terça-feira, 7 de fevereiro de 2017

Tempos difíceis. (Para ler antes de morrer)

Um dos grandes autores da literatura inglesa do século XIX, na chamada Era Vitoriana, foi Charles Dickens, também tido como um dos principais romancistas do realismo. Em seus romances dá visibilidade aos problemas sociais da Inglaterra, como o desemprego, a violência, as condições de trabalho nas fábricas, a prostituição, dentre outros, durante o período da chamada Revolução Industrial.
Tempos difíceis é um desses romances engajados, do escritor inglês, que expõem as questões sociais geradas pelo avanço da industrialização durante o século XIX. Vale muito a pena ler.

            Tempos difíceis, décimo segundo romance de Charles Dickens, tem como cenário a Inglaterra durante a chamada Revolução Industrial. O autor cria uma cidade fictícia, de nome Coketown, e um enredo singular, para discutir, a meu ver, questões centrais daqueles anos de grandes transformações. Nele, empreende uma crítica profunda das condições de trabalho, evidenciando o contraste entre a extrema pobreza da classe trabalhadora e o conforto em que viviam os industriais da Era Vitoriana, século XIX.
            Na obra o autor empreende um esforço para retratar a vida miserável dos trabalhadores, das pessoas comuns, daquele período, enfatizando as diferenças entre classes, condições de trabalho e formas de educação.
            Um dos personagens centrais é o sr. Thomas Grandgrind, um homem de fatos e cálculos. Proprietário de uma escola, busca moldar os espíritos de seus alunos, e de seus dois filhos, dentro dos preceitos do mais puro racionalismo e método matemáticos, na qual tudo pode ser medido e interpretado com base em fatos e estatísticas. Para ele, apenas os fatos lhe interessam, não importando sentimentos (subjetividade) e nem a imaginação (sensibilidade). Isso contrasta com a menina Sissy Jupe, filha de um palhaço do circo e que a matricula na escola modelo. Enquanto Grandgrind defende uma educação científica, o pai de Sissy vive da arte e de fazer as pessoas rirem. Abandonada pelo pai, Sissy passa a morar com o senhor Grandgrind, que pretende educá-la segundo o seu modelo, não obtendo sucesso, uma vez que ela dar vazão aos seus sentimentos e imaginação.
            Parece que Thomas Grandgrind foi criado, por Dickens, para satirizar os valores iluministas e positivistas da classe burguesa ou a ideia que a razão podia dar conta de tudo, aquela capaz de produzir conhecimento, tecnologia, progresso e a felicidade geral. Tal é a forma como pensa o industrial Josiah Bounderby, ao defender que seus operários são todos felizes e vivem bem não tendo, portanto, motivos para revoltas. Qualquer insubordinação deveria ser punida com severidade.
            As alegorias criadas (a escola da cidade, onde só os fatos interessavam, a fábrica e suas chaminés, vomitando fumaça e tornando a cidade e seus tijolos em negra cor, o circo do sr. Sleary, com sua trupe, e a posição entre o industrial e seu honesto funcionário, Stephen Blackpool) parecem ser estratégias que permitem ao autor fazer uma crítica severa à mentalidade capital, onde só os números e os fatos eram importantes, e à exploração da força de trabalho, que pareciam, aos olhos de Charles Dickens, estar destruindo a criatividade humana e a alegria das pessoas. A alegria e os sentimentos iam contra a racionalidade capitalista e eram vistas como fraquezas e que deveriam ser combatidas, daí o desprezo pela imaginação e pela trupe que acompanhava o circo, local para “vagabundo”.
            Na visão de Grandgrind e do industrial Bounderby, defensores dos fatos e das estatísticas, a escola e o sistema educacional deveriam moldar os corpos e os espíritos das crianças para os fatos e para a obediência, desviando-as da imaginação e dos sentimentos.
            Na escola modelo do sr. Grandgrind, tudo que não for ciência não serve. À sua filha, Louisa, sempre diz “nunca imagine”. Seu filho Tom, parece se dar conta, desde o início, de que tal sistema não leva à felicidade e, logo, às escondidas, parece fugir de seus preceitos.
Grandgrind, cegamente apegado aos fatos, é o tipo de personagem cômico. Mas ao longo da narrativa vai sendo humanizado, a ponto de, no final, se dar conta de que seu sistema, por meio do sofrimento da filha, não é dos melhores. Louisa é, talvez, a grande personagem do romance. Ela é uma espécie de vítima do sistema adotado por seu pai. Educada segundo os princípios das ciências naturais, da objetividade, foi impedida de qualquer diversão na infância e de mesmo imaginar. Privada dos sentimentos, cairá num casamento arranjado. Parece que Louisa é vítima daquilo que Dickens via como equívoco do século XIX: um sistema econômico que dava valor a apenas números e esquecia da humanidade das pessoas.
 No romance, os operários são vistos, pelos patrões, como “as mãos” das fábricas, uma massa de trabalhadores sem rostos e sem identidade definida. Eles existem como números. Aí é que aparece um operário, personificação dos demais trabalhadores, desgraçado, porém honesto e leal aos seus companheiros, e que é levado à morte pela insensibilidade e ganância de seu patrão que vê, sempre, em seus empregados, potenciais arruaceiros e descontentes.
Tom, filho mais novo do sr. Grandgrind, e insensível, privado de uma educação que enxergasse a humanidade das pessoas, bola um plano para incriminar um trabalhador pobre e honesto, pelo crime que ele mesmo cometeu. Roubou o banco de seu bem feitor, para saudar dividas de jogo. A vítima de sua insensibilidade é Stenphen Blackpool. Este vive uma vida de infortúnios: tem uma esposa alcoólatra, que não mais suporta, e nutre uma paixão por Rachael, também operária, com quem divide suas tristezas.
Creio que o grande tema de Tempos difíceis é a desumanização proveniente das transformações econômicas propiciadas por aquilo que se convencionou chamar de Revolução Industrial, produzindo um número pequeno de industriais enriquecidos com a exploração do trabalhador fabril.
Enquanto Grandgrid é um sujeito bem intencionado, apesar de cômico, Dickens cria o personagem do sr. Bounderby, industrial e banqueiro, arrogante, insensível, estúpido e cruel. É a figura que se orgulha de sua suposta origem humilde e de que chegou onde chegou unicamente com os esforços próprios. Casa-se com Louise, mas não tem uma vida feliz com ela, enquanto ela nutre um desprezo por ele.

