressão. O assassinato de 12 inocentes, por extremistas islamizados, foi justificado como uma vingança em nome de Maomé, fundador do islamismo, por ter sido insultado pelo pasquim parisiense (Charlie Hebdo).
O ataque de Paris teve, sem dúvida, motivações religiosas, mas a questão central é de ordem política, e não se trata, creio, de uma luta entre duas civilizações: de um lado, o ocidente cristão e, de outro, o "oriente" islâmico. A questão mereceria uma atenção mais demorada, o que não proponho fazer aqui nesse momento.

            É difícil precisar os fatores que levaram ao massacre de Paris. O ressentimento de radicais islâmicos contra a atitude dos cartunistas mortos, de desrespeitos a alguns de seus valores religiosos, pode explicar, em parte, o evento. Com uma forte tradição anticlerical, na esteira de Voltaire “o sarcástico”, os jornalistas liderados por Charlie adotaram um profundo e revoltante deboche contra as religiões: católicos, judeus e muçulmanos eram sempre os seus alvos prediletos, bem de acordo com seus ideais profundamente laicizados. Em sua maioria eram ateus, não poupando ataques à crença de tudo e todos.
            É preciso esclarecer que a maioria do povo muçulmano é pacifista e não é absolutamente a favor do tipo de ação que chocou a França e todos nós.
            O episódio, acredito, despertará o debate sobre a liberdade de expressão e até que ponto se dever colocar limites a ela, evitando-se artigos e desenhos que ofendam desrespeitosamente a fé religiosa. Se, de um lado, as charges podem ser interpretadas pelos franceses como de mau gosto, por outro, podem ser interpretadas, pelas vítimas, como uma ofensa, sacrilégio e falta de respeito. Há um desencontro entre o riso ocidental e a ofensa ao mundo muçulmano. Creio que os jornalistas franceses ultrapassaram a barreira do que se pode tolerar, o que não justifica, é óbvio, o ato bárbaro, inadmissível, dos terroristas.
            Na relação entre a liberdade de expressão e os valores religiosos é preciso refletir até que ponto a fronteira da mera sátira não é violada e caímos no erro de incitar o ódio. Talvez os cartunistas tenham violado essa fronteira.    



quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Para ler antes de morrer - As cidades invisíveis

As cidades invisíveis[1] é um desses livros fenomenais que não se pode morrer antes ler sob pena de não ter vivido um saboroso prazer indescritível. A maneira como o autor entende as cidades muito me ajudou na escrita da minha tese - já que nela eu discutia o espaço urbano - precisamente porque Ítalo Calvino colocou em xeque a ideia de que houvesse uma homogeneidade na cultura urbana, enfatizando a complexidade das muitas cidades, como representada por seus diversos habitantes ou pelos viajantes e estrangeiros que por ela passam.
Além disso, o texto é uma delícia, podendo ser comparado, com exagero, é claro, às narrativas de Scherazade que conta, noite após noite, mil e uma histórias saborosas ao sultão, para fugir da morte. Tal como o sultão se apaixonou por Scherazade, podemos nos apaixonar, também, não pelo autor de As cidades invisíveis, péra lá!, mas por suas belas narrativas.
Nesse instigante livro, Marco Polo descreve para Kublai Khan, a quem serviu durante muitos anos, as incontáveis cidades do imenso império mongol.
Para além das histórias, o que mais me ajudou foi perceber e chegar à noção de que as cidades, como a própria realidade, não são concretas, como uma pedra ou um objeto material. Elas são “experiençadas”, vividas, sentidas. Desta forma, não existem como algo único, total, mas em suas multiplicidades.
A cidade, que não pode se resumir a algo concreto como uma rocha, portanto, tem a sua existência na percepção e nas imagens que seus habitantes criam dela. Ela só tem existência neste patamar. Portanto, é uma experiência plural.
As experiências múltiplas se configuram como a própria realidade, toma o seu lugar. Cada um, cada grupo de pessoas a representa ou a constrói. A cidade, como a realidade, não supõe nenhuma unidade ou totalidade e não remete a um único sujeito. Parece ser, para Calvino, uma construção. Pode-se descrever uma mesma cidade como se fossem muitas outras cidades. E isso ocorre por pelo menos dois artifícios: o primeiro diz respeito aos aspectos que o narrador privilegia: sua forma, ruas, povo, esquina, edificações etc. O segundo, e mais importante, refere-se ao fato de que uma cidade é vivida, “experiençada”, sentida de formas diferentes por seus diversos habitantes, viajantes, estrangeiros. Cada um a representa de uma forma singular. Assim, pode-se falar de uma mesma cidade como se fosse outra, dependendo de quem narra ou a representa. Creio, esse é um procedimento usado por Ítalo Calvino, por meio da narrativa de Marco Polo.
A cidade, portanto, só tem existência em sua relação com os seus habitantes e grupos que a compõe. Cada um deles vê o mundo e o espaço onde vive de uma determinada forma, cuja ligação é dada por sua vivência, seus interesses. Cada indivíduo ou grupo representa a cidade segundo sua visão de mundo e seus interesses ligados à sua vivência.  Volta-se para aspectos específicos da realidade e constrói, ou reconstrói, a cidade e seu mundo incessantemente e de forma criativa. As pessoas selecionam aspectos singulares num leque de opções disponíveis em sua cultura e relação com o seu mundo para representar o local onde vive ou por onde passa.
As cidades são invisíveis porque não existem materialmente, como unidade ou totalidade que podem ser ditas de uma vez por todas. Essa metáfora permite pensá-la como construção feita com base nos significados que representa para cada habitante ou grupo de pessoas. As ruas, edificações, traçados, esquinas, casas, só adquirem sentido quando “experiençadas”, vividas e, portanto, estão carregadas de simbolismos para aqueles que vivem e trafegam por seus espaços. Como pode uma cidade ser descrita por alguém e essa descrição se colocar no lugar da cidade? A cidade é apenas uma representação entre as tantas possíveis. E mesmo para quem escuta uma tal descrição, como faz Khan,  a cidade é visualizada e significada de forma diferente porque entra em contato com outra experiência de vida e interesses.
As cidades nunca se resumem ao seu espaço físico, geográfico ou a uma única representação. São invisíveis. É isso que Calvino quer dizer?
Cada cidade, para Calvino é única, sem ser total, e contém um pouco de cada uma, porque vividas, e o seu número é infinito, porque as experiências são igualmente infinitas.