No final, Louise descobre que teve uma vida infeliz, e que isso foi fruto da educação que recebeu do pai, não o condenando, por isso, uma vez que a intenção de seu pai era verdadeira. Chega a essa conclusão ao se apaixonar pelo sr. James Harthouse - quem veio para a escola modelo, colaborar com o sistema, mas que o despreza - e descobrir sentimentos jamais vivido por ela. Acaba se separando de seu marido. O moleque tom, ao ser descoberto, foge para a América, ajudado pelo pai e a irmã.

terça-feira, 31 de janeiro de 2017

1984 - Parte II (Para ler antes de morrer)

Podemos dizer que o romance clássico moderno, 1984, de George Orwell, é, de um lado, uma espécie de denúncia dos rumos que o futuro da humanidade poderia tomar no pós-Segunda Guerra Mundial. Expressa o medo de que a busca pelo poder econômico e a influência política sobre o mundo, levasse as potências do pós-Segunda Guerra à construção de regimes políticos monstruosos, ainda piores do que os totalitarismos nazifascistas e soviético. De outro lado, expressa a angústia de que, caso o mundo não mude seu rumo, estaríamos fadados a um sistema em que o homem perderia suas qualidades humanas, tornar-se-iam criaturas sem alma, máquinas que trabalhariam como autômatos.
O romance foi publicado em 1949. O mundo vinha da experiência de duas grandes guerras e dos totalitarismos. Viver numa Europa que foi palco de tantas atrocidades, levou Orwell à percepção de que o futuro era algo muito incerto e aterrador. Em 1984, ele expressou toda a sua angústia e medo com os rumos que a história da humanidade tomaria dali para a frente. Os horrores não eram algo que pudessem ficar só no passado. Tão logo as potências vencedoras da Segunda Guerra organizaram o mundo, partilhando o butim, deram início a um novo conflito que, naquele momento, parecia ser mais destruidor e que recebeu, mais tarde, o nome de Guerra Fria, opondo dois sistemas econômicos, políticos, sociais e ideológicos.
Visto no contexto em que foi escrito, 1984, não é, em absoluto, um absurdo. Era uma denúncia, uma angústia, um medo com o que estava por vim.
Por outro lado, Orwell expressa, em seu romance, a descrença na ideia iluminista do contínuo progresso da humanidade, a descrença na construção de uma sociedade mais justa e igualitária, aquilo que poderíamos chamar de utopia. A Primeira Guerra Mundial, que levou a milhões de mortos, pelas ambições territoriais das grandes potências europeias, deu início à destruição da tradição ocidental de acreditar que o futuro seria, necessariamente, melhor, como consequência do progresso da ciência e da técnica. O resultado de décadas de conflito, mortes e atrocidades foi a substituição da crença na esperança pelo desespero.
1984 expressa, portanto, um sentimento de desesperança que, mais tarde, tomaria conta de parte da população mundial. O livro de Orwell poderia ser definido como “uma utopia às avessas”, uma espécie de contraponto às utopias anteriores. 1984 demonstra, em última análise, um sentimento de impotência do homem frente aos acontecimentos.
Não podemos pensar que Orwell acreditasse que o mundo insano de 1984 pudesse se realizar. Na minha concepção é algo irrealizável, de tão absurdo. Creio que o autor usou a arte para denunciar um mundo igualmente absurdo, que poderia levar a uma sociedade onde a ganância e a vontade de poder colocasse em segundo plano a humanidade do homem, sua dignidade e valores morais e espirituais construídos ao longo da história.

Como demonstra Erich Fromm, ”Orwell simplesmente sugere que a nova forma de industrialismo gerencial, na qual o homem constrói máquinas que agem como homens e desenvolve homens que agem como máquinas, conduz a uma era de desumanização e completa alienação, na qual homens são transformados em coisas e se tornam apêndices do processo de produção e consumo”. (Posfácio, p. 374).

domingo, 29 de janeiro de 2017

1984 - Parte I (Para ler antes de morrer)

George Orwell, pseudônimo de Eric Arthur Blair, parece usar a arte para refletir sobre suas insatisfações. Foi assim com o seu romance anterior, A Revolução dos Bichos, fábula construída pelo autor para atacar os rumos que a Revolução Russa havia tomado, no comando de Stalin. Foi assim, também, com seu último romance, 1984.
1984 tem como personagem central, Winston. O romance se passa no ano de 1984, em Londres, na Oceania, uma das três superpotências que disputam o controle do mundo, comandada pelo Partido e por seu líder, o Grande Irmão (Big Bhother). Oceania é uma espécie de estado totalitário, cuja sociedade é dominada pelo Estado e nada escapa ao seu controle. Nele, tudo é feito de forma coletiva, mas cada indivíduo que a compõe vive sozinho. O Partido, que controla as engrenagens da máquina estatal, desenvolveu um eficiente sistema de vigilância em que ninguém escapa ao controle.
O Partido não apenas exerce uma vigilância implacável, mas tem por objetivos, de um lado, controlar o pensamento e a mente de seus habitantes, não deixando espaço para ideias ou atitudes que destoam da ortodoxia reinante e, de outo lado, controlar o passado, alterado constantemente, em prol dos interesses do núcleo do Partido e qualquer suspeita de não-aceitação é considerada pensamentocrime.
A sociedade é organizada de forma hierárquica e tripartite, dividida entre o Núcleo do Partido, o mais privilegiado, um Partido Externo subserviente, e uma massa indistinta de “proletas”.

O herói do romance, Winston Smith, é um membro do Partido Externo que trabalha no ministério da verdade como falsificador de registros (controle do passado). Ele reage secretamente contra o sistema. Vive um romance com Júlia, que também se revolta, a seu modo, contra o controle. Encorajados pelo amor, algo proibido naquela sociedade, eles se reúnem com um burocrata de alto escalão do Núcleo do Partido que os coloque em contato com uma suposta força de oposição chamada Confraria, e que teria como líder o arqui-inimigo do Grande Irmão, à maneira de Trotski, Emmanuel Goldstein. O’Brien, no entanto, se revela como traidor. Winston e Júlia são presos e separados. Sucumbem a interrogatórios e traem um ao outro. Liberado antes de sua liquidação e após ter sofrido uma espécie de lavagem cerebral, Winston descobre que aprendeu a amar o Grande Irmão.