[1] CALVINO, Ítalo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 1990.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

NUNCA É TARDE PARA CHORAR parte V (1)

  

A gravidez e o funeral



Folhetim de Gabriel Arcanjo


A sentinela de Joaquim foi um acontecimento marcante, lá compareceram em peso os representantes de todas as classes e pessoas da cidade, desde os seus parentes e amigos mais ilustres aos mais humildes e paupérrimos cabras e caboclos da povoação. A família Martins distribuiu cachaça, café e aluá aos presentes. O padre Meireles encomendou a alma do defunto aos anjos de Deus, e após pouco mais de meia hora estava feito o ritual de velório. “-Que descanse em paz. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” e a multidão contrita respondeu “-Amem!”
            Maria fora proibida pela família do defunto de comparecer ao velório de seu amante. “-Onde já se viu”, disse a mãe de Joaquim, “uma rameira como aquela! Pois ela que não se atreva a botar a cara por aqui, que a gente manda dá uma surra de cipó de urtiga naquela égua!” “-Dizem que tá amojada, e que o menino é nosso neto, mulher!”, disse o velho coronel, senhor de terras e empreendedor falido do mercado. No que a velha responde: “-E quem é que garante que o fie é dele? Uma puta que já foi de outro home! Pois ela que se atreva a aparecer por aqui, que vai ver o que é bom pra tosse!”
            A lua estava alta no céu. Era meia-noite. De dentro das torceras de cana da fábrica de cachaça e rapadura do coronel Marinho, entre o Quadro da Igrejinha e a Rua da Goela, Maria pôde acompanhar de longe o funeral de seu amado. As pessoas riam, conversavam nas calçadas, e o vento passou, sorrateiro e frio congelando o sangue e a alma dos supersticiosos que ali estavam. Seria Joaquim, de dentro da noite, a murmurar para sua amante que ele morrera infeliz? Maria ouvia no vento a voz de Joaquim: “-O que será de nossa criança, Maria? O que será de seu futuro? Se for mulher será uma renegada, como você? E se for menino, teria melhor sorte? Tornar-se-á um alcoólatra, um boia-fria ou um João-ninguém qualquer a gastar a vida no cabo da enxada?! “-Vou tomar um abortivo”, disse Maria, “-pra que nossa criança nasça morta, Joaquim! É melhor nascer morta do que vir pra essa vida fudida!”
E o vento passou por ela, arrastando a terra e o pó, adentrando as alcovas, assustando os homens e as mulheres no velório – era a alma do finado?-, como a lhe pedir perdão?: “- Perdão Maria!” De dentro da carcaça sem vida estendida no caixão, Joaquim, se pudesse falar, provavelmente diria a seus pais para protegerem seu filho no ventre da jovem; mas Maria vai tomar um abortivo, pois é melhor nascer morto do que vir para esse mundo fudido!
Já é meia-noite, e a lua está alta no céu. Maria vai tomar um abortivo! O vento é um presságio. O que fazer? A quem recorrer? Como alimentar a si mesma e a uma criança sem trabalho, sem renda, sem dignidade numa cidade impiedosa, como esta? Como silenciar a dor da morte do amado? A cada dia a barriga crescia um pouco mais, e os parentes da criança em nada queriam ajudá-la. “É filho de uma puta, quem é que sabe quem é o pai?”, dizia a avó. Maria sabia. Sabia perfeitamente: era Joaquim Martins, comerciante do mercado, fazendeiro falido, pai de dois filhos, marido de outra mulher, pois ela não conhecera outro homem além dele e do desgraçado que a violentou no sítio de seu pai adotivo, no bairro da Lagoa, meses atrás.