Continua...

quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

O retrato de Dorian Gray. Parte III (Para ler antes de morrer)

Sentido do romance
Um dos temas do romance, o ideal de beleza e perfeição, remete às influências da cultura grega. Remete ao mito de Narciso, que cultua a sua própria imagem e vive em função dela. Dorian Gray, um jovem belo e ingênuo, só reconhece sua própria beleza quando Basil pinta o seu retrato e Dorian está diante dele mesmo: “Ao vê-lo, recuou, e as maçãs de seu rosto erubesceram de prazer por um instante. Um ar de felicidade surgiu em seus olhos, como se lhe houvesse se reconhecido pela primeira vez, Ficou parado, imóvel, espantado, com uma consciência vaga de que Hallward estava falando com ele, mas sem apreender o significado das palavras. O sentido da própria beleza o assaltou como uma revelação. Ele nunca o tinha sentido antes”. (p. 34).
Como Narciso, que só reconheceu sua beleza ao ver a sua imagem refletida na água, Doria só reconhece sua beleza ao estar diante de seu próprio retrato.
Também, como no Fausto de Goethe, o personagem central, Dorian Gray, bem que poderia ter feito um pacto com o demônio, vendendo sua alma em troca da beleza, juventude eterna, prazeres e poder. Embora não tenha feito nenhum pacto, a sua beleza e juventude resistem ao tempo. Dorian, exprime seus sentimentos na seguinte passagem: “ ‘Como é triste!’ murmurou Dorian Gray, com os olhos ainda fixos no próprio retrato. ‘Como é triste! Eu vou ficar velho e horrendo e medonho. Ele jamais envelhecerá além deste dia de junho... Se pudesse ser diferente! Se eu permanecesse sempre jovem e o retrato envelhecesse! Por isso – por isso – eu daria tudo! Sim, não há nada em todo o mundo que eu não daria! Daria a minha alma por isso’”!
O herói do romance parece ter sido o personagem trágico criado por Oscar Wilde para atacar os valores puritanos. A obsessão de Dorian com o belo, a beleza superficial, e do prazer estava em desacordo com a moral arraigada da sociedade vitoriana na Inglaterra do século XIX. É um claro ataque à ideia de que a moral faz um grande homem e os pecados perturbam a consciência.
Oscar Wilde era adepto de um movimento chamado esteticismo, que defendia a “arte pela arte”, isto é, o que interessa é apenas o belo. Apenas o belo era a solução para os malefícios da sociedade. A arte poderia servir como um ataque ao tradicionalismo da sociedade inglesa da época vitoriana. Nesse sentido, seu romance não tinha pretensão alguma de trazer ensinamentos ou defender uma moral, uma postura.
Outro personagem, o Lorde Henry, parece ter sido criado para atacar os valores morais e a conduta aristocrática dos salões londrinos. A alta sociedade, civilizada, parecia viver, aos olhos de Wilde, mais da aparência do que de sua essência, que procura esconder seus pequenos “defeitos” em nome de uma posição de respeitabilidade e status social, o que se pode chamar de hipocrisia. Henry representa, ao que parece, o desejo de muitos: viver uma vida de prazeres sem se importar muito com suas consequências, embora essa vida seja levada a termo apenas por aquele que seduziu, o jovem Dorian Gray.
O romance também traz para discussão um tema que inquieta a humanidade: o medo de envelhecer. Questiona também a beleza, a juventude e os valores morais da sociedade.

Parece existir uma pergunta implícita no romance: o que mais vale: o corpo ou a alma?

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

O retrato de Dorian Gray. Parte II (Para ler antes de morrer)