            Uma chuva fina caia do céu, lavando a cidade, e espalhando um odor de inverno e de tristeza. A chuva parecia um choro. Era um choro de um milhão de anjos? Ou uma prova cabal da indiferença de Deus, diante da dor e do sofrimento do mundo? As lágrimas da chuva se misturavam às lágrimas dos homens e mulheres no funeral. Maria não sabia como seria o seu amanhã (não possuía um só tostão no bolso que lhe bastasse para comprar uma xícara de café ao raiar do dia). Mas sabia perfeitamente que seu filho (que também era filho do defunto ali estirado) não teria futuro e que era melhor nascer morto do que vir pra esta vida fudida! E o sono e o cansaço lhe encontraram debaixo do alpendre da casa de farinha abandonada do coronel Marinho. Ela transcendeu tempo e espaço. Adormeceu ao relento. De repente viu a si mesma, numa ciranda de roda, ao lado de seus irmãos e irmãs ricos do Ipu (era a família Araújo, fausta e feliz). Viu uma mesa farta, com pães, carne e ovos sendo servido por criados vestindo roupas humildes. Viu seu pai na cabeceira da mesa se servindo de um prato suculento, e ao fundo da sala, viu sua mãe, Julia Alves, arrumando a cabeleira esvoaçante com um pente de osso de tartaruga. Mas aquela não era a mãe que Maria conhecia. Em seu sonho Julia era uma megera terrível, possuía uma língua disforme, como a língua grossa e roxa de um enforcado, e os seus olhos eram amarelos e malignos, como os olhos de uma gata raivosa no cio. E de sua garganta hedionda saia um som gutural, como se viesse das profundezas do inferno.
No sonho viu Joaquim, seu amante, assentado ao lado de seu pai, José Alves, de sua mãe Júlia, de seus irmãos e do solteirão Antonio, seu pai adotivo. Todos se banqueteavam calmamente numa mesa de jantar posta à sombra de uma grande mangueira frondosa, que estava assentada sobre um tripé de pedras onde uma grande panela de ferro pendia numa corrente longa e suja. E era dela que vinha a comida que era servida aos comensais. Todos comiam e bebiam tranquilamente um prato e os licores servidos pelas mãos da mãe monstruosa. Maria viu a si mesma menina, sendo chamada pela mãe para assentar-se à mesa com o resto da família. Trouxeram-lhe o prato principal, “-Coma, minha filhinha, coma!”, disse-lhe sua mãe. Maria, com uma colher de madeira, mexeu no caldo que estava na superfície da panela de ferro, para saborear as porções do fundo. Ao movimento da colher, a pasta que estava submersa veio à superfície: era a face horrorosa de uma criança natimorta cosida e servida aos comensais do banquete por sua mãe monstruosa. Julia Alves, a besta-fera do abismo, disse-lhe com sua voz gutural e terrivelmente sádica (voz saída do abismo!): “-Coma, minha filhinha, coma!” e rio um riso frouxo e amedrontador (era o cadáver do bebê, que ela, Maria, carregava no ventre que estava sendo servido na mesa? Ou era ela mesma, abandonada pela mãe cretina ao nascer? Ela não sabia).
A voz de sua mãe ecoava em sua imaginação: “-Coma, minha filhinha, coma”, e se transformava na gargalhada hedionda de um gárgula: “Há-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra-ra!!!!”. Os sonhos são coisas sem nexo, mas não deixam de ter um filete de realidade; uma luz perdida de razão em meio ao deserto louco e nebuloso do inconsciente cru, sem barreiras morais ou eufemismos éticos. Um limbo onde a consciência humana vem prestar contas com o inconsciente, segundo Freud. A voz terrível de sua mãe repetia a mesma sentença “-Coma, minha filhinha, coma”, e ela sabia que era uma voz saída do abismo. Ou era aquele sonho um presságio do fim - o fim do mundo estava próximo, ela tinha certeza disso - era a lembrança da vida fudida, do cadáver de Joaquim, ou do vento e da chuva lá fora?). E a noite caia mais tenebrosa e impenetrável do que antes, como se fosse uma neblina espessa, negra quase palpável ao tato dos homens e das mulheres da sentinela de Joaquim, que lembravam ratos num labirinto. Era uma noite esparsa, pavorosa, de dores, de gemidos, de almas penadas, de trovoadas e de tristezas mil.  


Continua...