O Herói conhece o seu primeiro amor, uma jovem atriz, Sibyl Vane, de apenas 17 anos. Apaixona-se por sua beleza e talento. Resolve casar-se com ela. Convida Basil e Lorde Henry para assistir a uma dramatização da jovem. Antes de Dorian, toda a energia dessa atriz estava centrada para os palcos, mas agora estava voltada para o amor a Dorian. Perdendo a capacidade de atuar, é desprezada cruelmente por Dorian. O desespero da perda de seu amor, leva-a ao suicídio. Tal fato exerceu uma primeira mudança no caráter do herói, o que se faz sentir em seu retrato. Percebe algo de estranho em seu sorriso: espécie de cinismo e maldade. Outros acontecimentos exercem sobre o caráter do herói influências profundas, alterando sua personalidade.
Todas essas mudanças são visíveis no quadro de Dorian Gray que se modifica conforme sua personalidade sofre alterações, como se sua alma ficasse transfigurada, o que o faz esconder o seu retrato.
O ideal de Dorian, incitado por Lorde Henry é a busca de prazer. As consequências disso são desprezadas em nome de um valor maior.
Dorian parece ser aquele jovem em busca de uma identidade. As influências sobre ele são devastadoras. Entregando-se aos prazeres sensuais, vive uma vida decadente. O seu retrato parece registrar as suas transgressões, o que o horroriza. O contrário do que pensou ocorre. Ao invés de envelhecer e o seu retrato permanecer o mesmo, ocorro o oposto: ele se mantém com a aparência jovem e bela, enquanto o seu retrato envelhece. Representa a sua alma decadente.
Dorian, no seu mundo de prazeres, tornou-se frio. Destruiu vidas, assassinou seu amigo Basil, quando este descobriu o seu segredo. Levou um outro amigo, um químico, ao suicídio após obrigá-lo a livrar-se do corpo moribundo.
Escondendo as provas de sua culpa, acreditou que seria o suficiente, mas não conseguiu libertar a sua consciência do peso de suas ações.
Passados 25 anos da morte do primeiro amor de Dorian, um irmão daquela atriz retorna da Austrália. James Vane procura pelo sedutor de sua irmã para matá-lo, porém morre em um acidente. Este fato liberta Dorian Gray de sua vida de sedução e prazer. Pensou ser possível curar a sua alma e levar uma vida pura. Amaldiçoou sua beleza e mocidade, culpando-a de suas desgraças.
Apesar de suas boas ações, o quadro não se alterara, denunciando a decadência de sua alma. O seu retrato estava ali para condená-lo, bastava fitá-lo. Diante daquela figura monstruosa, que lembrava à sua consciência de todas as suas ações horrendas, comete, ao final, suicídio.

Continua...


segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O retrato de Dorian Gray. Parte I (Para ler antes de morrer)

O retrato de Dorian Gray é apontado por muitos como um grande clássico da literatura internacional. A ideia de beleza ou perfeição física é um de seus grandes temas e remete ao mito grego de Narciso, que cultua a sua própria imagem e vive em função dela. É um romance bem instigante e que nos leva à reflexão. Vale a pena ler antes de morrer.
Romance de Oscar Wilde, escritor Holandês, foi publicado, em sua versão final, em 1891. Tem como cenário a cidade de Londres aristocrática do século XIX, da era Vitoriana, e como personagem central o encantador e belo jovem, Dorian Gray, cuja beleza exerce influência marcante sobre todos aqueles que o rodeiam. Torna-se inspiração para o pintor, renomado, Basil Hallward, que o retrata em um quadro. Dorian torna-se não apenas um modelo para o artista, mas o inspira na produção de uma nova arte, com traços modernos.
Na casa do pintor, Dorian é apresentado àquele que exercerá sobre o seu espírito uma influência devastadora. Trata-se do Lorde Henry Wotton, um hedonista, aristocrata inglês e amigo de Basil. O herói de Oscar Wilde é seduzido pelas ideias e inteligência de Henry e passa a venerar o mundo da beleza e dos prazeres imediatos, desprezando as consequências de seus atos, inicialmente, e toda a moral mediana de uma sociedade hipócrita, a seus olhos, e que vive de aparências.
Dorian supera seu mestre e se entrega à superficialidade dos prazeres e ao egoísmo. A partir de então, parece ter início uma espécie de conflito psicológico que oscila entre dar vazão aos seus desejos e a reflexão sobre sua verdadeira alma, inscrita apenas no seu Retrato, pintado por Basil. Ali estava pintado algo horrível aos seus olhos. O quadro revelava-lhe os segredos ocultos de sua alma, por isso, o mantem escondido de todos, guardado em sua biblioteca, trancada a chave, e coberto por um manto.
Incitado por Henry, passa a cultivar um grande medo: a velhice e a perda de sua juventude. O seu retrato deveria imortalizar a sua juventude. Mas, paradoxalmente, parece ocorrer o oposto. Ao contrário da natureza humana, o rapaz preserva seus sinais físicos da beleza e da juventude enquanto sua imagem no quadro revela sinais de velhice ou de seus medos mais ocultos: os segredos de sua alma.
Dorian parece viver esse conflito entre dar vazão aos seus desejos, aproveitar a sua juventude, e cultivar seu espírito. Esses dois lados parecem representar os outros dois personagens centrais do romance, que estabelecem relações com o protagonista: o pintor Basil, que o ver como modelo e inspiração e pretende que continue sendo aquele rapaz doce e admirável, que cultiva a alma, e Henry, que desperta-o para os prazeres imediatos da vida. Esses dois outros personagens parecem representar a verdadeira dualidade da condição humana, que consistiria no conflito entre responder aos instintos ou se conformar com as regras morais e sociais. Henry é o lado cínico, hipócrita e maldoso, que defende a busca dos prazeres e desejos humanos a qualquer custo, sempre sugerindo ao herói do romance viver os momentos que sua beleza e juventude lhe proporcionam, enquanto Basil é aquele que tenta trazer Dorian Gray para o seu lado puro e gentil, tentando demonstrar que são justamente tais qualidades que provocam fascínio nas pessoas a sua volta.
Tive a impressão de que o autor buscou fazer uma crítica à sociedade inglesa de sua época ao demonstrar os preconceitos sociais e a não aceitação, em seu meio, daqueles que quebravam às normas morais defendidas, caso de Dorian Gray. Este, embora despreze uma série de convenções, parece viver uma vida dupla: no seio da sociedade e dos salões mantém uma postura “civilizada” e dentro dos padrões morais estabelecidos por ela, mas tão logo deixa os seus salões, busca às diversões ocultas, longe dos olhos arregalados de todos aqueles que se horrorizariam com sua conduta.
O retrato de Dorian Gray, pintado por Basil, horroriza o herói do romance precisamente pelo fato de revelar a sua alma. A pintura de Basil parece exteriorizar o que Dorian quer esconder: sua decadência moral, sua consciência, sua frieza e coração gelado, indiferente à quase tudo, sofrendo apenas se seus atos colocam em risco sua liberdade (diante do perigo de ser preso) ou vida (diante do perigo de ser assassinado).
Dorian Gray é uma espécie de novo Narciso, amante das artes e dos prazeres carnais, parecendo querer transformar sua vida em arte. Ao tentar enfrentar a sua culpa, esconde-se na superfície de seu retrato. No entanto, não consegue libertar-se de sua consciência.
Wilde parece perguntar se o caráter de uma pessoa pode ser determinado por sua exterioridade, pela superficialidade, tal é o caso de Dorian Gray, cuja beleza e encanto esconde uma alma degradada e engana a todos.
Seguindo a vida ao lado de Henry, Dorian se torna um sedutor, torna-se egoísta, libertino e mau, embora seu rosto permaneça jovem mesmo aos quarenta anos.

Continua...

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O vermelho e o negro. Parte II (Para ler antes de morrer)

Stendhal é o pseudônimo para Henri Beyle. O vermelho e o negro é visto pela crítica como o romance que marca, na literatura francesa, o início do realismo, rompendo, pois, com o romantismo. E uma das características do realismo é a verossimilhança.
Stendhal viveu aqueles anos agitados na França entre os fins do século XVIII e princípios do século XIX. Por meio de Sorel, ele discute questões políticas e sociais do período. O autor percebeu as mudanças pelas quais passava a França e expressou, por meio da arte, uma imagem dos costumes naqueles agitados anos.

Mas, acima de tudo, creio, a grande questão do romance são os conflitos psicológicos que atormentam não apenas os personagens centrais. Julien Sorel, como disse antes, uma espécie de anti-herói, é um personagem complexo, contraditório, em profundo conflito interior. A narração, em terceira pessoa, se prende muito mais às reflexões dos personagens do que propriamente às ações, o que caracteriza O vermelho e o negro como um romance psicológico. Dito de forma diferente, a atenção é dada não aos fatos em si, mas como as pessoas os vivenciaram. Como elas os interiorizam e refletem sobre eles, como elas agiam diante de situações concretas, negociando e tendo por base seus interesses.
O romance dá vazão aos jogos de sedução, conflitos de interesses que perturbam os personagens. Sorel é, não apenas ambicioso, mas também uma espécie de hipócrita, calculista, um estrategista nato capaz de usar de qualquer artifício para conseguir o que queria, não se importando tanto com as consequências de seus atos, numa atitude de desprezo pela sociedade no seio da qual, almeja a uma posição. O irônico é que essa mesma sociedade é aquela que o condenará no final.

Mas Sorel não é apenas aquela figura sedutora e segura daquilo que busca. É alguém que é atormentado por um profundo complexo de inferioridade. E toda a busca é pelo reconhecimento, gloria e posição social. Suas fraquezas são denunciadas.